RELIGIÕES |
O que é religião? É o batismo numa igreja cristã. É a adoração num templo budista. São os judeus com o rolo da Torá diante do Muro das Lamentações em Jerusalém. São os peregrinos reunindo-se diante da Caaba em Meca.
Em seguida podemos perguntar: será que essas atividades têm alguma coisa em comum? Será que seus participantes compartilham algum sentimento semelhante a respeito do que fazem? E por que fazem o que fazem? O que isso significa para eles? E como afeta a sociedade em que vivem?
São essas as questões que as ciências da religião procuram responder. O pesquisador investiga de uma perspectiva externa todas as religiões, buscando semelhanças e diferenças, e tenta descrever o que vê. A descrição dele nem sempre é plena e exaustiva, se comparada aos sentimentos de uma crente acerca de sua religião.
É como o que acontece com a música. Um especialista em teoria musical pode explicar de que maneira uma composição foi construída, e descrever suas tonalidades e seus instrumentos, mas jamais conseguirá recriar a experiência que a música transmite. Isso é ainda mais óbvio quando se trata de comida. Um nutricionista pode explicar que certos alimentos consiste numa dada mistura de componentes orgânicos, e que, se for resfriado a uma determinada temperatura, terá um gosto doce e fresco ao entrar com contato com o palato humano; mas isso nunca será a mesma coisa que tomar de fato um sorvete.
Isso não quer dizer que o estudioso das religiões não possa ser religioso. O escritor italiano Umberto Eco, falando das relações entre os estudos de literatura comparada e a própria literatura, fez a seguinte observação: "Até os ginecologistas podem se apaixonar". O importante é não deixar que durante a pesquisa as crenças e os sentimentos pessoais influenciem o material que está sendo estudado. Esse distanciamento permite ao pesquisador divulgar informações sobre a religião que são valiosas tanto para o indivíduo como para a sociedade.
A - POR QUE LER SOBRE AS RELIGIÕES?
Um rápido olhar para o mundo ao redor mostra que a religião desempenha um papel bastante significativo na vida social e política de todas as partes do globo. Ouvimos falar de católicos e protestantes em conflito na Irlanda do Norte, cristãos contra muçulmanos nos Bálcãs, atrito entre muçulmanos e hinduístas na Índia, guerra entre hinduístas e budistas no Sri Lanka.
Nos Estados Unidos e no Japão há seitas religiosas extremistas que já praticaram atos de terrorismo. Ao mesmo tempo, representantes de diversas religiões promovem ajuda humanitária aos pobres e destituídos do Terceiro Mundo. É difícil adquirir uma compreensão adequada da política internacional sem que se esteja consciente do fator religião.
Um conhecimento religioso sólido também é útil num mundo que se torna cada vez mais multicultura. Muitos de nós viajam para o exterior, entrando em contato com sociedades que têm diferentes valores e modos de vida, ao mesmo tempo que imigrantes e refugiados chegam a nossa própria porta, confrontando-se com um sistema social que lhes é totalmente estranho.
Além disso, o estudo das religiões pode ser importantes para o desenvolvimento pessoal do indivíduo. As religiões do mundo podem responder a perguntas que o homem vem fazendo desde tempos imemoriais.
B - TOLERÂNCIA
Tolerância, ou seja, respeito pelas pessoas que têm pontos de vista diferentes do nosso, é uma palavra-chave no estudo das religiões. Não significa necessariamente o desaparecimento das diferenças e das contradições, ou que não importa no que você acredita, se é que acredita em alguma coisa.
Uma atitude tolerante pode perfeitamente coexistir com uma sólida fé e com a tentativa de converter os outros. Porém, a tolerância não é compatível com atitudes como zombar das opiniões alheias ou se utilizar da força e de ameaças. A tolerância não limita o direito de fazer propaganda, mas exige que esta seja feita com respeito pela opinião dos outros.
Os registros da história mostram inúmeros exemplos de fanatismo e intolerância. Já houve lutas de uma religião contra outra e se travaram diversas guerras em nome da religião. Muitas pessoas já foram perseguidas por causa de suas convicções , e isso continua acontecendo nos dias de hoje.
Com frequência, a intolerância é resultado do conhecimento insuficiente de um assunto. Quem vê de fora uma religião, enxerga apenas suas manifestações, e não o que elas significam para o indivíduo que a professa.
Para os cristãos, a sagrada comunhão tem um significado especial. No entanto, uma descrição objetiva do ato da comunhão não poderia oferecer uma visão real do que a comunhão representa para um cristão.
O respeito pela vida religiosa dos outros, por suas opiniões e seus pontos de vista, é um pré-requisito para a coexistência humana. Isto não significa que devemos aceitar tudo como igualmente correto, mas que cada um tem o direito de ser respeitado em seus pontos de vista, desde que estes não violem os direitos humanos básicos.
C - COMO COMEÇARAM AS RELIGIÕES?
Foram registradas várias formas de religião durante toda a história. Já houve muitas tentativas de explicar como surgiram as religiões. Uma das explicações é que o homem logo começou a ver as coisas a seu redor como animadas. Ele acreditava que os animais, as plantas, os rios, as montanhas, o sol, a lua e as estrelas continham espíritos, os quais era fundamental apaziguar.
O antropólogo E.B.Tylor (1832-1917) batizou essa crença de animismo. Tylor foi influenciado pela teoria de Darwin sobre a evolução. Segundo ele, o desenvolvimento religioso caminhou paralelamente ao avanço geral da humanidade, tanto cultural como tecnológico, primeiro em direção ao politeísmo (crença em diversos deuses) e depois ao monoteísmo (crença num só deus).
Tylor concluiu que os povos tribais não haviam ido além do estágio da Idade da Pedra e, portanto, praticavam esse mesmo tipo de animismo. Hoje essa teoria do desenvolvimento foi rejeitada, e há um consenso geral de que animismo não é uma caracterização adequada para a religião dos povos tribais.
Alguns pesquisadores vêem a religião como um produto de fatores sociais e psicológicos. Essa explicação é conhecida como um modelo reducionista, pois reduz a religião a apenas a um elemento das condições sociais ou da vida espiritual do homem. Karl Marx, por exemplo, sustentava que a religião, assim como a arte, a filosofia, as idéias e a moral, não passava de um dossel por cima da base, que é econômica.
O que dirige a história, de acordo com ele, é o modo como a produção se organiza e quem possui os meios de produção, as fábricas e as máquinas. A religião simplesmente refletiria essas condições básicas. Nas modernas ciências da religião predomina a idéia de que a religião é um elemento independente, ligado ao elemento social e ao elemento psicológico, mas que tem sua própria estrutura. Os ramos mais importantes das ciências da religião são a sociologia da religião, a psicologia da religião, a filosofia da religião e a fenomenologia religiosa.
D - DEFININDO A RELIGIÃO
Muitas pessoas já tentaram definir religião, buscando uma fórmula que se adequasse a todos os tipos de crenças e atividades religiosas - uma espécie de mínimo denominador comum. Existe, naturalmente até um risco nessa tentativa, já que ela parte do princípio de que as religiões podem ser comparadas.
Esse é um ponto em que nem todos os crentes concordam: eles podem dizer, por exemplo, que a sua fé se distingue às todas as outras por ser a única religião verdadeira, ao passo que todas as outras não passam de ilusão, ou, na melhor das hipóteses, são incompletas. Há também pesquisadores cuja opinião é que o único método construtivo de estudar as religiões é considerar cada uma em seu próprio contexto histórico e cultural.
Contudo, há mais de um século os estudiosos da religião tentam encontrar traços comuns entre as religiões. O problema é que eles interpretam as semelhanças de maneiras diferentes. Alguns as consideram resultado do contato e do intercâmbio entre grupos raciais; segundo eles, as diferentes fés e idéias se espalharam do mesmo modo que outros fenômenos a fim de descobrir o que caracteriza o conceito de religião em si. É aí que as definições entram em cena. Vamos começar por algumas das mais famosas.
- A religião é um sentimento ou uma sensação de absoluta dependência. Friedrich Schleiermacher (1768-1834).
- Religião significa a relação entre o homem e o poder sobre-humano no qual ele acredita ou do qual se sente dependente. Essa relação se expressa em emoções especiais (confiança, medo), conceitos (crença) e ações (culto e ética). C. P. Tiele (1830-1902).
- A religião é a convicção de que existem poderes transcendentes, pessoais ou impessoais, que atuam no mundo, e se expressa por insight, pensamento, sentimento, intenção e ação. Helmuth von Glasenapp (1891-1963).
E - O SAGRADO
Nos primeiros anos do século XX, o sueco Nathan Soderblom(1866-1931), arcebispo e estudioso das religiões, ofereceu uma definição baseada nos sentimentos humanos: "Religiosa ou piedosa é a pessoa para quem algo é sagrado".
SAGRADO se tornou uma palavra-chave para os pesquisadores da religião do século XX: descreve a natureza da religião e o que ela tem de especial. Esse termo ganhou realce numa obra sobre psicologia da religião, A idéia do sagrado, de Rudolf Otto, publicada em 1917. O sagrado é das ganz Andere, o "inteiramente outro", ou seja, aquilo que é totalmente diferente de tudo o mais e que, portanto, não pode ser descrito em termos comuns.
Otto
fala de uma dimensão especial da existência, a que chama de misterium
tremendum et fascínosum (em latim, "mistério tremendo e fascinante").
E uma força que por um lado engendra um sentimento de grande espanto,
quase de temor, mas por outro lado tem um poder de atração ao
qual é difícil resistir.
Otto já foi criticado, refutado, plagiado e ampliado. Um dos que adotaram
essa noção de sagrado foi o romeno Mircea Eliade, estudioso de
religiões, em seu livro "O sagrado e o profano". Ele elogia
Otto e diz que seu sucesso como estudioso de religiões se deve a essa
nova perspectiva que passou a abraçar. Em vez de estudar termos como
Deus e religião, Eliade analisou vários tipos de "experiência
religiosa" dos seres humanos. Ele começa com uma definição
muito simples do que é o sagrado: é o oposto do profano. Em seguida,
põe-se a considerar o significado original dessas palavras. Sagrado indica
algo que é separado e consagrado; profano denota aquilo que está
em frente ou do lado de fora do templo.
Eliade acredita que o homem obtém seu conhecimento do sagrado porque
este se manifesta como algo totalmente diferente do profano. Ele chama isso
de hierofani, palavra grega que significa, literalmente, "algo sagrado
está se revelando para nós". É o que sempre acontece,
não importa se o sagrado se manifesta numa pedra, numa árvore
ou em Jesus Cristo. Alguém que adora uma pedra não está
prestando homenagem à pedra em si. Venera a pedra porque esta é
um hierofani, ou seja, ela aponta o caminho para algo que é mais do que
uma simples pedra: é "o sagrado".
Aqui,
em vez de darmos uma definição fixa e universal de religião,
nós a estudaremos de quatro ângulos:
* conceito (crença);
* cerimônia;
* organização, e
* experiência.
F - CONCEITO (CRENÇA):
A religião sempre teve um aspecto intelectual. O crente tem idéias bem definidas sobre como a humanidade e o mundo vieram a existir, sobre a divindade e o sentido da vida. Esse é o repertório de idéias da religião, que se expressam por cerimônias religiosas (ritos) e pela arte, mas em primeiro lugar pela linguagem. Tais expressões linguísticas podem ser escrituras sagradas, credos, doutrinas ou mitos.
MITO:
Um mito é uma história que geralmente acompanha
um rito. O rito com frequência reitera um ato em que o mito se baseia.
Assim, o mito religioso tem um significado mais profundo do que a lenda e os
contos folclóricos. O mito procura explicar alguma coisa. É uma
resposta metafórica para as questões fundamentais: de onde viemos
e para onde vamos? Por que estamos vivos e por que morremos? Como foi que a
humanidade e o mundo passaram a existir? Quais são as forças que
controlam o desenvolvimento do mundo?
Muitas vezes os mitos elucidam algo que aconteceu no princípio dos tempos,
quando o mundo ainda era jovem. Por exemplo, a maioria das religiões
tem seus mitos de criação, que explicam como o mundo surgiu. O
objetivo principal deles não é revelar fatos históricos.
A essência do mito é oferecer às pessoas uma explicação
geral da existência.
Os conceitos religiosos, que também encontram sua expressão em
mitos, podem ser divididos, de modo geral, em três tipos: conceitos sobre
um deus ou vários deuses, conceitos sobre o mundo e conceitos sobre o
homem.
G - Conceitos de divindade
MONOTEÍSMO:
A crença que prevalece na maioria das grandes religiões ocidentais
é o monoteísmo, isto é, a convicção de que
existe um só deus. Há exemplos em muitas religiões de que
o monoteísmo nasceu como reação à adoração
de vários deuses (politeísmo). O islã tem suas raízes
numa renovação ou reforma da antiga religião dos nômades
árabes, a qual possuía numerosos deuses tribais.
MONOLATRIA:
A monolatria é uma crença situada a meio caminho entre o politeísmo
e o monoteísmo. Implica a adoração de um único deus,
sem negar a existência de outros. Um deus é escolhido entre vários
— por exemplo, na religião germânica se podia escolher entre
Tor ou Odin, aquele em que se tivesse total confiança. Aqui a teoria
fica em segundo lugar. O importante não é saber se determinado
deus existe ou não, mas se ele é cultuado. Existem hoje exemplos
de monolatria no hinduísmo.
POLITEÍSMO:
Em religiões que possuem diversos deuses, é comum estes terem
funções distintas, bem como esferas definidas de responsabilidade.
A criação de animais e a pesca, o comércio e os diferentes
ofícios, o amor e a guerra, podem ter seus próprios deuses. O
mundo dos deuses com frequência é organizado da mesma maneira que
o dos homens, numa família ou num Estado. Alguns pesquisadores acreditam
que as divindades indo-européias (isto é, indianas, gregas, romanas
e germânicas) se estruturam em três classes baseadas na sociedade
da época:
* o monarca (que muitas vezes era também sacerdote);
* a aristocracia (os guerreiros) , e
* os artesãos, agricultores e comerciantes.
Era comum as pessoas venerarem o deus que ocupava o mesmo lugar que elas na
escala social. Geralmente o deus supremo é o deus do céu. Isso
não implica que ele habite o céu, mas que se revele no firmamento
e nos fenômenos associados à abóbada celeste. Em muitas
religiões o deus do céu faz par com uma divindade feminina. A
imagem do casal Céu e Mãe Terra é de fácil compreensão
para uma sociedade agrária. A terra é fértil e dá
o alimento ao homem, mas só depois de receber sol e chuva do céu.
Além dos "deuses-reis", familiares para nós porque se encontram na mitologia clássica e na germânica, há uma grande quantidade de deuses menores e espíritos em volta de nós que são patronos de determinadas doenças e de certas profissões.
PANTEÍSMO:
O panteísmo é uma crença que difere tanto do monoteísmo
como do politeísmo. Aqui a principal convicção
é que Deus, ou a força divina, está presente no mundo e
permeia tudo o que nele existe. O divino também pode ser experimentado
como algo impessoal, como a alma do mundo, ou um sistema do mundo. O panteísmo
costuma ser associado ao misticismo, no qual o objetivo do mortal é alcançar
a união com o divino.
ANIMISMO E CRENÇA NOS ESPÍRITOS:
Em muitas culturas prevalece a crença de que a natureza é povoada
de espíritos. Isso se chama animismo, da palavra latina animus, que significa
"alma", "espírito". Em certa época os historiadores
da religião pensavam que o animismo havia sido a base de toda a religião
e que mais tarde ele se transformou, via politeísmo, em monoteísmo.
Mas essa é apenas uma teoria. O que é certo é que o animismo
impera em várias sociedades.
Em nossa própria cultura a noção de espírito está
presente em muitas criaturas relacionadas com as forças naturais: espíritos
das águas, duendes, fantasmas e sereias. Os espíritos dos mortos
também continuam a desempenhar um importante papel na África,
na América Latina, na China e no Japão.
Normalmente as características dos deuses são mais individualizantes
e definidas com mais clareza que as dos espíritos. E as divindades em
geral têm nome. Mas em inúmeros casos é difícil distinguir
de imediato entre deuses, antepassados e espíritos. Todos são
expressões da força sobrenatural que banha a existência.
A idéia de uma força ou um poder que regula todos os relacionamentos
na vida humana e na natureza predomina sobretudo nas religiões primais.
Os
historiadores da religião costumam usar o vocábulo polinésio
"mana" para descrever essa força, que precisa ser controlada
ou aplacada.
CONCEITO DE MUNDO:
Um conceito de mundo bastante comum é que a Terra foi criada ou formada
por um ser primordial ou por uma matéria primordial. A mitologia nórdica
conta a história dos deuses que mataram Ymer, o gigante da montanha,
e do seu corpo formaram o mundo.
Os gregos imaginavam o mundo como uma confusa massa (caos) que foi organizada
por um poder divino e se transformou no mundo ordenado que hoje conhecemos (cosmos).
A criação pode ser vista ainda como uma espécie de nascimento,
semelhante ao dos seres humanos e animais. No Egito antigo, circulava a idéia
de que o mundo tinha saído de um ovo, ao passo que a religião
xintó explica que as ilhas japonesas são os filhos do divino casal
que criou o mundo.
A história da criação contada aos judeus e cristãos
no Livro do Gênesis não menciona nenhum material ou substância
primordial: conta de uma criação feita do nada. É por meio
da palavra falada que a criação ocorre. Deus disse: "Haja
luz", e a luz se fez.
Muitas religiões também têm crenças a respeito do
fim do mundo, que a mitologia nórdica chama de "ragnarok".
A Terra, que foi criada e organizada, está sob a constante ameaça
das forças do mal, as quais querem destruir o sistema do mundo e um dia
irão imperar. O cristianismo e o islã vêem o fim do mundo
como algo intimamente relacionado ao julgamento divino.
As religiões da Índia, da mesma forma, adotam a idéia de
que o mundo teve um início e um dia vai perecer, mas esse é um
processo que se repete perpetuamente, num ciclo eterno sem começo nem
fim, assim como o dia se torna noite e depois, outra vez, dia.
CONCEITO DE HOMEM:
A CRIAÇÃO DO HOMEM: A maioria das religiões acredita que o homem foi criado por Deus, que suas origens são divinas. Nesse contexto, com frequência se fala da ALMA DO HOMEM, termo que tem conotações diferentes em culturas diferentes.
Costuma-se
apresentar a alma em contraste com o corpo, e muitas religiões mostram
um dualismo (a convicção de que algo é dividido em dois),
ensinando que o corpo é temporal, e a alma, divina. Um conceito diz que
a alma desce de um mundo superior e passa a habitar um corpo. Aí ela
se sente trancada, aprisionada pela matéria, e anseia por retornar a
suas origens etéreas.
Na história que o Antigo Testamento conta, a saber, que Deus criou o
homem do barro e soprou a vida em suas narinas, encontramos outro conceito:
na antiga tradição judaica, o homem é visto como um todo;
corpo e alma estão intimamente ligados, e ambos são obra de Deus.
MORTE:
Assim como as origens do homem requerem uma explicação, a maioria
das pessoas se preocupa em saber o que acontecerá com elas quando morrerem.
As sepulturas dos vikings, nas quais os mortos eram enterrados com armas, ornamentos
e comida, mostram que a idéia da vida após a morte não
é nova. Os gregos antigos acreditavam no "Hades", onde os que
partiram passavam a levar uma existência tênue, feita de sombras.
O ideal guerreiro da era dos vikings se espelha na crença que tinham
no Valhala, onde os heróis lutam suas batalhas e morrem durante o dia,
voltando novamente à vida durante a noite.
Certas tribos indígenas da América do Norte ainda têm fé na existência dos "eternos campos de caça", com uma profusão de caça de todos os tipos. Em várias sociedades, os mortos continuam existindo sob a forma de espíritos ancestrais, em íntima proximidade com os vivos. Eles oferecem aos vivos segurança e proteção, e em troca exigem que se façam sacrifícios em seus túmulos.
Quando
se pergunta o que continua vivo, obtêm-se diversas respostas. Em geral,
diz-se que é algo chamado de alma, mas em muitas tribos africanas não
existe a divisão corpo e alma. Mesmo no cristianismo, a "vida eterna"
não é associada a uma "alma eterna". Menciona-se a "ressurreição
do corpo", ou, em outras palavras, a reconstituição da pessoa
inteira. E verdade que o cristianismo fala num "corpo espiritual",
porém isso serve para enfatizar a idéia de que o homem, após
a ressurreição, não se tornará um espírito
indefinido.
As religiões costumam ter idéias diferentes sobre a salvação.
Algumas crêem que o homem pode ser salvo por um poder divino, ao passo
que outras afirmam que ele deve resgatar a si mesmo — e para isso indicam
uma variedade de métodos. O conceito de transmigração
ocupa uma posição única. Os hinduístas acreditam
que a alma se liga a este mundo pelos pensamentos, pelas palavras e ações
humanas, e que quando um indivíduo morre, sua alma passa para o corpo
de outra pessoa ou de um animal. Portanto, a alma está presa nesse eterno
ciclo, até que venha a salvação.
A
RELAÇÃO DO HOMEM COM O DIVINO
No islã e no judaísmo o homem cumpre suas obrigações
religiosas se submetendo aos mandamentos de Deus; nas religiões africanas
e indianas, seguindo as regras tribais estabelecidas pelos ancestrais, e na
religião chinesa, alcançando uma harmonia, ou uma consonância,
com as forças básicas da existência, "yin e yang".
Em certas religiões, sobretudo na Índia, um dos objetivos é
atingir a união com a divindade. Para os gregos antigos isso seria o
equivalente a uma blasfêmia, um sacrilégio. Romper as barreiras
que separam o humano do divino era algo conhecido como "hybris" (arrogância).
Uma idéia semelhante se expressa na história do Antigo Testamento
sobre a queda do homem. A harmonia original do homem com Deus foi destruída
porque o homem tentou imitá-lo.
CERIMÔNIA:
A cerimônia religiosa desempenha um papel importante em todas as religiões.
Nessas ocasiões, segundo certas regras predeterminadas, invoca-se ou
louva-se um deus ou vários deuses, ou ainda manifesta-se gratidão
a ele ou a eles. Tais cerimônias, ou ritos, tendem a seguir um padrão
bem distinto, ou ritual.
O
conjunto das cerimônias religiosas de uma religião é conhecido
como culto ou liturgia. A palavra culto (do verbo latino colere, "cultivar")
é empregada em geral para significar "adoração",
mas na ciência das religiões é um termo coletivo que designa
todas as formas de rito religioso.
O culto promove o contato com o sagrado, e por isso costuma ser realizado em
lugares sagrados (templos, mesquitas, igrejas), nos quais há objetos
sagrados (fetiches, árvores sagradas, altares). As pessoas que lideram
o culto religioso também podem ser sagradas, ou pelo menos especialmente
consagradas a esse trabalho. As palavras sagradas exercem no culto uma função
relevante: orações, invocações, trechos de textos
sagrados e os mitos, muitas vezes associados a ritos específicos.
Antes de olharmos mais de perto os diferentes ritos, falemos um pouco da magia.
Magia é uma tentativa de controlar os poderes e as forças que
operam na natureza. Costuma-se encontrar a magia em contextos religiosos, e
é difícil traçar uma linha divisória nítida
entre a religião e a magia, entre uma reza e um encantamento. A distinção
que mais sobressai é o fato de, na religião, o indivíduo
se sentir totalmente dependente do poder divino. Ele pode fazer sacrifícios
aos deuses ou se voltar para eles em oração; porém, em
última análise, deve aceitar a vontade divina.
Quando, por outro lado, o ser humano se vale dos ritos mágicos, ele está tentando coagir as forças e potências a obedecer à sua ordem — que com frequência consiste em atingir finalidades bem concretas. Desde que os rituais mágicos sejam realizados corretamente, o mago acredita que os resultados desejados decerto ocorrerão, por uma questão de lógica. Se ele falhar, irá culpar um erro em seu ritual, ou o uso de um feitiço mais forte contra si.
A
magia já foi interpretada por algumas pessoas como origem da ciência,
ou um estágio inicial desta.
O que faz o mago, assim como o cientista, é tentar descobrir um elo entre
causa e efeito. De qualquer maneira, ele é forçado a fazer observações
da natureza e a adotar processos empíricos de raciocínio. Sem
dúvida, os magos já fizeram numerosas observações
detalhadas sobre as relações naturais, e muitas das plantas e
ervas usadas pelos curandeiros podem ser utilizadas também pela moderna
ciência médica.
ORAÇÃO:
De certo modo o mais simples de todos os ritos, a oração já
foi chamada de "casa de força da religião".
Pode ser a comunicação espontânea de um indivíduo
com Deus, e nesse caso não costuma ter uma forma definida, uma vez que
é expressa em termos pessoais. Já a oração coletiva
normalmente obedece a um padrão bem definido. Pode ser lida, ou cantada
em uníssono, ou entoada como uma antífona, na qual se alternam
o que conduz a oração e a assembléia.
Determinados atos e gestos estão associados à oração.
Muitas comunidades cristãs rezam ajoelhadas no genuflexório; alguns
oram de mãos postas; os muçulmanos se inclinam até o chão
na direção de Meca. A oração também pode
se relacionar à dança. O objetivo da dança pode ser invocar
a chuva, ou preparar seus participantes para a caça ou a guerra. Os dançarinos
usam máscaras e disfarces, e sua apresentação pode se assemelhar
bastante a uma pantomima ou peça teatral. As palavras e a cerimônia
estão intimamente ligadas. Aqui vemos como um mito, ou narrativa sagrada,
se casa com certos ritos. As vezes eles se fundem a ponto de produzir um drama.
SACRIFÍCIO:
O sacrifício é um elemento central no culto de muitas religiões.
Um sacrifício, em geral algo que as pessoas consideram valioso, é
oferecido aos deuses. Pode ser constituído de frutas, primícias
das colheitas, um filhote de animal; em certas culturas existem até mesmo
exemplos de sacrifício humano. O propósito da oferenda varia,
e podemos distinguir entre vários tipos de sacrifício, dependendo
daquilo que o sacrificante deseja alcançar. Em todos eles, é constante
a experiência do contato e da fraternidade.
OFERENDA:
A oferenda (do latim offerre, "trazer" ou "oferecer" é
o tipo mais comum de sacrifício e provavelmente o mais antigo. Oferece-se
um presente aos deuses e se espera outro em troca. O intuito do sacrifício
se expressa na frase latina do "ut dês", ou seja, "dou
para que tu me retribuas o presente". Uma oferenda de agradecimento deve
ser vista no mesmo contexto. E' uma retribuição a algo que os
deuses proporcionaram, talvez algo pedido anteriormente.
À primeira vista, isso pode parecer uma forma de barganha, mas devemos
considerar o contexto. O ato de dar e receber presentes implica um tipo de associação.
Quem dá e quem recebe ficam unidos; e o objetivo das oferendas é
também, em parte, alcançar uma comunhão com os deuses.
E' comum oferecer os primeiros frutos da estação, uma fração
da carne que foi caçada ou da colheita do ano. Trata-se de uma expressão
de gratidão aos deuses e, ao mesmo tempo, do desejo de que essa proteção
continue.
Vemos, assim, que o sacrifício é necessário tanto para
os deuses como para o homem. Os deuses se tornam fortes com o sacrifício.
Se não houver sacrifícios, eles se debilitam, o que terá
efeitos negativos sobre o mundo e a humanidade, possivelmente na forma de doenças
e más colheitas.
Isso se evidencia nos sacrifícios encontrados na religião nórdica,
cuja intenção era fortalecer os deuses bons, que favorecem o bem
e a vida (Aesir e Wanes), para que conseguissem resistir às forças
do mal (os Jotuns), que queriam destruir a ordem do universo.
SACRIFÍCIOS DE ALIMENTOS:
O motivo principal para o sacrifício de um alimento é alcançar
comunhão com os deuses. Quase sempre se trata de uma oferenda animal,
que depois é comida pelos sacrificantes. Em regra, o sacrifício
é oferecido aos deuses, mas pode acontecer de a oferenda representar
o próprio deus. Nesses casos, parte do poder desse deus é transmitida
àquele que come a oferenda.
SACRIFÍCIOS DE EXPIAÇÃO:
Se um indivíduo cometeu um crime contra os deuses e despertou sua ira,
deve ser punido. Para apaziguar os deuses e evitar uma vingança, ele
pode fazer um sacrifício de expiação. A oferenda —
por exemplo, um animal sacrificial — substitui o culpado e é punida
no lugar dele.
RITOS DE PASSAGEM:
Os ritos de passagem se associam às grandes mudanças na condição
do indivíduo. As principais transições marcadas por esses
ritos são o nascimento, a entrada na idade adulta, o casamento e a morte.
Tais ritos costumam simbolizar uma iniciação. O nascimento é
a iniciação na vida, enquanto a morte é a iniciação
numa nova condição no reino dos mortos, ou na vida eterna.
De uma forma ou de outra, todas as sociedades têm ritos de passagem, mesmo
aquelas em que a religião não desempenha nenhum papel na vida
pública. Em geral, é grande a importância deles nas culturas
ágrafas, nas religiões primais. Nestas, os ritos de passagem estão
claramente ligados às noções de tabu. Tabu é uma
palavra polinésia adotada pelos historiadores da religião para
indicar uma severa proibição, restrição ou exclusão,
e se aplica a algo que é considerado perigoso ou impuro.
NASCIMENTO E MORTE:
Um recém-nascido está fisicamente vivo, mas em muitas culturas
só é aceito pela família e pela comunidade depois de passar
por certas cerimônias. A cerimônia pode consistir num único
ato, como o batismo, a circuncisão ou a atribuição do nome.
Entre os povos tribais, costuma ser um processo longo, que tem início
já na época da concepção e termina pouco após
o nascimento, quando a criança é admitida na tribo. A mãe,
que se tornou impura com o ato de dar à luz, deve se submeter a uma série
de ritos de purificação para poder ser recebida na comunidade.
Assim
como um bebê não está "propriamente vivo" antes
dos ritos associados com o nascimento, um cadáver, em determinadas sociedades,
não está "propriamente morto" antes de ser enterrado.
Os ritos de sepultamento são necessários a fim de que o falecido
possa ser aprovado e acolhido pela comunidade dos mortos. Alguém que
não seja enterrado de acordo com o costume está arriscado a ter
uma existência errante, sem descanso, vagando entre o reino dos vivos
e o dos mortos.
O significado de vários ritos de passagem se destaca nas comunidades
cuja vida religiosa dá muita importância ao culto aos ancestrais.
Um nascimento implica o prolongamento da linhagem familiar e a continuação
do culto aos ancestrais. O casamento une um homem e uma mulher vindos de duas
famílias distintas, e é preciso que os ancestrais de ambos os
lados aprovem o casamento e a união das duas famílias.
Quando um indivíduo morre, a tribo perde um de seus membros e advém
uma crise. A vida e a tribo são ameaçadas por forças hostis,
e devem se realizar cerimônias para restabelecer o equilíbrio normal
da vida. Ao mesmo tempo, os ritos de sepultamento ajudam o falecido a chegar
são e salvo ao reino dos mortos, onde ele continuará a viver juntamente
com seus antepassados.
RITOS DE PUBERDADE
A puberdade indica a transição da infância para a idade
adulta, do menino para o homem, da menina para a mulher. Ser sexualmente maduro,
porém, nem sempre basta para garantir ao indivíduo o pleno status
de membro da sociedade adulta. A confirmação, ou crisma, que é
de origem religiosa, muitas vezes é considerada, no mundo ocidental,
uma iniciação na idade adulta.
Os ritos de puberdade propriamente ditos são praticados com mais frequência
em sociedades tribais. A seguir, quatro aspectos relevantes desses ritos: E'
comum a circuncisão dos órgãos sexuais, tanto masculinos
como femininos. Não se sabe ao certo a origem desse rito, mas em alguns
casos ele pode ser associado à crença de que o ser humano originalmente
era hermafrodita. O rito realça a diferença entre os sexos, e
mostra aos homens e às mulheres o lugar que devem ocupar na sociedade.
Enquanto nos meninos a circuncisão pode prevenir certas doenças,
nas mulheres reduz a capacidade de desfrutar da atividade sexual. Em consequência,
existe hoje uma pressão para se banir a circuncisão feminina,
mais corretamente chamada de excisão do clitóris, uma mutilação
dos órgãos genitais femininos.
A iniciação implica o ensino de tradições tribais,
leis religiosas, direitos e deveres, habilidades de caça e pesca, perícia
na luta e nas tarefas práticas. O jovem deve aprender as narrativas sagradas
e os ritos tradicionais. Homens e mulheres podem ter seus respectivos segredos
religiosos, que não devem ser revelados para o sexo oposto.
Em muitas tribos, os garotos têm que passar por testes de resistência
para demonstrar sua coragem e força física. Sofrem espancamentos
e tormentos físicos e psicológicos. Às vezes se praticam
mutilações, cortando dedos ou extraindo dentes. Geralmente a iniciação
é tida como um novo nascimento. De fato, o simbolismo dos ritos vai ainda
mais longe: a iniciação se torna uma morte seguida de um renascimento.
A infância terminou e a criança deve morrer, para que possa nascer
novamente como adulto. Em alguns casos, os jovens são deitados em túmulos
especiais ou são pintados de branco para ficar parecidos com os mortos.
As torturas que os jovens devem suportar também podem simbolizar a morte,
e há exemplos em que a circuncisão é vista como um falecimento.
Do mesmo modo, o renascimento é simbolizado de várias maneiras.
Pode-se dar ao jovem um outro nome, indicando assim que ele agora é um
indivíduo totalmente novo. Outras vezes ele aprende uma nova língua,
isto é, palavras secretas que só são compreendidas pelos
iniciados. Ou ainda é alimentado e tratado como se fosse um bebê.
Esse simbolismo do nascimento e da morte pode ser visto num contexto mais amplo:
ele reitera a história da criação do mundo. A morte representa
caos e confusão, enquanto um novo nascimento, ou nova criação,
significa que a ordem, o equilíbrio e a harmonia foram restabelecidos.
A transformação de um estado em outro, sempre uma fase critica,
foi realizada.
ÉTICA
- A RELAÇÃO ENTRE OS HUMANOS:
As religiões com frequência não fazem distinção
entre o plano ético e o plano religioso. Os costumes da tribo, as regras
ou os princípios morais da casta são tão religiosos quanto
os sacrifícios e as orações. Entre os
dez mandamentos que Moisés deu aos judeus havia os que tratavam de religião
— "Não terás outros deuses diante de mim" —
e os relativos à ética — "Não matarás".
Incluem-se nos cinco pilares dos muçulmanos tanto o orar a Deus como
o dar esmolas aos pobres. Não há aqui distintinção
entre a ética e a religião. A noção do ser humano
como uma criação divina implica que ele é responsável
perante Deus por tudo o que faz, ritual, moral, social e politicamente.
Pregadores religiosos muitas vezes iniciaram debates sobre assuntos especificamente
éticos. Os profetas do antigo Israel atacavam os ricos e poderosos que
observavam fielmente os rituais, mas pisoteavam os pobres. O ponto de vista
moral desses profetas tinha, porém, uma justificativa religiosa.
As sociedades onde coexistem várias religiões e vários
pontos de vista consideram mais difícil vincular a ética exclusivamente
à religião. A sociedade precisa ter suas linhas mestras éticas,
e algumas delas são preservadas nas leis. Os romanos foram os primeiros
a tentar de maneira sistemática criar um arcabouço legal que pudesse
ser usado por todos os povos, independentemente da religião. O direito
romano se tornou a base para todos os sistemas legais subsequentes nos Estados
seculares modernos. Em certos países muçulmanos há dois
sistemas agindo em paralelo: um baseado no Corão, outro no direito romano.
Hoje muitos países aceitam a Declaração dos Direitos Humanos,
proclamada pelas Nações Unidas, como uma afirmação
ética comum, seja qual for a religião ou perspectiva geral do
país.
ORGANIZAÇÃO:
Um aspecto importante em todas as religiões é a irmandade entre
seus seguidores. Formam-se tipos específicos de comunidades regulamentadas
e são nomeados representantes para dirigir o culto religioso. No caso
dos povos tribais, existe pouca, ou até mesmo inexiste, divisão
funcional especificamente religiosa. A tribo constitui uma estrutura social,
política e religiosa, e com frequência o próprio chefe é
o sacerdote. Contudo, há sociedades sagradas das quais só podem
participar pessoas selecionadas — em geral homens.
No Egito antigo, na Grécia clássica e na Noruega dos vikings,
a relação era simples: a religião era parte de uma cultura
comum. Situação semelhante se vivia na Europa medieval, quando
a Igreja católica tinha poder absoluto, ou então, nos dias de
hoje, em certos países muçulmanos, onde todo o poder religioso
e político pertence a um líder nacional (por exemplo, o rei do
Marrocos).
Nos lugares onde várias convicções religiosas devem conviver
lado a lado, a questão da organização se torna mais complicada.
Quando se funda uma nova religião, rompendo com as tradições
locais de culto, forma-se uma nova congregação que estará
em minoria, pelo menos no início. Foi essa a situação dos
seguidores do Buda, de Maomé e de Jesus, e através da história
tem sido o destino de todos os grupos que se libertaram das grandes religiões
e criaram suas próprias igrejas ou seitas. Nessas comunidades o vínculo
entre os membros por vezes é mais forte do que nas religiões estatais
ou locais.
Uma cerimônia realizada logo após o nascimento é o passaporte
para todas as religiões estatais. Há também religiões
tradicionais, nas quais a pessoa já nasce, ou seja, é incluída
sem nenhuma formalidade particular. Já em outras comunidades eclesiásticas,
é necessário que o aspiram e solicite sua admissão. Muitas
religiões têm ordens especiais que impõem regras estritas
a seus membros. As mais comuns são as ordens de monges e freiras, cujos
noviços e noviças devem prometer guardar o celibato e aceitar
a pobreza pessoal.
Excetuando-se certas religiões primais, a maioria possui "funcionários"
próprios, com responsabilidade exclusiva pelas formalidades do culto
e por outras tarefas religiosas. Os padres, os líderes de culto e os
curandeiros têm deveres religiosos diferentes, mas todos eles desfrutam
de um status superior especial. Os sacerdotes também costumam agir como
líderes da organização de seu rebanho e podem pertencer
a uma entidade maior, comandada por um bispo ou arcebispo.
Determinadas
organizações (como a Igreja católica romana) são
rigidamente estruturadas em linhas internacionais e contam com um líder
absoluto. Outras igrejas podem atuar no plano nacional (como a da Noruega) ou
no plano da congregação local (como o pentecostalismo).
Experiência
A religião nunca é vinculada apenas ao intelecto. Ela envolve
igualmente as emoções, que são tão essenciais na
vida humana quanto o intelecto e a capacidade de pensar. A música, o
canto e a dança apelam para as emoções. Na maioria das
religiões, as pessoas extravasam a tristeza ou a alegria pela música
instrumental e pelo canto; em algumas, também pela dança, que
é um meio bastante antigo de expressão religiosa. Nos rituais
cristãos, os hinos cantados em coro e a música de órgão
são parte importante da experiência geral. Muitas igrejas e templos
contêm, ainda, obras de arte — pinturas, esculturas e peças
de altar — que acendem a imaginação e as emoções.
Misticismo: A EXPERIÊNCIA MÍSTICA
A experiência mística pode ser caracterizada, resumidamente, como
uma sensação direta de ser um só com Deus ou com o espírito
do
universo. Apesar de a oração e o sacrifício implicarem
uma grande distância entre Deus e o homem — ou entre Deus e o mundo
—, o místico tenta transpor esse abismo. Em outras palavras: o
místico não sente a existência desse abismo. Ele é
"absorvido" em Deus, "se perde" em Deus, ou "desaparece"
em Deus. Isso porque aquilo a que normalmente nos referimos como "eu"
não é nosso eu real. O místico experimenta, pelo menos
instantes, a sensação de ser indivisível de um eu maior
— não importa que ele dê a isso o nome de Deus, espírito
universal, o eu, o vazio, o universo ou qualquer outra coisa. (Um místico
indiano disse certa vez: "Quando eu existia, não existia Deus —
agora Deus existe, e eu não existo mais". Ele "se perdeu"
em Deus.)
No entanto, uma experiência dessas não acontece espontaneamente.
O místico deve percorrer "o caminho da purificação
e da iluminação" até seu encontro com Deus. E esse
caminho — que pode ter uma série de níveis ou estágios
— muitas vezes inclui o ascetismo, exercícios respiratórios
e técnicas complexas de meditação. É então
que, de súbito, o místico alcança seu objetivo e pode exclamar:
"Eu sou Deus!", ou: "Glória a mim! Como é grande
minha majestade!".
O incentivo de um místico com frequência é um amor ardente
por Deus. Assim como o amante se esforça para se unir com o objeto de
seu amor, o místico se esforça para se tornar um só com
Deus. Há um anseio que permeia o mundo todo. Essa radiância divina
que se encontra no homem, anseia por se libertar de sua existência individual.
Pois aquele que anseia por Deus, anseia simplesmente por aquilo que Deus anseia.
E nesse êxtase místico — ou união mística —
que se dá o encontro com Deus. "Eu sou aquilo que amo", exultava
um místico persa, "e Aquele a quem amo sou eu!"
TENDÊNCIAS MÍSTICAS:
Podemos encontrar tendências místicas em todas as grandes religiões
do mundo. E as descrições que os místicos nos fornecem
da experiência mística demonstram uma notável uniformidade,
apesar das fronteiras sociais, culturais e religiosas, e de enormes diferenças
cronológicas e geográficas. Isso nos permite falar de uma dimensão
mística em todas as religiões, e foi por essa razão que
o filósofo alemão Leibniz chamou o misticismo de philosophia perennis:
a "filosofia perene".
CARACTERÍSTICAS DO ESTADO MÍSTICO:
Com base nos relatos de místicos de várias épocas e culturas,
normalmente são atribuídas as seguintes características
à experiência mística:
* O místico sente uma unidade em todas as coisas. Há apenas uma
consciência - ou um Deus - que permeia tudo.
* Embora o místico já venha se preparando há muito tempo
para seu encontro com Deus, ou com o espírito universal, sente-se passivo
quando isso acontece. É como se ele fosse tomado por uma força
externa.
* Essa condição se caracteriza pela intemporalidade. O místico
se sente arrancado para fora da existência normal de quatro dimensões.
* O êxtase em si é transitório, e em geral não dura
mais que alguns minutos.
* Mas ele possibilita um novo insight, que permanece com o místico depois
da experiência.
* Essa compreensão é inexprimível, não pode ser
comunicada a outros.
* Como a experiência é paradoxal em si mesma, o místico
vai usar paradoxos ao tentar descrever o estado que experimentou. Assim, pode
definir o ser encontrado como "abundância e vazio", "escuridão
ofuscante" ou algo parecido.
É somente quando o místico apresenta uma interpretação
religiosa ou filosófica de sua experiência mística que o
seu contexto cultural entra em foco. Especialmente no misticismo ocidental (cristianismo,
judaísmo e islã), o místico irá ressaltar que seu
encontro foi com um Deus pessoal. Mesmo que tenha sido "absorvido em Deus",
ele costuma dar ênfase ao fato de que havia uma certa distância
entre Deus e o mundo. Algo da relação eu-tu, ou eu-Deus, se mantém.
Esse tipo de misticismo já foi chamado de misticismo teísta.
No
misticismo oriental (hinduísmo, budismo e taoísmo) é mais
comum afirmar uma identidade total entre o indivíduo e a divindade, ou
o espírito universal. Poderíamos dizer que esse reencontro do
místico com a divindade ocorre como uma relação eu-eu.
Sim, pois, Deus não está presente como uma mera centelha na alma
do homem. O divino existe em todas as coisas deste mundo, é uma realidade
imanente. Já se denominou esse tipo de misticismo de misticismo panteísta.
Também para o homem moderno a dimensão mística pode desempenhar
um papel decisivo. Muitas pessoas reconhecem que tiveram experiências
místicas, sem atribuí-las a nenhuma religião específica.
É típica desses "místicos modernos" o fato de
que, de modo geral, não tomaram nenhuma
atitude ativa para se transportar a um estado místico. De repente, no
meio da agitação rotineira da vida diária, experimentaran
aquilo que chamam de "consciência cósmica", "sensação
oceânica" ou "osmose mental".
TIPOS DE RELIGIÃO: religiões e tipos de
sociedade
As ciências da religião tentam dividir as religiões em três
categorias, que de certa forma coincidem com três tipos distintos de sociedade.
A - RELIGIÕES PRIMAIS:
São aquelas que os estudiosos costumavam chamar de "religiões
primitivas" e que se encontram, ou se encontravam, em culturas ágrafas,
entre os povos tribais da África, Ásia, América do Norte
e do Sul e Polinésia. A marca mais característica dessas religiões
é a crença numa miríade de forças, deuses e espíritos
que controlam a vida cotidiana. O culto aos antepassados e os ritos de passagem
desempenham um papel importante. A comunidade religiosa não se separa
da vida social, e o sacerdócio normalmente é sinônimo de
liderança política da tribo.
B - RELIGIÕES NACIONAIS:
Estas incluem grande número de religiões históricas que
não são mais praticadas: germânica, grega, egípcia
e assírio-babilônica. Hoje podemos encontrar vestígios delas,
por exemplo, no xintoísmo japonês. E' típico das religiões
nacionais adotar o politeísmo, uma série de deuses organizados
num sistema de hierarquia e funções especializadas. Elas têm
também um sacerdócio permanente, encarregado dos deveres rituais
em templos construídos para esse fim. Há sempre uma mitologia
bem desenvolvida, o culto sacrificial é básico, e os deuses é
que escolhem o líder da nação (monarquia sacra).
C
- AS RELIGIÕES MUNDIAIS
As religiões mundiais pretendem ter uma validade mundial, ou, em outras
palavras, uma validade para todas as pessoas. São para todos. São
conhecidas também como religiões universais.
A
principal característica das religiões universais surgidas no
Oriente Médio é o monoteísmo: elas têm um só
Deus. Dá-se grande peso à relação do indivíduo
com Deus e à sua salvação. O papel do sacrifício
é bem menos proeminente nelas do que nas religiões nacionais,
ao passo que o da oração e da meditação é
mais importante. As religiões universais foram criadas por profetas fundadores
cujos nomes são conhecidos: Moisés, Buda, Lao-Tse, Jesus, Maomé.
Por último, devemos ressaltar que os limites entre esses três tipos
de religião são fluidos. As religiões nacionais muitas
vezes constituem evoluções que acompanharam o desenvolvimento
geral da sociedade (ao passar de uma sociedade tribal para um Estado nacional).
Assim também, certas religiões mundiais emergiram de religiões
nacionais, como um protesto contra determinados aspectos de seu culto e de suas
concepções religiosas.
RELIGIÕES ORIENTAIS E OCIDENTAIS:
Já houve muitas tentativas de classificar as religiões mundiais
em orientais e ocidentais. Consideram-se ocidentais o judaísmo, o islã
e cristianismo, enquanto as principais religiões orientais são
o hinduísmo, o budismo e o taoísmo.
AS
RELIGIÕES ORIENTAIS E OCIDENTAIS: CONVICÇÕES |
OCIDENTAL |
ORIENTAL |
|
| .Visão da história | Visão
linear da história, isto é, a história tem um começo
e um fim; o mundo foi criado num certo ponto e um dia irá terminar. |
Visão
cíclica da história, isto é, a história se repete num ciclo eterno e o mundo dura de eternidade em eternidade. |
| .Conceito de deus | Deus
é o criador; Ele é todo-poderoso e é único.
O monoteísmo é tipicamente ocidental. |
O divino está presente em tudo. Ele se manifesta em muitas divindades (politeísmo), ou como uma força impessoal que permeia tudo e a todos (panteísmo). |
| .Noção de humanidade | Há
um abismo entre Deus e o ser humano, entre o criador e a criatura. O grande
pecado é o homem desejar se transformar em Deus em vez de se sujeitar à vontade de Deus. |
O
homem pode alcançar a união com o divino mediante a iluminação súbita e o conhecimento. |
| .Salvação | Deus
redime o ser humano do pecado, julga e dá a punição. Existe a noção de vida após a morte, no céu ou no inferno. |
A
salvação é se libertar do eterno ciclo da reencarnação da alma e do curso da ação. A graça vem por meio de atos de sacrifício ou do conhecimento místico. |
| .Ética | O fiel é um instrumento da ação divina e deve obedecer a vontade de Deus, abandonando o pecado e a passividade diante do mal. | Os ideais são a passividade e a fuga do mundo. |
| .Culto | Orar, pregar, louvar. | Meditação, sacrifício. |
Ser-nos-á muito difícil e trabalhoso separar e explanar individualmente
todas as religiões, seitas, comunidades, filosofias de vida não
religiosa, que existem, visto que, só no Brasil hoje existem 2.000 abertas
em Cartório; procuraremos adentrarmos fielmente nas principais e a medida
do possível daremos uma visão panorâmica das demais, se
assim Deus o permitir.
ANÁLISE
DAS RELIGIÕES: |