AFLIÇÕES |
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BIBLIOGRAFIA |
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| 01- Ação e reação- pág. 164 | 02 - Amizade - pág. 76, 96 |
| 03 - Auto desobsessão - pág. 12 | 04 - Caminho, Verdade e vida - pág. 181 |
| 05 - Ceifa de luz - pág. 49, 101, 115 | 06 - Celeiros de bênçãos - pág. 98, 110 |
| 07 - Chão de flores - pág. 132 | 08 - Coragem - pág. 56 |
| 09 - Depois da morte - pág. 285 | 10 - Emmanuel - pág. 21, 23 |
| 11 - Encontro marcado - pág. 181 | 12 - Espírito e vida - pág. 126, 147 |
| 13 - Falando à Terra - pág. 145 | 14 - Justiça Divina - pág. 164 |
| 15 - O Espírito da Verdade - pág. 63, 72, 155 | 16 - O Evangelho Seg. o Espiritismo - cap. V |
| 17 - O Livro dos Espíritos - q 113, 133, 491 | 18 - Pão Nosso - pág. 27, 137 |
| 19 - Religião dos Espíritos - pág. 33 | 20 - Seareiros de volta - pág. 48, 123 |
| 21 - Instrumentos do tempo - pág. 86 | |
LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.
AFLIÇÕES – COMPILAÇÃO
01 - AÇÃO E REAÇÃO - ANDRÉ LUIZ - ÍTEM 12 - DÍVIDA AGRAVADA:
Enquanto
outros servidores da instituição por nós passavam, à
pressa, com o evidente intuito de auxiliar, o dileto companheiro de Druso desceu
a escadaria do templo, em nossa companhia, explicando:— Muitos companheiros
de serviço valem-se deste horário para o culto espontâneo
do amor fraterno. Ouvem aqui neste locutório os desesperados e os tristes
e, tanto quanto lhes é possível, administram-lhes medicação
e consolo, não somente os exortando à compreensão e à
serenidade, mas também os acompanhando aos círculos tenebrosos
ou à esfera dos encarnados, para a obra de assistência aos laços
afetivos que lhes perturbam o coração. Nesse instante, entramos
mais diretamente em contacto com os grupos rumorosos. Agora, adaptada nossa
visão à sombra reinante, conseguíamos diferençar
as figuras lamentáveis e exóticas que nos cercavam, agoniadas...
Eram mulheres de duro semblante que a miséria desfigurava e homens de
fisionomias torturadas pelo ódio e pela angústia. Dificilmente,
de nossa parte, poderíamos avaliar-lhes a idade, segundo o escalão
terrestre. O infortúnio deles convertera-os em fantasmas de amargura,
quase a irmaná-los integralmente no mesmo tipo de configuração
exterior. Muitos mostravam mãos semelhantes a ressequidas garras, e em
quase todos o olhar enraivecido ou medroso revelava a dolorosa fulguração
da mente que desceu ao poço da loucura. Preces comoventes misturavam-se
a clamores sinistros de revolta.
E, vendo, contristados, a multidão em movimentos rudes, ante as portas
abertas do santuário tranquilo, perguntamos ao Assistente por que não
se acolhia toda ela ao templo hospitaleiro, então quase deserto. Silas,
contudo, designando a entrada do edifício que vínhamos de deixar,
fixou a portaria radiante que, da forte penumbra, mais se nos afigurava um túnel
aberto para a luz, e esclareceu: — Efetivamente, reportam-se vocês
a medida desejável. Entretanto, apenas ingressam no recinto sagrado quantos
lhe podem suportar a claridade com o respeito devido. Quase todos os irmãos
que se congregam nesta praça trazem mutilações que a perversidade
lhes impôs ou são portadores de sentimentos tigrinos que petições
comoventes mal encobrem. E, com semelhantes disposições, não
resistem ao impacto da claridade dominante, dosada em fotônios específicos
a se caracterizarem por determinado teor eletromagnético, indispensável
à garantia de nossa casa. Muitos de nossos irmãos, aqui desarvorados,
clamam, com a boca, que anseiam pelas vantagens da prece, na intimidade do santuário;
no entanto, por dentro, lá estimariam tripudiar sobre o nome sublime
de nosso Pai Celeste, no culto à ironia e à blasfêmia. Para
que não tumultuem a atmosfera divina que nos cabe oferecer à oração
pura e reconfortante, recomendam nossos orientadores que a luz permaneça
graduada contra distúrbios e prejuízos, facilmente evitáveis.
Hilário, espantado, considerou: — Significa isso que somente a
sincera compunção da alma entrará em sintonia com as forças
eletromagnéticas imperantes no recinto...— Exatamente assim é
— confirmou o interlocutor. — Nossa instituição permanece
de braços abertos à provação e ao sofrimento, mas
não à rebeldia e ao desespero. De outra sorte, seria condená-la
ao aniquilamento e ao descrédito, na região atormentada em que
se localiza.
Nesse ponto da conversação, fomos interrompidos por dezenas de
braços ressequidos a implorarem socorro. Silas fitava-os, compadecido,
mas sem se deter, até que nosso passo foi cortado por apressada mulher,
exclamando, ansiosa:— Assistente Silas! Assistente Silas!... Nosso amigo
identificou-a, porque, parando de súbito, estendeu-lhe a destra amiga,
murmurando:— Luísa, a que vens? Defrontavam-se em ambos a curiosidade
e a aflição. A senhora desencarnada, com sinais de irreprimível
angústia, gritou sem preâmbulos:— Socorro!... Socorro!...
Minha filha, minha pobre Marina esmorece... Tenho lutado com todas as minhas
forças para furtá-la ao suicídio, mas agora me sinto enfraquecida
e incapaz... Os soluços sufocaram-lhe a garganta, inibindo-lhe a voz.—
Fala! — disse o orientador de nossa excursão, em tom imperativo,
como se o alarme daquele instante lhe obscurecesse a serenidade mental, imprescindível
ao entendimento da nova situação. A infeliz, ajoelhada agora,
ergueu os olhos lacrimosos e suplicou:— Assistente, perdoe-me a insistência
em falar-lhe de meu infortúnio, mas sou mãe... Minha desventurada
filha pretende matar-se esta noite, comprometendo-se, ainda mais, com as trevas
da sua consciência!...Silas aconselhou-lhe a volta ao lar terreno, como
lhe fosse possível, e, dando-nos as mãos, promoveu a viagem rápida
para o objetivo a que devíamos atender.
Em caminho, informou:— Trata-se de companheira da Mansão, reencarnada
há quase trinta anos, sob os auspícios de nossa casa. Prestar-lhe-emos
o necessário auxílio, ao mesmo tempo que vocês poderão
examinar um problema de débito agravado. Notando que o nosso amigo entrara
em silêncio, meu colega externou:— É impressionante observar
o número de mulheres em trabalho de oração e assistência
nessas paragens. Preocupado qual se achava, nosso generoso companheiro tentou
ensaiar um sorriso que lhe não chegou aos lábios, e juntou:—
Grande verdade.. . Raras esposas e raras mães demandam às regiões
felizes sem os doces afetos que acalentam no seio. .. O imenso amor feminino
é uma das forças mais respeitáveis na Criação
divina. Todavia, não houve mais tempo para qualquer outra divagação.
Atingíramos no plano físico pequena moradia constituída
de três peças desataviadas e estreitas. O relógio acusava
alguns minutos depois de zero hora.Acompanhando Silas, cuja presença
deslocou diversas entidades da sombra que ali se ajuntavam com a manifesta
intenção de perturbar, ingressamos num quarto humilde. Percebemos,
sem palavras, que o problema era efetivamente desolador. Junto de jovem senhora
agoniada e exausta, uma menina de dois a três anos choramingava, inquieta...
Via-se-lhe nos olhos esgazeados e inconscientes o estigma dos que foram marcados
por irremediável sofrimento ao nascer.
Contudo,
através da preocupação indisfarçável de Silas,
era fácil reconhecer que a pobre senhora era o caso mais urgente para
os nossos cuidados. A infeliz, de joelhos, beijava sofregamente a pequenina,
mostrando a indefinível angústia dos que se despedem para sempre.
Logo após, em movimento rápido, tomou de um copo em que se encontrava
beberagem cujo teor tóxico não nos deixava qualquer dúvida.
Antes, porém, de colá-lo à boca em febre, eis que o Assistente
lhe disse em voz segura:— Como podes pensar na sombra da morte, sem a
luz da oração? A desventurada não lhe ouviu a pergunta
com os tímpanos de carne, mas a frase de Silas invadiu-lhe a cabeça
qual rajada violenta. Lampejaram-lhe os olhos com novo brilho e o copo tremeu-lhe
nas mãos, agora indecisas. Nosso orientador estendeu-lhe os braços,
envolvendo-a em fluidos anestesiantes de carinho e bondade. Marina, pois
era ela a irmã para quem aflito coração materno suplicara
socorro, dominada de novos pensamentos, recolocou o perigoso recipiente no lugar
primitivo e, sob a vigorosa influência do diretor de nossa excursão,
levantou-se automaticamente e estirou-se no leito, em prece...
— «Deus meu, Pai de Infinita Bondade — implorou em voz alta
—, compadece-te de mim e perdoa-me o fracasso ! Não suporto mais...
Sem minha presença, meu marido viverá mais tranquilo no leprosário
e minha desventurada filhinha encontrará corações caridosos
que lhe dispensem amor... Não tenho mais recursos... Estou doente...
Nossas contas esmagam-me... Como vencer a enfermidade que me devora, obrigada
a costurar sem repouso, entre o marido e a filhinha que me reclamam assistência
e ternura?...» Silas administrava-lhe passes magnéticos de prostração
e, induzindo-a a ligeiro movimento do braço, fez que ela mesma, num impulso
irrefletido, batesse com força no copo fatídico, que rolou no
piso do quarto, derramando o líquido letal. Em lágrimas copiosas,
a pobre criatura insistiu, desolada:— Ó Senhor, compadece-te de
mim!... Reconhecendo no próprio gesto impensado a manifestação
de uma força estranha a entravar-lhe a possibilidade da morte deliberada
naquele instante, passou a orar em silêncio, com evidentes sinais de temor
e remorso, atitude mental essa que lhe acentuava a passividade e da qual se
valeu o Assistente para conduzi-la ao sono provocado. Silas emitiu forte jacto
de energia fluídica sobre o córtex encefálico dela, e a
moça, sem conseguir explicar a si mesma a razão do torpor que
lhe invadia o campo nervoso, deixou-se adormecer pesadamente, qual se houvera
sorvido violento narcótico. O Assistente interrompeu a operação
socorrista e falou-nos, bondoso:— Temos aqui asfixiante problema de conta
agravada. E designando a jovem mãe, agora extenuada, continuou :—
Marina veio de nossa Mansão para auxiliar a Jorge e Zilda, dos quais
se fizera devedora. No século passado, interpôs-se entre os dois,
quando recém-casados, Impelindo-os a deploráveis leviandades que
lhes valeram angustiosa demência no Plano Espiritual. Depois de longos
padecimentos e desajustes, permitiu o Senhor que muitos amigos intercedessem,
junto aos Poderes Superiores, para que se lhes recompusesse o destino, e os
três renasceram no mesmo quadro social, para o trabalho regenerativo.
Marina, a primogênita do lar de nossa irmã Luísa, recebeu
a incumbência de tutelar a irmãzinha menor, que assim se desenvolveu
ao calor de seu fraternal carinho, mas, quando moças feitas, há
alguns anos, eis que, segundo o programa de serviço traçado antes
da reencarnação, a jovem Zilda reencontra Jorge(...)
09 - DEPOIS DA MORTE - LÉON DENIS - ÍTEM L - RESIGNAÇÃO NA ADVERSIDADE:
O
sofrimento é lei em nosso mundo. Em todas as condições,
em todas as idades, sob todos os climas, o homem tem padecido, a Humanidade
tem derramado lágrimas. Apesar dos progressos sociais, milhões
de seres gravitam ainda sob o jugo da dor. As classes elevadas também
não têm sido isentas desses males. Entre os Espíritos cultivados
as impressões são mais dolorosas, porque a sensibilidade está
mais esmerada, mais apurada. O rico, assim como o pobre, sofre material e moralmente.
De todos os pontos do globo o clamor humano sobe ao espaço. Mesmo no
selo da abundância, um sentimento de desânimo, uma vaga tristeza
apodera-se por vezes das almas delicadas. Sentem que neste mundo é irrealizável
a felicidade e que, aqui, apenas se pode perceber dela um pálido reflexo.
O Espírito aspira a vidas e mundos melhores; uma espécie de intuição
diz-lhe que na Terra não existe tudo. Para o homem que segue a filosofia
dos Espíritos, essa vaga intuição transforma-se em absoluta
certeza. Sabe onde vai, conhece o porquê dos seus males, qual a causa
do sofrimento. Além das sombras e das angústias da Terra, entrevê
a aurora de uma nova vida.
Para apreciar os bens e os males da existência, para saber em que consiste
a verdadeira desgraça, em que consiste a felicidade, é necessário
nos elevarmos acima do círculo acanhado da vida terrena. O conhecimento
do futuro e da sorte que nos aguarda permite medir as consequências dos
nossos atos e sua influência sobre os tempos vindouros. Observada sob
este ponto de vista, a desgraça, para o ser humano, já não
é mais o sofrimento, a perda dos entes que lhe são caros, as privações,
a miséria; a desgraça será então tudo o que manchar,
tudo o que aniquilar o adiantamento, tudo o que lhe for um obstáculo.
A desgraça, para aquele que só observar os tempos presentes, pode
ser a pobreza, as enfermidades, a moléstia. Para o Espírito que
paira no alto, ela será o amor do prazer, o orgulho, a vida inútil
e culposa. Não se pode julgar uma coisa sem se ver tudo o que dela decorre,
e eis por que ninguém pode compreender a vida sem conhecer o seu alvo
e as leis morais. As provações, purificando a alma, preparam sua
ascensão e felicidade; no entanto, as alegrias deste mundo, as riquezas,
as paixões entibiam-na e atiram-na para uma outra vida de amargas decepções.
Assim, aquele que é oprimido pela adversidade pode esperar e erguer um
olhar confiante para o céu; desde que resgata a sua dívida, conquista
a liberdade; porém, esse que se compraz na sensualidade constrói
a sua própria prisão, acumula novas responsabilidades que pesarão
extraordinariamente sobre as suas vidas futuras.
A dor, sob suas múltiplas formas, é o remédio supremo para
as imperfeições, para as enfermidades da alma. Sem ela não
é possível a cura. Assim como as moléstias orgânicas
são muitas vezes resultantes dos nossos excessos, assim também
as provas morais que nos atingem são consequentes das nossas faltas passadas.
Cedo ou tarde, essas faltas recairão sobre nós com suas deduções
lógicas. É a lei de justiça, de equilíbrio moral.
Saibamos aceitar os seus efeitos como se fossem remédios amargos, operações
dolorosas que devem restituir a saúde, a agilidade ao nosso corpo. Embora
sejamos acabrunhados pelos desgostos, pelas humilhações e pela
ruína, devemos sempre suportá-los com paciência. O lavrador
rasga o seio da terra para daí fazer brotar a messe dourada. Assim a
nossa alma, depois de desbastada, também se tornará exuberante
em frutos morais. Pela ação da dor, larga tudo o que é
impuro e mau, todos os apetites grosseiros, vícios e paixões,
tudo o que vem da terra e deve para ela voltar. A adversidade é uma grande
escola, um campo fértil em transformações. Sob seu Influxo,
as paixões más convertem-se pouco a pouco em paixões generosas,
em amor do bem. Nada fica perdido. Mas, essa transformação é
lenta e dificultosa, pois só pode ser operada pelo sofrimento, pela luta
constante contra o mal, pelo nosso próprio sacrifício. Graças
a estes, a alma adquire a experiência e a sabedoria. Os seus frutos verdes
e amargos convertem-se, sob a ação regeneradora da prova, sob
os raios do Sol divino, em frutos doces, aromáticos, amadurecidos, que
devem ser colhidos em mundos superiores.
A ignorância das leis universais faz-nos ter aversão aos nossos
males. Se compreendêssemos quanto esses males são necessários
ao nosso adiantamento, se soubéssemos saboreá-los em seu amargor,
não mais nos pareceriam um fardo. Porém, todos odiamos a dor e
só apreciamos a sua utilidade quando deixamos o mundo onde se exerce
o seu império. Ela faz jorrar de nós tesouros de piedade, de carinho
e afeição. Esses que não a têm conhecido estão
sem méritos; sua alma foi preparada muito superficialmente. Nesses, coisa
alguma está enraizada: nem o sentimento nem a razão. Visto não
terem passado pelo sofrimento, permanecem indiferentes, insensíveis aos
males alheios. Em nossa cegueira, estamos quase sempre prontos a amaldiçoar
as nossas vidas obscuras, monótonas e dolorosas; mas, quando elevamos
nossa vista acima dos horizontes limitados da Terra, quando discernimos o verdadeiro
motivo das existências, compreendemos que todas elas são preciosas,
indispensáveis para domar os espíritos orgulhosos, para nos submeter
a essa disciplina moral, sem o que não há progresso algum. Livres
em nossas ações, isentos de males, de cuidados, deixar-nos-íamos
impulsionar pelo sopro das paixões, deixar-nos-íamos arrebatar
pelo temperamento. Longe de trabalharmos pela nossa melhoria, nada mais faríamos
do que amontoar faltas novas sobre as faltas passadas; no entanto, comprimidos
pelo sofrimento, em existências humildes, habituamo-nos à paciência,
ao raciocínio, adquirimos essa calma de pensamento indispensável
àquele que quiser ouvir a voz da razão.
É no crisol da dor que se depuram as grandes almas. Às vezes,
sob nossa vista, anjos de bondade vêm tragar o cálice de amargura,
como exemplificação aos que são assustados pelos tormentos
da paixão. A prova é uma reparação necessária,
aceita com conhecimento de causa por muitos dentre nós. Oxalá
assim pensemos nos momentos de desânimo, e que o espetáculo dos
males suportados com essas grandes resignações nos dê a
força de conservarmo-nos fiéis aos nossos próprios compromissos,
às resoluções viris que tomamos antes de encarnar. A nova
fé resolveu o grande problema da depuração pela dor. As
vozes dos Espíritos animam-nos nas ocasiões críticas. Esses
mesmos que suportaram todas as agonias da existência terrestre dizem-nos
hoje: "Padeci, e só os sofrimentos é que me tornaram feliz.
Resgataram muitos anos de luxo e de ociosidade. A dor levou-me a meditar, a
orar e, no meio dos inebriamentos do prazer, jamais a reflexão salutar
deixou de penetrar minha alma, jamais a prece deixou de ser balbuciada pelos
meus lábios. Abençoadas sejam as minhas provações,
pois finalmente elas me abriram o caminho que conduz à sabedoria e à
verdade." Eis a obra do sofrimento! Não será essa a maior
de todas as obras que se efetuam na Humanidade? Ela se executa em silêncio,
secretamente, porém os seus resultados são incalculáveis.
Desprendendo a alma de tudo o que é vil, material e transitório
eleva-a, impulsando-a para o futuro, para os mundos que são a sua herança.
Fala-lhe de Deus e das leis eternas. Certamente, é belo ter um fim glorioso,
morrer jovem, lutando por seu país. A História registrará
o nome dos heróis, e as gerações renderão à
sua memória um justo tributo de admiração.
Mas, uma longa vida de dores, de males suportados pacientemente, é muito mais fecunda para o adiantamento do Espírito. Sem dúvida que a História não falará então a vosso respeito. Todas essas vidas obscuras e mudas, existências de luta silenciosa e de recolhimento, tombam no olvido, mas, esses que as enfrentaram encontram na luz espiritual a recompensa. Só a dor pode abrandar o nosso coração, avivar os fogos da nossa alma. É o cinzel que lhe dá proporções harmónicas, que lhe apura os contornos e a faz resplandecer em sua perfeita beleza. Uma obra de sacrifício, lenta, contínua, produz maiores efeitos que um ato sublime, porém insulado. Consolai-vos, pois, vós todos que sofreis, esquecidos na sombra de males cruéis, e vós que sois desprezados por causa da vossa ignorância e das vossas faculdades acanhadas. Sabeis que entre vós se acham Espíritos eminentes, que abandonaram por algum tempo as suas faculdades brilhantes, aptidões e talentos, e quiseram reencarnar como ignorantes para se humilharem. Muitas inteligências estão veladas pela expiação, mas, no momento da morte, esses véus cairão, deixando eclipsados os orgulhosos que antes as desdenhavam. Não devemos desprezar pessoa alguma. Sob humildes e disformes aparências, mesmo entre os idiotas e os loucos, grandes Espíritos ocultos na matéria expiam um passado tenebroso. Oh! vidas simples e dolorosas, embebidas de lágrimas, santificadas pelo dever; vidas de lutas e de renúncia, existências de sacrifício para a família, para os fracos, para os pequenos, mais meritórias que as dedicações célebres, vós sois outros tantos degraus que conduzem a alma à felicidade. É a vós, é às humilhações, é aos obstáculos de que estais semeadas que a alma deve sua pureza, sua força, sua grandeza. Vós somente, nas angústias de cada dia, nas imolações da matéria, conferis à alma a paciência, a resolução, a constância, todas as sublimidades da virtude, para então se obter essa coroa, essa auréola esplêndida, prometida no espaço para a fronte dos que sofrem, lutam e vencem!
Se há prova cruel, essa é a perda dos entes amados; é quando,
um após outro, os vemos desaparecer, levados pela morte, é quando
a solidão se faz pouco a pouco em torno de nós, cheia de silêncio
e trevas. É quando a velhice, gelada, muda, se adianta e vai colocando
o sinal em nossa fronte, amortecendo os nossos olhos, enrijando os nossos músculos,
curvando-nos ao seu peso, é quando vem, em seguida, a tristeza, o desgosto
de tudo e uma grande sensação de fadiga, uma necessidade de repouso,
uma espécie de sede do nada. Oh! nessa hora atribulada, nesse crepúsculo
da vida, como se rejuvenesce e reconforta o lampadário que brilha na
alma do crente, a fé no futuro infinito, nas novas vidas renascentes,
a fé na Justiça, na suprema Bondade! Essas partidas de todos os
que nos são caros são outros tantos avisos solenes; arrancam-nos
do egoísmo, mostram-nos a puerilidade das nossas preocupações
materiais, das nossas ambições terrestres, e convidam a nos prepararmos
para essa grande viagem. A perda de uma mãe é irreparável.
Quanto vácuo em nós, ao nosso redor, assim que essa amiga, a melhor,
a mais antiga e mais certa de todas, desce ao túmulo; assim que esses
olhos, que nos contemplaram com amor, se fecham para sempre; assim que esses
lábios, que tantas vezes repousaram sobre nossa fronte, se esfriam!
O amor de uma mãe não será o que há de mais puro,
de mais desinteressado? Não será como que um reflexo da bondade
de Deus? A morte dos filhos também é fonte de amargos dissabores.
Um pai, uma mãe não poderiam, sem grande mágoa, ver desaparecer
o objeto da sua afeição. É nessas ocasiões que a
filosofia dos Espíritos é de grande auxílio. Aos nossos
pesares, à nossa dor de ver essas existências promissoras tão
cedo interrompidas ela responde que a morte prematura é, muitas vezes,
um bem para o Espírito que parte e se acha livre dos perigos e das seduções
da Terra.
Essa vida tão curta — para nós inexplicável mistério — tinha sua razão de ser. A alma confiada aos nossos cuidados, às nossas carícias veio para completar a obra que deixara inacabada em encarnação anterior. Não vemos as coisas senão pelo prisma humano, e daí resultam os erros. A passagem desses entes sobre a Terra ter-nos-á sido útil, fazendo brotar do nosso coração essas santas emoções da paternidade, esses sentimentos delicados que nos eram desconhecidos, porém que, produzindo o enternecimento, nos tornarão melhores. Ela formará laços assaz poderosos que nos liguem a esse mundo invisível, onde todos nos deveremos reunir... É nisso que consiste a beleza da doutrina dos Espíritos. Assim, esses seres não estão perdidos para nós. Deixam-nos por um instante, mas, finalmente, deveremos juntar-nos a eles. Mas, que digo eu, a nossa separação só é aparente. Essas almas, esses filhos, essa mãe bem-amada estão perto de nós. Seus fluidos, seus pensamentos envolvem-nos; seu amor protege-nos. Podemos mesmo comunicar-nos com eles, recebermos suas animações, seus conselhos. Sua afeição para conosco não ficou desvanecida, pois a morte tornou-a mais profunda, mais esclarecida. Eles exortam-nos a desviar para longe essa tristeza vã, essas mágoas estéreis, cujo espetáculo os torna infelizes. Suplicam-nos que trabalhemos com coragem e perseverança para o nosso melhoramento, a fim de tornarmos a encontrá-los, de nos reunirmos a eles na vida espiritual. É um dever lutar contra a adversidade. Abandonar-nos, deixar-nos levar pela preguiça, sofrer sem reagir os males da vida seria uma covardia. Mas, quando os nossos esforços se tornam supérfluos, quando tudo é inevitável, chega então o momento de apelarmos à resignação.
Nenhum poder seria capaz de desviar de nós as consequências do
passado. Revoltar-nos contra a lei moral seria tão insensato como o querermos
resistir às leis de extensão e gravidade. Um louco pode procurar
lutar contra a ordem imutável das coisas, mas o espírito sensato
acha na provação os meios de retemperar, de fortificar as suas
qualidades viris. A alma intrépida aceita os males do destino, mas, pelo
pensamento, eleva-se acima deles e daí faz um degrau para atingir a virtude.
As aflições mais cruéis, as mais profundas, quando são
aceitas com essa submissão, que é o consentimento da razão
e do coração, indicam, geralmente, o término dos nossos
males, o pagamento da última fração do nosso débito.
É o momento decisivo em que nos cumpre permanecer firmes, fazendo apelo
a toda a nossa resolução, a toda a nossa energia moral, a fim
de sairmos vitoriosos da prova e recolhermos os benefícios que ela nos
oferece. Muitas vezes, nos momentos críticos, o pensamento da morte vem
visitar-nos. Não é repreensível o solicitar a morte, ela,
porém, só é realmente desejável quando se triunfa
de todas as paixões. Para que desejar a morte, quando, não estando
ainda curados os nossos vícios, precisamos novamente voltar para nos
purificarmos em penosas encarnações? Nossas faltas são
como túnica de Nesso apegada ao nosso ser, e de que somente nos poderemos
desembaraçar pelo arrependimento e pela expiação.
A dor reina sempre como soberana sobre o mundo; todavia, um exame atento mostra-nos
com que sabedoria e previdência a vontade divina regulou os seus efeitos.
Gradativamente, a Natureza encaminha-se para uma ordem de coisas menos terrível,
menos violenta. Nas primeiras idades do nosso planeta, a dor era a única
escola, o único aguilhão para os seres. Mas, pouco a pouco, atenua-se
o sofrimento; males medonhos — a peste, a lepra, a fome — desaparecem.
Já os tempos em que vivemos são menos ásperos do que os
do passado. O homem domou os elementos, reduziu as distâncias, conquistou
a Terra. A escravidão não mais existe. Tudo evolve, tudo progride.
Lentamente, mas com segurança, o mundo e a própria Natureza aprimoram-se.
Tenhamos confiança na potência diretora do Universo. Nosso
espírito acanhado não poderia julgar o conjunto dos meios de que
ela se serve. Só Deus tem noção exata dessa cadência
rítmica, dessa alternativa necessária da vida e da morte, da noite
e do dia, da alegria e da dor, de que se destacam, finalmente, a felicidade
e o aperfeiçoamento das suas criaturas. Deixemos--Ihe, pois, o cuidado
de fixar a hora da nossa partida e esperemo-la sem desejá-la e sem temê-la.
Também vê o que a espera. As imagens fluídicas dos seus
atos de sacrifício e de renúncia, seus pensamentos generosos,
tudo a precedeu, assinalando, como balizas brilhantes, a estrada da sua ascensão.
São esses os tesouros da vida nova. Ela distingue tudo isso e seu olhar
eleva-se ainda mais alto, lá, onde ninguém vai senão com
a luz na fronte, o amor e a fé no coração.
Perante esse espetáculo, uma alegria celeste penetra-a; quase lastima
não ter sofrido por mais tempo. Uma derradeira prece, uma espécie
de grito de alegria irrompe das profundezas do seu ser e sobe ao Pai e ao seu
Mestre bem-amados. Os ecos no espaço perpetuam esse grito de liberdade,
ao qual se juntam os cânticos dos Espíritos felizes que, em
multidão, se apressam a recebê-la. Enfim, o ciclo das provas está
percorrido; o justo sente que o termo está próximo. As coisas
da Terra empalidecem pouco a pouco aos seus olhos. O Sol parece-lhe suave, as
flores, sem cor, o caminho, mais desbastado. Cheio de confiança, vê
aproximar-se a morte. Não será ela a calma após a tempestade,
o porto depois de travessia procelosa? Como é grande o espetáculo
oferecido à alma resignada que se apresta para deixar a Terra após
uma vida dolorosa! Atira um último olhar sobre seu passado; revê,
numa espécie de penumbra, os desprezos suportados, as lágrimas
concentradas, os gemidos abafados, os sofrimentos corajosamente sustentados.
Docemente, sente-se desprender dos laços que a prendiam a este mundo.
Vai abandonar seu corpo de lama, deixar para bem longe todas as podridões
materiais. Que poderia temer? Não deu ela provas de abnegação,
não sacrificou seus interesses à verdade, ao dever? Não
esgotou, até o fim, o cálice purificador?
10 - EMMANUEL - EMMANUEL - DOUTRINANDO A FÉ ÍTEM 1 - AS ALMAS ENFRAQUECIDAS - PÁG. 21
Minhas palavras de hoje são dirigidas aos que ingressam nos estudos espiritistas, tangidos pelos azorragues impiedosos do sofrimento; no auge das suas dores, recorreram ao amparo moral que lhes oferecia a doutrina e sentiram que as tempestades amainavam... Seus corações reconhecidos voltaram-se então para as coisas espirituais; todavia, os tormentos não desapareceram. Passada uma trégua ligeira, houve recrudescência de prantos amargos. Experimentando as mesmas torturas, sentem-se vacilantes na fé e baldos do entusiasmo das primeiras horas e é comum ouvirem-se as suas exclamações: — "Já não tenho mais fé, já não tenho mais esperanças..." Invencível abatimento invade-lhes os corações tíbios e enfraquecidos na luta, desamparados na sua vontade titubeante e na sua inércia espiritual. Essas almas não puderam penetrar o espírito da doutrina, vogando apenas entre as águas das superficialidades. O QUE É O MODERNO ESPIRITUALISMO: O moderno Espiritualismo não vem revogar as leis diretoras da evolução coletiva. As suas concepções avançadas representam um surto evolutivo da Humanidade, uma época de mais compreensão dos problemas da vida, sem oferecer talismãs ou artes mágicas, com a pretensão de derrogar os estatutos da Natureza. Desvenda ao homem um fragmento dos véus que encobrem o destino do ser imortal e ensina-lhe que a luta é o veículo do seu progresso e da sua redenção. Traz consigo o nobre objetivo de enriquecer, com as suas benditas claridades, os homens que as aceitam, longe da vaidade de prometer-lhes fortunas e gozos terrestres, bens temporais que apenas servem para fortificar as raízes do egoísmo em seus corações, agrilhoando-os ao potro das gerações dolorosas.
NECESSIDADE DO ESFORÇO PRÓPRIO: Pergunta-se,
às vezes, por que razão não obstam os Espíritos
esclarecidos, que em todos os tempos acompanham carinhosamente a marcha dos
acontecimentos do orbe, as guerras que dizimam milhões de existências
e empobrecem as coletividades, influenciando os diretores de movimentos subversivos
nos seus planos de gabinete; inquire-se o porquê das existências
amarguradas e aflitas de muitos dos que se dedicam ao Espiritismo, dando-lhes
o melhor de suas forças e sempre torturados pelas provas mais amargas
e pelos mais acerbos desgostos. Daqui, contemplamos melancolicamente essas almas
desesperadas e desiludidas, que nada sabem encontrar além das puerilidades
da vida. Em desencarnando, não entra o Espírito na posse de poderes
absolutos. A morte significa apenas uma nova modalidade de existência,
que continua, sem milagres e sem saltos. É necessário encarar-se
a situação dos desencarnados com a precisa naturalidade.
Não há forças miraculosas para os seres humanos, como não
existem igualmente para nós. O livre-arbítrio relativo nunca é
abrogado em todos nós; em conjunto, somos obrigados, em qualquer plano
da vida, a trabalhar pelo nosso próprio adiantamento. A
PRECE: Faz-se preciso que o homem reconheça a necessidade da
luta como a do pão cotidiano. A crença deve ser a bússola,
o farol nas obscuridades que o rodeiem na existência passageira e a prece
deve ser cultivada, não para que sejam revogadas as disposições
da lei divina, mas a fim de que a coragem e a paciência inundem o coração
de fortaleza nas lutas ásperas, porém necessárias. A alma,
em se voltando para Deus, não deve ter em mente senão a humildade
sincera na aceitação de sua vontade superior.
AOS ENFRAQUECIDOS NA LUTA: Almas enfraquecidas,
que tendes, muitas vezes, sentido sobre a fronte o sopro frio da adversidade,
que tendes vertido muitos prantos nas jornadas difíceis, em estradas
de sofrimentos rudes, buscai na fé os vossos imperecíveis tesouros!
Bem sei a intensidade da vossa angústia e sei de vossa resistência
ao desespero. Ânimo e coragem! No fim de todas as dores, abre-se uma aurora
de ventura imortal; dos amargores experimentados, das lições recebidas,
dos ensinamentos conquistados à custa de insano esforço e de penoso
labor, tece a alma sua auréola de eternidade gloriosa; eis que os túmulos
se quebram e da paz cheia de cinzas e sombras, dos jazigos, emergem as vozes
comovedoras dos mortos. Escutai-as!... elas vos dizem da felicidade do dever
cumprido, dos tormentos da consciência nos desvios das obrigações
necessárias. Orai, trabalhai e esperai. Palmilhai todos os caminhos da
prova com destemor e serenidade. As lágrimas que dilaceram, as mágoas
que pungem, as desilusões que fustigam o coração, constituem
elementos atenuantes da vossa imperfeição, no tribunal augusto,
onde pontifica o mais justo, magnânimo e íntegro dos juizes. Sofrei
e confiai, que o silêncio da morte é o ingresso para uma outra
vida, onde todas as ações estão contadas e gravadas as
menores expressões dos nossos pensamentos. Amai muito, embora com amargos
sacrifícios, porque o amor é a única moeda que assegura
a paz e a felicidade no Universo.
14 - JUSTIÇA DIVINA - EMMANUEL - NO GRANDE ADEUS - PÁG. 164
Reunião
pública de 3-11-61 2ª Parte, cap. I, item 13: Cerraste os olhos
dos entes amados, orvalhando-lhes o rosto inerte com as lágrimas que
te corriam da ternura despedaçada, e inquiriste, sem palavras, para onde
se dirigiam no grande silêncio. Disseste adeus, procurando debalde aquecer-lhes
as mãos frias, desfalecentes nas tuas, e colaste neles o ouvido atento,
no peito hirto, indagando do coração prostrado a razão
por que parou de bater. Entretanto, o vaso impassível nada pode informar,
quanto à destinação do perfume.
Ergue as antenas da prece, no santuário da tua alma, e perceberás
o verbo inarticulado dos que partiram... Saberás, então, que te
comungam a dor, estendendo-te as mãos ansiosas. Arrojados à vida
nova, querem dizer-te que ressurgiram. Extasiados, perante o sol que a imortalidade
lhes apresenta, suspiram por transfundir a saudade e o amor, no cálice
da esperança, para que não desfaleças.
Libertos do cárcere em que ainda te encontras, rogam-te paz e conformação,
para que possam, enfim, demandar a renascente manhã que lhes acena
dos cimos... Não lhes craves nos ombros a cruz da aflição,
nem lhes turves a mente, no nevoeiro de pranto que te verte da angústia.
Honra-lhes a memória, abraçando os deveres que te legaram, e ajuda-os
para que avancem com a tua bênção, de modo a te prepararem
lugar, na pátria comum, em que todos nos reuniremos um dia. São
agora companheiros que te pedem fidelidade e consolo para que te confortem,
à maneira da árvore que solicita a rega da fonte a fim de preservá-la
contra a secura. Ante o fel da separação, trabalha com paciência
e confia neles!... E quando a agonia da suposta distância te constrinja
os refolhos do espírito, deixa que eles próprios te falem ao pensamento,
sob a luz da oração.
15 - O ESPÍRITO DA VERDADE- PÁG. 63, 72, 155
FAZENDO
SOL - Cap. V — Item 18:
Amanheceste chorando pêlos que te não compreendem. Amigos duetos
rixaram contigo. Nos mais amados, viste o retrato da ingratidão. Aspiravas
a desentranhar o carinho nos corações queridos, com a pureza e
a simplicidade da abelha que extrai o néctar das flores sem alterá-las,
e, porque não conseguiste, queres morrer... Não te encarceres,
porém, nos laços do desespero. Afirmas-te à procura do
amor, mas não te recordas daqueles para quem o teu simples olhar seria
assim como o sorriso da estrela, descerrado nas trevas. Mostram a cabeça
encanecida, à feição de nossos pais, são irmãos
semelhantes a nós ou são jovens e crianças que poderiam
ser nossos filhos... Contudo, estiram-se em leitos de pedra ou refugiam-se em
antros, fincados no solo, quais se fossem proscritos atormentados. Não
te pedem mais que um pão, a fim de que se lhes restaurem as energias
do corpo enfermo, ou uma palavra de esperança que lhes console a alma
dorida.
Não percas o tesouro das horas, na aflição sem proveito.Podes
ser, ainda hoje, o apoio dos que esmorecem, desalentados, ou a luz dos que jazem
nas sombras; podes estender o cobertor agasalhante sobre aqueles a quem a noite
pede perdão por ser longa e fria, aliviar o suplício dos companheiros
que a moléstia carcome ou dizer a frase calmante para os que enlouqueceram
de sofrimento...Sai, pois, de ti mesmo para conhecer a glória de amar!..
Perceberás, então, que a existência na Terra é apenas
um dia na eternidade, aprendendo a iluminá-la de amor, como quem anda
fazendo sol, nos caminhos da vida, e encontrarás, mais tarde, em cânticos
de alegria, todos aqueles que te não amam agora, amando-te muito mais,
por te buscarem a luz no instante do entardecer. Meimei
LIÇÕES DO MOMENTO - Cap. V — Item
4: Deus é amor invariável e o amor desafivela os grilhões
do espírito. Se há repouso na consciência, a evolução
da alma ergue-se, desenvolta, dos alicerces insubstituíveis do sacrifício.
Quem não se bate pelo bem, desce imperceptivelmente para as fileiras
do mal. Junto à correção sempre existe o desacerto, exaltando
o mérito do dever na conduta digna. Identifique, na dificuldade, o favor
da Providência Divina para dilatar-lhe a paz, sentindo, no imprevisto
da experiência mais grave, o fulcro de incitamento à perseverança
na boa intenção e vendo, na tibiez de quantos imergiram na invigilância,
o exemplo indelével daquilo que não deve ser feito. Quanto maior
a sombra em torno, mais valiosa a fonte da luz. Desse modo, a alegria pura viceja
entre a dor e o obstáculo; a resignação santificante nasce
em meio às provas difíceis; a renúncia intrépida
irrompe no seio da injustiça das emulações acirradas, e
a pureza construtiva surge, não raro, em ambiente de viciação
mais ampla.
Eis por que, em seu círculo pessoal, se entrecruzam mensagens importantes
e diversas a lhe doarem o estímulo e a consolação, o entendimento
e a claridade de que você carece para ajustar-se espiritualmente, através
das lides variadas de cada instante. O chefe irritadiço é instrumento
providencial da corrigenda. O companheiro problemático deixa-nos livre
caminho à sementeira da fraternidade sem mescla.
O engano é precioso contraste a ressaltar as linhas configurativas da
atitude melhor. A tortuosidade do caminho demonstra a excelência da estrada
reta. Faça, pois, do momento que transcorre, a lição recolhida
para o momento a transcorrer, verificando quantas vezes, em vinte e quatro horas,
você é requisitado a auxiliar os semelhantes, e não regateie
cooperação. Na oficina de trabalho, buscam-lhe a gentileza no
amparo de muitos corações que se sentem ao desabrigo. Na via pública,
esbarram-lhe o passo, companheiros que vão e vêm buscando encontrar
o sorriso que você pode ofertar-lhes como incentivo à esperança.
No recesso do lar, o alvorecer encontra-lhe a presença, em novas possibilidades
de exaltar a confiança nos Desígnios da Altura. Na conversação
comum, requisições ostensivas auscultam-lhe a disposição
de estender conhecimento e virtude, na enfermagem das chagas morais entrevistas
na modulação das vozes e nos traços dos semblantes, afora
variegados ensejes de assistir o próximo, a lhe desafiarem a eficiência
e a vigilância, tais como a necessidade intrior estampada no silêncio
do visitante, o azedume do colega menos feliz, o doente a buscar-lhe os préstimos,
o sofredor a rogar-lhe compreensão, a abordagem da criancinha desvalida,
a surpresa menos agradável, a correspondência a exigir-lhe a atenção
ou o noticiário intranquilo que a imprensa propala. Pureza inoperante
é utopia igual a qualquer outra, e, em razão disso, ignorar a
poça infecta é manter-lhe a inconveniência. Não menospreze,
assim, a lição do momento, na certeza de que renovamos idéias,
experiências e destinos, cada dia, segundo as particularidades das manifestações
do nosso livre-arbítrio.
COM
VOCÊ MESMO - Cap. V — Item 13
- Meu amigo, você clama contra as dificuldades do mundo, mas será
que você já pensou nas facilidades em suas mãos ? Observemos.
Você concorre, em tempo determinado, para exonerar-se da multa legal,
com expressiva taxa pelo consumo de luz e força elétricas; todavia,
a usina solar que lhe fornece claridade, calor e vida, nem é assinalada
comumente pela sua memória...Você salda, periodicamente, largas
contas relativas ao gasto de água encanada; no entanto, nem se lembra
da gratuidade da água das chuvas e das fontes a enriquecer-lhe os dias...Você
estipendia na feira, com apreciáveis somas, todo gênero alimentício
que lhe atenda ao paladar; contudo, o oxigênio — elemento mais importante
a sustentar-lhe o organismo — é utilizado em seu sangue sem pesar-lhe
no orçamento com qualquer preocupação...Você resgata
com a loja novos débitos, cada vez que renova o guarda-roupa, e, apesar
disso, nunca inventariou os bens que deve ao corpo de carne a resguardar-lhe
o espírito...Você remunera o profissional especializado pela adaptação
de um só dente artificial; entretanto, nada despendeu para obter a dentadura
natural completa...Você compra a drágea medicamentosa para leve
dor de cabeça; todavia, recebe de graça a faculdade de articular,
instante a instante, os mais complicados pensamentos. ..
Você gasta quantias estimáveis para assistir a esse ou àquele
espetáculo esportivo ou à exibição de um filme;
contudo, guarda sem sacrifício algum a possibilidade de contemplar o
solo cheio de flores e o céu faiscante de estrelas...Você paga
para ouvir simples melodia de um conjunto orquestral; no entanto, ouve diariamente
a divina música da natureza, sem consumir vintém...Você
desembolsa importâncias enormes para adquirir passagens e indenizar hospedarias,
sempre que se desloca de casa; não obstante, passa-lhe despercebido o
prêmio vultoso que recebeu com o próprio ingresso na romagem terrestre...Não
desespere e nem se lastime... Atendamos à realidade, compreendendo que
a alegria e a esperança, expressando créditos infinitos de Deus,
são os motivos básicos da vida a erguer-se, cada momento, por
sinfonia maravilhosa. André Luiz
16 - O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO - ALLAN KARDEC - CAP. V
JUSTIÇA DAS AFLIÇÕES:
As compensações que Jesus promete aos aflitos da Terra só
podem realizar-se na vida futura. Sem a certeza do porvir, essas máximas
seria um contra-senso, ou mais ainda, seria um engodo. Mesmo com essa certeza,
compreende-se dificilmente a utilidade de sofrer para ser feliz. Diz-se que
é para haver mais mérito. Mas, então, se pergunta: por
que uns sofrem mais do que outros; por que uns nascem na miséria e outros
na opulência, sem nada terem feito para justificar essa posição;
por que para uns nada dá certo, enquanto para outros tudo parece sorrir?
Mas o que ainda menos se compreende é ver os bens e os males tão
desigualmente distribuídos entre o vício e a virtude; ver homens
virtuosos sofrer ao lado de malvados que prosperam. A fé no futuro pode
consolar e proporcionar paciência, mas não explica essas anomalias,
que parecem desmentir a justiça de Deus. Entretanto, desde que se admite
a existência de Deus, não é possível concebê-lo
sem suas perfeições infinitas. Ele deve ser todo-poderoso, todo
justiça, todo bondade, pois sem isso não seria Deus. E se Deus
é soberanamente justo e bom, não pode agir por capricho i ou com
parcialidade. As vicissitudes da vida têm, pois, uma causa, e como Deus
é justo, essa causa deve ser justa. Eis do que todos devem compenetrar-se.
Deus encaminhou os homens na compreensão dessa causa pelos ensinos de
Jesus, e hoje, considerando-os suficientemente maduros para compreendê-la,
revela-a por completo através do Espiritismo, ou seja, pela voz dos Espíritos.
CAUSAS ATUAIS DAS AFLIÇÕES: As vicissitudes
da vida são de duas espécies, ou se, quisermos, têm duas
origens bem diversas, que importa distinguir: umas têm sua causa na vida
presente; outras, fora desta vida. Remontando à fonte dos males terrenos,
reconhece-se que muitos são a consequência natural do caráter
e da conduta daqueles que os sofrem. Quantos homens caem por sua própria
culpa! Quantos são vítimas de sua imprevidência, de seu
orgulho e de sua ambição! Quantas pessoas arruinadas por falta
de ordem, de perseverança, por mau comportamento ou por não terem
limitado os seus desejos! Quantas uniões infelizes, porque resultaram
dos cálculos do interesse ou da vaidade, nada tendo com isso o coração!
Que de dissensões, de disputas funestas, poderiam ser evitadas com mais
moderação e menos suscetibilidade! Quantas doenças e aleijões
são o efeito da intemperança e dos excessos de toda ordem! Quantos
pais infelizes com os filhos, por não terem combatido as suas más
tendências desde o princípio. Por fraqueza ou indiferença,
deixaram que se desenvolvessem neles os germes do orgulho, do "egoísmo
e da tola vaidade, que ressecam o coração. Mais tarde, co-Ilhendo
o que semearam, admiram-se e afligem-se com a sua falta de respeito e a sua
ingratidão. Que todos os que têm o coração ferido
pelas vicissitudes e decepções da vida, interroguem friamente
a própria consciência. Que remontem passo a passo à fonte
dos males que os afligem, e verão se, na maioria das vezes, não
podem dizer: "Se eu tivesse ou não tivesse feito tal coisa, não
estaria nesta situação."
A quem, portanto, devem todas essas aflições, senão a si
mesmos? O homem é, assim, num grande número de casos, o autor
de seus próprios infortúnios. Mas, em vez de reconhecê-lo,
acha mais simples, e menos humilhante para a sua vaidade, acusar a sorte, a
Providência, a falta de oportunidade, sua má estrela, enquanto,
na verdade, sua má estrela é a sua própria incúria.
Os males dessa espécie constituem, seguramente, um número, considerável
das vicissitudes da vida. O homem os evitará, quando trabalhar para o
seu adiantamento moral e intelectual. lei humana alcança certas faltas
e as pune. O condenado pode então dizer que sofreu a consequência
do que praticou. Mas a lei não alcança nem pode alcançar
a todas as faltas. Ela castiga especialmente as que causam prejuízos
à sociedade, e não as que prejudicam apenas os que as cometem.
Mas Deus vê o progresso de todas as criaturas. Eis por que não
deixa impune nenhum desvio do caminho reto. Não há uma só
falta, por mais leve que seja, uma única infração à
sua lei, que não tenha consequências forçosas e inevitáveis,
mais ou menos desagradáveis. Donde se segue que, nas pequenas como nas
grandes coisas, o homem é sempre punido naquilo em que pecou. Os sofrimentos
consequentes são então uma advertência de que ele andou
mal. Dão-lhe a experiência e o fazem sentir a diferença
entre o bem e o mal, bem como a necessidade de se melhorar, para evitar no futuro
o que já foi para ele uma causa de mágoas. Sem isso, ele não
teria nenhum motivo para se emendar, e, confiante na impunidade, retardaria
o seu adiantamento, e, portanto, a sua felicidade futura.
Mas a experiência chega, algumas vezes, um pouco tarde; e quando a vida
já foi desperdiçada e perturbada, gastas as forças, e o
mal é irremediável, então o homem se surpreende a dizer:
"Se no começo da vida eu soubesse o que hoje sei, quantas faltas
teria evitado; se tivesse de recomeçar, eu me portaria de maneira inteiramente
outra; mas já não há mais tempo!" Como o trabalhador
preguiçoso que diz: "Perdi o meu dia", ele também diz:
"Perdi a minha vida." Mas, assim como para o trabalhador o sol nasce
no dia seguinte, e começa uma nova jornada, em que pode recuperar o tempo
perdido, para ele também brilhará o sol de uma vida nova, após
a noite do túmulo, e na qual poderá aproveitar a experiência
do passado e pôr em execução suas boas resoluções
para o futuro.
CAUSAS ANTERIORES DAS AFLIÇÕES:
Mas se há males, nesta vida, de que o homem é a própria
causa, há também outros que, pelo menos em aparência, são
estranhos à sua vontade e parecem golpeá-lo por fatalidade. Assim,
por exemplo, a perda de entes queridos e dos que sustentam a família.
Assim também os acidentes que nenhuma previdência pode evitar;
os reveses da fortuna, que frustram todas as medidas de prudência; os
flagelos naturais; e ainda as doenças de nascença, sobretudo aquelas
que tiram aos infelizes a possibilidade de ganhar a vida pelo trabalho: as deformidades,
a idiotia, a imbecilidade etc. Os que nascem nessas condições,
nada fizeram, seguramente, nesta vida, para merecer uma sorte tão triste,
sem possibilidade de compensação, e que eles não puderam
evitar, sendo impotentes para modificá-las e ficando à mercê
da comiseração pública. Por que, pois, esses seres tão
desgraçados, enquanto ao seu lado, sob o mesmo teto e na mesma família,
outros se apresentam favorecidos em todos os sentidos?
Que dizer, por fim, das crianças que morrem em tenra idade e só
conheceram da vida o sofrimento? Problemas, todos esses que nenhuma filosofia
resolveu até agora, anomalias que nenhuma religião pôde
justificar, e que seriam a negação da bondade, da justiça
e da providência de Deus, segundo a hipótese da criação
da alma ao mesmo tempo que o corpo, e da fixação irrevogável
da sua sorte, após a permanência de alguns instantes na Terra.
Que fizeram elas, essas almas que acabam de sair das mãos do Criador,
para sofrerem tantas misérias no mundo, e receberem, no futuro, uma recompensa
uma punição qualquer, se não puderem seguir nem o bem nem
o mal? Entretanto, em virtude do axioma de que todo efeito tem uma causa, essas
misérias são efeitos que devem ter a sua causa, e desde que se
admita a existência de um Deus justo, essa causa deve ser justa. Ora,
a causa sendo sempre anterior ao efeito, e desde que i não se encontra
na vida atual, é que pertence a uma existência precedente.
Por outro lado, Deus não podendo punir pelo bem que se fez, nem pelo
mal que não se fez, se somos punidos, é que fizemos o mal. E se
não fizemos o mal nesta vida, é que o fizemos em outra. Esta é
uma alternativa a que não podemos escapar, e na qual a lógica
nos diz de que lado está a justiça de Deus.
O homem não é, portanto, punido sempre, ou completamente punido,
na sua existência presente, mas jamais escapa às consequências
de suas faltas. A prosperidade do mau é apenas momentânea, e se
ele não expia hoje, expiará amanhã, pois aquele que sofre
está sendo submetido à expiação do seu próprio
passado. A desgraça que, à primeira vista, parece imerecida, tem
portanto a sua razão ser, e aquele que sofre pode sempre dizer: "Perdoai-me,
Senhor, porque eu pequei." Os sofrimentos produzidos por causas anteriores
são sempre, como os decorrentes de causas atuais, uma consequência
natural da própria falta cometida. Quer dizer que, em virtude de uma
rigorosa justiça distributiva, o homem sofre aquilo que fez os outros
sofrerem. Se ele foi duro e desumano, poderá ser, por sua vez, tratado
com dureza e desumanidade; se foi orgulhoso, poderá nascer numa condição
humilhante; se foi avarento, egoísta, ou se empregou mal a sua fortuna,
poderá ver-se privado do necessário; se foi mau filho, poderá
sofrer com os próprios filhos e assim por diante. É dessa maneira
que se explicam, pela pluralidade das existências, e pelo destino da Terra,
como mundo expiatório que e, as anomalias da distribuição
da felicidade e da desgraça, entre os bons e os maus neste mundo. Essa
anomalia é apenas aparente, porque só encaramos o problema em
relação à vida presente; mas quando nos elevamos, pelo
pensamento, de maneira a abranger uma série de existências, compreendemos
que a cada um é dado o que merece, sem prejuízo do que lhe cabe
no mundo dos Espíritos, e que a justiça de Deus nunca falha.
O homem não deve esquecer-se jamais de que está num mundo inferior,
onde só é retido pelas suas imperfeições. A cada
vicissitude deve lembrar que, se estivesse num mundo mais avançado, não
teria de sofrê-la, e que dele depende não voltar a este mundo,
desde que trabalhe para se melhorar. As tribulações da vida podem
ser impostas aos Espíritos endurecidos, ou demasiado ignorantes para
fazerem uma escolha consciente, mas são livremente escolhidas e aceitas
pelos Espíritos arrependidos, que querem reparar o mal que fizeram e
tentar fazer, melhor. Assim é aquele que, tendo feito mal a sua tarefa,
pede para recomeçá-la, a fim de não perder as vantagens
do seu trabalho.! Essas tribulações, portanto, são ao mesmo
tempo expiações do, passado, que castigam, e provas para o futuro,
que preparam. Rendamos graças a Deus que, na sua bondade, concede aos
homens a faculdade da reparação, e não os condena irremediavelmente
pela primeira falta.
Não se deve crer, entretanto, que todo sofrimento por que se passa neste
mundo seja necessariamente o indício de uma determinada falta: trata-se,
frequentemente, de simples provas escolhidas pelo Espírito, para acabar
a sua purificação e acelerar o seu adiantamento. Assim, a expiação
serve sempre de provas, mas a prova nem sempre é uma expiação.
Mas provas e expiações são sempre sinais de uma inferioridade
relativa, pois aquele que é perfeito não precisa de ser provado.
Um Espírito pode, portanto, ter conquistado um certo grau de elevação,
mas querendo avançar mais, solicita uma missão, uma tarefa, pela
qual será tanto mais recompensado, se sair vitorioso, quanto mais penosa
tiver sido a luta. Esses são, mais especialmente, os casos das pessoas
de tendências naturalmente boas, de alma elevada, de sentimentos nobres
inatos, que parecem nada trazer de mau de sua precedente existência, e
que sofrem com resignação cristã as maiores dores, pedindo
forças a Deus para suportá-las sem reclamar. Podem-se, ao contrário,
considerar como expiações as aflições que provocam
reclamações e levam o homem à revolta contra Deus. O sofrimento
que não provoca murmurações pode ser, sem dúvida,
uma expiação, mas indica que foi antes escolhido voluntariamente
do que imposto; é a prova de uma firme resolução, o que
constitui sinal de progresso.
Os Espíritos não podem aspirar à perfeita felicidade, enquanto
não estão puros: toda mancha lhes impede a entrada nos mundos
felizes. Assim acontece com os passageiros de um navio tornado pela peste, aos
quais fica impedida a entrada numa cidade, ale que estejam purificados. É
nas diversas existências corpóreas que os Espíritos se livram,
pouco a pouco, de suas imperfeições. As provas da vida fazem progredir,
quando bem suportadas; como expiações, apagam as faltas e purificam;
são o remédio que limpa; ferida e cura o doente, e quanto mais
grave o mal, mais enérgico deve ser o remédio. Aquele, portanto,
que muito sofre, deve dizer que tinha muito a expiar e alegrar-se de ser curado
logo. Dele depende, por meio da resignação, tornar proveitoso
o seu sofrimento e não perder os seus resultados por causa de reclamações,
sem o que teria de recomeçar.
17 - O LIVRO DOS ESPÍRITOS - ALLAN KARDEC - QUESTÕES:
113,133, 491
Perg.
133 Os Espíritos que, desde o princípio, seguiram o caminho do
bem, têm necessidade da encarnação? - Todos são criados
simples e ignorantes e se instruem por meios das lutas e tribulações
da vida corporal. Deus, que é justo, não podia fazer felizes a
alguns, sem penas e sem trabalhos, e por conseguinte sem mérito.
Perg. 133a. Mas, então, de que serve aos Espíritos seguirem o
caminho do bem, se isso não os isenta das penas da vida corporal? - Chegam
mais depressa ao alvo. Além disso, as penas da vida são frequentemente
a consequência da imperfeição do Espírito. Quanto
menos imperfeito ele for, menos tormentos soferá. Aquele que não
for invejoso, nem ciumento, nem avarento ou ambicioso, não passará
pelos tormentos que se originam desses defeitos.
Perg. 491. Qual a missão do Espírito protetor? - A de um pai com
os filhos: conduzir o seu protegido pelo bom caminho, ajudá-lo com os
seus conselhos, consolá-lo nas suas aflições, sustentar
sua coragem nas provas da vida.
18 - PÃO NOSSO - EMMANUEL - PÁG. 27, 137
ÍTEM
8 - ANSIEDADES - PÁG. 27
"Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado
de vós." — (I pedro, 5:7.) - As ansiedades armam muitos crimes
e jamais edificam algo de útil na Terra. Invariavelmente, o homem precipitado
conta com todas as probabilidades contra si. Opondo-se às inquietações
angustiosas, falam as lições de paciência da Natureza, em
todos os setores do caminho humano. Se o homem nascesse para andar ansioso,
seria dizer que veio ao mundo, não na categoria de trabalhador em tarefa
santificante, mas por desesperado sem remissão. Se a criatura refletisse
mais sensatamente reconheceria o conteúdo de serviço que os momentos
decada dia lhe podem oferecer e saberia vigiar, com acentuado valor, os patrimônios
próprios.
Indubitável que as paisagens se modificarão incessantemente, compelindo-nos
a enfrentar surpresas desagradáveis, decorrentes de nossa atitude inadequada,
na alegria ou na dor; contudo, representa impositivo da lei a nossa obrigação
de prosseguir diariamente, na direção do bem. A ansiedade tentará
violentar corações generosos, porque as estradas terrenas desdobram
muitos ângulos obscuros e problemas de solução difícil;
entretanto, não nos esqueçamos da receita de Pedro. Lança
as inquietudes sobre as tuas esperanças em Nosso Pai Celestial, porque
o Divino Amor cogita do bem-estar de todos nós. Justo é desejar,
firmemente, a vitória da luz, buscar a paz com perseverança, disciplinar-se
para a união com os planos superiores, insistir por sintonizar-se com
as esferas mais altas. Não olvides, porém, que a ansiedade precede
sempre a ação de cair.
ÍTEM 63 - O SENHOR DÁ SEMPRE -PÁG.
137 :
"Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos
filhos, quanto mais dará o Pai Celestial o Espírito Santo àqueles
que lho pedirem?" — Jesus. (LUCAS, 11:13.) - Um pai terrestre, não
obstante o carinho cego com que muitas vezes envolve o coração,
sempre sabe cercar o filho de dádivas proveitosas. Por que motivo o Pai
Celestial, cheio de sabedoria e amor, permaneceria surdo e imóvel perante
as nossas súplicas? O devotamento paternal do Supremo Senhor nos rodeia
em toda parte. Importa, contudo, não viciarmos o entendimento. Lembremo-nos
de que a Providência Divina opera invariavelmente para o bem infinito.
Liberta a atmosfera asfixiante com os recursos da tempestade. Defende a flor
com espinhos. Protege a plantação útil com adubos desagradáveis.
Sustenta a verdura dos vales com a dureza das rochas. Assim também, nos
círculos de lutas planetárias, acontecimentos que nos parecem
desastrosos, à atividade particular, representam escoras ao nosso equilíbrio
e ao nosso êxito, enquanto que fenômenos interpretados como calamidades
na ordem coletiva constituem enormes benefícios públicos. Roga,
pois, ao Senhor a bênção da Luz Divina para o teu coração
e para a tua inteligência, a fim de que te não percas no labirinto
dos problemas; contudo, não te esqueças de que, na maioria das
ocasiões, o socorro inicial do Céu nos vem ao caminho comum, através
de angústias e desenganos. Aguarda, porém, confiante, a passagem
dos dias. O tempo é o nosso explicador silencioso e te revelará
ao coração a bondade infinita do Pai que nos restaura a saúde
da alma, por intermédio do espinho da desilusão ou do amargoso
elixir do sofrimento.
19 - RELIGIÃO DOS ESPÍRITOS - PÁG. 33
Examina
a própria aflição - Reunião pública de 13-2-59
- Questão N° 908
Examina a própria aflição para que não se converta
a tua inquietude em arrasadora tempestade emotiva.
Todas as aflições se caracterizam por tipos e nomes especiais.
A aflição do egoísmo chama-se egolatria.
A aflição do vício chama-se delinquência.
A aflição da agressividade chama-se cólera.
A aflição do crime chama-se remorso.
A aflição do fanatismo chama-se intolerância.
A aflição da fuga chama-se covardia.
A aflição da inveja chama-se despeito.
A aflição da leviandade chama-se insensatez.
A aflição da indisciplina chama-se desordem.
A aflição da brutalidade chama-se violência.
A aflição da preguiça chama-se rebeldia.
A aflição da vaidade chama-se loucura.
A aflição do relaxamento chama-se evasiva.
A aflição da indiferença chama-se desânimo.
A aflição da inutilidade chama-se queixa.
A aflição do ciúme chama-se desespero.
A aflição da impaciência chama-se intemperança.
A aflição da sovinice chama-se miséria.
A aflição da injustiça chama-se crueldade.
Cada criatura tem a aflição que lhe é própria.
A aflição do reino doméstico e da esfera profissional,
do raciocínio e do sentimento...
Os corações unidos ao Sumo Bem, contudo, sabem que suportar as
aflições menores da estrada é evitar as aflições
maiores da vida e, por isso, apenas eles, anônimos heróis da luta
cotidiana, conseguem receber e acumular em si mesmos os talentos de amor e paz
reservados por Jesus aos sofredores da Terra, quando pronunciou no monte a divina
promessa:
— «Bem-aventurados os aflitos!»
21 - INSTRUMENTOS DO TEMPO - EMMANUEL - PÁG. 86
AFLIÇÃO: Os aflitos classificam-se em variadas expressões. Temos aqueles que choram por se sentirem inibidos para a extensão do mal... Há quem se torture por não conseguir vingar-se. Existem os que se declaram infelizes com a prosperidade do próximo e se enfurecem com a impossibilidade de lhes ultrapassar o progresso econômico ou espiritual.
Aparecem aqueles que se afirmam desditosos por não poderem competir com o luxo de quem se confia à extravagância e à loucura. Surgem muitos em lágrimas de inveja e despeito, à frente dos vizinhos, interessados na educação e na melhoria da vida.
Há quem se revolte contra as bênçãos do trabalho e vocifera em desfavor da ordem que lhe assegura as vantagens da disciplina. Muitos exibem chagas de inconformação, ante o sofrimento que eles próprios improvisaram. Há infinitos gêneros de aflição no vasto caminho da vida.
E, por isso, nem todos os aflitos podem ser aquinhoados com a glória da bem-aventurança. A palavra do Cristo se dirige àqueles que fizeram da dor um instrumento para a elevação de si mesmos, assim como o artista se vale da pedra, a fim de burilar a obra prima de estatuária.
Acautela-te, se conservas alguma aflição particular. A angústia, muitas vezes, pode ser antecâmara do desequilíbrio. Converte o teu problema ou a tua mágoa em motivo de superação das próprias fraquezas, à maneira do lidador que aproveita o obstáculo para atingir os seus mais altos objetivos, e então terás convertido as inquietações do mundo em bem-aventuranças para felicidade sem fim.