A NECESSIDADE DE REFORMA ÍNTIMA |
Estudaremos
aqui de que maneira, secundando a Jesus, o Espiritismo vê a solução
dos problemas que afligem a humanidade, e como ela se assenta na reforma íntima.
A — Introdução
Uma das coisas que mais impressiona, ao considerar a Doutrina Espírita,
é o seu poder de penetração. Se uma árvore se avalia
pelos seus frutos, o Espiritismo é de surpreender. Num momento em que
todos os credos religiosos são submetidos a um reexame; no qual as igrejas
se esvaziam, com suas doutrinas reconsideradas à luz de novas noções
atingidas; ele se impõe ao respeito geral, qual ciência, filosofia
e religião; revela novo poder de consolar os aflitos; reconduz à
religiosidade; arregimenta sequazes em quantidade sempre crescente; reconquista,
para a religião, a capacidade de fixar orientação, num
apelo à ação, ao desenvolvimento de aptidões e virtudes.
Prega o trabalho, a caridade, a solidariedade humana, a fraternidade; a luta
contra a ignorância, contra a miséria; clama pelo amparo à
velhice, a proteção à infância, o combate à
doença, a comiseração para o sofrimento, sob o lema cristão
de que fora da caridade não há salvação. E ensina
exemplificando, desenvolvendo obras assistenciais de todo o tipo: oferece guarida
aos desajustados, nos abrigos, nos hospitais, nos hospícios, nas penitenciárias.
Realiza obras de grande alcance na iniciação à profissionalização,
na suavização da prova à criatura excepcional ou anormal.
Reconsiderando as noções religiosas conclui pela inutilidade dos
ritos e cultos e aponta para as forças que engrandecem o espírito.
Não tem ritos nem cultos, não tem liturgia. Mas desenvolve a tomada
de consciência de cada um, nas próprias responsabilidades, pelas
escolas que patrocina, conduzindo à reforma íntima, impelindo
para o desenvolvimento em todos os sentidos. Sua bandeira é a auto-educação
dos homens: não apregoa revoluções, deposição
de partidos, destrona-mento de pessoas ou grupos. Não patrocina lutas
fratricidas. Condiciona o progresso e a reestruturação sociais
à reforma íntima de cada um, realizada nas trilhas traçadas
pela Escola do Mestre, guiada pelas diretrizes do Evangelho redivivo.
Aos revoltados, aos insatisfeitos, aos queixosos, esclarece que as causas de
todos os males estão em nós mesmos e que a solução
dos problemas reside na reconsideração das atitudes: sermos operosos
na produção do bem, sermos bondosos, pacientes, tolerantes, caridosos,
justos, responsáveis, amantes a Deus e ao nosso próximo, na prática
constante do estudar e servir. Para que possamos fazer uma idéia mais
precisa do que se pretende dizer, façamos uma analogia com o serviço
da limpeza pública.
B — Poluição e educação
Há queixas contra o poder público quanto ao atendimento da limpeza;
entretanto ninguém considera as posturas que proíbem jogar detritos
no chão ou em terrenos baldios. Sabe-se que terrenos sujos proporcionam
a proliferação de ratos, tornam-se focos de mosquitos, miasmas
e pestilências. Apesar disso não há terreno baldio entre
nós que não tenhamos transformado em depósito de lixo.
Nos logradouros públicos, mesmo que haja recipientes adequados para a
colocação de sujidades, é frequente observar quão
poucos se servem deles.
E as praias em época de férias ou em dias de feriado? Transformam-se
em verdadeiros tapetes de imundícies. Apesar das advertências relativas
aos males que isso pode acarretar, aos perigos da poluição; as
doenças, as infecções, as viroses, as enfermidades mais
variadas, todos atiram detritos: embalagens de todo tipo, restos de petisqueiras,
bagaços de frutas, sobras de comida, cascas de qualquer coisa, na mais
insensível desconsideração por tudo e por todos.
A ida à praia, que pretendemos se constitua prazeroso convívio
com a natureza, para o retemperar das forças e energias, transforma-se
em desagradável envolvimento com a sujeira que nos enche de asco e de
revolta.— Mas não há serviço público? Não
há lixeiros? Não há observância de higiene? E a saúde
pública? Que faz o governo?
Lixeiros há — amontoam o lixo que carros recolhem. Mas é
como se não houvesse. Todo mundo joga coisas a toda hora, a todo instante;
é um lançar detritos constante, contínuo, interminável.
Enquanto um limpa, o outro suja. Em qualquer logradouro público, mesmo
que jamais procedêssemos de forma semelhante em casa, nos tornamos todos
sugismundos. Para que pudéssemos desfrutar de ambiente bem posto, desenxovalhado,
necessário seria existir um homem de limpeza atrás de Cada um.
O problema é insolúvel: não há serviço público
que possa atingir os requisitos mínimos de higiene e conforto, se ninguém
se preocupa.
É a impossibilidade que enfrenta a dona-de-casa quando, ao pretender
manter a ordem, se depara com o descaso, o desleixo de todos — um que
larga coisas por onde passa, outro que põe em desalinho tudo que toca,
outro ainda que deixa desarrumação em tudo que faz.
Não há quem possa manter adequadamente, seja o que for, se cada
um não se compenetrar do valor da ordem, não fizer dela parte
de suas responsabilidades. Se cada um considerar, observar e puser em prática
os princípios sadios da convivência, não somente facilitará
a ação governamental, mas fará com que se possam desenvolver
meios mais poderosos, mais eficientes, mais benéficos, possíveis,
se alicerçados na compreensão e na participação
de todos.
Finalidade da saúde pública é sanear, prevenir endemias
e doenças, preservar a saúde, criar recursos de assistência.
De pouco valerá o desempenho, entretanto, se continuarmos a poluir as
águas, lançar detritos nas ruas ou em terrenos baldios. De pouco
servirá uma alimentação:-sadia se cultivarmos os vícios
do álcool, do fumo, dos estupefacientes, ou outros que solapam as forças
e as energias. De pouco valerá qualquer planejamento amplo se não
cultivarmos os hábitos da higiene, ou os sadios na prevenção
de moléstias: o expor-se ao sol, o praticar exercícios, o não
ingerir alimentos fortes; não entregar-se a excessos de qualquer espécie.
São tarefas da educação proporcionar escolas, livros baratos,
bolsas de estudo aos que possam ter necessidade. Mas pouco poderá ela
proporcionar, se não desenvolvermos sede de conhecimento, ânsia
de saber, amor pela verdade; se não nos dispusermos a contribuir com
o nosso esforço na produção de aperfeiçoamentos
no receber e transmitir o conhecimento.
Qualquer que seja o problema coletivo, não há governo, partido
ou grupo capaz de solucioná-lo se cada um de nós não se
dispuser a realizar em si mesmo as condições aptas a resolvê-lo.
Não se erradicará a miséria, se quem detém a riqueza
não dispuser dela para proporcionar oportunidades de trabalho, ensejos
de empreendimentos. Mas também não desaparecerá se o trabalhador
desperdiçar o tempo, o vendedor adulterar as medidas, o comerciante falsear
os preços, se cada um de nós, na esfera da própria ação,
buscar obter para si proveitos ilícitos.
Seria necessário um fiscal para cada um. A essência de nossos sofrimentos
será sempre consequência do nosso despreparo diante dos deveres
que o convívio social nos impõe. Para eliminá-los não
há outro caminho que aquele da auto-educação, do aprimoramento
e do serviço. — Estudar e servir — diz Emmanuel — é
o lema.
C — Poluição moral
No campo moral as coisas não são diferentes. Nossos pensamentos
constituem o veículo de influências pelo qual nos relacionamos
com os outros. A falta de vigilância para com eles, o descuido com que
os formulamos, a fácil adesão às idéias menos edificantes,
o palavratório grosseiro, o anedotário licencioso, os julgamentos
precipitados, a malícia, a desconfiança, o ciúme, o despeito,
a inveja mal disfarçados, são vários dos móveis
com os quais lançamos detritos mentais em nosso derredor, conspurcando
o meio que nos circunda, provocando poluição no campo das idéias.
Por mais que se esforcem os paladinos do bem, em propiciar meios de paz, tranquilidade
e entendimento, pouco ou nada podem conseguir, enquanto ninguém policiar
seus próprios atos mentais. Todos, de maneira constante e contínua,
atiram faíscas de ódios, fuligem de despeito, negrume de falsidades,
dardos de ciúme, explosões de cólera, azinhavre de maledicência,
podridões de concupiscência, lodo de desregramentos, nódoas
de corrupção, máculas de desonestidade, na mais completa
ignorância de que idéias são forças e que constituem
a paisagem que nos há de abrigar para o convívio comum.
Para poder manter a imaculabilidade, necessário seria um vigilante para
cada um. Para que a paisagem se nos aclare, se nos ofereça apaziguaníe,
confortadora, repousante e acolhedora, necessário se faz que abracemos
os preceitos do ajustamento íntimo, adotemos as posturas sugeridas pelos
sentimentos nobres; irradiemos as influências inspiradas pelas exigências
do bem comum.
E da mesma forma que se exige, para aquele que não quer debater-se com
a espurcícia, ser o primeiro a não contribuir para ela, assim
se requer, para aquele que clama pelo resguardo dos valores humanos, a necessidade
de ser-lhes o fautor.
D — O ensinamento evangélico
Jesus, sabedor de nosso despreparo, conhecedor das causas que nos aduziam dor
e aflição, mestre e consolador dos necessitados e famintos, diante
daquele que clamava por justiça, obtemperava:
— Sede justos, não julgueis. Sede misericordiosos.
— Bem-aventurados os misericordiosos porque deles é o reino dos
céus.
— Não critiqueis. Não lanceis anátemas. Perdoai para
serdes perdoados.
— Se perdoardes as ofensas que os homens vos fazem, vosso Pai vos perdoará
os pecados.
Quereis justiça? Praticai-a. Porque o dia em que cada um for justo, a
injustiça erradicar-se-á da face da terra. Aprendestes a devolver
o insulto, se atacados: olho-por-olho, dente-por-dente. Justiça com Jesus
não é o revide à ofensa; não é retribuir
com a mesma moeda. É porém atribuir a cada um o que lhe compete
segundo a melhor consciência. A justiça apenas não deve
agravar os problemas do devedor. Aos que fazem o mal, basta o fogo do remorso,
o comburir-lhes o coração.
Reclamais contra as agruras, a miséria, a luta que se torna pesada? Sede
operosos, caridosos; não negueis uma camisa a quem a pede, mas dai-lhe
duas. Sede mansos, sede pacientes; não cultiveis a cólera, não
pratiqueis a crítica. Dai sempre vossa palavra de estímulo; não
censureis. Cultivai a compreensão, oferecei sempre novas oportunidades.
Bem-aventurados os mansos porque cultivam a paz, a paciência, a tolerância,
a bondade. Tornar-se-ão os preferidos, os amados por todos. Serão
senhores, porque senhor é aquele que é amado, respeitado.—
Reclamais contra os abusos do poder, os excessos dos privilegiados? —
Ele responde:— Não amealheis tesouros na terra; não temais;
não vos inquieteis por vossa vida.
Olhai as aves do ar; não semeiam, não colhem, não fazem
provisões nos celeiros, contudo vosso Pai Celeste as sustenta. Considerai
os lírios dos campos; não trabalham, nem fiam; entretanto vos
digo que nem Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como
nenhum deles.— Reclamais contra as forças da inferioridade que
vos solapam o instituto da família, vos desonram o nome, vos desencaminham
os filhos, vos conspurscam a imagem?
Responde: — Sede puro, não pratiqueis a impudicícia. Erguei
o pensamento às fontes da vida e não o deixeis mergulhar nos pântanos
do vício, para que, a vida se vos faça para melhor. Bem-aventurados
os que têm puro o coração, porque deles é o reino
dos céus. E acrescenta: — Compenetrai-vos de vosso destino e cumpri
vossos deveres para realizá-los. Vós sois deuses. Tende fé.
Pedi e dar-se-vos-á. Buscai e achareis. Batei e abrir--se-vos-á.
Se maus como sois sabeis dar boas dádivas a vossos filhos, quanto mais
vosso Pai que está nos céus que bens não dará aos
que lhos pedirem.
Cumpri vossos deveres, praticai a caridade. Pensai feridas, aliviai o sofrimento,
soerguei os decaídos. Ensinai e acreditai no bem e eliminai o mal. Em
tudo e em todos esparzi amor e benefícios. Reconciliai-vos com todos,
amai aos inimigos; pagai o mal com o bem. Imitai o Pai — sede perfeitos
como vosso Pai é perfeito. Dai a quem pede; fazei aos outros o que desejaríeis
que os outros vos fizessem. A paz, a justiça, a prosperidade, a felicidade
reinarão entre vós quando vos amardes uns aos outros como vos
amei. O reino de Deuá pode ser estabelecido mesmo na-terra: ela é
a sociedade de homens piedosos e honestos amando a Deus e amando-se entre si.
E — O Espiritismo
O Espiritismo, em consonância com o Cristo, não apregoa revoluções,
levantes ou destruição de situações existentes.
Apregoa a caridade e a reforma íntima porque, ao praticá-las,
e a seguir nos depararmos com os problemas que envolvem as necessidades humanas,
veremos que, na sua essência, eles se convertem principalmente em necessidades
de aprimoramento pessoal, aculturamento, virtuosidade e, acima de tudo, de muito
amor ao próximo.
Rino Curti