DEMÔNIO |
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BIBLIOGRAFIA |
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| 01- A agonia das religiões - pág. 23 | 02 - Ação e reação - pág. 53 |
| 03 - Boa nova - pág. 50 | 04 - Cristianismo e Espiritismo - pág. 291 |
| 05 - Curso Dinâmico de Espiritismo - pág. 154 | 06 - Depois da morte - pág. 234 |
| 07 - Dicionário Enc. ilustrado - pág. 64 | 08 - Do país da luz - vol iv - pág. 21. 258 |
| 09 - Ernesto Bozzano - pág. 21 | 10 - Estante da vida - pág. 121 |
| 11 - Lázaro redivivo - pág. 51 | 12 - Libertação - pág. 21. 103 |
| 13 - No invisível - pág. 366 | 14 - O céu e o inferno - pág. 1ª parte - cap. IX |
| 15 - O Evangelho S.o Espiritismo - Intr. V | 16 - O Livro dos Espíritos - Intr. X, q. 102, 128, 131, 361, 474, 480 |
| 17 - O Livro dos Médiuns - q. 46 | 18 - O que é a morte - pág. 56 |
| 19 - O que é Espiritismo - pág. 13,136 | 20 - Obreiros da vida eterna - pág.232 |
| 21 - Os funerais da Santa Sé - pág. 86, 103, 125 | 22 - Os milagres de Jesus- pág. 19 |
| 23 - Universo e vida - pág. 53, 93 | 24 - Vencendo a morte e a obsessão - pág. 96, 140 |
LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.
DEMÔNIO – COMPILAÇÃO
01- A agonia das religiões - José Herculano Pires- pág. 23
A
EXPERIÊNCIA DE DEUS
Sacerdotes e pastores, homens de fé, sinceros e bons procuraram demonstrar-me
que as religiões não estão em crise. Sustentaram que a
crise é do homem e não das instituições religiosas.
As religiões continuam vivas e atuantes no coração dos
crentes — disseram — mas os homens mundanos, que se entregam à
loucura do século, conturbam a paisagem terrena. É necessário
que os homens busquem a Deus, que tenham a experiência de Deus. E essa
experiência só é possível quando o homem se desliga
do mundo para ligar-se a Deus através da oração e da meditação.
Falaram de milhares de pessoas que, no torvelinho da vida contemporânea,
procuram todos os dias, a horas certas, o refúgio dos templos ou de um
quarto solitário para tentar um encontro pessoal com Deus. Muitas dessas
pessoas já conseguiram a audiência secreta com o Todo Poderoso.
São criaturas felizes, iluminadas pela graça divina, que sustentam
com sua fé inabalável a continuidade das religiões e garantem
a sua expansão.
É bom que existam pessoas assim, dedicadas vestais que zelam pelo fogo
sagrado. São os últimos abencerrages do formalismo religioso,
flores de estufa cultivadas na penumbra das naves sagradas. Cuidam da fé
como jardineiros especializados que cultivam uma espécie vegetal extremamente
delicada. Acreditam que os seus canteiros floridos darão sementes para
semeaduras ilimitadas por toda a superfície da Terra. Não percebem
essas almas eleitas que cultivam exclusivamente a si mesmas, ocultam na aparência
piedosa seus conflitos profundos e nada mais fazem do que fugir da realidade
escaldante da vida. Não escondem a cabeça na areia, pois mergulham
de corpo inteiro no sonho egoísta da salvação pessoal.
As práticas místicas do passado provaram mal a sua eficácia.
Do Oriente ao Ocidente, multidões de gerações de crentes
desfilaram sem cessar, através dos milênios, pelos templos de todas
as religiões, convictas de haverem alcançado a salvação
pessoal, enquanto hordas ferozes e exércitos em guerras de extermínio
brutal cobriam o mundo de ruínas, cadáveres inocentes, sangue
e lágrimas. Os que ouviram Deus em audiência particular não
se recusaram a pegar em armas para estraçalhar seus irmãos considerados
como réprobos e infiéis. Santos Bispos e Padres, pastores calvinistas,
crentes populares, fidelíssimos e humildes, não acenderam suas
lâmpadas votivas para iluminar as noites trevosas. Preferiram acender
fogueiras inquisitórias e, quando o sol raiava, submeter piedosamente
os hereges à morte redentora do garrote-vil, réplica religiosa
à guilhotina profana.
Lembro-me do episódio histórico de Jerônimo de Praga. Depois
de haver assistido, pelas grades da prisão, seu mestre João Huss
ser queimado vivo em praça pública, foi também glorificado
com a graça especial de uma fogueira semelhante. No momento em que as
chamas começavam a iluminar a sua figura estranha, caridosamente amarrada
ao palanque do suplício (para salvação de sua alma rebelde)
viu uma pobre velhinha aproximar-se da fogueira com uma acha de lenha e atirá-la
ao fogo. Era a sua contribuição piedosa para a salvação
do ímpio. Jerônimo exclamou apenas: "Santa simplicidade!"
Pouco depois estava reduzido a cinzas, para glória de Deus, e suas cinzas
foram lançadas ritualmente nas águas do Reno.
Todas as formas de culto, todos os ritos, todos os sacramentos, todas as cerimônias
religiosas, todos os cilícios foram empregados nos milênios sombrios
do fanatismo religioso, para a salvação da Humanidade. E eis que
agora chegamos a um tempo de descrença generalizada, de materialismo
e ateísmo oficializados, de hipocrisia pragmática erigida em sustentáculo
das religiões fracassadas. Deus falava diretamente com seu servo Moisés
no deserto, falava-lhe cara a cara, ordenando matanças coletivas, genocídios
tenebrosos, destruição total dos povos que impediam o acesso dos
hebreus à terra dos cananeus, que seria tomada a fio de espada. Deus
continua falando em particular a seus servos em nossos dias, para a sustentação
das igrejas, enquanto o Diabo não perde tempo e alicia milhões
de almas perdidas para as práticas do terrorismo, para a matança
de crianças e criaturas inocentes, para assaltos e estupros em toda a
face da Terra.
A experiência de Deus sustenta os crentes privilegiados e sustenta suas
igrejas salvacionistas. E enquanto não chega a salvação,
católicos e protestantes matam-se gloriosamente nas lutas fraticidas
da Irlanda, em plena era das mais brilhantes conquistas da inteligência
humana. Que estranha experiência é essa, que não revela
os seus frutos, que não prova a sua eficácia? Deus estaria, acaso,
demasiado velho para não perceber a inutilidade dos seus métodos
de salvação pessoal em audiências privadas? E os seus
servidores, os clérigos investidos de autoridade divina para implantar
na Terra o Reino do Céu, porque não avisam o velho monarca da
inutilidade milernamente provada de sua técnica de conta-gotas? (...)
02 - Ação e reação - André Luiz - pág. 53
—
A dama generosa que a recolheu nos braços é a genitora que veio
ao encontro da filha.
— Que nos diz?! — exclamou Hilário, assombrado.
— Sim, acompanhá-la-á, carinhosamente, sem identificar-se,
para que a pobre desencarnada não sofra abalos prejudiciais. O traumatismo
perispirítico vale por muito tempo de desequilíbrio e aflição.
— E por que motivo teria a doente decidido confessar-se, dessa maneira?
— perguntou meu colega, intrigado.
— É fenômeno comum — elucidou o Assistente. —
As faculdades mentais de nossa irmã sofredora estagnaram-se no remorso,
em razão do delito máximo de sua existência última,
e, desde que foi mais intensamente tocada pelas reflexões da morte, entregou-se,
de modo total, a semelhantes reminiscências. Por haver cultivado a fé
católica romana, imagina-se ainda diante do sacerdote, acusando-se pela
falta que lhe maculou a vida...
O espetáculo ferira-me, fundo. A rudeza do quadro que a verdade me oferecia
obrigava-me a dolorida meditação. Não havia, então,
males ocultos na Terra!... Todos os crimes e todas as falhas da criatura humana
se revelariam algum dia, em algum lugar!... Silas entendeu a amargura de minhas
reflexões e veio em meu socorro, observando:— Sim, meu amigo, você
repara com acerto. A Criação de Deus é gloriosa luz. Qualquer
sombra de nossa consciência jaz impressa em nossa vida até que
a mácula seja lavada por nós mesmos, com o suor do trabalho ou
com o pranto da expiação...E ante os apelos agoniados e afetivos
nos reencontros a se processarem, ali, sob nossos olhos, em que filhos e pais,
esposos e amigos se reaproximavam uns dos outros, o Assistente acrescentou:
— Geralmente a estas plagas de inquietação aportam
aqueles que em si mesmos cavaram mais fundos sulcos infernais e que se cristalizaram
em perigosas ilusões, mas a Bondade Infinita do Senhor permite que as
vítimas edificadas no entendimento e no perdão se transformem,
felizes, em abnegados cireneus dos antigos verdugos. Como é fácil
verificar, o incomensurável amor de nosso Pai Celeste cobre, não
somente os territórios glorificados do paraíso, mas também
as províncias atormentadas do inferno que criamos... Pobre mulher prorrompeu
em choro convulso, junto de nós, cortando a palavra de nosso amigo. De
punhos cerrados, reclamava a infeliz:— Quem me libertará de Satã?
quem me livrará do poder das trevas? Santos anjos, socorrei-me! Socorrei-me
contra o temível Belfegor!...
Silas convocou-nos ao amparo magnético imediato. Enfermeiros presentes
acorreram, solícitos, impedindo o agravamento da crise.
— Maldito! Maldito!... — repetia a demente, persignando-se. Invocando
o socorro divino, através da oração, procurei anular-lhe
os movimentos desordenados, adormecendo-a pouco a pouco. Asserenado o ambiente,
convidou-nos Silas a sondar-lhe a mente conturbada, agora sob o império
de profunda hipnose. Busquei pesquisar-lhe a desarmonia em rápido processo
de análise mental, e verifiquei, espantado, que a pobre amiga era portadora
de pensamentos horripilantes. Como que a se lhe enraizar no cérebro,
via escapar-lhe do campo íntimo a figura animalesca de um homem agigantado,
de longa cauda, com a fisionomia de um caprino degenerado, exibindo pés
em forma de garras e ostentando dois chifres, sentado numa cadeira tosca, qual
se vivesse em perfeita simbiose com a infortunada criatura, em mútua
imanização.
Diante da minha pergunta silenciosa, o Assistente informou:— É
um cliché mental, criado e nutrido por ela mesma. As idéias macabras
da magia aviltante, quais sejam as da bruxaria e do demonismo que as igrejas
denominadas cristãs propagam, a pretexto de combatê-los, mantendo
crendices e superstições, ao preço de conjurações
e exorcismo, geram imagens como esta, a se difundirem nos cérebros fracos
e desprevenidos, estabelecendo epidemias de pavor alucinatório.
03 - Boa nova - Humberto de Campos - pág. 50
A
LUTA CONTRA O MAL
De todas as ocorrências da tarefa apostólica, os encontros do Mestre
com os endemoninhados constituíam os fatos que mais impressionavam os
discípulos. A palavra "diabo" era então compreendida
na sua justa acepção. Segundo o sentido exato da expressão,
era ele o adversário do bem, simbolizando o termo, dessa forma, todos
os maus sentimentos que dificultavam o acesso das almas à aceitação
da Boa Nova e todos os homens de vida perversa, que contrariavam os propósitos
da existência pura, que deveriam caracterizar as atividades dos adeptos
do Evangelho.
Dentre os companheiros do Messias, Tadeu era o que mais se deixava impressionar
por aquelas cenas dolorosas. Aguçavam-lhe, sobremaneira, a curiosidade
de homem os gritos desesperados dos espíritos malfazejos, que se afastavam
de suas vítimas sob a amorosa determinação do Mestre Divino.
Quando os pobres obsidiados deixavam escapar um suspiro de alívio, Tadeu
volvia os olhos para Jesus, maravilhado de seus feitos. Certo dia em que o Senhor
se retirara, com Tiago e João, para os lados de Cesaréia de Filipe,
uma pobre demente lhe foi trazida, a fim de que ele, Tadeu, anulasse a atuação
dos Espíritos perturbadores que a subjugavam. Entretanto, apesar de todos
os esforços de sua boa-vontade, Tadeu não conseguiu modificar
a situação. Somente no dia imediato, ao anoitecer, na presença
confortadora do Messias, foi possível à infeliz dementada recuperar
o senso de si mesma.
Observando o fato, Tadeu caiu em sério e profundo cismar. Por que razão
o Mestre não lhes transmitia, automaticamente, o poder de expulsar os
demônios malfazejos, para que pudessem dominar os adversários da
causa divina? Se era tão fácil a Jesus a cura integral dos endemoninhados,
por que motivo não provocava ele de vez a aproximação geral
de todos os inimigos da luz, a fim de que, pela sua autoridade, fossem definitivamente
convertidos ao reino de Deus? Com o cérebro torturado por graves cogitações
e sonhando possibilidades maravilhosas para que cessassem todos os combates
entre os ensinamentos do Evangelho e os seus inimigos, o discípulo
inquieto procurou avistar-se particularmente com o Senhor, de modo a expor-lhe
com humildade suas ideias íntimas.
Numa noite tranquila, depois de lhe escutar as ponderações, perguntou-lhe
Jesus, em tom austero:— Tadeu, qual o principal objetivo das atividades
de tua vida? Como se recebesse uma centelha de inspiração superior,
respondeu o discípulo com sinceridade:— Mestre, estou procurando
realizar o reino de Deus no coração.— Se procuras semelhante
realidade, por que a reclamas no adversário em primeiro lugar? Seria
justo esqueceres as tuas próprias necessidades nesse sentido. Se
buscamos atingir o infinito da sabedoria e do amor em Nosso Pai, indispensável
se faz reconheçamos que todos somos irmãos no mesmo caminho!...—
Senhor, os espíritos do mal são também nossos irmãos?
— inquiriu, admirado, o apóstolo.
— Toda a criação é de Deus. Os que vestem a túnica
do mal envergarão um dia a da redenção pelo bem. Acaso,
poderias duvidar disso? O discípulo do Evangelho não combate propriamente
o seu irmão, como Deus nunca entra em luta com seus filhos; aquele apenas
combate toda manifestação de ignorância, como o Pai que
trabalha incessantemente pela vitória do seu amor, junto da humanidade
inteira.— Mas, não seria justo — ajuntou o discípulo,
com certa convicção — convocarmos todos os gênios
malfazejos para que se convertessem à verdade dos céus? O Mestre,
sem se surpreender com essa observação, disse:— Por que
motivo não procede Deus assim?... Porventura, teríamos nós
uma substância de amor mais sublime e mais forte que a do seu coração
paternal? Tadeu, jamais olvidemos o bom combate.
Se
alguém te convoca ao labor ingrato da má semente, não desdenhes
a boa luta pela vitória do bem, encarando qualquer posição
difícil como ensejo sagrado para revelares a tua fidelidade a Deus. Abraça
sempre o teu irmão. Se o adversário do reino te provoca ao esclarecimento
de toda a verdade, não desprezes a hora de trabalhar pela vitória
da luz; mas segue o teu caminho no mundo atento aos teus próprios deveres,
pois não nos consta que Deus abandonasse as suas atividades divinas para
impor a renovação moral dos filhos ingratos, que se rebelaram
na sua casa. Se o mundo parece povoar-se de sombras, é preciso reconhecer
que as leis de Deus são sempre as mesmas, em todas as latitudes da vida.
Ê' indispensável meditar na lição de Nosso Pai e
não estacionar a meio do caminho que percorremos. Os inimigos do reino
se empenham em batalhas sangrentas? Não olvides o teu próprio
trabalho. Padecem no inferno das ambições desmedidas? Caminha
para Deus. Lançam a perseguição contra a verdade? Tens
contigo a verdade divina que o mundo não te poderá roubar, nunca.
Os grandes patrimônios da vida não pertencem às forças
da Terra, mas às do Céu. O homem, que dominasse o mundo inteiro
com a sua força, teria de quebrar a sua espada sangrenta, ante os direitos
inflexíveis da morte. E, além desta vida, ninguém te perguntará
pelas obrigações que tocam a Deus, mas, unicamente, pelo mundo
interior que te pertence a ti mesmo, sob as vistas amoráveis de
Nosso Pai.
Que diríamos de um rei justo e sábio que perguntasse a um só
de seus súditos pela justiça e pela sabedoria do reino inteiro?
Entretanto, é natural que o súdito seja inquirido acerca dos trabalhos
que lhe foram confiados, no plano geral, sendo também justo se lhe pergunte
pelo que foi feito de seus pais, de sua companheira, de seus filhos e irmãos.
Andas assim tão esquecido desses problemas fáceis e singelos?
Aceita a luta, sempre que fores julgado digno dela e não te esqueças,
em todas as circunstâncias, de que construir é sempre melhor. Tadeu
contemplou o Mestre, tomado de profunda admiração. Seus esclarecimentos
lhe caíam no espírito como gotas imensas de uma nova luz.—
Senhor — disse ele —, vossos raciocínios me iluminam o coração;
mas, terei errado externando meus sentimentos de piedade pêlos espíritos
malfazejos? Não devemos, então, convocá-los ao bom caminho?
— Toda intenção excelente — redarguiu Jesus —
será levada em justa conta no céu, mas precisamos compreender
que não se deve tentar a Deus. Tenho aceitado a luta como o Pai ma envia
e tenho esclarecido que a cada dia basta o seu trabalho. Nunca reuni o colégio
dos meus companheiros para provocar as manifestações dos que se
comprazem na treva; reuni-os, em todas as circunstâncias e oportunidades,
suplicando para o nosso esforço a inspiração sagrada do
Todo-Poderoso. O adversário é sempre um necessitado que comparece
ao banquete das nossas alegrias e, por isso, embora não o tenha convocado,
convidando somente os aflitos, os simples e os de boa-vontade, nunca lhe fechei
as portas do coração, encarando a sua vinda como uma oportunidade
de trabalho, de que Deus nos julga dignos.
O apóstolo humilde sorriu, saciado em sua fome de conhecimento, porém
acrescentou, preocupado com a impossibilidade em que se via de atender eficazmente
à vítima que o procurara:— Senhor, vossas palavras são
sempre sábias; entretanto, de que necessitarei para afastar as entidades
da sombra, quando o seu império se estabeleça nas almas?!...—
Voltamos, assim, ao início das nossas explicações —
retrucou Jesus —, pois, para isso, necessitas da edificação
do reino no âmago do teu espírito, sendo este o objetivo de tua
vida. Só a luz do amor divino é bastante forte para converter
uma alma à verdade. Já viste algum contendor da Terra convencer-se
sinceramente tão-só pela força das palavras do mundo? As
dissertações filosóficas não constituem toda a realização.
Elas podem ser um recurso fácil da indiferença ou uma túnica
brilhante, acobertando penosas necessidades.
O reino de Deus, porém, é a edificação divina da luz. E a luz ilumina, dispensando os longos discursos. Capacita-te de que ninguém pode dar a outrem aquilo que ainda não possua no coração. Vai! Trabalha sem cessar pela tua grande vitória. Zela por ti e ama a teu próximo, sem olvidares que Deus cuida de todos. Tadeu guardou os esclarecimentos de Jesus, para retirar de sua substância o mais elevado proveito no futuro. No dia seguinte, desejando destacar, perante a comunidade dos seus seguidores, a necessidade de cada qual se atirar ao esforço silencioso pela sua própria edificação evangélica, o Mestre esclareceu aos seus apólogos singelos, como se encontra dentro da narrativa de Lucas:
— "Quando o espírito imundo sai do homem, anda por lugares áridos, procurando, e não o achando diz: — Voltarei para a casa donde saí; e, ao chegar, acha-a varrida e adornada. Depois, vai e leva mais sete Espíritos piores do que ele, que ali entram e habitam; e o último estado daquele homem fica sendo pior do que o primeiro." Então, todos os ouvintes das pregações do lago compreenderam que não bastava ensinar o caminho da verdade e do bem aos Espíritos perturbados e malfazejos; que indispensável era edificasse cada um a fortaleza luminosa e sagrada do reino de Deus, dentro de si mesmo.
06 - Depois da morte - Léon Denis - pág.
234
XXXVII — O INFERNO E OS DEMÔNIOS
Baseando-se nos casos de obsessão, nas manifestações ruidosas
dos Espíritos frívolos e zombeteiros, a Igreja entendeu dever
atribuir aos demônios todos os fenômenos do Espiritismo e condená-los
como inúteis ou perigosos. Antes de refutar essa interpretação,
convém lembrar que o Catolicismo acolheu do mesmo modo todas as grandes
descobertas, todos os progressos consideráveis que assinalam os fastos
da História. Raras são as conquistas científicas que não
foram julgadas como obras diabólicas. Era, pois, de esperar que fossem
repelidas pelo poder sacerdotal as instruções dos Espíritos
que o vinham aluir.
O mundo invisível, já o dissemos, é um véu espesso
que cobre a Humanidade. Os Espíritos são apenas almas, mais ou
menos perfeitas, entes humanos desencarnados, e nossas relações
com eles devem ser reguladas com tanta reserva e prudência quanto na convivência
com os nossos semelhantes. Ver no Espiritismo somente manifestações
de Espíritos inferiores equivale a notar na Humanidade unicamente o mal.
O ensino dos Espíritos elevados tem aclarado o caminho da vida, resolvido
os obscuros problemas do futuro, fortificado a fé vacilante, restabelecido
a justiça sobre bases inabaláveis.
Graças a eles, uma multidão de incrédulos e de ateus tem sido levada a crer em Deus e na imortalidade: homens ignorantes e viciosos são atraídos, aos milhares, para o bem e para a verdade. Será isso obra do demónio? Seria Satanás, se com efeito existisse, tão cego que trabalhasse em detrimento dos seus interesses? É necessária alguma perspicácia para distinguir a natureza dos Espíritos e conhecer, em nossas relações com eles, a parte que se deve conservar ou rejeitar. Jesus disse: "conhece-se a árvore pelo seu fruto". A linguagem e as instruções dos Espíritos elevados são sempre impregnadas de dignidade, de sabedoria e de caridade; visam ao progresso moral do homem e desprendem-se de tudo que é material.
As
comunicações dos Espíritos atrasados pecam pelas qualidades
contrárias; abundam em contradições e tratam, geralmente,
de assuntos vulgares, sem alcance moral. Os Espíritos levianos ou inferiores
entregam-se, de preferência, às manifestações físicas.
O Espiritismo traz à Humanidade um ensino proporcional às suas
necessidades intelectuais; vem restabelecer em sua primitiva pureza, explicar,
completar a doutrina do Evangelho; arrancá-la ao Espírito de especulação,
aos interesses de classes, restituir-lhe sua verdadeira missão e sua
influência sobre as almas; por isso ele é considerado com espanto
por todos aqueles a quem vai perturbar o sossego e enfraquecer a autoridade.
Com o correr dos tempos, a doutrina do Cristo tem sido alterada e, hoje, apenas
exerce uma ação enfraquecida, insuficiente, sobre os costumes
e caracteres. Agora, o Espiritismo vem tomar e prosseguir a tarefa confiada
ao Cristianismo. É aos Espíritos que cabe, de então em
diante, a missão de restabelecer todas as coisas, de penetrar nos meios
mais humildes como nos mais esclarecidos, e de, em legiões inumeráveis,
trabalhar para a regeneração das sociedades humanas. A teoria
dos demônios e do inferno eterno não mais pode ser admitida por
nenhum homem sensato. Satanás é, simplesmente, um mito. Criatura
alguma é votada eternamente ao mal.
08 - Do país da luz - vol iv - Espíritos Diversos - pág. 21, 258
Almeida
Garrett.
Não sou pessoa que me faça rogar. Cedo, com prazer, ao teu desejo
e cumpro, com gosto, a minha antiga promessa. Vou, pois, desempenhar-me da primeira
tarefa, visto que tenho para mim que, se nos dermos bem, outras teremos ao depois.
Há tanta coisa de novo a dizer que mal sei por onde possa principiar.
Não esperes, nem ninguém, que, nestas pequeninas miniaturas que
daqui fazemos, possamos dar mais que ligeiros esbocetos ou insignificantes detalhes,
da vida que levamos. E' ela tão diferente da daí, que não
encontramos termos apropriados, nem comparações, senão
longemente semelhantes, que possam dar uma fugidia ideia do que aqui se passa.
A razão é óbvia e salta aos olhos ao primeiro golpe.
A vida na Terra é toda própria para o homem, feito em matéria
pesada e incessantemente renovável . Essa matéria tem sensações
que a magoam e tem sensações que a deleitam. Assim, pois, o homem
passa aí o tempo a preparar elementos com que satisfaça à
lei natural de evolução física do seu organismo e na procura
incessante, melhor direi, na diligência incessante de se esquivar às
sensações magoantes e de conquistar as sensações
deleitosas. Nisso se consome, nisso está a causa de todas as suas preocupações.
A vida aqui está isenta das pesadas exigências da matéria
carnal.
O homem, despojado do invólucro que aí arrastou e de que aí
foi escravo, não tem, em regra, que obedecer à vontade do estômago,
às ordens do mundo, nem às contingências da saúde.
A sua matéria astral (deixa-me dizer assim para dar uma ideia compreensível),
a sua matéria astral é mais leve, não é renovável,
não tem, pois, exigência de refazimento próprio, nem da
procriação da espécie. Contém-se, naturalmente e
sem esforço, dentro de um limite quase inteiramente espiritual. As sensações
que a dominam, conquanto sejam consoante os infinitos graus de espiritualidade
e de adiantamento em que cada um se encontra, são, todavia, todas, ou
quase todas, de ordem moral. E tanto o são as sensações
de desprazer, como as sensações de gozo.
Deste modo, a diferença da vida é tão grande, quão
grande for a diferença entre os homens, no seu relativo grau de espiritualidade.
Não se suponha que a morte nivela todos. E' isso uma das muitas ilusões
que aí escondem ao olhar supersticioso dos homens a verdade. E' um dos
muitos abusões da ignorância.A morte iguala só no ato necessário
do despojamento da carne; porque, assim como mata aí um sábio
e um ignorante, um infante e um velho, um santo e um perverso, assim os fará
ingressar aqui sábios e ignorantes, infantes e velhos, santos e perversos.
Só ao depois é que cada um, prosseguindo na sua evolução
interrompida aí pelo corte feito pela implacável Parca, ao fio
da sua existência terrena, segue, segundo a orientação que
traz, ao destino que as suas qualidades ou os seus defeitos o encaminham.
Mas não vão ficar inativos. Não vão entregar-se
à sonhada beatitude os bons, nem cair na temerosa caldeira os maus. Readquire
cada um o seu arbítrio, conformemente ao seu aprazimento. Têm os
bons vasto ensejo de dar largas aos seus sentimentos caritativos, espalhando-se
em todas as direções, levando consolos, aconselhando coragem,
exemplificando paciência e pregando a resignação como
principal veículo para se chegar à perfeição, onde
só impera o amor e a paz da consciência; assim como os que não
são bons têm ocasião de dar largas aos instintos ainda atrasados.
E não se suponha que estes são inteiramente maus e eternamente
maus. Não.
Enquanto a eles próprios, têm de evolver, mais vagarosamente ou
mais apressadamente, segundo o empenho que puserem na sua vontade de fazerem
ou não fazerem atos que, perante a justiça e a moral absolutas,
se possam considerar bons, e que como tais a sua consciência intencionalmente
os tenha o pratique. Nos atos que a mesma consciência reprove, eles podem
fazer bem; mas não são como bons contados ao seu ativo de progresso,
porque não correspondem à deliberada vontade de progredir, nem
ao desejo de como bons os fazerem. Se não aproveitam, porém,
a quem os pratica, podem aproveitar àqueles contra quem são praticados.
Um homem que aí na Terra for mau, a morte trá-lo-á aqui
ainda mau. Se ele põe em sincero propósito o desejo de emendar-se
e melhorar, pode começar desde logo o seu pesado noviciado, resignando-se
no seu sofrimento e predicando a resignação aos insofridos.
Pode, no meio inferior e penível em que for lançado, procurar aconselhar, mover ao arrependimento e à prática de boas ações os que têm em sua volta; e à proporção que vai apostolizando e firmando em sinceras e salutares bases a sua obra de converso, vai progredindo; vai aliviando o peso da matéria astral de que é composto o seu organismo. E assim como se vai aliviando esse peso, a matéria vai perdendo a sua densidade; e como perde a densidade, vai branqueando a sua cor, e de como branqueia a cor se eleva na escala da perfeição e ascende a regiões mais puras, mais elevadas, mais belas. Mas se o homem, com o desengano que a morte deu às suas ilusões terrenas, ou com a raiva que os sofrimentos, provocados pelas más ações que praticou, lhe ocasionam, em vez de se arrepender e humilhar, se rebela e prossegue na via dolorosa dessas más ações, então, sendo mau para si, pode ser um bom agente de aperfeiçoamento para os outros.
Despenha-se na enorme legião dos anjos caídos, a que a lenda chama demônios, e vai, por esses mundos fora, a desempenhar o papel de tentador das almas. Aos avaros, tenta-os na riqueza; aos vaidosos, pela lisonja; aos orgulhosos, pela soberbia; aos viciosos, pelo vício que os domina, etc. A cada pessoa tenta pelas fraquezas que lhe conhecer. Entra-lhe na vida por todas as frinchas que encontrar abertas. Se a pessoa tentada, resistindo à sedução, expulsar de si e fechar, após a sua saída, a frincha por onde ele entrou, terá dado um largo passo na sua carreira espiritual e ao tentador uma áspera lição, que o desgostará e punirá; se, ao contrário, se entregar ao deleite da tentação e adormecer docemente embalado nos braços do tentador, grande mal terá feito a si e grande prazer terá dado ao mau inimigo, que se quedará alojado na sua vida como um parasita num árvore indefesa.
Não soube resistir. Não tinha ainda a perfeição moral necessária para condenar o que era mau. Não suponha o leitor medroso que está desprevenido e abandonadamente sujeito a essas ruins tentações. Ao contrário: está muito bem armado para a sua defensiva. Em primeiro lugar, e como bem armada cidadela, para a sua defesa tem a sua consciência. E' como sentinela vigilante da sua alma, e ela se encarrega de dar o grito de alarma contra o inimigo, quando ele se aproxima. Depois, há o raciocínio para dizer-nos o que é bom e o que é mau; há o instinto sensitivo e artístico para nos indicar o que é belo. Há a inteligência natural de todas as pessoas, a desimpedir-lhes a compreensão e a aferir, por esta, o grau de responsabilidade nos atos que pratica. (...)
12 - Libertação - André Luiz- pág. 21. 103
(...)
A matéria, congregando milhões de vidas embrionárias, é
também a condensação da energia, atendendo aos imperativos
do "eu" que lhe preside ã destinação. Do hidrogênio
às mais complexas unidades atômicas, é o poder do espírito
eterno a alavanca diretora de prótons, nêutrons e eléctrons,
na estrada infinita da vida. Demora-se a inteligência corporificada no
círculo humano em transitória região, adaptada às
suas exigências de progresso e aperfeiçoamento, dentro da qual
o protoplasma lhe faculta instrumentos de trabalho, crescimento e expansão.
Entretanto, nesse mesmo espaço, alonga-se a matéria noutros estados,
e, nesses outros estados, a mente desencarnada, em viagem para o conhecimento
e para a virtude, radica-se na esfera física, buscando dominá-la
e absorvê-la, estabelecendo gigantesca luta de pensamento que ao homem
comum não é dado calcular.
Frustrados em suas aspirações de vaidoso domínio no domicílio
celestial, homens e mulheres de todos os climas e de todas as civilizações,
depois da morte, esbarram nessa região em que se prolongam as atividades
terrenas e elegem o instinto de soberania sobre a Terra por única felicidade
digna do impulso de conquistar. Rebelados filhos da Providência, tentam
desacreditar a grandeza divina, estimulando o poder autocrático da inteligência
insubmissa e orgulhosa e buscam preservar os círculos terrestres para
a dilatação indefinida do ódio e da revolta, da vaidade
e da criminalidade, como se o Planeta, em sua expressão inferior, lhes
fosse paraíso único, ainda não integralmente submetido
a seus caprichos, em vista da permanente discórdia reinante entre eles
mesmos.
É
que, confinados ao berço escabroso da ignorância em que o medo
e a maldade, com inquietudes e perseguições recíprocas,
lhes consomem as forças e lhes inutilizam o tempo, não se apercebem
da situação dolorosa em que se acham. Fora do amor verdadeiro,
toda união é temporária e a guerra será sempre o
estado natural daqueles que perseveram na posição de indisciplina.
Um reino espiritual, dividido e atormentado, cerca a experiência humana,
em todas as direções, intentando dilatar o domínio permanente
da tirania e da força.
Sabemos que o Sol opera por meio de radiações, nutrindo, maternalmente,
a vida a milhões de quilômetros. Sem nos referirmos às condições
da matéria em que nos movimentamos, lembremo-nos de que, em nosso sistema,
as existências mais rudimentares, desde os cumes iluminados aos recôncavos
das trevas, estão sujeitas à sua influenciação.
Como acontece aos corpos gigantescos do Cosmos, também nós outros,
espiritualmente, ciuninhamos para o zênite evolutivo, experimentando as
radiações uns dos outros. Nesse processo multiforme de intercâmbio,
atração, imantação e repulsão, aperfeiçoam-se
mundos e almas, na comunidade universal. (...)
14 - O céu e o inferno - Allan Kardec - pág. 1ª parte - cap. IX
CAPITULO
IX - OS DEMÔNIOS - Origem da crença nos Demônios
1 — Os demônios desempenharam em todas as épocas um papel
nas diversas teogonias. Embora consideravelmente decaídos na opinião
geral, a importância que ainda lhes atribuem em nossos dias dá
a esta questão uma certa gravidade, porque ela se refere ao próprio
fundamento das crenças religiosas. É portanto conveniente que
a examinemos em todos os seus aspectos.
A crença na existência de um poder superior é instintiva
e podemos encontrá-la entre os homens sob as mais diferentes formas,
em todas as épocas. Mas se, no grau de adiantamento intelectual em que
hoje se encontram, ainda discutem a natureza e os atributos dessa potência,
quanto mais imperfeitas deviam ser suas noções a respeito nas
fases iniciais da humanidade!
2 — A representação que hoje fazemos dos povos primitivos
deslumbrados com as belezas da Natureza, nas quais admiram a bondade do Criador,
é sem dúvida muito poética, mas desprovida de realidade.
Quanto mais próximo se encontra o homem do estado natural, mais é
dominado pelo instinto, como ainda podemos ver entre os povos selvagens e bárbaros
dos nossos dias. O que mais o preocupa, ou melhor, o que exclusivamente o preocupa
é a satisfação das suas necessidades vitais, pois na verdade
não possui outras. O senso moral, que lhe torna possível gozar
os prazeres dessa ordem, só se desenvolve aos poucos e demoradamente.
A alma tem a sua infância, sua adolescência e sua virilidade, como
acontece na vida corpórea. Mas, para atingir a virilidade, que a torna
capaz de compreender as coisas abstraías, quanto deve ainda percorrer
no caminho da evolução humana! Quantas existências terá
ainda de cumprir!
Sem remontarmos aos tempos primitivos, vejamos ao nosso redor as populações
camponesas e perguntemos que sentimentos de admiração despertam
nelas o nascer do sol com seu esplendor, o céu estrelado, o gorjeio dos
pássaros, o marulhar das ondas, os prados verdejantes e floridos. Para
elas, o sol se levanta porque isso é habitual e é necessário
que dê o calor para amadurecer as colheitas sem as queimar. É tudo
quanto lhes interessa. Se olham o céu é para saber se fará
bom ou mau tempo no dia seguinte. Que os pássaros cantem ou não,
isso pouco lhes interessa, desde que não vão comer os grãos
das semeaduras. Às melodias do rouxinol preferem o cacarejar das galinhas
e os grunhidos dos porcos. O que interessa nas ondas claras ou borbulhantes
dos riachos, é que não sequem e não produzam inundações.
Quanto aos prados, que lhes dêem boa pastagem, com ou sem flores. É
tudo quanto desejam, diremos mais, tudo o que compreendem da Natureza, e no
entanto estão já bem distantes dos homens primitivos!
3 — Se nos reportamos aos primitivos, vemo-los ainda mais inteiramente
preocupados com a satisfação de seus interesses materiais. Tudo
o que serve para os ajudar e tudo o que possa prejudicá-los resumem para
eles o bem e o mal neste mundo. Crêem num poder extra-humano, mas como
o que acarreta prejuízo material é o que mais lhes toca, atribuem
esses prejuízos ao poder de que fazem, aliás, uma idéia
muito vaga. Nada podendo ainda conceber fora do mundo visível e tangível,
imaginam que esse poder se constitui dos seres e das coisas que lhes são
prejudiciais.
Os animais daninhos são, assim, para eles, os agentes naturais e diretos
desse poder. Pela mesma razão, imaginam a personificação
do bem nas coisas úteis. Vem daí o culto de certos animais, de
certas plantas e mesmo de objetos inanimados. Mas o homem é geralmente
mais sensível ao mal do que ao bem, de maneira que o bem lhe parece natural
enquanto o mal lhe parece extraordinário. É por isso que, em todos
os cultos primitivos, as cerimônias em honra ao poder malfazejo são
as mais numerosas: o medo é mais dominante que a gratidão.
Por muito tempo o homem só compreende o bem e o mal do ponto de vista
físico. O sentimento do bem moral e do mal moral assinala um progresso
da alma humana. Somente então o homem entrevê a espiritualidade
e compreende que o poder sobre-humano está fora do mundo visível
e não nas coisas materiais. Essa conquista pertence a algumas inteligências
privilegiadas, mas que assim mesmo não conseguem ir além de certos
limites.
4 — Vendo-se uma luta incessante entre o bem e o mal, este frequentemente
vencendo aquele, e não se podendo racionalmente admitir que o mal seja
um poder benfazejo, conclui-se pela existência de dois poderes rivais
que governam o mundo. Foi assim que nasceu a doutrina dos dois princípios:
o do bem e o do mal, doutrina lógica na ocasião, porque o homem
era ainda incapaz de conceber outra e de compreender a natureza do Ser supremo.
Como poderia compreender que o mal é uma ocorrência passageira
da qual pode sair o bem e que os males que o afligiam deviam levá-lo
à felicidade, ajudando o seu adiantamento?
Os limites do seu horizonte moral nada lhe permitiam ver além da vida
presente, nem quanto ao futuro, nem quanto ao passado. Ele não podia
compreender que havia progredido, nem que teria ainda de progredir individualmente,
e menos ainda que as vicissitudes da vida resultam da imperfeição
do seu próprio ser espiritual, que preexiste e sobrevive ao corpo, depurando-se
numa série de existências até chegar à perfeição.
Para compreender que o bem pode sair do mal não lhe bastava ver apenas
uma existência, era necessário abranger o conjunto, pois só
então se tornam claras as verdadeiras causas e os seus efeitos.
5 — O duplo princípio do bem e do mal foi, durante longos séculos,
sob diferentes nomes, a base de todas as crenças religiosas. Foi personificado
com os nomes de Ormuz e Arimã entre os persas e de Jeová e Satã
entre os hebreus. Mas, como todo soberano deve ter os seus ministros, todas
as religiões admitiram a existência de poderes secundários
que são os gênios bons ou maus. Os pagãos personificaram
esses poderes numa multidão de individualidades, tendo cada uma atribuições
especiais no tocante ao bem e ao mal, as virtudes e aos vícios, dando-lhes
a denominação geral de deuses. Os Cristãos e os Muçulmanos
herdaram dos Hebreus os anjos e os demônios.
6 — A doutrina dos demônios tem portanto a sua origem na antiga
crença no princípio do bem e do mal. Vamos examiná-la aqui
somente do ponto de vista cristão, procurando ver se ela está
em relação com o conhecimento mais exato que hoje possuímos
dos atributos da Divindade. Esses atributos são o ponto de partida, a
base de todas as doutrinas religiosas. Os dogmas, o culto, as cerimônias,
as práticas, a moral, tudo nelas se relaciona com a idéia mais
ou menos justa, mais ou menos elevada que fazem de Deus, desde o fetichismo
até o Cristianismo. Se a natureza de Deus é ainda um mistério
para a nossa inteligência, entretanto já a compreendemos melhor
do que nunca, graças aos ensinamentos do Cristo. O Cristianismo,
concordando nisso com os princípios racionais, nos ensina que:
Deus é único, eterno, imutável, imaterial, todo-poderoso,
soberanamente justo e bom, e todas as suas perfeições são
infinitas. Como dissemos atrás (Cap. VI. Penas Eternas): "Se tirarmos
a menor parcela de um só dos atributos de Deus, não teremos mais
Deus, pois poderia existir um ser mais perfeito." Esses atributos, compreendidos
na sua mais absoluta plenitude, constituem o crítérium de todas
as religiões, a medida de verdade de cada um dos princípios que
elas ensinam. Para que um desses princípios seja verdadeiro é
preciso que não atente contra nenhuma das perfeições de
Deus. Vejamos se isso acontece no tocante à doutrina vulgar dos demônios.
Os demônios segundo a Igreja
7 — Segundo a Igreja, Satã, o chefe ou rei dos demônios,
não é uma personificação alegórica do mal,
mas um ser real que pratica exclusivamente o mal, enquanto Deus faz exclusivamente
o bem. Tomemo-lo, pois, exatamente como no-lo apresentam. Satã existe
desde toda a eternidade, como Deus, ou é posterior a Deus? Se sempre
existiu, é incríado e portanto igual a Deus. Nesse caso, Deus
não é único, pois há o Deus do bem e o Deus do mal.
Satã é posterior? Então é uma criatura de Deus.
E desde que só faz o mal, sendo incapaz de praticar o bem e de se arrepender,
Deus criou um ser destinado perpetuamente ao mal. Se o mal não é
obra de Deus, mas de uma de suas criaturas predestinada a fazê-lo, Deus
será sempre o seu primeiro autor e nesse caso não é infinitamente
bom. Acontece o mesmo com todos os seres maus chamados demônios.
8 — Foi essa durante muito tempo a crença a respeito dos demônios.
Atualmente se diz:Deus, que é a bondade e a santidade em essência,
não os havia criado maus e malfazejos. Sua mão paternal, que se
apraz em expandir sobre todas as suas obras um reflexo das suas infinitas perfeições,
lhes havia dado os seus dons mais esplendentes. Às qualidades super-excelentes
de sua natureza, acrescentou as abundâncias da sua graça: fê-los
em tudo semelhantes aos Espíritos sublimes que estão na sua glória
e felicidade. Distribuídos por todas as ordens e misturados a todos os
graus, tinham eles o mesmo objetivo e os mesmos destinos. Seu chefe foi o mais
belo dos arcanjos.
Eles
mesmos teriam podido merecer a sua confirmação de justos para
sempre e a sua admissão no eterno gozo da felicidade dos céus.
Esta última graça teria completado todos os favores que até
então lhes tinham sido feitos, mas deveria ser o preço de sua
docilidade e eles se tornaram indignos dela. Perderam-se por uma revolta audaciosa
e insensata. O que os impediu de serem perseverantes? Qual a verdade que não
haviam conhecido? Que ato de fé e de adoração recusaram
a Deus? A Igreja e os anais da história santa nada dizem a respeito de
maneira positiva, mas parece certo que não aceitaram a mediação
do Filho de Deus para eles mesmos nem a exaltação da natureza
humana em Jesus Cristo.
O Verbo Divino, que fez todas as coisas, é também o único
mediador e salvador no Céu e na Terra. O destino sobrenatural só
foi dado aos anjos e aos homens na previsão de sua encarnação
e de seus méritos. Porque não há nenhuma proporção
entre as obras dos Espíritos mais eminentes e essa recompensa que é
o próprio Deus em si mesmo. Nenhuma criatura teria podido chegar até
esse ponto sem essa intervenção maravilhosa e sublime de caridade.
Ora, para cobrir a distância infinita que separa a essência divina
das obras de suas próprias mãos, era necessário que ele
reunisse na sua pessoa os dois extremos e associasse a sua divindade à
natureza do anjo ou à do homem: ele preferiu a natureza humana.
Esse plano, concebido desde toda a eternidade, foi revelado aos anjos muito
tempo antes da sua realização. O Homem-Deus lhes foi mostrado
no futuro como Aquele que devia confirmá-los na graça e introduzi-los
na glória, com a condição de que o adorassem na Terra durante
a sua missão, e no Céu pelos séculos dos séculos.
Revelação inesperada, visão arrebatadora para os corações
generosos e reconhecidos, mas mistério profundo e humilhante para os
Espíritos soberbos!
Este destino sobrenatural, o peso imenso dessa glória que lhes era proposta
não seria unicamente a recompensa de seus méritos pessoais! Jamais
se poderiam atribuir, por si mesmos, os títulos da sua posse! Um mediador
entre eles e Deus, que ofensa feita à sua dignidade! A preferência
gratuita pela natureza humana, que injustiça! Que atentado aos seus direitos!
Essa humanidade que lhes era tão inferior, teriam de vê-la um dia
endeusada pela sua união com o Verbo e assentada à direita de
Deus, sobre um trono resplandecente? Concordarão eles a prestar-lhe eternamente
as suas homenagens e a sua adoração?
Lúcifer e a terceira parte dos anjos sucumbiram a esses pensamentos de
inveja e de orgulho. São Miguel, e com ele a maioria, exclamaram: quem
é semelhante a Deus? Ele é o senhor de seus dons e o soberano
Senhor de todas as coisas. Glória a Deus e ao Cordeiro que será
imolado para a salvação do mundo! Mas o chefe dos rebeldes, esquecendp
que devia ao seu criador a sua própria nobreza e as suas prerrogativas,
preferiu escutar a sua própria temeridade e respondeu: eu mesmo subirei
ao céu, estabelecerei a minha morada acima dos astros, me assentarei
sobre a montanha da Aliança, nos flancos do Arquilão, dominarei
as nuvens mais elevadas e serei semelhante ao Altíssimo. — Os que
partilhavam os seus sentimentos acolheram essas palavras com um murmurar de
aprovação, e eles estavam em todas as ordens da hierarquia, mas
a sua multidão não os livrou do castigo. (..)
15 - O Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec - Intr. V
III
— Enquanto tivermos o nosso corpo, e a nossa alma encontrar-se mergulhada
nessa corrupção, jamais possuiremos o objeto de riossos desejos:
a verdade. De fato, o corpo nos oferece mil obstáculos, pela necessidade
que temos de cuidar dele; além disso, ele nos enche de desejos, de apetites,
de temores, de mil quimeras e de mil tolices, de maneira que, com ele, é
impossível sermos sábios por um instante. Mas, se nada se pode
conhecer puramente, enquanto a alma está unida ao corpo, uma destas coisas
se impõe: ou que jamais se conheça a verdade, ou que se conheça
após a morte. Livres da loucura do corpo, então conversaremos,
é de esperar, com homens igualmente livres, e conheceremos por nós
mesmos a essência das coisas. Eis porque os verdadeiros filósofos
se preparam para morrer, e a morte não lhes parece de maneira alguma
temível. (O Céu e o Inferno, l.a parte, cap. 2?, e 2.a parte,
cap. 19.)
Temos aí o princípio das faculdades da alma, obscurecidas pela
mediação dos órgãos corporais, e da expansão
dessas faculdades depois da morte. Mas trata-se, aqui, das almas evoluídas,
já depuradas; não acontece o mesmo com as almas impuras.
IV — A alma impura, nesse estado, encontra-se pesada, e é novamente
arrastada para o mundo visível, pelo horror do que é invisível
e imaterial. Ela erra, então, segundo se diz, ao redor dos monumentos
e dos túmulos, junto dos quais foram vistos às vezes fantasmas
tenebrosos, como devem ser as imagens das almas que deixaram o corpo, sem estarem
inteiramente puras, e que conservam alguma coisa da forma material, o que permite
aos nossos olhos percebê-las. Essas não são as almas dos
bons, mas as dos maus, que são forçadas a errar nesses lugares,
onde carregam as penas de sua vida passada, e onde continuam a errar, até
que os apetites inerentes à sua forma material as devolvam a um corpo.
Então1, elas retomam, sem dúvida, os mesmos costumes que, durante
a vida anterior, eram de sua predileção.
Não somente o princípio da reencarnação está
aqui claramente expresso, mas também o estado das almas que ainda estão
sob o domínio da matéria é descrito tal como o Espiritismo
o demonstra, nas evocações. E há mais, pois, afirma-se
que a reencarnação é uma consequência da impureza
da alma, enquanto as almas purificadas estão livres dela. O Espiritismo
não diz outra coisa, apenas acrescenta que a alma que tomou boas resoluções
na erraticidade, e que tem conhecimentos adquiridos, trará menos defeitos
ao renascer, mais virtudes e mais ideias intuitivas do que na existência
precedente, e que, assim, cada existência marca para ela um progresso
intelectual e moral. (O Céu e o Inferno, 2.a parte : exemplos.)
V — Após a nossa morte, o gênio (daimon, démorí)
que nos havia sido designado durante a vida, nos leva a um lugar onde se reúnem
todos os que devem ser conduzidos ao Hades, para o julgamento. As almas, depois
de permanecerem no Hades o tempo necessário, são reconduzidas
a esta vida, por numerosos e longos períodos.
Esta é a doutrina dos Anjos Guardiães ou Espíritos protetores,
e das reencarnações sucessivas, após intervalos mais ou
menos longos de erraticidade.
VI — Os demônios preenchem o espaço que separa o céu
da terra; são o laço que liga o Grande Todo consigo mesmo. A divindade
não entra jamais em comunicação direta com os homens, mas
é por meio dos demónios que os deuses se relacionam e conversam
com eles, seja durante o estado de vigília, seja durante o sono. A palavra
daimon, da qual se originou demônio, não era tomada no mau sentido
pela antiguidade, como entre os modernos. Não se aplicava essa palavra
exclusivamente aos seres malfazejos, mas aos Espíritos em geral, entre
os quais se distinguiam os Espíritos superiores, chamados deuses, e os
Espíritos menos elevados, ou demônios propriamente ditos, que se
comunicavam diretamente com os homens. O Espiritismo ensina também que
os Espíritos povoam o espaço; que Deus não se comunica
com os homens senão por intermédio dos Espíritos puros,
encarregados de nos transmitir a sua vontade; que os Espíritos se comunicam
conosco durante o estado de vigília e durante o sono. Substituí
a palavra demônio pela palavra Espírito, e tereis a Doutrina Espírita;
ponde a palavra anjo, e tereis a doutrina cristã.
16 - O Livro dos Espíritos - Allan Kardec - Intr. X, questões. 102, 128, 131, 361, 474, 480
X
— A LINGUAGEM DOS ESPÍRITOS E O PODER DIABÓLICO
Entre as objeções, algumas são mais consideráveis,
pelo menos na aparência, porque se baseiam na observação
de pessoas sérias.
Uma dessas observações refere-se à linguagem de certos
Espíritos, que não parece digna da elevação atribuída
aos seres sobrenaturais. Se quisermos reportar-nos ao resumo da doutrina, atrás
apresentado, veremos que os próprios Espíritos ensinam que não
são iguais em conhecimentos nem em qualidades morais, e que não
se deve tomar ao pé da letra tudo o que dizem. Cabe às pessoas
sensatas separar o bom do mau. Seguramente os que deduzem, desse fato, que tratamos
com seres malfazejos, cuja única intenção é a de
nos mistificar, não conhecem as comunicações dadas nas
reuniões em que se manifestam Espírito superiores, pois, de outra
maneira, não pensariam assim.
É
pena que o a:aso lenha servido tão mal a essas pessoas, não lhes
mostrando senão o lado mau do mundo espírita, pois não
queremos supor que uma tendência simpática atraia para elas os
maus Espíritos em lugar dos bons, os Espíritos mentirosos ou esses
cuja linguagem é de revoltante grosseria. Poderíamos concluir,
quando muito, que a solidez dos seus princípios não é bastante
forte para preservá-las do mal, e que, encontrando um certo prazer em
lhes satisfazer a curiosidade, os maus Espíritos, por seu lado, aproveitam-se
disso para se introduzirem entre elas, enquanto os bons se afastam.
Julgar a questão dos Espíritos por esses fatos seria tão
pouco lógico como julgar o caráter de um povo pelo que se diz
e se faz numa reunião de alguns estabanados, ou gente de má fama,
a que não comparecem os sábios nem as pessoas sensatas. Os que
assim julgam estão na situação de um estrangeiro que, chegando
a uma grande capital pelo seu pior arrabalde, julgasse toda a população
da cidade pelos costumes e a linguagem desse bairro mesquinho. No mundo dos
Espíritos há também desníveis sociais; se aquelas
pessoas quisessem estudar as relações entre os Espíritos
elevados ficariam convencidas de que a cidade celeste não contém
apenas a escória popular.
Mas,
perguntam elas, os Espíritos elevados chegam até nós? Responderemos:
não permaneçais no subúrbio; vede, observai e julgai; os
fatos aí estão para todos. A menos que a essas pessoas se apliquem
estas palavras de Jesus: "Têm olhos e não vêem; têm
ouvidos e não ouvem". Uma variante desta opinião consiste
em não ver nas comunicações espíritas e em todos
os fatos materiais a que elas dão lugar senão a intervenção
de um poder diabólico, novo Proteu que revestiria todas as formas para
melhor nos iludir. Não a consideramos suscetível de um ejcame
sério e por isso não nos deteremos no caso: ela já está
refutada pelo que dissemos atrás. Acrescentaremos apenas que, se assim
fosse, teríamps de convir que o diabo é às vezes bem inteligente,
bastante criterioso e, sobretudo, muito moral, ou então que existem bons
diabos.
Como acreditar, de fato, que Deus não permita senão ao Espírito
do mal manifestar-se para nos perder, sem nos dar por contrapelso os conselhos
dos bons Espíritos? Se Ele não o pode, isto é uma impotência;
se Ele o pode e não faz, isso é incompatível com a sua
bondade; e uma e outra suposição seriam blasfêmias. Acentuemos
que admitir a comunicação dos maus Espíritos é reconhecer
o princípio das manifestações. Ora, desde que existem,
será com a permissão de Deus. Como acreditar, sem cometer impiedade,
que Ele só permita o mal, com exclusão do bem? Uma doutrina assim
é contrária ao bom senso e às simples noções
da religião.
Questão 102 - Décima classe: Espíritos impuros: são inclinados para o mal, e o fazem objeto de suas preocupações. Como Espíritos, dão conselhos pérfidos, insuflam a discórdia e a desconfiança e usam todos os disfarces para melhor enganar. Apegam-se às pessoas de caráter bastante fraco para cederem às suas sugestões, a fim de as levar à perda, satisfeitos de poderem retardar o seu adiantamento, ao fazê-las sucumbir ante as provas que sofrem.
Perg. 128 - Os seres que chamamos anjos, arcanjos, serafins formam categoria especial, de natureza diferente da dos outros Espíritos? _ Não; são Espíritos puros: estão no mais alto grau da escala e reúnem em si todas as perfeições.
Perg.
131 - Há demônios, no sentido que se dá a essa palavra?
- Se houvesse demônios, eles seriam obra de Deus. E Deus seria justo e
bom, criando seres infelizes, eternamente voltados para o mal? Se há
demônios, é no teu mundo inferior e em outros semelhantes que eles
residem: são esses homens hipócritas que fazem de um Deus justo
um Deus mau e vingativo, e que pensam lhe ser agradáveis pelas abominações
que cometem em seu nome.
A
palavra demônio não implica a idéia de Espírito mau,
a não ser na sua acepção moderna, porque o termo grego
daimon, de que ela deriva, significa gênio, inteligência, e se aplicou
aos seres incorpóreos, bons ou maus, sem distinção. Os
demônios, segundo a significação vulgar do termo, seriam
entidades essencialmente malfazejas; e seriam, como todas as coisas, criação
de Deus. Mas Deus, que é eternamente justo e bom, não pode ter
criado seres predispostos ao mal, por sua própria natureza, e condenados
pela eternidade. Se não fossem obra de Deus, seriam eternos como ele,
e nesse caso haveria muitas potências soberanas.
A primeira condição de toda doutrina é a de ser lógica;
ora, a dos demônios, no seu sentido absoluto, falha neste ponto essencial.
Que na crença dos povos atrasados, que não conheciam os atributos
de Deus, admitindo divindades malfazejas, também se admitissem os demônios,
é concebível; mas para quem quer que faça da bondade de
Deus um atributo por excelência é ilógico e contraditório
supor que ele tenha criado seres voltados ao mal e destinados a praticá-lo
perpetuamente, porque isso negaria a sua bondade. Os partidários do demônio
se apoiam nas palavras do Cristo, e não seremos nós que iremos
contestar a autoridade dos seus ensinos, que desejamos ver mais no coração
do que na boca dos homens; mas estariam bem certos do sentido que ele atribuía
à palavra demônio? Não se sabe que a forma alegórica
é uma das características da sua linguagem? Tudo o que o Evangelho
contém deve ser tomado ao pé da letra?
Não queremos outra prova, além desta passagem:-"Logo após
esses dias de aflição, o sol se obscurecerá e a lua não
dará mais a sua luz, as estrelas cairão do céu e as potências
celestes serão abaladas. Em verdade vos digo que esta geração
não passará, antes que todas essas coisas se cumpram". Não
vimos a forma do texto bíblico contraditada pela Ciência, no que
se refere à criação e ao movimento da Terra? Não
pode acontecer o mesmo com certas figuras empregadas pelo Cristo, que devia
falar de acordo com o tempo e a região em que se achava? O Cristo não
poderia ter dito conscientemente uma falsidade. Se, portanto, nessas palavras
há coisas que parecem chocar a razão, é que não
as compreendemos ou que as interpretamos mal. Os homens fizeram, com os demônios,
o mesmo que com os anjos.
Da
mesma forma que acreditaram na existência de seres perfeitos, desde toda
a eternidade, tomaram também os Espíritos inferiores por seres
perpetuamente maus. A palavra demônio deve, portanto, ser entendida como
referente aos Espíritos impuros, que frequentemente não são
melhores que os designados por esse nome, mas com a diferença de ser
o seu estado apenas transitório. São esses os Espíritos
imperfeitos que murmuram contra as suas provações e por isso as
sofrem por mais tempo, mas chegarão por sua vez à perfeição,
quando se dispuserem a tanto. Poderíamos aceitar a palavra demônio
com esta restrição. Mas, como ela é agora entendida num
sentido exclusivo, poderia induzir ao erro, dando margem à crença
na existência de seres criados especialmente para o mal.
A propósito de Satanás, é evidente que se trata da personificação
do mal sob uma forma alegórica, porque não se poderia admitir
um ser maligno lutando de igual para igual com a Divindade, e cuja única
preocupação seria a de lhe contrariar os desígnios. Como
o homem necessita de imagens e figuras para impressionar a sua imaginação,
pintou os seres incorpóreos com formas materiais dotadas de atributos
que lembram as suas qualidades ou os seus defeitos. Foi assim que os antigos,
querendo personificar o Tempo, deram-lhe a figura de um velho com foice e uma
ampulheta. Uma figura de jovem, nesse caso, seria um contra-senso. O mesmo se
deu com as alegorias da Fortuna, da Verdade etc.
Os
modernos representaram os anjos, os Espíritos puros, numa figura radiosa,
com asas brancas, símbolos da pureza, e Satanás com chifres, garras
e os atributos da bestialidade, símbolos das baixas paixões. O
vulgo, que toma as coisas ao pé da letra, viu nesses símbolos
entidades reais, como outrora vira Saturno na alegoria do Tempo.(1)
(1) Esta teoria espírita sobre os demônios vai hoje se impondo
aos próprios meios religiosos que mais acuradamente a combateram. Em
O Diabo, o escritor católico Gíovanni Papini a endossou, apoiado
nos Pais da Igreja. O padre católico Teilhard de Chardin, cuja doutrina
aproxima a teologia católica da concepção espírita,
considera o Inferno como "pólo negativo do mundo", integrado
no Pkroma (o mundo divino unido ao corpo místico do Cristo), e assim
se refere aos demônios: "O condenado não é excluído
do Pleramã, mas apenas da sua face luminosa e da sua beatítude.
Perde-o, mas não está perdido para ele". — (Lê
Mâlieu Dívin — oouvks , 1957— Paris— pág.
191) — (N. do T)
Perg.
361a - Parece resultar daí que o homem de bem é a encarnação
de um bom Espírito e o homem vicioso a de um mau Espírito?
- Sim, mas dize antes que é um Espírito imperfito, pois de outra
forma se poderia crer nos Espíritos sempre maus, a que chamais demônios.
Perg. 480 - Que se deve pensar da expulsão dos demônios, de que
se fala no Evangelho?
- Isso depende da interpretação. Se chamais demônio a um
mau Espírito que subjuga um indivíduo, quando a sua influência
for destruída ele será verdadeiramente expulso. Se atribuis uma
doença ao demônio, quando a tiverdes curado direis também
que expulsaste o demônio. Uma coisa pode ser verdadeira ou falsa, segundo
o sentido que se der às palavras. As maiores verdades podem parecer absurdas,
quando não se olha senão para a forma e quando se toma a alegoria
pela realidade.