DUPLA
VISTA |
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BIBLIOGRAFIA |
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| 01- A alma é imortal - pág. 63 | 02 - A Gênese - cap. XIV, XV |
| 03 - As potências ocultas do homem - pág. 113 | 04 - De Mário a Tiradentes- pág. 87 |
| 05 - Enigmas da psicometria - pág. 167 | 06 - Hipnotismo e Espiritismo - pág. 112 |
| 07 - Hipnotismo e Mediunidade - pág. 196 | 08 - Magnetismo Espiritual - pág. 258 |
| 09 - O Espiritismo - pág. 48 | 10 - O Livro dos Espíritos - 2ª parte cap. viii q 447, 455 |
| 11 - O Livro dos Médiuns - q 295 | 12 - Revista Espírita, 1858, 1859, 1861, 1864 |
LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.
DUPLA VISTA – COMPILAÇÃO
01- A alma é imortal - Gabriel Dellane - pág. 63
A
vista espiritual ou dupla vista
A vista espiritual vulgarmente chamada dupla vista ou segunda vista, lucidez,
clarividência, ou, enfim, telestesia e, agora, criptestesia, é
um fenômeno menos raro do que geralmente se Imagina. Muitas pessoas são
dotadas dessa faculdade, sem o suspeitarem; apenas o que há é
que ela se acha mais ou menos desenvolvida. Facilmente se pode verificar que
é estranha aos órgãos da visão, pois que se exerce,
sem o concurso dos olhos, durante o sonambulismo natural ou provocado. Existe
nalgumas pessoas no mais perfeito estado normal, sem o menor vestígio
aparente de sono ou de estado extático. Eis o que a respeito diz Allan
Kardec:
"Conhecemos em Paris uma senhora em quem a vista espiritual é permanente
e tão natural quanto a vista ordinária. Ela vê sem esforço
e sem concentração o caráter, os hábitos, os antecedentes
de qualquer pessoa que se lhe aproxime; descreve as enfermidades e prescreve
tratamentos eficazes, com mais facilidade do que muitos sonâmbulos ordinários.
Basta-lhe pensar numa pessoa ausente, para que a veja e designe. Estávamos
um dia em sua casa e vimos passar pela rua alguém das nossas relações
e que ela jamais vira. Sem ser provocada por 'qualquer pergunta, fez dessa pessoa
o mais fiel retrato moral e nos deu a seu respeito opiniões muito ponderadas.
"Contudo, essa senhora não é sonâmbula; fala do que
vê, como falaria de qualquer outra coisa, sem se distrair das suas ocupações.
E' médium? Não o sabe, pois, até há bem pouco tempo,
nem de nome conhecia o Espiritismo."Podemos aditar ao do Mestre o nosso
testemunho. Há uma vintena de anos, demo-nos com uma Sr.a Bardeau, que
gozava dessa faculdade. Descrevia personagens que viviam na província,
muito longe, ao Sul, personagens que ela nunca vira e de cujos caracteres, no
entanto, apresentava circunstanciados pormenores. Conservava-se, todavia, no
estado ordinário, com os olhos bem abertos, conversando sobre outros
assuntos, interrompendo-se de quando em quando para acrescentar alguns traços
que completavam a fisionomia ou o caráter das pessoas ausentes.
Hoje,
ainda conhecemos uma parteira, Sr.a Renardat, que pode ver a distância,
sem estar adormecida. Tivemos disso prova inegável, porquanto descreveu
com fidelidade um dos nossos tios, residente em Gray, indicou uma enfermidade
que ele tinha e que os médicos ignoravam e lhe predisse a morte, sem
jamais o haver conhecido. Essa senhora vê os Espíritos, como vê
os vivos. Muitas ocasiões tivemos de convencer-nos, pelas afirmações
dos nossos amigos, de que ela entretinha relações com almas que
haviam deixado a Terra, pois fazia delas retratos muito semelhantes e a linguagem
que lhes atribuía lembrava a de que usavam durante a vida terrena.
Desde há quinze anos, temos tido numerosas oportunidades de estudar a
mediunidade vidente, que nem sempre se manifesta com esse cunho de constância
que se nota nas narrativas acima. As mais das vezes, é fugitiva, temporária,
mas, mesmo assim, nos faculta a certeza de que a crença na imortalidade
não é vã ilusão do nosso espírito prevenido
e sim uma realidade grandiosa, consoladora e sobejamente demonstrada.
Aliás, vamos citar bom número de experiências que demonstram ser objetiva a visão dos Espíritos, porquanto esta coincide, explicando-as, com fenômenos físicos que nos caem sob a percepção dos sentidos materiais e que toda gente pode verificar.Quando uma mesa se move e um médium vidente descreve o Espírito que sobre ela atua; quando esse médium chega a anunciar o que o Espirito vai dizer por intermédio do móvel, é despropositado imaginar-se que ele não veja realmente, uma vez que a sua predição se realiza e o Espírito dá testemunho de sua presença, exercendo ação sobre a matéria. Se quisermos refletir que, há cinquenta anos, no mundo inteiro se procede continuamente a pesquisas espíritas; que elas se processam nos mais diversos meios; que foram fiscalizadas milhares de vezes por investigadores pertencentes às classes sociais mais instruídas e, por conseguinte, menos crédulas, forçoso será considerarmos absurdo supor-se não sejam os Espíritos que produzam tais fenômenos.
É,
pois, por meio de incessantes comunicações com o mundo invisível,
por meio de ininterruptas relações com os habitantes do espaço,
que chegamos a adquirir conhecimentos certos sobre as condições
da vida de além-túmulo. Lembremo-nos de que existem mais de duzentos
jornais publicados em todas as línguas que se falam no globo, que cada
um prossegue isoladamente em seus trabalhos e que, malgrado a essa prodigiosa
diversidade quanto às fontes de informações, o ensino geral
é o mesmo, em suas partes fundamentais. Há-se de convir em que
semelhante acordo é bem de molde a servir de fundamento à convicção
que se gerou em cada experimentador, depois de haver estudado por si mesmo.
Exponhamos, conseguintemente, sem cessar, os resultados obtidos; não
nos cansemos de colocar sob as vistas do público os documentos que possuirmos
e, talvez lentamente, mas com segurança, chegaremos a conseguir que penetrem
nas massas estes conhecimentos indispensáveis ao progresso e à
felicidade delas.
O envoltório da alma fez objeto de perseverantes estudos da parte de
Allan Kardec. Ele próprio confessa que, antes de conhecer o Espiritismo,
não tinha idéias especiais sobre tal assunto. Foram seus colóquios
com os Espíritos que lhe deram a conhecer o corpo fluídico e lhe
proporcionaram compreender o papel e a utilidade desse corpo. Concitamos os
que queiram conhecer a gênese dessa descoberta a ler a Revue Spirite,
de 1858 a 1869. Verão como, pouco a pouco, se foram reunindo os ensinamentos
a respeito, de maneira a constituir-se uma teoria racional que explica todos
os fatos, com impecável lógica.
Não podendo estender-nos demasiado sobre este ponto, limitar-nos-emos
a citar uma evocação, que poderá servir de modelo a todos
os investigadores que desejem verificar por si mesmos estes ensinamentos. Evocação
do Doutor Glas. As perguntas eram feitas por Allan Kardec, sendo dadas pelo
médium escrevente as respostas.
"P. — Fazes alguma distinção entre o teu espírito
e o teu perispírito? Que diferença estabeleces entre essas duas
coisas?
R. — Penso, pois que sou e tenho uma alma, como disse um filósofo.
A tal respeito, nada mais sei do que ele. Quanto ao perispírito, é,
como sabes, uma forma fluídica e natural. Procurar, porém, a alma
é querer achar o absoluto espiritual.
P. — Crês que a faculdade de pensar reside no perispírito?
Numa palavra: que alma e perispírito são uma e mesma coisa?
R. — É exatamente como se me perguntasses se o pensamento reside
no nosso corpo. Um é visto, o outro se sente e concebe.
P. — Não és, então, um ser vago e indefinido, mas
um ser limitado e circunscrito?
R. — Limitado, sim, porém, rápido como o pensamento.
P. — Peço determines o lugar onde aqui te achas.
R. — À tua esquerda e à direita do médium.
Nota — Allan Kardec se coloca exatamente no lugar indicado pelo Espírito.
P. — Foste obrigado a deixar o teu lugar para mo ceder?
R. — Absolutamente. Nós passamos através de tudo, como tudo
passa através de nós; é o corpo espiritual.
P. — Estou, portanto, colocado em ti ?
R. — Sim.
P. — Mas, como é que não te sinto?
R. — Porque os fluidos que compõem o perispírito são
muito etéreos, não suficientemente materiais para vós outros.
Todavia, pela prece, pela vontade, numa palavra, pela fé, podem os fluidos
tornar-se mais ponderáveis, mais materiais e sensíveis ao tato,
que é o que se dá nas manifestações físicas.
Nota — Suponhamos um raio de luz penetrando num lugar escuro. Podemos
atravessá-lo, mergulhar nele, sem lhe alterarmos a forma, nem a natureza.
Embora esse raio luminoso seja uma espécie de matéria, tão
rarificada se acha esta, que nenhum obstáculo opõe à passagem
da matéria mais compacta."
Evidentemente, a melhor maneira de chegar-se a saber se os Espíritos
têm um corpo consistia em perguntar-lho. Ora, nunca, desde que se fazem
evocações, alguém comprovou que os desencarnados hajam
dado uma resposta negativa. Todos afirmam que o envoltório perispirítico
é, para eles, tão real, quanto o nosso corpo físico o é
para nós. Tem-se, pois, aí um ponto firmado pelo testemunho unânime
de todos os que hão sido interrogados, o que explica e confirma as visões
dos sonâmbulos e dos médiuns. Chegamos assim a uma ordem de testemunhos
que fazem ressalte das concepções puramente filosóficas
o perispírito, atribuindo-lhe existência positiva.
02 - A Gênese - Allan Kardec - cap. XIV, XV
22.
O perispírito é o traço de união entre a vida corpórea
e a vida espiritual: é por ele que o Espírito encarnado está
em contínua relação com os Espíritos; é por
ele, enfim, que se cumprem, no homem, fenômenos especiais que não
têm a sua causa primeira na matéria tangível, e que, por
esta razão, parecem sobrenaturais. É nas propriedades e na irradiação
do fluido perispiritual que se deve procurar a causa da dupla vista, ou visão
espiritual, que se pode também chamar visão psíquica, da
qual muitas pessoas estão dotadas, frequentemente com o seu desconhecimento,
assim como da visão sonambúlica. O perispírito é
o órgão sensitivo do Espírito; é por seu intermédio
que o Espirito encarnado tem a percepção das coisas espirituais
que escapam aos seus sentidos carnais. Pelos órgãos do corpo,
a vista, o ouvido e as diversas sensações estão localizadas
e limitadas à percepção das coisas materiais; pelo sentido
esçiritual, ou psíquico, elas estão generalizadas; o Espírito
vê, ouve e sente por todo o seu ser o que está na esfera de irradiação
de seu fluido perispiritual.
Estes fenômenos são, no homem, a manifestação da
vida espiritual; é a alma que age fora do organismo. Na dupla vista,
ou percepção pelo sentido psíquico, ele não vê
pêlos olhos do corpo, se bem que, frequentemente, por hábito, os
dirija para o ponto sobre o qual leva a sua atenção; vê
pêlos olhos da alma, e a prova disto é que vê tudo tão
bem com os olhos fechados, e além do alcance de seu raio visual; ele
lê o pensamento representado figuradamente no raio fluídico.
23.- Embora, durante a vida, o Espírito esteja preso ao corpo pelo perispírito,
ele não é de tal modo escravo que não possa alongar o seu
laço e se transportar ao longe, seja na Terra, seja sobre qualquer ponto
do espaço. O Espírito não está senão com
pesar ligado ao seu corpo, porque a sua vida normal é a liberdade, ao
passo que a vida corpórea é a do servo preso à gleba. O
Espírito é, pois, feliz por deixar o seu corpo, como o pássaro
deixa a sua gaiola; ele agarra todas as ocasiões para dele se libertar,
e se aproveita, por isto, de todos os instantes em que a sua presença
não é necessária à vida de relação.
É o fenômeno designado sob o nome de emancipação
da alma; sempre ocorre no sono; todas as vezes que o corpo repousa, e que os
sentidos estão em inativi-dade, o Espírito se desliga. (O Livro
dos Espíritos, cap.VIII). Nestes momentos, o Espírito vive da
vida espiritual, ao passo que o corpo não vive senão da vida vegetativa;
ele está em parte no estado que estará depois da morte; percorre
o espaço, conversa com os seus amigos e outros Espíritos livres,
ou encarnados como ele.
O laço fluídico que o retém ao corpo não está
definitivamente rompido senão na morte; a separação completa
não ocorre senão pela extinção absoluta da atividade
do princípio vital. Tanto que o corpo viva, a qualquer distância
que esteja, o Espírito para ele é instantaneamente chamado, desde
que a sua presença seja necessária; ele, então, retoma
o curso de sua vida exterior de relação. Por vezes, ao despertar,
conserva uma lembrança de suas peregrinações, uma imagem
mais ou menos precisa, que constitui o sonho; dele traz, em todos os casos,
intuições que lhe sugerem idéias e pensamentos novos, e
justificam o provérbio: A noite traz conselho.Assim se explicam igualmente
certos fenômenos característicos do sonambulismo natural e magnético,
da catalepsia, da letargia, do êxtase, etc. e que não são
outras do que as manifestações da vida espiritual.
24. - Uma vez que a visão espiritual não se efetua pelos olhos
do corpo, é que a percepção das coisas não ocorre
pela luz comum: com efeito, a luz material está feita para o mundo material;
para o mundo espiritual existe uma luz especial cuja natureza nos é desconhecida,
mas que, sem dúvida, é uma das propriedades do fluido etéreo
impressionando as percepções visuais da alma. Há, pois,
a luz material e a luz espiritual. A primeira tem focos circunscritos nos corpos
luminosos; a segunda tem seu foco por toda a parte: e a razão pela qual
não há obstáculos para a visão espiritual; ela não
se detém nem pela distância, nem pela opacidade da matéria;
a obscuridade não existe para ela. O mundo espiritual é, pois,
iluminado pela luz espiritual, que tem seus efeitos próprios, como o
mundo material é iluminado pela luz solar.
25. - A alma, envolvida pelo seu perispírito, carrega assim nela seu
princípio luminoso; penetrando a matéria, em virtude de sua essência
etérea, não há corpos opacos para a sua visão. Entretanto,
a visão espiritual não tem nem a mesma extensão, nem a
mesma penetração em todos os Espíritos; só os puros
Espíritos a possuem em todo o seu poder; nos Espíritos inferiores,
ela é enfraquecida pela grosseria relativa do perispírito, que
se interpõe como uma espécie de névoa. Ela se manifesta
em diferentes graus nos Espíritos encarnados pelo fenômeno da segunda
vista, seja no sonambulismo natural ou magnético, seja no estado de vigília.
Segundo o grau de poder da faculdade, diz-se que a lucidez é mais ou
menos grande. E com a ajuda desta faculdade que certas pessoas vêem o
interior do organismo e descrevem a causa das doenças.
26. - A visão espiritual dá, pois, percepções especiais
que, não tendo por sede os órgãos materiais, se operam
em condições diferentes da visão corpórea. Por esta
razão, não se podem esperar efeitos idênticos e experimentar
pelos mesmos procedimentos. Cumprindo-se fora do organismo, ela tem uma mobilidade
que frustra todas as previsões. E necessário estudá-la
em seus efeitos e em suas causas, e não por assimilação
com a visão comum, que ela não está destinada a suprir,
salvo casos excepcionais e que não se poderiam tomar por regra.
27.-A visão espiritual é necessariamente incompleta e imperfeita
entre os Espíritos encarnados, e, por consequência, sujeita a aberrações.
Tendo a sua sede na própria alma, o estado da alma deve influir sobre
as percepções que ela dá. Segundo o grau de seu desenvolvimento,
as circunstâncias e o estado moral do indivíduo, ela pode dar,
seja no sono, seja no estado de vigília: 1ª a percepção
de certos fatos materiais reais, como o conhecimento de acontecimentos que se
passam ao longe, os detalhes descritivos de uma localidade, as causas de uma
doença, e os remédios convenientes; 2ª a percepção
de coisas igualmente reais do mundo espiritual, como a visão dos Espíritos;
3ª imagens fantásticas criadas pela imaginação, análogas
às criações fluídicas do pensamento.
Estas
criações estão sempre em relação com as disposições
morais do Espírito que as cria. É assim que o pensamento de pessoas
fortemente imbuídas e preocupadas de certas crenças religiosas
lhes apresenta o inferno, suas fornalhas, suas torturas e seus demônios,
tal como as sejam figuradas: às vezes, é toda uma epopéia;
os pagãos viam o Olimpo e o Tártaro, como os cristãos viam
o inferno e o paraíso. Se, ao despertar, ou ao sair do êxtase,
essas pessoas conservam uma lembrança precisa de suas visões,
elas as tomam por realidades e confirmações de suas crenças,
ao passo que isso não é senão um produto de seus próprios
pensamentos. Há, pois, uma escolha muito rigorosa a fazer nas visões
extáticas, antes de aceitá-las. O remédio para a demasiada
credulidade, sob este aspecto, é o estudo das leis que regem o mundo
espiritual.
28. - Os sonhos propriamente ditos apresentam as três naturezas de visões
descritas acima. É às duas primeiras que pertencem os sonhos de
previsões, pressentimentos e advertências; é na terceira,
quer dizer, nas criações fluídicas do pensamento que se
pode encontrar a causa de certas imagens fantásticas, que nada têm
de real com relação à vida material, mas que têm,
para o Espírito, uma realidade por vezes tal que o corpo lhe sofre o
contra-golpe, e que se tem visto os cabelos embranquecerem sob a impressão
de um sonho. Estas criações podem ser provocadas: pelas crenças
exaltadas; por lembranças retrospectivas; pêlos gostos, os desejos,
as paixões, o medo, os remorsos; pelas preocupações habituais;
pelas necessidades do corpo, ou um embaraço nas funções
do organismo; enfim, por outros Espíritos, com um fim benevolente ou
malévolo, segundo a sua natureza.
10 - O Livro dos Espíritos - Allan Kardec - 2ª
parte cap. viii q 447, 455
Vïï—DUPLA
VISTA (SEGUNDA VISTA)
447. O fenómeno designado pelo nome de "dupla vista"'"
tem relação com o sonho e o sonambulismo?
— Tudo isso não é mais do que uma mesma coisa. Isso a que
chamas dupla vista é ainda o Espírito em maior liberdade, embora
o corpo não esteja adormecido. A dupla vista é a vista da alma.
448. A dupla vista é permanente?
— A faculdade, sim; o seu exercício, não. Nos mundos menos
materiais que o vosso, os Espíritos se desprendem mais facilmente e se
põem em comunicação apenas pelo pensamento, sem excluir,
entretanto, a linguagem articulada; também a dupla vista é para
a maioria uma faculdade permanente; seu estado normal pode ser comparado ao
dos vossos sonâmbulos lúcidos, e essa é também a
razão por que eles se manifestam a vós mais facilmente do que
os encarnados de corpos mais grosseiros.
449. A dupla vista se desenvolve espontaneamente ou pela vontade de quem a possui?
— Na maioria das vezes ela é espontânea, mas a vontade também
muitas vezes desempenha um grande papel. Assim, podes tomar por exemplo certas
pessoas chamadas leitoras da sorte, algumas das quais possuem essa faculdade,
e verás que a vontade as ajuda a entrar no estado de dupla vista e nisso
a que chamas visão.
450. A dupla vista é suscetível de se desenvolver pelo exercício?
— Sim, o trabalho sempre conduz ao progresso, e o véu que encobre
as coisas se torna transparente.
450-a. Esta faculdade se liga à organização física?
— Por certo, a organização física desempenha o seu
papel; há organismos que se mostram refratários.
(1) Kardec usou as duas expressões "Secunda Vista" e "Dupla
Vista", com evidente preferência pela primeira. Em português,
sendo comum a "dupla vista", demos preferência a esta.
451. De onde vem que a dupla vista pareça hereditária em cenas
famílias?
— Similitude de organizações, que se transmite, como as
outras qualidades físicas; e depois, desenvolvimento da faculdade, por
uma espécie de educação, que também se transmite
de um para outro.
452. É verdade que certas circunstâncias desenvolvem a dupla vista?
— A doença, a proximidade de um perigo, urna grande comoção,
podem desenvolvê-la. O corpo se encontra às vezes num estado particular,
que permite ao Espírito ver o que não podeis ver com os olhos
do corpo.
Os tempos de crise e de calamidades, as grandes emoções, todas
as causas, enfim, de superexcitação moral provocam às vezes
o desenvolvimento da dupla vista. Parece que a Providência nos dá,
em presença do perigo, o meio de o conjurar. Todas as seitas e todos
os partidos perseguidos oferecem numerosos exemplos a respeito.
453. As pessoas dotadas de dupla vista sempre têm consciência disso?
— Nem sempre; para elas, é coisa inteiramente natural, e muitas
dessas pessoas acreditam que, se todos se observassem nesse sentido, perceberiam
ser como elas.
454. Poder-se-ia atribuir a uma espécie de dupla vista a perspicácia
de certas pessoas que, sem nada terem de extraordinário, julgam as coisas
com mais precisão do que as outras?
— E sempre a alma que irradia mais livremente e julga melhor do que sob
o véu da matéria.
454-a. Esta f acuidade pode, em certos casos, dar a presciência das coisas?
— Sim; ela dá também os pressentimentos, porque há
muitos graus desta faculdade, e o mesmo indivíduo pode ter todos os graus
ou não ter mais do que alguns.
VIÏÏ — RESUMO TEÓRICO DO SONAMBULISMO,
DO ÊXTASE E DA DUPLA VISTA
455. Os fenômenos do sonambulismo natural se produzem espontaneamente
e independem de qualquer causa exterior conhecida; mas, entre algumas pessoas,
dotadas de organização especial, podem ser provocados artificialmente,
pela ação do agente magnético.
A
emancipação da alma se manifesta às vezes no estado de
vigília, e produz o fenômeno designado pelo nome de dupla vista,
que dá aos que o possuem a faculdade de ver, ouvir e sentir além
dos limites dos nossos sentidos. Eles percebem as coisas ausentes, por toda
parte, até onde a alma possa
estender a sua ação; vêem, por assim dizer, por meio da
vista ordinária, como por uma espécie de miragem.
No momento em que se produz o fenômeno da dupla vista, o estado físico
é sensivelmente modificado: os olhos têm qualquer coisa de vago,
olhando sem ver, e toda a fisionomia reflete uma espécie de exaltação.
Constata-se que os órgãos da visão são alheios ao
fenômeno, ao verificar-se que a visão persiste, mesmo com os olhos
fechados. Esta faculdade se afigura, aos que a possuem, tão natural como
a de ver: consideram-na um atributo normal, que não lhes parece constituir
exceção. O esquecimento se segue, em geral, a essa lucidez passageira,
cuja lembrança se torna cada vez mais vaga, e acaba por desaparecer,
como a de um sonho.
O poder da dupla vista varia desde a sensação confusa até
à percepção clara e nítida das coisas presentes
ou ausentes. No estado rudimentar, ela dá a algumas pessoas o tato, a
perspicácia, uma espécie de segurança nos seus atos, a
que se pode chamar a justeza do golpe de vista moral. Mais desenvolvida, desperta
os pressentimentos, e ainda mais desenvolvida, mostra acontecimentos já
realizados ou em vias de realização.
O sonambulismo natural e artificial, o êxtase e a dupla vista não
são mais do que variedades ou modificações de uma mesma
causa. Esses fenômenos, da mesma maneira que os sonhos, pertencem à
ordem natural. Eis por que existiram desde todos os tempos; a História
nos mostra que eles foram conhecidos, e até mesmo explorados, desde a
mais alta antiguidade, e neles se encontra a explicação de uma
infinidade de fatos que os preconceitos fizeram passar como sobrenaturais.