APÓS O SÉCULO I d.C.

São numerosÍssimas as doutrinas que a Igreja combateu.

Veremos algumas.

a) Docetismo (do grego "dokein": parecer).

Heresia que admite como simples aparência, e não realidade, os atos da vida de Jesus Cristo. Para ela, Jesus Cristo teria apenas um corpo etéreo, aparente, fluídico, não carnal. Ensinava que Jesus Cristo não tendo senão uma carne aparente, havia nascido, sofrido e morrido apenas em aparência. "Porque se Ele sofreu, não era Deus; se era Deus, não sofreu."

É uma heresia antiga pois já aparece nos seguintes apócrifos, segundo o Dicionário Bíblico de John L. Mackenzie, atrás citado: na pág. 60: Evangelho de Pedro, escrito por volta de 150 d.C. e Atos de João, escrito antes de 150 d.C.; na pág. 61: Atos de Pedro, escrito em torno de 200 d.C.

Esta heresia chegou até o século IV d.C.

OBS.: Curiosamente, ela ressurgiu no século XIX, na cidade de Bordéus, França, trazida por um advogado, Jean-Baptiste Roustaing, que em 1859 publicou uma obra pseudo-espírita em quatro volumes, uma interpretação dos Evangelhos, obtida através de uma "médium", Emilie. Collignon. Tal doutrina passou a ser chamada "roustainguismo, rustanguismo, rustanismo, rustenismo". Allan Kardec, em A Gênese, cap. XV item 2 afirma: "A superioridade de Jesus sobre os homens não se prendia às particularidades de seu corpo, mas às de seu Espírito, que dominava a matéria de maneira absoluta, e ao seu períspirito, haurido na parte mais quintessenciada dos fluidos terrestres".

Interessante é que esta heresia já havia sido condenada pelo Apóstolo e Evangelista João em sua lª Epístola 4:2-3:

"Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo Espírito que confesssa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo Espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, é o Espírito do anticristo ... ".

b) Encratistas (do grego "en": em , dentro, e "krateo": comando)

Encratista é o membro de uma seita dos primeiros séculos d.C. que professava um ascetismo rigoroso, principalmente em matéria sexual. Para os encratistas o matrimônio era pecado.

É uma doutrina antiga. Segundo John L. Mackenzie em Dicionário Bíblico, obra citada, ela aparece nos seguintes apócrifos: a) pág. 60: Atos de João exorta as mulheres a abandonarem os maridos e noivos; escrito antes de 150 d.C.; b) e na pág.61:

Atos de Paulo (por volta de 160 d.C.); Atos de Pedro (em torno de 200 d.C.); Atos de André (em torno de 200 d.C.); Atos de Tomé: persuadem as mulheres a deixarem seus maridos.

O Apocalipse também agasalha a doutrina dos encratistas, ao se referir aos que estão salvos, resgatados por Jesus Cristo: Apo.14:4: "São estes os que não se macularam com mulheres, porque são castos. São eles os seguidores do Cordeiro por onde quer que vá. São os que foram redimidos denntre os homens, primícias para Deus e para o Cordeiro".

A Igreja Católica Romana também agasalhou a doutrina dos encratistas ao proibir terminantemente que seus padres e freiras se casem. E na ênfase que dá a virgindade. E no culto à Maria, mãe de Jesus, virgem perpetuamente.

c) Marcionismo (Os Marcionistas)

Conforme referimos no final do item "Gnosticismo", Marcião também criou uma doutrina gnóstica; marcionista é o nome de seus seguidores. Segundo o Marcionismo, havia três Princípios: o Deus bom, o Demiurgo (o Criador do Universo) e a Matéria.

A Matéria está submetida ao Demônio; o Universo e o Homem apresentam um misto de Bem e de Mal, resultante da luta entre o Demiurgo e a Matéria; e a redenção vem do Deus Bom.

d) Montanismo (Os Montanistas)

Montano, um sacerdote de Cibele, na Frigia, Ásia Menor, converteu-se ao Cristianismo e fundou a seita dos "montanistas", por volta de 160/170 d.C. (Segundo a Mitologia grega, Cibele era Filha do Céu deusa da terra e da agricultura. Esposa de Saturno e mãe de Júpiter, Netuno, Plutão etc. Seu culto era oficial e público, mas havia também a parte dos "mistérios", somente para os iniciados. Ela chamava-se também, "Boa Deusa, Mãe dos Deuses"; seu culto era ligado ao de Réia e Vesta.)

O montanismo ensinava a intervenção perpétua do Paracleto, isto é, do Espírito Santo, o qual se manifestava aos santos por êxtase.

Era, portanto, um "culto pneumático" (do grego "pneuma": ar, sopro, vento; e daí "espírito"). Difundiu-se pela Ásia Menor, Roma, Norte da África. Subsistiu até o século VIII.

e) Antitrinitarismo (Os Antitrinitários)

Com o crescimento da Igreja, ancorada no crescimento da importância e poder dos bispos, o Cristianismo foi transformando-se, estruturando-se em um corpo de doutrina estranha aos ensinamentos e vida simples de Jesus.

Assim é que cedo surgiu a doutrina da "Santíssima Trindade", mas que sempre foi objeto de oposição e que realmente só se definiu nos séculos IV e V d.C. É um assunto teológico complexo, que envolveu (e envolve) longas controvérsias.

Vamos reproduzir aqui o que diz o Dicionário Prático da Bíblia Sagrada, Edição Barsa, 1966, pág. 274 do Dicionário: - "Santíssima Trindade: O mistério fundamental do Cristianismo que consiste no fato de que sendo Deus numérica e individuallmente um, existe em três Pessoas distintas; ou, em outras palavras, que a essência divina, que é uma e a mesma no mais estrito e absoluto sentido, existe em três Pessoas realmente distintas entre si sendo cada uma realmente idêntica à mesma essência divina. O Pai gera eternamente o Filho; e o Espírito Santo provém de ambos. Cada Pessoa é realmente distinta da outra, cada uma é Deus verdadeiro e eterno, e contudo há um só Deus. Podemos compreender que três indivíduos humanos sejam distintos um do outro e ainda possuam uma humanidade em comum. A unidade das três Pessoas Divinas é inteiramente diferente. Quando falamos dela como um Deus, dizemos não só que cada uma é Deus, mas que cada uma é um e o mesmo Deus. Este é o mistério da Trindade, incompreensível a toda inteligência criada.

O mistério está prefigurado, mas não claramente revelado no Antigo Testamento (Gên. 1:26; 3:22; 11:7; Núm. 6:23-26; [saías 6:1-9 etc.). Só no Novo Testamento é que foi explicitamente proclamado (Mt 3:16; 10:20; 17:5; 28:19; Lc 4:18; Jo 3:35; 15:26; 2 Cor 13:13; l Jo 5:7 etc.)".

A seguir informa que só mais tarde a Igreja definiu a consubstancialidade do Pai e do Filho no Concílio de Nicéia, em 325 d.C.; e a divindade do Espírito Santo no Concílio de Constantinopla, em 381.

(OBS.: A Bíblia donde tiramos esses esclarecimentos é a da Igrej a Católica Apostólica Romana, tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, aprovação do Cardeal D. Jaime de Barros Câmara, Nihil Obstat do Bispo D. Estêvão Bettencourt, O.S.B.)

Em resumo: há três pessoas em Deus: o Pai, o Filho e o Espírito Santo; são distintas, mas iguais, coeternas, e consubstanciais numa só e indivisível natureza. Cada uma dessas Pessoas é Deus, e no entanto só há um Deus. O Pai não teve princípio; o Filho foi originado pelo Pai por toda a eternidade; o Espírito Santo procede simultaneamente do Pai e do Filho. Entre essas três pessoas não há nem subordinação, nem prioridade de excelência.

Mas, sempre foi muito grande o número dos antitrinitários, isto é, dos que se opõem à doutrina da Santíssima Trindade. Eles alegam que:

1) Apesar do esforço e da grande cultura dos teólogos da Igreja Romana, a argumentação deles não passa de sofismas para esconder o que tal Doutrina é: um retorno ao politeísmo. A Igreja Católica Romana abandonou o monoteísmo, ensinando que há mais de um Deus. Ora, Deus é um só: Supremo, Único, Incriado, Eterno. Qualquer outro "deus" que seja criado pelo Eterno, Senhor do Universo e dos Tempos, estará abaixo d'Ele.

2) As Sagradas Escrituras não abonam tal doutrina. A própria Igreja Católica Romana sabe disso. Tanto assim que ela levou séculos para decidir, o que só ocorreu após dois Concílios em épocas e locais diferentes.

3) Durante séculos a Igreja ensinou que as três Pessoas eram "o Padre, o Filho e o Espírito Santo". Tardiamente, só no Concílio Vaticano II (1962-1965) é que ela adotou "Pai, Filho e Espírito Santo".

4) A própria Igreja reconhece que a argumentação dela não convence; tanto assim que ela impôs a Santíssima Trindade como um dogma. Ora, o dogma é um decreto que manda crer sem discutir, que manda aceitar sem raciocinar, pois ele é incontestável. Um dogma é uma opinião dada como certa e imposta como verdade indiscutível. Logo,é uma violência.

5) A Trindade foi imposta para reforçar outro dogma da Igreja Romana: que Jesus é Deus. Ora, as Sagradas Escrituras não abonam essa afirmativa. O próprio Jesus falou e repetiu que ele não era Deus (em oitenta passagens dos Evangelhos). E a própria Igreja fica em contradição consigo, ao ensinar as genealogias carnais de Jesus dos Evangelhos de Mateus e de Lucas: se Ele é descendente carnal de Davi, Ele não é Deus.

6) Se Jesus é um dos deuses da Trindade, o Docetismo deixa de ser heresia, quando afirma que ele não era humano, mas apenas uma aparência carnal. Mas daí, então, os sofrimentos, suplícios e morte de Jesus, nada mais foram do que uma representação teatral.

7) Foi para dar força ao dogma da Trindade que fizeram a alteração da 1ª Epístola de João (l Jo 5:7-8) conhecida como "comma joaneo", que estudamos no item 1.2.7 letra "c", deste trabalho.

8) A Trindade diz que o Espírito Santo procede simultaneamente do Pai e do Filho. Tal afirmação não é aceita pelas Igrejas Orientais, e gerou uma disputa com a Igreja Romana, de que resultou a separação delas. A disputa deu-se por causa da palavra "filioque" (latim; também pode ser: filio que) que significa "e do filho". O Dicionário Prático já citado assim esclarece (pág.l06):-"Expressão usada no Credo de Nicéia". O termo Filioque aparece no seguinte trecho: "Creio no Espírito Santo, Senhor e doador da vida, que procede do Pai e do Filho". Quando o Concílio de Nicéia formulou o Credo em 325, a expressão e do Filho não estava no texto. No IV e V séculos, começou a aparecer esse acréscimo, na Espanha. Mais tarde, propagou-se por toda a Igreja Ocidental, mas não foi adotado na Igreja Oriental.

Essas poucas palavras do Credo logo tiveram grande importância, porque em torno delas passou a girar uma das disputas que concorreram para separar a Igreja Ocidental da Oriental ".

De fato, a discórdia prosseguiu através dos séculos e em 1 054 o Papa Leão IX excomungou Miguel Cerulário (ou Keroulários) que era o Patriarca da Igreja Oriental (com sede em Constantinopla). Daí é que resultou o conjunto de Igrejas atuallmente chamadas "Igreja Ortodoxa Oriental". E essa separação é conhecida como o "Cisma Oriental".

As principais heresias antigas que se levantaram contra o dogma da Trindade foram o "Arianismo" e o "Sabelianismo".

f) Arianismo

O nome vem de Ário, um padre de Alexandria (nasceu na Líbia, talvez em 280 d.C. e faleceu em Constantinopla em 336). Seus ensinamentos deram origem a uma das mais importantes seitas que se opuseram aos ensinamentos da Igreja. Ele combatia a unidade e a consubstancialidade das três Pessoas da Trindade. ("Consubstancial" significa "que tem uma só substância; que há uma unidade de substância; que um é da mesma natureza, ou essência que o outro.) Ele sustentava que o Verbo (o Filho; Jesus) era inferior a Deus-Pai e, por conseguinte negava a divindade de Jesus. Ele pregava: "Se o Pai gerou o Filho, o que foi gerado teve um início de existência; por conseguinte, fica claro que houve um tempo em que o Filho não era". A conseqüência dessa argumentação é que para que haja "unidade" e "consubstancialidade" entre o Filho (Jesus) e o Pai é preciso que ele tivesse sua existência a partir do "não-existente", e não do Pai. Por isso o Arianismo embora considerasse o Cristo essencialmente perfeito, negava sua divindade.

A doutrina espalhou-se rapidamente tanto na Igreja do Oriente (sede em Constantinopla) quanto na do Ocidente (sede em Roma). E teve grande prestígio e grande força, tanto assim que os arianos exilaram o Papa Libério (Papa de 352 a 366); foi apoiada por alguns Imperadores do Império Bizantino; depuseram e baniram bispos que seguiam a Igreja Romana; desapropriaram bens de cristãos opositores, mas eram tolerantes com os cristãos ortodoxos.

Ela foi fortemente combatida por Alexandre, bispo de Alexandria, Ambrósio, arcebispo de Milão e por toda a Igreja Ocidental. Mas, Ário pregava: "Somos perseguidos por dizermos que o Filho teve um princípio, mas Deus é sem princípio".

O Arianismo foi condenado pelo Concílio de Nicéia, de 325 d.C., mas nada adiantou, e então foi novamente condenado pelo Concílio de Constantinopla de 381.

Mas sobreviveu por mais um século, pois foi abraçado pelos bárbaros invasores do Império Romano, principalmente pelos godos.

g) Sabelianismo (Os Sabelianos). Modalismo e Monarquianismo

O nome vem de Sabélio, um heresiarca do século III, que negava a distinção das três Pessoas da Santíssima Trindade. O Sabelianismo sustentava que em Deus havia uma só pessoa, o Pai; o Filho e o Espírito Santo eram meros atributos, ou emanações . Sabelianismo é também conhecido como "Monarquianismo" e "Modalismo".

A palavra "modalismo" vem de "modal" que em filosofia significa a maneira de ser de alguma coisa; refere-se aos modos da substância. Segundo alguns, o Modalismo é anterior ao Sabelianismo, pois já existia no século II; e sustentava que as três Pessoas da Trindade eram apenas três modalidades, três maneiras diferentes de Deus manifestar-se, e não três Pessoas realmente distintas. Os adeptos dessa doutrina eram os "modalistas".

"Monarquianismo" vem do grego "monarkhes" através do latim "monarca", que significam "um só". Essa doutrina surgiu no século III e sustentava que havia uma só natureza em Jesus Cristo. Seus adeptos eram "monarquianos". Eles enfatizavam também a unidade de Deus. E para eles foi o próprio Pai que desceu sobre a Virgem Maria e tomou-se Jesus Cristo, mas continuou sendo o Pai. Conseqüência: quem morreu na cruz foi o Pai (?!).

h) Maniqueísmo (Os Maniqueístas)

Doutrina fundada na Pérsia, no século IIl, por Mani (ou Manes, ou Maniqueu) (215-276 d.C.), sincrética, formada de um gnosticismo cristão e de zoroastrismo.(Zoroastrismo é o conjunto das doutrinas deixadas por Zoroastro, também chamado Zaratustra.)

O Maniqueísmo prega a coexistência eterna de dois princípios eternos, absolutos que lutam entre si. Um desses princípios é bom, simbolizado pela luz: seria Deus; o outro é mau, representaado pelas trevas e identificado com a matéria. Assim, o Bem e o Mal coexistem e lutam entre si desde a origem do mundo. De ambos partem emanações que se misturam no mundo e nos homens. A Humanidade nascida do princípio mau (seria o Deus-mau) só pode ser libertada pelo conhecimento da verdadeira ciência (conhecimento), a qual foi trazida pelos Profetas, por Cristo e Manes, ambos em corpos aparentes. Os maniqueístas (também chamados "maniqueus") eram divididos em duas classes: auditores(ou neófitos) e os eleitos. A passagem de "neófito" a "eleito" se fazia por penosa iniciação que durava anos.

O maniqueísmo exigia vida austera, regrada e total fraterrnidade entre seus membros. O culto incluía orações, jejuns e cânticos. Ele espalhou-se rapidamente. Do século IV ao VI expandiu-se para: leste (Irã e Ásia Central): oeste (Egito, Norte da África e Itália). E conquistou muitos intelectuais, como por exemplo um jovem que depois converteu-se ao culto cristão: é o Santo Agostinho.

Posteriormente, do século VII ao XIII, estendeu-se ao Tibete, Turquestão e China; e a partir do século XI estendeu-se pela Europa, sendo que no século XII, em plena Idade Média, deu origem às heresias dos cátaros, albigenses e bogomilos.

CONCLUSÃO: O estudo das heresias é rico em aprendizado e informações. Mas, um trabalho como este nosso aqui, não comporta maior extensão .

Todavia, o internauta desejoso de conhecer pode buscar nas Enciclopédias e na bibliografia indicada esclarecimentos sobre:

Donatismo, Priscilianismo, Pelagianismo, Apolinarismo, Nestorianismo, Monofisismo, Origenismo, Monotelismo, Iconoclastia, os Paulicianos, os Bogomilos (ou Patarinos), os Petrobrussianos, Conceptualismo, Albigenses (ou Cátaros), os Valdenses, os.Beguinos, a Heresia de John Wycliffe, a Heresia de João Huss (e os Hussitas), a Reforma de Lutero, o Jansenismo.

José de S.Almeida