ANJOS |
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BIBLIOGRAFIA |
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| 01- A gênese - cap. XI - pág. 43 | 02 - A loucura sob novo prisma - pág. 53 |
| 03 - Auxiliares invisíveis - pág. 41 | 04 - Caminho, verdade e vida - pág. 277 |
| 05 - Contos desta e doutra vida- pág. 27-5, 111-24 | 06 - Contos e apólogos - pág. 73 |
| 07 - Do país da luz - vol. 2 pág. 45 | 08 - Entre o céu e a Terra - pág. 143 |
| 09 - Inquisição - a época das trevas - pág. 34 | 10 - Jesus o verbo do Pai - pág. 200, 204 |
| 11 - Manual e dic. Bas.do Espiritismo - pág. 20 | 12 - O alvorecer da espiritualidade - pág. 18 |
| 13 - O céu e o inferno - cap. VIII | 14 - O espiritismo e as manif.psíquicas - pág. 51 |
| 15 - O Livro dos Espíritos - q. 113, 128, 490, 584 | 16 - O problema do ser do destina e da dor - pág. 291 |
| 17 - Pedaços do cotidiano - pág. 151 | 18 - Pérolas do Além - pág. 27 |
| 19 - Pontos e contos - pág. 127-24 | 20 - Roteiro - pág. 31 |
| 21 - Seara dos médiuns - pág. 63 | 22 - Síntese de o novo Testamento - pág. 226 |
| 23 - Veladores da luz - pág. 49, 51 | 24 - Vida e atos dos apóstolos - pág. 6 |
LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.
.ANJOS – COMPILAÇÃO
01- A gênese - Allan Kardec -cap. XI - pág. 43
DOUTRINA
DOS ANJOS DECAÍDOS E DO PARAÍSO PERDIDO
43. - Os mundos progridem fisicamente pela elaboração da matéria,
e moralmente pela depuração dos Espíritos que os habitam.
Neles, a felicidade esta em razão da predominância do bem sobre
o mal, e a predominância do bem é o resultado do avanço
moral dos Espíritos. O progresso intelectual não basta, uma vez
que, com a inteligência, podem fazer o mal. Então, pois, quando
um mundo chega a um de seus períodos de transformação,
que deve fazê-lo subir na hierarquia, mutações se operam
na sua população encarnada e desencarnada; é então
que ocorrem as grandes emigrações ou imigrações.
Aqueles que, apesar de sua inteligência e de seu saber, perseveraram no
mal, em sua revolta contra Deus e suas leis, serão doravante um entrave
para o progresso moral ulterior, uma causa permanente de perturbação
para o repouso e a felicidade dos bons, por isso eles são excluídos
e enviados para os mundos menos avançados; ali aplicarão a sua
inteligência e a intuição dos conhecimentos adquiridos ao
progresso daqueles entre os quais são chamados a viver, ao mesmo tempo
que expiarão, numa série de existências penosas e por um
duro trabalho, as suas faltas passadas e o seu endurecimento voluntário.
Que serão, entre esses povos, novos para eles, ainda na infância
da barbárie, senão anjos ou Espíritos decaídos enviados
em expiação? A Terra, da qual foram expulsos, não é
para eles um paraíso perdido? Não era para eles um lugar de delícias
em comparação com o meio ingrato onde vão se achar relegados
durante milhares de séculos, até o dia em que terão merecido
a sua liberdade? A vaga lembrança intuitiva que dela conservam é
para eles como uma miragem longínqua, que lhes lembra o que perderam
por sua falta.
44. - Mas, ao mesmo tempo que os maus partiram do mundo que habitavam, são
substituídos por Espíritos melhores, vindos seja da erraticidade
do mesmo mundo, seja de um mundo menos avançado que mereceram deixar,
e para os quais a sua nova morada é uma recompensa. Estando a população
espiritual assim renovada e purgada de seus piores elementos, ao cabo de algum
tempo o estado moral do mundo se acha melhorado. Essas mutações,
algumas vezes, são parciais, quer dizer, limitadas a um povo, a uma raça;
de outras vezes, são gerais, quando o período de renovação
chegou para o globo.
45. -A raça adâmica tem todos os caracteres de uma raça
proscrita; os Espíritos que dela fazem parte foram exilados sobre a Terra,
já povoada, mas por homens primitivos, mergulhados na ignorância,
e que tiveram por missão fazer progredir levando entre eles as luzes
de uma inteligência desenvolvida. Não foi, com efeito, o papel
que essa raça cumpriu até hoje? A sua superioridade intelectual
prova que o mundo de onde saiu era mais avançado do que a Terra; mas
esse mundo devendo entrar em uma nova fase de progresso, e esses Espíritos,
tendo em vista a sua obstinação, não tendo sabido se colocarem
nessa altura, aí estariam deslocados e seriam um entrave à marcha
providencial das coisas; por isso dele foram excluídos, ao passo
que outros mereceram substituí-los.
Relegando essa raça sobre esta Terra de trabalho e de sofrimentos, Deus
teve razão em dizer-lhe: "Dela tirarás teu alimento com o
suor de teu rosto." Em sua mansuetude, prometeu que lhe enviaria um Salvador,
quer dizer, aquele que deveria iluminar o seu caminho a seguir, para sair deste
lugar de miséria, deste inferno, e chegar a felicidade dos eleitos. Esse
Salvador enviou-lhe na pessoa do Cristo, que ensinou a lei de amor e de caridade,
desconhecida para eles, e que deveria ser a verdadeira âncora de salvação.
É
igualmente com o objetivo de fazer avançar a Humanidade, num sentido
determinado, que os Espíritos superiores, sem terem as qualidades do
Cristo, se encarnam de tempos em tempos sobre a Terra, para nela cumprirem missões
especiais que aproveitam, ao mesmo tempo, ao seu adiantamento pessoal, se as
cumprem segundo os objetivos do Criador.
46. - Sem a reencarnação, a missão do Cristo não
teria sentido, assim como a promessa feita por Deus. Suponhamos, com efeito,
que a alma de cada homem seja criada no nascimento de seu corpo, e que ela não
faça senão aparecer e desaparecer de sobre a Terra, não
ha nenhuma relação entre aquelas que vieram depois de Adão
até Jesus Cristo, nem entre aquelas que vieram depois; são todas
estranhas umas às outras. A promessa de um Salvador, feita por Deus,
não poderia se aplicar aos descendentes de Adão, se as suas almas
não estavam ainda criadas. Para que a missão do Cristo pudesse
se ligar às palavras de Deus, seria necessário que elas pudessem
se aplicar às mesmas almas. Se essas almas são novas, elas não
podem estar maculadas pela falta do primeiro pai, que não é senão
o pai carnal, e não o pai espiritual; de outro modo Deus teria criado
almas manchadas por uma falta que não poderia descorar sobre elas, uma
vez que não existiam.
Á
doutrina vulgar do pecado original implica, pois, a necessidade de uma relação
entre as almas do tempo do Cristo e as do tempo de Adão, e, por conseguinte,
a reencarnação. Dizei que todas essas almas faziam parte da colônia
de Espíritos exilados sobre a Terra no tempo de Adão, e que estavam
manchadas por vícios que as fizeram excluir de um mundo melhor, e tereis
a única interpretação racional do pecado original, pecado
próprio a cada indivíduo, e não o resultado da responsabilidade
da falta de um outro que nunca conheceu; dizei que essas almas, ou Espíritos,
renascem diversas vezes sobre a Terra, na vida corpórea para progredirem
e se depurarem; que o Cristo veio esclarecer essas mesmas almas, não
só por suas vidas passadas, mas para suas vidas ulteriores, e somente
então dareis à sua missão um objetivo real e sério,
aceitável pela razão.
47. - Um exemplo familiar, evidente pela sua analogia, fará compreender
melhor ainda os princípios que acabam de se expostos: No dia 24 de maio
de 1861, a fragata Iphigênie conduz para a Nova Caledônia uma companhia
disciplinar composta de 291 homens. O comandante da colônia lhes dirigiu,
à sua chegada, uma ordem do dia assim concebida: "Colocando o pé
nesta terra longínqua, já cumpristes o papel que vos estava reservado.
"A exemplo de nossos bravos soldados da marinha, servindo sob os vossos
olhos, nos ajudareis a levar com glória, no meio das tribos selvagens
da Nova Caledônia, o brilho da civilização. Não está
aí uma nobre e bela missão, eu vos pergunto? Vós a cumprireis
dignamente.
"Escutai a voz e os conselhos de vossos chefes. Eu estou no seu comando;
que as minhas palavras sejam bem entendidas. "A escolha do vosso comandante,
de vossos oficiais, de vossos suboficiais e cabos é uma garantia segura
de todos os esforços que serão tentados para fazer de vós
excelentes soldados; digo mais, para vos levar à altura de bons cidadãos
e vos transformar em colonos honrados, se o desejardes. "A vossa disciplina
é severa; ela assim deve ser. Colocada em nossas mãos, ela será
firme e inflexível, sabei-o bem; como também, justa e paternal,
saberá distinguir o erro do vício e da degradação."
Eis, pois, homens expulsos, por sua má conduta, de um país civilizado,
e enviados, por punição, junto a um povo bárbaro. Que lhes
disse o chefe? "Infringistes as leis de vosso país; fostes ali uma
causa de perturbação e de escândalo, e fostes expulsos;
enviam-vos para aqui, mas aqui podeis resgatar o vosso passado; podeis, pelo
trabalho, vos criar uma posição honrosa, e tornar-vos cidadãos
honestos. Tendes aqui uma bela missão a cumprir, a de levar a civilização
a essas tribos selvagens. A disciplina será severa, mas justa, e saberemos
distinguir aqueles que se conduzirem bem. A vossa sorte esta em vossas
mãos; podereis melhorá-la se o desejardes, porque tendes o vosso
livre arbítrio."
04 - Caminho, verdade e vida - Emmanuel - pág. 277
131
- HOMENS E ANJOS
"Enquanto os anjos, sendo maiores em força e poder, não pronunciam
contra eles juízo blasfemo diante do Senhor." — (II pedro,
2:11.)
É lastimável observar o grande número de pessoas que estão
sempre dispostas a proferir sentenças blasfematórias, umas para
com as outras. A leviandade domina-lhes as conversações, a mesquinhez
corrompe-lhes as atividades nos mais diversos setores da vida.
Exceção feita aos sinceros cultivadores da luz religiosa, quase
todos os homens se conservam à porta de situações ásperas
em que o esforço difamatório lhes envenena a vida. Alimentam antipatias
injustas para com os irmãos de atividade profissional, pelo próximo
que lhes não aceita as ideias, pelos companheiros que se não afinam
com os seus princípios. E como a lei é de compensação
e troca, receberão dos colegas e dos vizinhos as mesmas vibrações
destruidoras.
Guerras silenciosas, nesse sentido, têm, por vezes, secular duração.
Entretanto, o homem jactancioso está sempre rodeado pela ação
benéfica de Espíritos iluminados e generosos, que, quanto mais
revestidos de poder divino, mais se compadecem das fragilidades humanas, estendendo-lhes
mãos acolhedoras para o caminho e jamais pronunciando juízos condenatórios
diante do Senhor.bToda vez que fores compelido a analisar os esforços
alheios, recorda a palavra de Pedro. Não te esqueças de que as
entidades angélicas, mananciais vivos e sublimes de força e poder,
nunca enunciam sentenças acusatórias contra ti, diante de Deus.
05
- Contos desta e doutra vida- Irmão X - pág. 27-5, 111-24
5
- O anjo cinzento
Para que o Homem adquirisse confiança em Sua Bondade Infinita, determinou
o Senhor que vários Anjos o amparassem na Terra, amorosamente...Em razão
disso, quando mal saía do berço, aproximou-se dele um Anjo Lirial
que, aproveitando os lábios daquela que se lhe constituíra em
mãezinha adorável, lhe ensinou a repetir:— Deus... Pai do
Céu... Papai do Céu...Era o Anjo da Pureza. Mais tarde, soletrando
o alfabeto, entre as paredes da escola, acercou-se dele um Anjo de Luz Verde
que, por intermédio da professora, o ajudou a pronunciar em voz firme:—
Deus, Nosso Pai Celestial, é o Criador de todos os seres e de todas as
coisas.. Era
o Anjo da Esperança.
Alongaram-se-lhe os dias, até que penetrou uma casa de ensino superior,
sob cujo teto venerável foi visitado por um Anjo Vestido em Luz de Ouro
que, através de educadores eméritos, lhe falou acerca da glória
e da magnificência do Eterno, utilizando a linguagem da filosofia e da
ciência.Era o Anjo da Sabedoria. O Homem compulsou livros e consultou
autoridades, desejando a comunhão mais direta com o Senhor e fazendo-se
caprichoso e exigente.
Olvidando o direito dos semelhantes, propunha-se conquistar as atenções
de Deus tão somente para si. A Majestade divina, a seu parecer, devia
inclinar-se-lhe aos petitórios, atendendo-lhe as desarrazoadas solicitações,
sem mais nem menos; e, porque o Criador não se revelasse disposto a personalizar-se
para satisfazê-lo, começou a cultivar o espinheiro da negação
e da dúvida. Por mais insistisse o Anjo Dourado, rogando-Ihe reverenciar
o Senhor, acatando-lhe as leis e os desígnios, mais se mergulhava na
hesitação e na indiferença.
Atormentado, procurou um templo religioso, onde um Anjo Azul o socorreu, valendo-se
de um sacerdote para recomendar-lhe a prática do trabalho e da humildade,
com a retidão da consciência e com a perseverança no bem.
Era o Anjo da Fé. O Homem registrou-lhe os avisos, mas, sentindo enorme
dificuldade para render-se aos exercícios da virtude, clamava intimamente:
— "Deus? mas existirá Deus, realmente? por que razão
não me oferece provas indiscutíveis do seu poder?" Frequentando
o templo para não ferir as convenções sociais, foi auxiliado
por um Anjo Róseo, que lhe conduziu a inteligência à leitura
de livros santos, comovendo-lhe o coração e conduzindo-lhe o sentimento
à prática do amor e da renúncia, da benevolência
e do sacrifício, de maneira a abreviar o caminho para o Divino Encontro.
Era o Anjo da Caridade.
O teimoso estudante aprendeu que não lhe seria lícito aguardar
as alegrias do Céu, sem havê-las merecido pela própria sublimação
na Terra. Ainda assim, monologava indisciplinado: — "Se sou filho
de Deus e se Deus existe, não justifico tanta formalidade para encontrá-lo..."
E prosseguia surdo aos orientadores angélicos. Casou-se, constituiu família,
amealhou dinheiro e garantiu-se contra as vicissitudes da sorte; entretanto,
por mais se esforçassem os Anjos da Caridade e da Sabedoria, da Esperança
e da Fé, no sentido de favorecer-lhe a comunhão com o Céu,
mais repudiava os generosos conselheiros, exclamando de si para consigo: —
"Deus? mas existirá efetivamente Deus?"
Enrugando-se-lhe o rosto e encanecendo-se-lhe a cabeça orgulhosa, reuniram-se
os gênios amigos, suplicando a compaixão do Senhor, a benefício
do rebelde tutelado. Foi quando desceu da Glória Celeste um Anjo Cinzento,
de semblante triste e discreto. Não tomou instrumentos para comunicar-se.
Ele próprio abeirou-se do revoltado filho do Altíssimo, abraçou-o
e assoprou-lhe ao coração a mensagem que trazia... Sentindo-lhe
a presença, o Homem cambaleou, deitou-se e começou a reconhecer
a precariedade dos bens do mundo...
Notou
quão transitória era a posse dos patrimónios terrestres,
dos quais não passava de usufrutuário egoísta... Observou
que a sua felicidade passageira era simples sombra a esvair-se no tempo...E,
assinalando sofrimento e desequilíbrio no âmago de si mesmo, compreendeu
que tudo que desfrutava na vida era empréstimo divino da Eterna Bondade.
Meditou...meditou...reconsiderando
as atitudes que lhe eram peculiares e, em lágrimas de sincera e profunda
compunção, qual se fora tenro menino,dirigiu-se pela primeira
vez, com toda a alma, ao Todo Poderoso, suplicando-lhe:
-Deus de Infinita Misericórdia, meu Criador e meu Pai, compadece-te de
mim! O Anjo Cinzento era o Anjo da Enfermidade.
24
- O Anjo, o Santo e o Pecador
O Pecador escutava a orientação de um Santo, que vivia, genuflexo,
à porta de templo antigo, quando, junto aos dois, um Anjo surgiu na forma
de homem, travando-se breve conversação entre eles.
O ANJO — Amigos, Deus seja louvado!
O SANTO — Louvado seja Deus!
O PECADOR — Louvado seja!
O ANJO (Dirigindo-se ao Santo) — Vejo que permaneceis em oração
e animo-me a solicitar-vos apoio fraternal.
O SANTO — Espero o Altíssimo em adoração, dia e noite.
O ANJO — Em nome d'Ele, rogo o socorro de alguém para uma criança
que agoniza num lupanar.
O SANTO — Não posso abeirar-me de lugares impuros...
O PECADOR — Sou um pobre penitente e posso ajudar-vos, senhor.
O ANJO — Igualmente, agora, desencarnou infortunado homicida, entre as
paredes do cárcere. .. Quem me emprestará mãos amigas para
dar-lhe sepulcro?
O SANTO — Tenho horror aos criminosos...
O PECADOR — Senhor, disponde de mim.
O ANJO — Infeliz mulher embriagou-se num bar próximo. Precisamos
removê-la, antes que a morte prematura lhe arrebate o tesouro da existência
.
O SANTO — Altos princípios não me permitem respirar no clima
das prostitutas...
O PECADOR — Dai vossas ordens, senhor!
O ANJO — Não longe daqui, triste menina, abandonada pelo companheiro
a quem se confiou, pretende afogar-se... E' imperioso lhe estenda alguém
braços fortes para que se recupere, salvando-se-lhe também o pequenino
em vias de nascer.
O SANTO — Não me compete buscar os delinquentes senão para
corrigi-los.
O PECADOR — Determinai, senhor, como devo fazer.
O ANJO — Um irmão nosso, viciado no furto, planeja assaltar, na
presente semana, o lar de viúva indefesa... Necessitamos do concurso
de quem o dissuada de semelhante propósito, aconselhando-o com amor.
O SANTO — Como descer ao nível de um ladrão?
O PECADOR — Ensinai-me como devo falar com ele.
Sem vacilar, o Anjo tomou o braço do Pecador prestativo e ambos se afastaram,
deixando o Santo em meditação, chumbado ao solo.
Enovelaram-se anos e anos na roca do tempo, que tudo alterara. O átrio
mostrava-se diferente. O santuário perdera o aspecto primitivo e a morte
despojara o Santo de seu corpo macerado por cilício e jejum, mas o crente
imaculado aí se mantinha em Espírito, na postura de reverência.
Certo dia, sensibilizando mais intensamente as antenas da prece, viu que alguém
descia da Altura, a estender-lhe o coração em brando sorriso.
O Santo reconheceu-o.
Era o Pecador, nimbado de luz.
— Que fizeste para adquirir tanta glória? — perguntou-lhe,
assombrado.
O ressurgido, afagando-lhe a cabeça, afirmou simplesmente:
— Caminhei.
13 - O céu e o inferno - Allan Kardec - cap. VIII
CAPÍTULO
VIII - OS ANJOS
- Os anjos segundo a Igreja
1 — Todas as religiões têm os seus anjos, com diferentes
nomes, ou seja, seres superiores à Humanidade, intermediários
entre Deus e os homens. O materialismo, negando qualquer existência espiritual
além da vida orgânica, naturalmente colocou os anjos entre as ficções
e as alegorias. A crença nos anjos faz parte essencial dos dogmas da
Igreja. Eis como ela os define:
2 — Cremos firmemente, proclamou um concílio geral e ecuménico,
que só há um Deus verdadeiro, eterno e infinito, o qual, no começo
dos tempos tirou juntamente do nada as duas criaturas: a espiritual e a corporal,
a angélica e a mundana, e em seguida formou, como intermediária
dessas duas, a natureza humana composta de corpo e Espírito.
É esse, segundo a fé, o plano divino na obra da criação.
Plano majestoso e completo, como convém à sabedoria eterna. Assim
concebido, ele nos apresenta ao pensamento o ser em todos os graus e em todas
as condições. Na esfera mais elevada aparecem a existência
e a vida puramente espirituais. No último plano, a existência e
a vida puramente materiais. E no meio que separa a ambos, uma maravilhosa união
das duas substâncias, uma vida comum ao mesmo tempo ao espírito
inteligente e ao corpo organizado.
Nossa alma é de uma natureza simples e indivisível, mas é
limitada nas suas faculdades. A idéia que temos da perfeição
nos faz compreender que podem existir outros seres simples como ela e superiores
pelas suas qualidades e os seus privilégios. Ela é grande e nobre,
mas está ligada à matéria, servida de órgãos
frágeis, limitada na sua ativídade e na sua potência. Porque
não haveria outras naturezas ainda mais nobres, distanciadas dessa escravidão
e desses entraves, dotadas de uma força maior e de uma atividade incomparável?
Antes que Deus tivesse posto o homem na Terra para o conhecer, amar e servir,
já não devia ter chamado outras criaturas para comporem a sua
corte celeste e adorá-lo no esplendor da sua glória? Deus, enfim,
recebe das mãos do homem os tributos de honra e a homenagem deste
universo.
Seria de estranhar que recebesse das mãos do anjo o incenso e a prece do homem? Se, pois, os anjos não existissem, a grandiosa obra do criador não teria o seu coroamento na perfeição de que era susceptível. Esse mundo que atesta a sua onipotência não seria mais a obra prima da sua sabedoria. Nossa razão, por mais impotente que seja, poderia facilmente concebê-lo mais completo e melhor acabado. Em cada página dos livros sagrados do Antigo e Novo Testamento são mencionadas essas inteligências sublimes, nas invocações piedosas ou nos relatos históricos. Sua intervenção aparece manifestamente na vida dos patriarcas e dos profetas. Deus se serve do seu ministério, ora para impor os seus desígnios, ora para anunciar acontecimentos futuros. Ele os faz quase sempre instrumentos da sua justiça ou da sua misericórdia. Sua presença é constante nas diversas circunstâncias do nascimento, da vida e da paixão do Salvador. Sua lembrança é inseparável da lembrança dos grandes homens e dos mais importantes acontecimentos da antiguidade religiosa.
Podemos
mesmo encontrá-los no meio do politeísmo e entre as fábulas
da mitologia, porque a crença a seu respeito é tão antiga
e tão universal como o próprio mundo. O culto que os pagãos
rendiam aos bons e aos maus gênios era apenas uma falsa aplicação
da verdade, um resíduo deteriorado do dogma primitivo. As palavras do
santo Concílio de Latrão contém uma distinção
fundamental entre os homens e os anjos; elas nos ensinam que os anjos são
Espíritos puros, enquanto os homens se constituem de alma e corpo, o
que quer dizer que a natureza angélica subsiste por si mesma, não
somente sem mistura, mas ainda sem nenhuma associação real possível
com a matéria, por ligeira e sutil que se pudesse supô-la. Enquanto
isso a nossa alma, igualmente espiritual, está associada ao corpo de
maneira a formarem ambos uma única e mesma pessoa e essa é essencialmente
a sua destinação.
Enquanto dura essa união tão íntima de alma e corpo, essas
duas substâncias têm uma vida comum e exercem, uma sobre a outra,
influência recíproca. A alma não pode se afastar inteiramente
da condição imperfeita que resulta para ela dessa situação:
suas idéias lhe chegam através dos sentidos, por comparação
dos objetos exteriores e sempre sob imagens mais ou menos aparentes. Disso resulta
que ela não pode se contemplar a si mesma e não pode fazer a si
mesma a representação de Deus e dos anjos sem os considerar de
qualquer maneira em forma visível e palpável. Eis porque os anjos,
para se fazerem visíveis aos santos e aos profetas, tiveram de recorrer
a figuras corpóreas. Mas essas figuras eram apenas os corpos aéreos
que eles movimentavam sem se identificarem com eles, ou os atributos simbólicos
relacionados com a missão de que estavam encarregados.
O ser e os movimentos dos anjos não estão localizados e circunscritos
num ponto fixo e limitado do espaço. Não estando ligados a nenhum
corpo, eles não podem estar parados nem ser limitados, como acontece
conosco, por outros corpos. Eles não ocupam nenhum lugar e não
preenchem nenhum vazio. Mas, da mesma maneira em que a nossa alma está
inteira no nosso corpo e em cada uma de suas partes, eles se encontram inteiros
e quase simultaneamente em todos os pontos e em todas as partes do mundo. Mais
rápidos do que o pensamento, podem estar por toda a parte no mesmo instante
e agirdiretamente, sem nenhum obstáculo aos seus desígnios, a
não ser a vontade de Deus e a resistência da liberdade humana.
Enquanto estamos reduzidos a ver aos poucos, de maneira limitada, as coisas
que estão fora de nós, e que as verdades da ordem sobrenatural
nos aparecem de maneira enigmática, como num espelho, segundo a expressão
do apóstolo São Paulo, eles vêem sem esforço o que
desejam saber e estão em relação direta com o objeto de
seu pensamento. Seus conhecimentos não resultam da indução
e do raciocínio, mas dessa intuição clara e profunda que
abrange os princípios e as consequências que destes decorrem. A
diversidade dos tempos, a diferença dos lugares, a multiplicidade dos
objetos não podem produzir nenhuma confusão no seu Espírito.
A essência divina, sendo infinita, é para nós incompreensível.
Possui mistérios e profundezas que não podem ser penetradas. Os
desígnios mais íntimos da Providência ficam ocultos, mas
ela lhes desvenda o seu segredo quando os encarrega, em determinadas circunstâncias,
e de os anunciar aos homens. As comunicações de Deus aos anjos
e dos anjos entre si não se fazem, como entre nós, por meio de
sons articulados e de outros signos sensíveis. As inteligências
puras não precisam de olhos para ver nem de ouvidos para ouvir. Elas
não possuem também os órgãos vocais para manifestar
os seus pensamentos, pois esses intermediários habituais de que nos servimos
são para eles inúteis. Comunicam, porém, os seus sentimentos
de maneira que lhes é própria e inteiramente espiritual. Para
se fazerem compreender, basta-lhes a vontade.
Somente Deus conhece o número dos anjos. Esse número, sem dúvida,
não poderia ser infinito e não o é, mas segundo os autores
sagrados e os santos doutores, é muito considerável e verdadeiramente
prodigioso. Se é natural que considere-os na devida proporção
o número de habitantes de uma cidade em relação à
sua grandeza, e a Terra sendo apenas um átomo em comparação
com o firmamento e as imensas regiões do espaço, temos de concluir
que o número dos habitantes do céu e do ar é muito maior
que o dos homens. Desde que a majestade dos reis se reflete no número
de seus súditos, de seus oficiais e de seus servidores, que haveria de
mais apropriado para darmos uma idéia da majestade do Rei dos Reis que
essa multidão inumerável de anjos que povoam o céu e a
Terra, o mar e os abismos, e a dignidade dos que permanecem incessantemente
prosternados ou em pé diante do seu trono?
Os Pais da Igreja e os teólogos geralmente ensinam que os anjos se distribuem
em três grandes hierarquias ou principados, e cada hierarquia em três
companhias ou coros. Os da primeira e mais elevada hierarquia são designados
por nomes que decorrem das funções de desempenho no céu.
Uns são chamados Serafins porque são como que chamejantes perante
Deus pelos ardores da caridade; outros se chamam Querubins porque são
um reflexo luminoso da divina sabedoria; e outros ainda se chamam Tronos porque
proclamam a grandeza de Deus e a fazem resplandecer.
Os Anjos
Os da segunda hierarquia recebem os seus nomes em virtude das operações
que lhes são confiadas no governo geral do Universo. São as Dominações
que determinam aos anjos das ordens inferiores as suas missões e os seus
encargos; as Virtudes que atendem aos prodígios exigidos pêlos
grandes interesses da Igreja e do gênero humano; as Potências que
protegem pelo seu poder e a sua vigilância as leis que regem o mundo físico
e moral.
Os da terceira hierarquia exercem em partilha a direção das sociedades
e das pessoas. São os Principados, prepostos dos reinos, das províncias
e das dioceses; os Arcanjos, que transmitem as mensagens de elevada importância,
os Anjos Guardiães que acompanham a cada um de nós velando pela
nossa segurança e pela nossa santificação.
REFUTAÇÃO
3 — O princípio geral que ressalta dessa doutrina é o de
que os anjos são seres puramente espirituais, anteriores e superiores
à humanidade, criaturas privilegiadas, votadas à felicidade suprema
e perpétua desde a sua formação, dotadas, por sua própria
natureza, de todas as virtudes e de todo o saber, sem nada ter feito para os
adquirir. Estão no primeiro plano da obra da criação. No
último plano, a vida puramente material, e entre os dois a humanidade
formada de almas, seres espirituais inferiores aos anjos e unidos a corpos materiais.
Muitas dificuldades insolúveis resultam desse sistema. Qual é,
para começar, essa vida puramente material? Trata-se da matéria
bruta? Mas a matéria bruta é inanimada, não tendo vida
por si mesma. Trata-se das plantas o dos animais? Essa seria então uma
quarta ordem da criação, pois não se pode negar a superioridade
do animal que é inteligente em relação à planta,
e desta em relação à pedra. Quanto à alma humana,
que representa a transição, está diretamente unida a um
corpo formado de matéria bruta, porque sem alma esse corpo não
teria vida e seria como um punhado de torra.
Essa divisão peca evidentemente por falta de clareza e não está
de íicordo com a observação. Assemelha-se à teoria
dos quatro elementos que caiu ante o progresso da ciência. Admitamos,
portanto, esses três termos: a criatura espiritual, a criatura humana
e a criatura corpórea. Esse é, dizem, o plano divino, plano majestoso
e perfeito como convém à eterna sabedoria. Observemos primeiro
que entre esses três termos não há nenhuma ligação
necessária. São três criações distintas, formadas
sucessivamente. De uma para outra existe solução de continuidade,
enquanto na Natureza tudo se encadeia, tudo nos mostra uma admirável
lei de unidade em que todos os elementos, nada mais do que transformações
uns dos outros, estão ligados entre si. Essa teoria é verdadeira
no tocante à existência evidente desses três termos, mas
é incompleta: faltam nela os pontos de contacto, como é fácil
de se demonstrar.
4 — Esses três pontos culminantes da criação, segundo
a Igreja, são necessários à harmonia do conjunto, e se
houvesse a falta de um só a obra estaria incompleta, não correspondendo
à eterna sabedoria. Entretanto, um dos dogmas fundamentais da religião
diz que a Terra, os animais, as plantas, o sol, as estrelas, a própria
luz foram criadas e portanto tiradas do nada há seis mil anos. Antes
dessa época não havia, pois, nem criatura humana, nem qualquer
criatura corpórea. Durante toda a eternidade anterior, a obra divina
permanecia então imperfeita. A criação do Universo remontando
há seis mil anos constitui um artigo de fé de tal maneira fundamental,
que há poucos anos ainda a ciência foi anatematizada porque vinha
destruir a cronologia bíblica, provando por suas investigações
a elevada antiguidade da Terra e dos seus habitantes.
Não obstante o Concílio de Latrão, o Concílio Ecuménico,
que dita a lei em matéria de doutrina, afirma: "Cremos firmemente
que só há um Deus verdadeiro, eterno e infinito, o qual, no começo
dos tempos tirou conjuntamente do nada as duas criaturas, a espiritual e a corporal."O
começo dos tempos só pode ser a eternidade anterior, porque o
tempo é infinito como o espaço, não tem começo nem
fim. Essa expressão: o começo dos tempos é uma figura que
implica a idéia de uma anterioridade ilimitada. O Concílio de
Latrão crê, pois, firmemente que as criaturas espirituais e as
criaturas corporais foram formadas ao mesmo tempo e tiradas juntamente do nada
numa época indeterminada do passado. O que resta, pois, do texto bíblico
que fixou essa criação em seis mil anos dos nossos dias? Admitindo-se
que o começo do Universo visível pudesse estar nessa época,
não se trataria seguramente do começo dos tempos. Em qual devemos
crer, no Concílio ou na Bíblia?
5 — O mesmo Concílio formula ainda uma estranha proposição:
"Nossa alma, igualmente espiritual, está associada ao corpo de maneira
a formarem ambos uma só e mesma pessoa, e essa é essencialmente
a sua destinação." Se a finalidade essencial da alma é
estar ligada ao corpo, essa constitui o seu estado normal, é o seu objetivo,
o seu fim, desde que é essa a sua destinação. Entretanto,
a alma e imortal, sua união com o corpo só se realiza uma vez,
segundo a Igreja, e mesmo que fosse por um século o que seria isso ante
a eternidade? Para um grande número de criaturas essa união é
apenas de algumas horas. Que utilidade teria para a alma essa união efêmera?
Quando, em relação à eternidade, a sua maior duração
não seria mais do que um minuto imperceptível, seria exato dizer
que a sua destinação é essencialmente estar ligada ao corpo?
Essa união, na verdade, não é mais do que um incidente,
um ponto na vida da alma e não o seu estado essencial.
Se a destinação essencial da alma é estar unida a um corpo
material; só por sua natureza e segundo o fim providencial da sua criação
essa união é necessária às manifestações
de suas faculdades, temos de concluir que sem o corpo a alma humana é
um ser incompleto. Sendo assim para permanecer o que ela é pela sua destinação
após haver deixado um corpo, ó necessário que tome outro,
o que nos leva forçosamente à pluralidade das existências,
ou seja: à reencarnação eternizada. É verdadeiramente
estranho que um Concílio considerado como uma das luminárias da
Igreja tenha identificado nesse ponto o ser espiritual com o ser material, de
maneira a não poderem existir um sem o outro, desde que a condição
essencial de sua criação é o de permanecerem unidos.
6 — O quadro hierárquico dos anjos nos mostra que muitas ordens
têm, nas suas atribuições, o governo do mundo físico
e da humanidade, sendo que foram criados para esse fim. Mas, segundo a Gênese,
o mundo físico o a humanidade só existem há seis mil anos.
O que faziam esses anjos antes desta criação, durante a eternidade,
se os objetos das suas ocupações não existiam? Os anjos
foram criados desde toda a eternidade? Assim deve ser, pois se destinam à
glorificação do Altíssimo. Se Deus os criou em alguma época
determinada, então ele esteve até essa época, quer dizer,
durante uma eternidade, sem adoradores.
7 — Logo mais, está escrito: "Enquanto durar essa união
tão íntima da alma com o corpo." Haverá então
um momento em que essa união, não existirá mais? Essa proposição
contradiz aquela que faz da união a destinação essencial
da alma. Está escrito ainda: "As idéias lhe chegam pelos
sentidos, por uma comparação dos objetos exteriores." Essa
é uma doutrina filosófica em parte verdadeira, mas não
em sentido absoluto. Segundo o eminente teólogo, é condição
inerente à natureza da alma só receber ideias por meio dos sentidos.
Ele se esquece das idéias inatas, das faculdades às vezes bastante
transcendentes, da intuição das coisas que a criança traz
ao nascer e que não deve a nenhuma forma de instrução.
Por meio de quais sentidos esses jovens pastores, calculadores naturais que
espantaram os sábios, adquiriram as idéias nocessárias
à solução quase instantânea dos mais complicados
problemas? O mesmo podemos dizer de certos músicos, pintores e linguistas
precoces.
"Os conhecimentos dos anjos não resultam da indução
e do raciocínio." Elos sabem, porque são anjos sem terem
necessidade de aprender. Deus os criou assim. A alma, pelo contrário,
deve aprender. Se a alma só recebe ns Idéias através dos
órgãos corporais (que ideias pode ter a alma de uma criança
que morreu poucos dias depois de nascer, admitindo-se com a Igroja que ela não
renasce mais?)
8
— Aqui se apresenta uma questão vital. A alma adquire conhecimentos
e idéias após a morte do corpo? Se uma vez desligada do corpo
ela nada mais pode adquirir, a alma da criança, do selvagem, do cretino,
do idiota, do ignorante permanecerão para sempre o que eram por ocasião
da morte, e assim estarão votadas a uma eterna inutilidade. Se a alma
adquire novos conhecimentos após a vida atual, é porque ela pode
progredir. Sem o progresso posterior da alma chegamos a consequências
absurdas. Com o progresso chegamos à negação de todos os
dogmas fundados na sua natureza estacionária: o destino irrevogável,
as penas eternas e assim por diante. Se ela progride, qual o limite desse progresso?
Não há nenhuma razão para que ela não atinja o grau
dos anjos ou dos Espíritos puros.
Se a alma pode chegar a esse plano, não havia nenhuma necessidade de
criação de seres especiais e privilegiados, isentos de qualquer
trabalho, gozando da felicidade eterna sem nada haver feito para conquistá-la,
enquanto outros seres desfavorecidos só conseguiriam a suprema felicidade
ao preço de longos e cruéis sofrimentos e das mais rudes provas.
Deus pode fazê-lo, sem dúvida, mas se admitimos a infinitude de
suas perfeições, sem a qual não haveria Deus, é
forçoso admitir também que ele nada faz de inútil, nada
que possa desmentir a sua soberana justiça e a sua soberana bondade.
9 — "Desde que a majestade dos reis se reflete no número de
seus súditos, de seus oficiais e de seus servidores, que há de
mais próprio para nos dar uma ideia da majestade do Rei dos Reis do que
essa multidão inumerável dos anjos que povoam o céu e a
Terra, o mar e os abismos, e a dignidade dos que permanecem incessantemente
prosternados ou em pé diante do seu trono?" Não seria rebaixar
a Divindade, assimilá-la na sua glória ao fausto dos soberanos
da Terra? Essa ideia, inculcada no Espírito das massas ignorantes transformou-se
numa falsa opinião da sua verdadeira grandeza. É sempre Deus reduzido
às mesquinhas proporções da humanidade. Supô-lo sempre
necessitado de ter milhões de adoradores incessantemente prosternados
ou em pé diante d'Ele é emprestar-lhe as fraquezas dos monarcas
despóticos e orgulhosos do Oriente.
O que torna os soberanos verdadeiramente grandes? É o número e
o brilho dos seus cortezãos? Não. É a sua bondade e a sua
justiça, é o título merecido de pais dos súditos.
Pergunta-se se há alguma coisa mais apropriada a nos dar uma ideia da
majestade de Deus que a multidão dos anjos que compõem a sua corte?
Sim, certamente há alguma coisa melhor do que isso: é representá-lo
soberanamente bom, justo e misericordioso para todas as suas criaturas, e não
como um Deus colérico, ciumento, vingativo, inexorável, exterminador,
parcial e criando para a sua própria glória esses seres privilegiados,
favorecidos com todos os dons, nascidos paira a eterna felicidade, enquanto
aos outros condena a conquistar penosamente a felicidade e os pune, por um momento
de erro, com uma eternidade de suplícios.
10 — O Espiritismo professa, a respeito da união da alma e do corpo,
uma doutrina infinitamente mais espiritualista, para não dizer menos
materialista, e que além disso está de acordo com a observação
e com o destino da alma. Segundo ele nos ensina, a alma é independente
do corpo, que constitui apenas um envoltório temporário; sua essência
é a espiritualidade; sua vida normal é a vida espiritual. O corpo
é somente um instrumento para o exercício de suas faculdades,
nas suas relações com o mundo material. Mas, separada do corpo,
ela goza de suas faculdades com maior liberdade e em maior amplitude.
11 — Sua união com o corpo, necessária aos seus primeiros
desenvolvimentos, realiza-se no período que se pode chamar de infância
e adolescência. Quando ela atinge um certo grau de perfeição
e desmaterialização, essa união não é mais
necessária e a alma continua a progredir na vida espiritual. Por mais
numerosas que sejam, de resto, as existências corpóreas, elas são
necessariamente limitadas pela própria vida dos corpos e a sua soma total
não compreende, em todos os casos, mais do que uma parcela imperceptível
da vida espiritual que é infinita.
Os Anjos segundo o Espiritismo
12 — Não há dúvida de que existem seres dotados de
todas as qualidades atribuídas aos anjos. A revelação espírita
confirma, nesse ponto, a crença de todos os povos. Mas ao mesmo tempo
nos dá a conhecer a natureza e a origem desses seres. As Almas ou Espíritos
são criados simples, ou ignorantes, quer dizer: sem conhecimentos e sem
a consciência do bem e do mal, mas aptos a adquirir tudo isso que lhes
falta. Eles o adquirem pelo trabalho. O alvo, que ó a perfeição,
é o mesmo para todos e eles o atingem com maior ou menor rapidez, de
acordo com o uso que fizerem do seu livre-arbítrio e na razão
dos seus esforços. Todos têm que percorrer os mesmos graus, com
o mesmo trabalho a cumprir.
Deus não dá uma obrigação mais pesada nem mais leve
a uns do que a outros, porque todos são seus filhos e sendo Ele justo
não tem preferência por nenhum. Deus lhes diz: "Eis a Lei
que deve guiar a vossa conduta. Só ela vos pode conduzir ao alvo. Tudo
o que estiver de acordo com essa Loi pertence ao bem, tudo o que a contrariar
pertence ao mal. Sois livres de a observar ou de a infringir, de maneira que
sereis os árbitros da vossa própria sorte."Deus, portanto,
não criou o mal. Todas as suas Leis conduzem ao bem. Foi o próprio
homem quem criou o mal infringindo as Leis de Deus. Se ele as observasse escrupulosamente
jamais se afastaria do bom caminho.
13 — Mas a alma, nas primeiras fases da sua existência, da mesma
maneira que a criança, não tem experiência e por isso é
falível. Deus não lhe dá a experiência, mas lhe concede
os meios de adquiri-la. Cada passo falso no caminho do mal representa um atraso
para a alma. Ela sofre as consequências de erro e aprende à própria
custa o que deve evitar. É assim que pouco a pouco ela se desenvolve,
se aperfeiçoa e avança na hierarquia espiritual até
chegar ao estado de Espírito puro ou anjo.
Os anjos são, pois, as almas dos homens que atingiram o grau de perfeição
acessível à criatura e gozam da felicidade prometida. Antes de
haver atingido o grau supremo, gozam de uma felicidade relativa ao seu adiantamento,
mas essa felicidade não é a do prazer ocioso. É, pelo contrário,
a das funções que Deus lhes confia, a seu pedido, sentindo-se
felizes de desempenhá-las, porque estas ocupações são
para elas um meio de progredir. (Ver Cap. Ill, O Céu.)
14 — A Humanidade não está limitada à Terra. Ocupa
inumeráveis mundos que circulam no espaço. Ocupou os mundos que
já desapareceram e ocupará os que ainda se formarão. Deus
criou desde toda a eternidade e cria sem cessar. Muito tempo antes que a Terra
existisse, por maior ancianidade que lhe atribuamos, já havia em outros
mundos Espíritos encarnados que percorreram as mesmas etapas que nós,
Espíritos de formação mais recente, que estamos percorrendo
agora o mesmo caminho que eles percorreram, chegando ao seu destino antes mesmo
que nós houvéssemos saído das mãos do Criador. Por
toda a eternidade sempre houve anjos ou Espíritos puros, mas como a sua
existência humana se perde no infinito do passado, temos a impressão,
de que eles sempre foram anjos.
15 — É assim que se nos revela a grande Lei de unidade da Criação.
Deus nunca esteve inativo e sempre teve Espíritos puros, experientes
e esclarecidos para transmitirem as suas ordens e para dirigirem todo o mecanismo
do Universo, desde o governo dos mundos até os mais ínfimos pormenores.
Não houve pois necessidade da criação de seres privilegiados,
isentos de encargos. Todos, antigos ou novos, conquistaram a sua elevação
através da luta e pelos próprios méritos. Todos, enfim,
são filhos de suas próprias obras. Assim se cumpre igualmente
a soberana justiça de Deus.
15 - O Livro dos Espíritos - Allan Kardec - q. 113, 128, 490, 584
Perg.
113: Primeira classe: Classe única - Percorreram todos os graus da escala
e se despojaram de todas as impurezas da matéria. Havendo atingido a
soma de perfeições de que é suscetível a criatura,
não tem mais provas nem expiações a sofrer. Não
estando mais sujeitos a reencarnação em corpos perecíveis,
vivem a vida eterna, que desfrutam no seio de Deus. Gozam de uma felicidade
inalterável, porque não estão sujeitos nem às necessidades
nem às vicissitudes da vida material; mas essa felicidade não
é a de uma ociosidade monótona, vivida em contemplação
perpétua.
São os mensageiros e os ministros de Deus, cujas ordens executam, para
a manutenção da harmonia universal. Dirigem todos os Espíritos
que lhes são inferiores, ajudam-nos a se aperfeiçoarem e determinam
as suas missões. Assistir os homens nas suas angústias, incitá-los
ao bem ou à expiação de faltas que os distanciam da felicidade
suprema são para eles ocupações agradáveis. São
às vezes designados pelos nomes de anjos, arcanjos ou serafins. Os homens
podem comunicar-se com eles, mas bem presençuso seria o que pretendesse
tê-los constantemente às suas ordens.
Perg. 128: Os seres que chamamos anjos, arcanjos, serafins formam uma categoria especial, de natureza diferente da dos outros Espíritos? - Não; são Espíritos puros: estão no mais alto grau da escala e reúnem em si todas as perfeições. A palavra anjo desperta geralmente a idéia da perfeição moral; não obstante, é frequentemente aplicada a todos os seres, bons e maus que não pertencem à Humanidade. Diz-se: o bom e o mau anjo; o anjo da luz e o anjo das trevas; e nesse caso o termo é sinônimo de Espírito ou de gênio. Tomamo-lo aqui na sua boa significação.
Perg. 490: Que se deve entender por anjo da guarda? - O Espírito protetor de uma ordem elevada.
LEMBRETE: Os anjos não são uma criação especial de Deus, mas Espíritos que conseguiram superar as imperfeições próprias da condição humana; são Espíritos puros e, como tal, pertencem à Primeira Ordem, segundo a escala de valores estabelecida pela Doutrina dos Espíritos. Tornam-se mensageiros de Deus, mantendo sob suas ordens Espíritos em diferentes grau de evolução, e manifestam seu amor ora participando da criação de novos mundos em formação, ora trazendo revelações divinas para a evolução da humanidade.
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