EGOÍSMO |
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BIBLIOGRAFIA |
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| 01- À luz da oração - pág. 56 | 02 - Almas que voltam - pág. 67 |
| 03 - Antologia da espiritualidade - pág. 37 (10) | 04 - Após a tempestade - pág. 29 |
| 05 - Moral Espírita - pág. 55 | 06 - Curso dinânico de Espiritismo - pág. 103 |
| 07 - Depois da morte - pág. 268 | 08 - Falando à Terra - pág. 181 |
| 09 - Fonte viva - pág. 231, 273 | 10 - Justiça divina - pág. 114 |
| 11 - Luz da esperança - pág. 79 | 12 - Na era do Espírito - pág. 103 |
| 13 - Nas pegadas do mestre - pág. 280 | 14 - O Espírito da Verdade - pág. 38, 206 |
| 15 - O Evangelho Seg. o Espiritismo - cap. XI | 16 - O grande enigma - pág. 206 |
| 17 - O Livro dos Espíritos - q 107, 698, 721, 726, ... | 18 - Obras póstumas - pág. 225 |
| 19 - Oferenda - pág. 113,156 | 20 - Passos da vida- pág. 100 |
| 21 - Pedaços do cotidiano - pág. 49, 203 | 22 - Pérolas do além - pág. 72, 87 |
| 23 - Pontos e contos - pág. 247 (47) | 24 - Seara dos médiuns - pág. 51 |
LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.
EGOÍSMO – COMPILAÇÃO
06 - CURSO DINÂMICO DE ESPIRITISMO - PÁG. 80,103
XIII
— FUNÇÃO DO EGOÍSMO NO DESENVOLVIMENTO HUMANO
Tudo tem a sua utilidade na Natureza. O Universo é teleológico,
finalista, busca sempre e em tudo uma finalidade. Os filósofos antifinalistas
apoiam suas teorias no erro humano, de todos os tempos, que interpreta a Natureza
como criada especialmente para o homem. Esse erro surgiu nas selvas, permaneceu
nas civilizações primitivas e projetou-se nas civilizações
posteriores. Os próprios deuses e demônios de toda a Antiguidade
foram postos ao serviço do homem, que embora os reverenciando, pretendiam
utilizá-los como seus auxiliares.
O
Universo tem, naturalmente, uma finalidade única e superior, em que todas
as finalidades se conjugam num resultado único. Mas esse resultado escapa
às nossas possibilidades de pesquisa, de compreensão e mesmo de
imaginação. A mais inútil das coisas e os mais prejudiciais
dos seres são necessários. E ser necessário é ser
indispensável, é pertencer a um elo da cadeia inimaginável
que Kardec nos apresenta nesta frase tantas vezes repetida no Livro dos Espíritos:
Tudo se encadeia no Universo.
Os problemas ecológicos da atualidade, surgidos com o desenvolvimento
tecnológico, deram ênfase à importância da Ecologia,
ciência das relações entre sujeito e meio e mesmo entre
objeto e meio. O meio físico em que vivemos, com seus elementos naturais
configurando determinada situação mesológica humana, é
formado por uma infinidade de substituições necessárias
à vida vegetal e animal. A ignorância do homem a respeito, tentando
aniquilar elementos nocivos do meio, provoca o desencadeamento de desequilíbrios
perigosos e até mesmo fatais. Minerais, vegetais e animais considerados
perniciosos, quando retirados do meio, revelam a sua função necessária
e têm de ser repostos ou substituídos por outros que os compensem.
Esse
delicado equilíbrio das coisas mínimas apresenta-se também
nas coisas máximas, como no jogo de forças que sustentam o equilíbrio
planetário e o próprio equilíbrio das galáxias no
espaço sideral. O mesmo acontece na nossa estrutura corporal, com seus
vários aspectos físicos, psíquicos e espirituais. Por isso
o Espiritismo é contrário a todas as práticas de mortificação,
extinção, asfixia ou desenvolvimento de funções,
instintos, percepções e poderes inferiores ou superiores na criatura
humana. Esta deve ser respeitada em sua integridade, com seus defeitos, deformações,
deficiências e assim por diante, cabendo-nos apenas o direito, que é
também dever, de auxiliar as criaturas no seu processo natural de aperfeiçoamento
e reajustamento, nos rumos naturais da transcendência.
Nem mesmo a mediunidade deve ser desenvolvida por supostas técnicas provindas
de tradições místicas ou de invenção de pretensos
mestres espirituais. O Espiritismo se opõe a todas essas tentativas imaginosas,
que podem levar, como tem levado, muitas pessoas a desequilíbrios graves.
O egoísmo, a vaidade, o orgulho, a pretensão, a ambição
representam elementos negativos da constituição do ser humano,
que devem ser eliminados. Mas essa eliminação não se dá
pelos métodos antigos das corporações religiosas, até
hoje empregados, apesar dos terríveis malefícios causados. Kardec
e os Espíritos Superiores, em suas comunicações, consideraram
o egoísmo como verdadeira praga que impediu o desenvolvimento real do
Cristianismo na Terra.
Mas jamais aconselharam métodos artificiais para o combate ao egoísmo. As penitências, os cilícios, o isolamento, as autoflagelações de toda espécie tornaram mais negra a Idade Média e ainda hoje se escondem nas furnas da ignorância religiosa que só serviram para desequilibrar milhões de criaturas que constituem o triste e pesado legado da Antiguidade para o nosso tempo. São Tomaz de Aquino advertiu: 'Mães, vossos filhos são cavalos', e a educação das crianças transformou-se em domesticação, processo esmagador da sensibilidade infantil e das esperanças da adolescência. Gerações recalcadas saíram das estrebarias escolares em que os mestres domavam crianças e jovens a pancadas e castigos brutais, para moldá-los segundo os modelos estabelecidos à formação de multidões padronizadas.
Todos nós carregamos ainda as marcas profundas e dolorosas, deformantes, do relacionamento humano na Terra. Com a caridade os homens vão aprendendo a sair do egoísmo para o altruísmo, a não pensar apenas nos seus problemas particulares, a não dividir o seu tempo e bem-estar apenas com os familiares, mas levar um pouco de si mesmos e dos seus recursos para a família maior quer sofre lá fora. É essa a finalidade do princípio cristão da Caridade no Espiritismo. Por isso a caridade espírita não pode cercar-se de barreiras; e dificuldades de exigências e desconfianças. Deve ser ampla e generosa; acessível a todos, evitando constranger ou humilhar os que a recebem. O ego é como uma flor que primeiro se fecha no botão para depois desabrochar na corola e por fim doar-se nos frutos.
Tentemos visualizar o processo de formação ego, para compreendermos a função do egoísmo. A dialética espírita -nos ensina que-o espírito (não individualizado, mas como o elemento espiritual catalisador; capaz de: atrair e aglutinar a matéria esparsa no espaço) liga-se à matéria para lhe dar forma, estrutura. Podemos seguir esse processo no caso humano, em que o egô aparece como um pivô da personalidade em formação, desde a infância. A criança é egocêntrica, é um pivô em torno do qual giram as atenções e as afeições da família.
Ela se torna, naturalmente, no centro do mundo, Porque esse é o meio de consolidação da sua individualidade. Tudo quanto ela atrai e absorve do ambiente, do exemplo familial, das relações progressivas na escola e nos brinquedos, é automaticamente centralizado nor ego que é o seu ponto interior de segurança ante a dispersividade do mundo. O botão fechado centraliza as suasenergias preparando o momento de abrir-se na corola colorida e perfumada. Essa a primeira função; do ego, e essa função não é egoísta, mas centralizadora por necessidade de estruturação interna. Quando, essa estruturação se define como tal, a criança se abre timidamente para oferecer ao mundo a sua contribuição inicial de beleza e ternura, É um novo ser que surge no mundo, vestido com a roupagem da inocência, como diz Kardec, e ao mesmo tempo trazendo a incógnita de um passado que se reveiava pouco a pouco no esquema de um destino com idéias e hábitos negativos que nos foram impostos à força milênios de brutalidade civilizadora.
Por isso o nosso tempo, em que tomamos consciência do absurdo desse massacre universal realizado em nome de Deus, mostra-se dominado por inquietações e desesperos, revolta e loucura, psicopatias e obsessões que levam a espécie humana a todos os desvarios e ao suicídio individual e coletivo. Temos de examinar essa situação à luz do Evangelho desfigurado e mal interpretado, muitas vezes contraditado frontalmente pelas teologias do absurdo. E temos de confrontar esse mundo-hospício, em que a loucura mansa dos clérigos e dos fascinados pela mentira consciente ou inconsciente é a mais perigosa de todas, gerando a hipocrisia das vozes impostadas e do comportamento social simulado. A simulação na luta pela vida, estudada por Igenieros num livro assustador, é o sintoma mais evidente das condições patológicas do homem atual, que se tornou num ego atrofiado, por isso mesmo vazio e faminto, que tudo quer exclusivamente para si mesmo.
E isso a tal ponto que a palavra caridade, definida pelo Apóstolo Paulo numa síntese insuperável e adotada por Kardec como o fundamento da evolução humana, transformou-se na linguagem atual num sinônimo de hipocrisia. No próprio meio espírita encontramos os desavisados que condenam essa palavra, sem lhe aprofundarem o sentido. E há os que pretendem disciplinar a caridade, fiscalizar o seu aproveitamento pelos beneficiados e obrigá-los a determinadas exigências para socorrê-los. Há também os que alegam a inutilidade dessa forma de ajuda. Esses não pensam no bem que uma palavra amiga e confortadora, uma visita de solidariedade, um socorro de emergência a quem está desprovido de roupas para enfrentar o inverno ou de remédio para uma chaga, podem representar.
A caridade espírita não é esmola, é doação de amor, solidariedade humana que vale não só pelo amparo material, mas acima de tudo pelo conforto da relação humana. Sua prática não tem por finalidade sanar os males sociais com remendos eventuais, mas mudar as formas egoístas da relação humana na Terra, ampliando-a e aprofundando-a nas dimensões superiores do altruísmo. Nesse estranho panorama de castas privilegiadas, povo necessitado e multidões miseráveis, o Espiritismo considera a mecânica da caridade como o instrumento ideal para abrir corações, despertar consciências e alentar esperanças. As ideologias políticas apresentam fórmulas de efeitos superficiais e na reforma muitas vezes penosas de estruturas, mas o Espiritismo restabelece a técnica simples do Cristo, que toca o íntimo das criaturas para atingir as causas profundas dos desajustes.
Em
cada reencarnação o ser repete ao mesmo tempo a filogênese
material e espiritual do homem, no desenvolvimento do embrião e na abertura
progressiva do egoísmo no meio social. Vejamos os vetores desse processo
duplo nas linhas da transcendência:
a) Na magia do amor, reminiscência das atrações misteriosas
na selva, o par humano se liga sob a impulsão dos instintos reprodutores
e os genes se fundem no ventre materno produzindo o embrião, síntese
das formas animais superadas pela espécie. A recapitulação
genésica reintegra o espírito na linha filogenética e restabelece
o pivô do ego em seu poder centralizador. Na gestação, o
paralelismo psicofísico reordena as forças da evolução
nos rumos da ascensão. A forma humana resulta das formas anteriores na
sublimação do caos instintivo e sua hereditariedade psicobiológica.
O
espírito ligado ao caos exerce as funções discriminadoras
na conformação do novo ser, disciplinando as energias conscienciais
que marcam as conquistas do passado e as autopunições de erros
e crimes anteriores. A Providência Divina envolve o novo ser em sua bênção
com aparência da inocência, que lhe permitirá atrair a afeição
dos familiares no restabelecimento de afetividades perturbadas ou aprofundamento
das afeições sobreviventes. O novo cérebro está
virgem como a tabula rasa dos empiristas ingleses, pronto a gravar um novo rol
de lembranças na nova memória em organização. No
arquivo do inconsciente (nessa consciência subliminar de Myers) as heranças
válidas permanecem ocultas, mas prontas a emergir na consciência
de relação pelo mecanismo das associações de ideias
e sentimentos.
b) Vencida a etapa uterina e a primeira infância, o ser se mostra pronto
a enfrentar as vicissitudes de uma nova existência. Recobrou sua vida
terrena nas entranhas da mãe, sob as influências psicofisiológicas
do organismo gerador de seu novo corpo. Revela anomalias ou perfeição
física e mental, segundo o seu passado. É de novo o centro do
mundo e traz em si mesmo os fatores de seu desenvolvimento e amadurecimento.
No lar, esses fatores se manifestam desde logo mas vão sofrer as influências
modificadoras da família e da escola, para o seu ajuste necessário
às novas condições de vida. O instinto de imitação
lhe favorece a adaptação ao novo mundo. O ego centralizado volta
a abrir-se nessas relações primárias, através do
desenvolvimento da afetividade em termos eletivos.
Suas preferências são ainda impulsivas, provocadas por fatores
ambientais e circunstanciais, mas pouco a pouco se define a linha preferencial
da razão em desenvolvimento, revelando as afinidades ocultas. O ser toma
pé na realidade e manifesta as suas tendências vocacionais. É
o momento de reintegração nos esquemas frustrados do passado ou
de renovação do esquema em face das novas exigências da
realidade nova.
c) A crise da adolescência vai revelar em breve a posição
ôntica precisa ou indecisa do novo ser, herdeiro de si mesmo e das contribuições
paternas e maternas, familiais e sociais, excitadas pelo meio cultural e reorientadas
pela influência espiritual das entidades espirituais que o protegem e
o assistem constantemente. Está completa a tarefa da ressurreição
na carne. Daí por diante, o novo destino do ser na transcendência
dependerá de sua própria consciência. Ele está preparado
e aparelhado para enfrentar os problemas da juventude e suas graves opções,
da madureza e seus desafios, da velhice e sua recapitulação de
toda a odisséia existencial que deve tê-lo elevado acima do passado
no processo irreversível da transcendência. O egoísmo do
adulto será a marca de um distúrbio psíquico: o infantilismo.
O altruísmo será o trofeu conquistado da sua vitória na
escalada evolutiva.
Seu regresso à vida espiritual o colocará em face de sua verdadeira
situação. Será certamente um vitorioso em muitos aspectos
de sua personalidade, mas o fracasso na transcendência do egoísmo
lhe mostrará que todas as conquistas secundárias não podem
compensá-lo. Terá de voltar à existência terrena
em reencarnações de abnegação forçada, não
compulsórias, mas de sua própria escolha, para conseguir a superação
difícil do apego a si mesmo. Por sua própria natureza de elemento
centralizador da estrutura ôntica, responsável pela sua unidade,
o ego é a grande barreira contra a qual se quebram os impulsos da transcendência.
Seu solipsismo tautológico o transforma numa viragem do espírito,
imantando-o a si mesmo.
A
parábola do moço rico, no Evangelho, dá-nos o mais claro
exemplo do apego ao mundo gerado pelo egoísmo nos espíritos que
se deixam fascinar pelas ilusões materiais. O ego gera as falsas idéias
de superestimação individual, de segregação do indivíduo
e sua grei, considerando os demais como estranhos e impuros. Age como um centro
hipnótico absorvente, impedindo o ser de abrir-se no altruísmo,
fechando-lhe o entendimento para tudo o que não se refira aos seus interesses
individuais. A vaidade, a arrogância, a prepotência, a insolência,
a brutalidade formam no cortejo de estupidez das pessoas egoístas e dos
espíritos egoístas.
Por isso, o Espiritismo proclama a caridade como a virtude libertadora, fora
da qual não há salvação para o homem do mundo. A
mecânica da caridade pode ser desencadeada, no homem do mundo, por situações
aflitivas, de saúde ou de problemas familiais ou financeiros, levando-o
a dar, não raro por vaidade, a primeira moeda a um mendigo. Essa doação
insignificante abre uma pequena brecha no egoísmo. A seguir virão
outras doações mais generosas, até que a fortaleza do ego
se abale e o ser orgulhoso possa perceber a sua própria imagem refletida
no espelho doloroso de um rosto de pedinte esfomeado.
O
Espiritismo nos ensina a dar, além da moeda, o nosso amor à toda
a Humanidade, sem discriminações raciais, religiosas, políticas
e de espécie alguma. A estrutura social da civilização
perfeita não surgirá das mãos dos opressores que tudo prometem,
mas das mãos humildes da viúva que depositou a sua moeda pequenina
e única no cofre em que os ricos despejaram tesouros para comprar o Céu.
XVI —
A MORTE DE DEUS E O SÉCULO XX:
Depois da Filosofia Existencial, nascida da angústia e da solidão
do teólogo dinamarquês Kierkegaard, explodiu no mundo convalescente
das primeiras explosões atômicas em Hiroshima e Nagasaki, a espantosa
novidade da Morte de Deus. Imitando o louco de Nietzsche, teólogos jovens
e de formação universitária, europeus e norte-americanos,
fizeram o comunicado fúnebre ao público mundial: "Deus morreu!"
Como ninguém foi convidado para o enterro, nem se efetuou nenhum registro
funerário da ocorrência nos cartórios civis do mundo, acreditou-se
que tudo não passava de uma alucinação. Mas os teólogos
insistiram com uma série de livros transbordantes de erudição
e cultura, o que perturbou os espíritos crentes de Deus. Para tranquilizar
os assustados, os teólogos agoureiros obedeceram ao velho preceito: "Rei
morto, Rei posto", e colocaram Jesus de Nazaré, o Cristo, provisoriamente
no Trono do Império Cósmico. "Agora — diziam os teólogos,
na euforia de herdeiros ambiciosos ante o Cadáver Sagrado — agora
temos de instalar o Cristianismo Ateu à
espera de Novo Deus que deve surgir." Não se trata de brincadeira
nem de galhofa, mas de coisa sumamente séria, pois, como diziam os nossos
avós: "Com Deus não se brinca!" Mas os livros dos teólogos
cortadores de mortalha não convenceram ninguém, a não ser
a eles mesmos. É fácil compreender-se que houve um engano. O que
havia morrido não era Deus, que não pode jamais ser enterrado
no cemitério em ruínas dos deuses mitológicos. Quem na
verdade estava agonizando, e continua em lenta agonia, sustentada por milhões
de seus beneficiários do profissionalismo religioso, era a generosa e
sabidíssima senhora chamada Teologia.
Essa pretensiosa dama de certezas absolutas e irrevogáveis estava em estado de coma, mas continua resistindo às tentativas impiedosas da morte. A maioria dos teólogos viu-se em dificuldades e apenas alguns aderiram à estranha idéia. Seria uma hecatombe mundial, ficarem todos eles órfãos e sem qualquer herança, pois só Deus lhes havia prometido a partilha do seu Reino. Jesus-Cristo, herdeiro direto e filho consanguíneo de Deus, não tomou conhecimento do assunto e não assumiu o Trono do Universo. A situação tornou-se caótica e as brigas dos herdeiros acabaram reduzindo a espantosa novidade num bate boca de neuróticos de guerra. Andam por aí os livros dos teólogos do complô deicista, lidos por eles mesmos e alguns curiosos retardatários, pois só eles entendem o que escreveram, se realmente entendem. São livros tecidos em teses de filigranas brilhantes e sofismas escorregadios, como as de Bizâncio na sua hora final. Dão-nos a impressão do jogo de velórios da civilização utópica de Herman Hesse, onde a face gelada de um lago alpino enregelava um teólogo de vez em quando. Não nos interessam essas lamentações de carpideiras em torno de um hipotético cenotáfio, túmulo vazio construído no após guerra, sobre terreno impuro de ossadas sem sepultura. Esta hora não é de morte, mas de ressurreição. Cumprindo a promessa do Cristo, o seu ensino puro ressuscita das criptas de envelhecidas catedrais e anuncia por toda parte a nova Alvorada da Verdade. William Hamilton, Thomas Altizer, Paul van Brune, Gabriel Vahamtaan e todo o bando necrófilo da Morte de Deus não conseguiram até agora dizer mais do que isto: que Deus morreu no nosso século e que esse é um episódio histórico.
Mas onde estão as provas históricas dessa morte ideológica e alógica? Só o louco de Nietzsche, de que eles herdaram a loucura, ouviu as pancadas soturnas do coveiro que abria a cova, e esse louco era uma ficção. Se os teólogos continuam a ensinar suas teologias fanadas, os místicos a distilar seus óleos sagrados, os sacerdotes a cobrar mais caro seus sacramentos, o populacho a arrastar-se de joelhos nas velhas escadarias de igrejas, judeus e cristãos a manter seus cultos por toda parte, nem mesmo o Deus da Bíblia deixou de existir. Se não ocorreu a morte física de Deus e nem ocorreu a morte metafísica, se na mente dos intelectuais e na fé popular Deus continua imperando, é claro que o bando necrófilo está delirando. Mas esse episódio serve para ilustrar a esquizofrenia catatônica deste século estranho, em que vacilamos entre a paranóia e o sadismo, com coletivas a varrerem a face poluída do planeta. A todo instante os vendavais arrancam os homens do chão e os atiram no ar em cambalhotas alucinantes. Os espíritas, que conhecem o problema da obsessão e sabem que não são as encenações do exorcismo, mas a lógica persuasiva da doutrinação evangélica o remédio certo e eficaz para este momento, precisam, mais do que nunca, firmar-se nas obras de Kardec para não serem também virados de pernas para o ar. Muitos já se deixaram levar pelas rajadas da invigilância, caindo no ridículo e chegando até mesmo à profanação da doutrina. Outros aceitaram e propagam, na teimosia característica da fascinação, obras e doutrinas absurdas, carregadas de malícia das trevas, ludibriando criaturas ingênuas com a falsa importância de suas posições em organismos doutrinários ou o falso brilho de seus títulos universitários.
Outros se aboletam em sua arrogância de pseudo-sábios, pretendendo superar a doutrina com livros encharcados pelo barro escuro das regiões umbralinas. É incrível como todas essas tolices empolgam pessoas desavisadas por toda parte, formando os quistos de mistificação que minam o movimento doutrinário. Se mesmo fora do campo doutrinário, e entre pessoas de inegável cultura e brilho intelectual, surgem loucuras como essa da Morte de Deus e da criação do Cristianismo Ateu, pode-se avaliar ao que estamos expostos no Espiritismo, onde só a advertência do Cristo: "Vigiai e orai", poderá livrar-nos de quedas desastrosas. Mas não basta vigiar montado nas cavalgaduras a pretensão e da vaidade, porque o inimigo não ataca de frente, insinua-se sutil em nosso íntimo, excitando o vírus da vaidade e infestando-nos por dentro. Desde então, pensamos com as idéias dele e aceitamos a sua colaboração, senão o seu comando, com a ingenuidade dos defensores de Tróia que aceitaram o presente grego do cavalo de pau. Pedro capitulou, por medo, na hora do testemunho. Por vaidade, ignorância e interesses secundários muitos espíritas estão capitulando nesta hora decisiva. Nossa vigilância tem de ser interna, sobre nós mesmos, sobre a nossa fauna interior que o inimigo utiliza contra nós. Se os teólogos necrófilos aceitaram a sugestão da morte de Deus e caíram no ridículo, porque os espíritas haveriam de rejeitar a sugestão de deturpar os textos doutrinários para atualizá-los, prestando enorme serviço à doutrina? As sugestões das trevas são assim: falam-nos do dever para lançar-nos na traição. Caímos facilmente porque não vigiamos e não oramos. O orgulho e a ambição substituem em nós as palavras humildes da recomendação do Mestre. E depois reclamamos dos Espíritos Superiores o auxílio que nos faltou na hora crucial, como se já não devêssemos estar há muito preparados para enfrentar essa hora.
Se os teólogos realmente compreendessem Deus e os Espíritas conhecessem
de fato a sua doutrina, as entidades sombrias não encontrariam uma nesga
de treva para se ocultarem nos seus corações iluminados pelo amor.
Não somos traídos, traímo-nos. A traição
não vem da malícia, brota da nossa mente transviada e do nosso
coração orgulhoso. Se não compreendermos isso profundamente
estaremos sempre expostos aos ventos malignos. A fidelidade ao bem tem um preço
que pagamos aos poucos, nas moedinhas tilintantes do dia-a-dia, rejeitando os
sopros da vaidade que tentam acender a fogueira do arrependimento. Um elogio
discreto que nos agrada, uma palavra de estímulo que nos estufa, um gesto
de cortesia que nos comove, um ingênuo cartão de saudações,
um abraço de fingida gratidão — são essas e muitas
outras as moedas que não caem como o óbulo da viúva, mas
como as moedas envenenadas dos cambistas. Ao som dessa música sutil cresce
em nós a madrágora do orgulho, a flor roxa e perigosa dos filtros
mágicos. Acreditamos em nossa grandeza com euforia, para mais tarde cairmos
em nossa insignificância com desespero. Por que motivo Deus, se tivesse
de morrer, haveria de escolher o Século XX da Era Cristã? Para
morrer cristão, Ele que é o Senhor do Cristo? Por que razão
os Espíritas haveriam de escolher o nosso século para revisar
e corrigir Kardec, justamente quando as Ciências, a Filosofia, a Religião
e toda a Cultura Humana estão comprovando o acerto absoluto de Kardec
e seguindo o seu esquema de pesquisa numa realidade sempre vitoriosa? A resposta
a essas duas perguntas é uma só: Porque é nas horas de
entusiasmo, de vitória, de renovações em marcha, que estamos
desprevenidos e confiantes em nós mesmos, certos de que tudo vai bem
e de que — (este é o motivo da queda) — chegou o momento
em que os nossos esforços serão reconhecidos e nos porão
na fronte a coroa de louros que nos negaram. Não é a hora do Cristo
nem a da Doutrina, mas a hora nossa, pessoal, que nos fascina.
Vejamos a triste figura desses teólogos, filósofos, historiadores
da Cultura, exegetas da Palavra de Deus, que de repente, decepcionados com as
atrocidades dos homens (que sempre foram atrozes) proclamam em orações
brilhantes e livros falaciosos o absurdo da Morte de Deus, que não conseguem
explicar nem justificar, por mais que escrevam. Charles Bent nos dá uma
informação valiosa: William Hamilton foi apresentado como uma
espécie de Billy Graham da Morte de Deus. Numa de suas prédicas
em São Paulo o famoso Billy, que empolga multidões, respondeu
à pergunta de um assistente com a maior leviandade: "O Espiritismo
é obra do Demônio". A glória de Hamilton se define
neste episódio. Hamilton é o novo Billy. Não se precisa
dizer mais nada. E Bent o considera como sendo, talvez, o mais inteligível
dos expositores do problema da Morte de Deus. Sobre o cadáver suposto
de Deus os camelos da hecatombe divina disputam a túnica do Cristo. É
evidente o fogaréu de vaidade que arde na frágil carne dos homens.
Se o Espiritismo, que cumpre a promessa do Consolador na Terra, é obra
do Diabo, que será essa obra de demagogia e sofisma que pretende renovar
a concepção cristã de Deus na prática de Brutus,
assassinando Deus pelas costas? Os homens enrolam-se em suas próprias
palavras, como as abelhas domésticas na barba do seu tratador. Os sofistas
gregos provavam todas as contradições, mostrando que a verdade
não passava de um jogo de palavras. Mas entre eles estava Sócrates,
protegido pelo seu daemon, o seu espírito amigo, que de repente começou
a perguntar aos sofistas: O que é isso? Todos os sofismas se esboroavam,
como castelos de areia, quando Sócrates pedia a definição
dos conceitos. Sim, porque ele descobrira que a verdade estava nos conceitos
e não nas palavras. Quando Billy e Hamilton perguntarem a si mesmos o
que estão dizendo, terão a verdade mas enquanto continuarem a
jogar com palavras ante as multidões de basbaques e fanáticos,
não passarão de sofistas modernos que se enganam a si mesmos e
aos outros.
O
mal mais ameçador de nossa civilização é o desenvolvimento
excessivo da mente-oral. O abuso desse processo mental aviltou o mundo das palavras.
Vem de longe esse mal, desde os judeus pairadores que assustavam os romanos
com suas infindáveis querelas, o matraquear atordoante dos clérigos
medievais, as trapaças doiradas dos bizantinos e a demagogia burguesa
que produziu o Terror na França e espalhou-se pelo mundo no papagaiar
político e religioso que estourou em matança inomináveis
na boca de Hitler, Mussolini e suas quintas-colunas genocidas. Depois das explosões
atômicas de Nagazaki e Hiroshima e da escalada norte-americana no Vietnã,
não era de admirar o assassinato misterioso de Deus, pois quem odeia
a Criação deve odiar também o Criador. No meio espírita
os faladores fazem sucesso, como em toda parte, pois os espíritas são
criaturas humanas contagiadas, como toda a espécie, pelo mal verborrágico.
Tem sido difícil convencer o povo ingênuo de que os grandes faladores
não passam de mistificadores. Falam em atitudes teatrais, de olhos fechados
para convencer os basbaques de que estão sendo inspirados por elevadas
entidades espirituais, quando na verdade repetem palavrórios decorados
ou simplesmente destrambelham os mecanismos repetitivos de sua mente-oral.
Este é um problema grave num meio interessado por uma doutrina lógica,
profundamente conceitual, onde a insensatez palavresca funciona como tóxico
mental, encobrindo e aviltando a Verdade. Precisamos de expositores doutrinários
conscientes de sua responsabilidade e não apenas interessados em fascinar
as massas. Não temos nem devemos ter tribunos eloquentes em nossas assembléias,
mas estudiosos da doutrina que procurem transmitir os seus princípios
racionais aos adeptos pouco acostumados a raciocinar. Não há lugar
para sofistas num movimento que busca unicamente a Verdade, que não está
nos sofismas e sim na limpidez dos conceitos. Também os espíritas
se comprometem no complô da Morte de Deus quando dão apoio e estímulo
criminoso aos pairadores inveterados.
07 - DEPOIS DA MORTE - LÉON DENIS - ÍTEM XLVI - O EGOÍSMO - PÁG. 268
XLVI — O EGOÍSMO: O egoísmo é irmão do orgulho e procede das mesmas causas. É uma das mais terríveis enfermidades da alma, é o maior obstáculo ao melhoramento social. Por si só ele neutraliza e torna estéreis quase todos os esforços que o homem faz para atingir o bem. Por isso, a preocupação constante de todos os amigos do progresso, de todos os servidores da justiça deve ser a de combatê-lo. O egoísmo é a persistência em nós desse individualismo feroz que caracteriza o animal, como vestígio do estado de inferioridade pelo qual todos já passamos. Mas, antes de tudo, o homem é um ser social. Está destinado a viver com os seus semelhantes; nada pode fazer sem o concurso destes. Abandonado a si mesmo, ficaria impotente para satisfazer suas necessidades, para desenvolver suas qualidades. Depois de Deus, é à sociedade que ele deve todos os benefícios da existência, todos os proventos da civilização. De tudo aproveita, mas precisamente esse gozo, essa participação dos frutos da obra comum lhe impõe também o dever de cooperar nela. Estreita solidariedade liga-o a esta sociedade, como parte integrante e mutuante. Permanecer inativo, improdutivo, inútil, quando todos trabalham, seria ultraje à lei moral e quase um roubo; seria o mesmo que lucrar com o trabalho alheio ou recusar restituir um empréstimo que se tomou.
Como parte integrante da sociedade, o que o atingir também atinge a todos.
É por essa compreensão dos laços sociais, da lei de solidariedade
que se mede o egoísmo que está em nós. Aquele que souber
viver em seus semelhantes e por seus semelhantes não temerá os
ataques do egoísmo. Nada fará sem primeiro saber se aquilo que
produz é bom ou mau para os que o rodeiam, sem indagar, com antecedência,
se os seus atos são prejudiciais ou proveitosos à sociedade que
integra. Se parecerem vantajosos para si só e prejudiciais para os outros,
sabe que em realidade eles são maus para todos, e por isso se abstém
escrupulosamente. A avareza é uma das mais repugnantes formas do egoísmo,
pois demonstra a baixeza da alma que, monopolizando as riquezas necessárias
ao bem comum, nem mesmo sabe delas aproveitar-se. O avarento, pelo seu amor
do ouro, pelo seu ardente desejo de adquirir, empobrece os semelhantes e torna-se
também indigente; pois, ainda maior que essa prosperidade aparente, acumulada
sem vantagem para pessoa alguma, é a pobreza que lhe fica, por ser tão
lastimável como a do maior dos desgraçados e merecer a reprovação
de todos.
Nenhum sentimento elevado, coisa alguma do que constitui a nobreza da criatura
pode germinar na alma de um avarento. A inveja e a cupidez que o atormentam
sentenciam-lhe uma existência penosa, um futuro mais miserável
ainda. Nada lhe iguala o desespero, quando vê, de além-túmulo,
seus tesouros serem repartidos ou dispersados. Vós que procurais a paz
do coração, fugi desse mal repugnante e desprezível. Mas,
não caiais no excesso contrário. Não desperdiceis coisa
alguma. Sabei usar de vossos recursos com critério e moderação.O
egoísmo traz em si o seu próprio castigo. O egoísta só
vê a sua pessoa no mundo, é indiferente a tudo o que lhe for estranho.
Por isso são cheias de aborrecimento as horas de sua vida. Encontra o
vácuo por toda parte, na existência terrestre assim como depois
da morte, porque, homens ou Espíritos, todos lhe fogem. Aquele que, pelo
contrário, aproveitando-se do trabalho já encetado por outros,
sabe cooperar, na medida de suas forças, para a obra social, e vive em
comunhão com seus semelhantes, fazendo-os compartilhar de suas faculdades
e de seus bens, ou espalhando ao seu redor tudo o que tem de bom em si, esse
se sente mais feliz. Está consciente de ter obedecido à lei e
sabe que é um membro útil à sociedade. Interessa-lhe tudo
o que se realiza no mundo, tudo o que é grande e belo sensibiliza-o e
comove; sua alma vibra em harmonia com todos os espíritos esclarecidos
e generosos; o aborrecimento e o desânimo não têm nele acesso.
Nosso papel não é, pois, o da abstenção, mas, sim,
o de pugnar continuamente pela causa do bem e da verdade. Não é
sentado nem deitado que nos cumpre contemplar o espetáculo da vida humana
em suas perpétuas renovações: é de pé, como
campeão ou como soldado, pronto a participar de todos os grandes trabalhos,
a penetrar em novos caminhos, a fecundar o patrimônio comum da Humanidade.
Embora se encontre em todas as classes sociais, o egoísmo é mais
apanágio do rico que do pobre. Muitíssimas vezes a prosperidade
esfria o coração; no entanto, o infortúnio, fazendo conhecer
o peso da dor, ensina-nos a compartilhar dos males alheios. O rico saberá
ao menos a preço de que trabalhos, de que duros labores se obtêm
as mil coisas necessárias ao seu luxo? Jamais nos sentemos a uma mesa
bem servida sem primeiro pensar naqueles que passam fome. Tal pensamento tornar-nos-á
sóbrios, comedidos em apetites e gostos. Meditemos nos milhões
de homens curvados sob os ardores do estio ou debaixo de duras intempéries
e que, em troca de deficiente salário, retiram do solo os produtos que
alimentam nossos festins e ornam nossas moradas. Lembremo-nos de que, para iluminar
os nossos lares com resplandecente luz ou para fazer brotar chama benfeitora
em nossas cozinhas, homens, nossos semelhantes, capazes como nós de amar,
de sentir, trabalham nas entranhas da terra, longe do céu azul ou do
alegre sol, e, de picareta em punho, levam toda a vida a perfurar a espessa
crosta deste planeta.
Saibamos que, para ornar os salões com espelhos, com cristais brilhantes, para produzir os inumeráveis objetos que constituem o nosso bem-estar, outros homens, aos milhares, semelhantes ao demônio em volta de uma fogueira, passam sua vida no calor calcinante das grandes fornalhas das fundições, privados de ar, extenuados, consumidos antes do tempo, só tendo por perspectiva uma velhice achacosa e desamparada. Sim, saibamo-lo, todo esse conforto de que gozamos com indiferença é comprado com o suplício dos humildes e com o esmagamento dos fracos. Que esse pensamento se grave em nós, que nos siga e nos obsidie; como uma espada de fogo, ele enxotará o egoísmo dos nossos corações e forçar-nos-á a consagrar nossos bens, lazeres e faculdades à melhoria da sorte dessas criaturas. Não haverá paz entre os homens, não haverá segurança, felicidade social enquanto o egoísmo não for vencido, enquanto não desaparecerem os privilégios, essas perniciosas desigualdades, a fim de cada um participar, pela medida de seus méritos e de seu trabalho, do bem-estar de todos.
Não pode haver paz nem harmonia sem justiça. Enquanto o egoísmo de uns se nutrir dos sofrimentos e das lágrimas de outros, enquanto as exigências do eu sufocarem a voz do dever, o ódio perpetuar-se-á sobre a Terra, as lutas de interesse dividirão os ânimos, tempestades surgirão no seio das sociedades. Graças, porém, ao conhecimento do nosso futuro, a idéia de solidariedade acabará por prevalecer. A lei da reencarnação, a necessidade de renascer em condições modestas, servirão como aguilhões a estimular o egoísta. Diante dessas perspectivas, o sentimento exagerado da personalidade atenuar-se-á para dar lugar a uma noção mais exata da situação e papel do homem no Universo. Sabendo-nos ligados a todas as almas, solidários no seu adiantamento e felicidade, interessar-nos-emos com ardor pela sua condição, pelos seus progressos, pelos seus trabalhos. E, à medida que esse sentimento se estender pelo mundo, as instituições, as relações sociais melhorarão, a fraternidade, essa palavra repetida banalmente por tantos lábios, descerá aos corações e tornar-se-á uma realidade. Então nos sentiremos viver nos outros, para fruir de suas alegrias e sofrer de seus males. Não mais haverá queixume sem eco, uma só dor sem consolação. A grande família humana, forte, pacífica e unida, adiantar-se-á com passo rápido para os seus belos destinos.
09 - FONTE VIVA - EMMANUEL - PÁG. 231, 273
ÍTEM
101 - A CORTINA DO "EU": "Porque todos buscam o que é
seu e não o que é do Cristo Jesus." — Paulo. (FiLIPENSES,
2:21.).
Em verdade, estudamos com o Cristo a ciência na de ligação
com o Pai, mas ainda nos achamos distantes da genuína comunhão
com os interesses divinos. Por trás da cortina do "eu", conservamos
lamentável cegueira diante da vida. Examinemos imparcialmente as atitudes
que nos são peculiares nos próprios serviços do bem, de
que somos cooperadores iniciantes, e observaremos que, mesmo aí, em assuntos
da virtude, a nossa percentagem de capricho individual é invariavelmente
enorme. A antiga lenda de Narciso permanece viva, em nossos mínimos gestos,
em maior ou menor porção. Em tudo e em toda parte, apaixonamo-nos
pela nossa própria imagem. Nos seres mais queridos, habitualmente amamos
a nós mesmos, porque, se demonstram pontos de vista diferentes dos nossos,
ainda mesmo quando superiores aos princípios que esposamos, instintivamente
enfraquecemos a afeição que lhes consagrávamos. Nas obras
do bem a que nos devotamos, estimamos, acima de tudo, os métodos e processos
que se exteriorizam do nosso modo de ser e de entender, porquanto, se o serviço
evolui ou se aperfeiçoa, refletindo o pensamento de outras personalidades
acima da nossa, operamos, quase sem perceber, a diminuição do
nosso interesse para com os trabalhos iniciados.
Aceitamos a colaboração alheia, mas sentimos dificuldade para
oferecer o concurso que nos compete. Se nos achamos em posição
superior, doamos com alegria uma fortuna ao irmão necessitado que segue
conosco em condição de subalternidade, a fim de contemplarmos
com volúpia as nossas qualidades nobres no reconhecimento de longo curso
a que se sente constrangido, mas raramente concedemos um sorriso de boa-vontade
ao companheiro mais abastado ou mais forte, posto pelos Desígnios Divinos
à nossa frente. Em todos os passos da luta humana, encontramos a virtude
rodeada de vícios e o conhecimento dignificante quase sufocado pelos
espinhos da ignorância, porque, infelizmente, cada um de nós, de
modo geral, vive à procura do "eu mesmo". Entretanto, graças
à Bondade de Deus, o sofrimento e a morte nos surpreendem, na experiência
do corpo e além dela, arrebatando-nos aos vastos continentes da meditação
e da humildade, onde aprendemos, pouco a pouco, a buscar o que pertence a Jesus-Cristo,
em favor da nossa verdadeira felicidade dentro da glória de viver.
ÍTEM
120 - ASSIM SERÁ: "Assim é aquele que para si ajunta tesouros
e não é rico para com Deus." — Jesus. (LucAs, 12:21.)
Guardarás inúmeros títulos de posse sobre as utilidades
terrestres, mas se não fores senhor de tua própria alma, todo
o teu patrimônio não passará de simples introdução
à loucura. Multiplicarás, em torno de teus pés, maravilhosos
jardins da alegria juvenil, entretanto, se não adquirires o conhecimento
superior para o roteiro de amanhã, a tua mocidade será a véspera
ruidosa da verdadeira velhice. Cobrirás com medalhas honoríficas
o teu peito, aumentando a série dos admiradores que te aplaudem, mas,
se a luz da reta consciência não te banhar o coração,
assemelhar-te-ás a um cofre de trevas, enfeitado por fora e vazio por
dentro. Amontoarás riquezas e apetrechos de conforto para a tua casa
terrena, imprimindo-lhe perfil dominante e revestindo-a de esplendores artísticos,
contudo, se não possuíres na intimidade do lar a harmonia que
sustenta a felicidade de viver, o teu domicílio será tão-somente
um mausoléu adornado.
Empilharás moedas de ouro e prata, à sombra das quais falarás
com autoridade e influência aos ouvidos do próximo, todavia, se
os teus haveres não se dilatarem, em forma de socorro e trabalho, estímulo
e educação, em favor dos semelhantes, serás apenas um viajor
descuidado, no rumo de pavorosas desilusões. Crescerás horizontalmente,
conquistarás o poder e a fama, reverenciar-te-ão a presença
física na Terra, mas, se não trouxeres contigo os valores do bem,
ombrearás com os infelizes, em marcha imprevidente para as ruínas
do desencanto. Assim será "todo aquele que ajunta tesouros para
si, sem ser rico para com Deus".
10 - JUSTIÇA DIVINA - EMMANUEL - PÁG. 114
Doenças
da alma: Reunião pública de 7-8-61 1ª Parte, cap. VII, item
7
Na forja moral da luta em que temperas o caráter e purificas o sentimento,
é possível acredites estejas sempre no trato de pessoas normais,
simplesmente porque se mostrem com a ficha de sanidade física.
Entretanto, é preciso pensar que as moléstias do espírito
também se contam.
O companheiro que te fala, aparentemente tranquilo, talvez guarde no peito a
lâmina esbraseada de terrível desilusão.
A irmã que te recebe, sorrindo, provavelmente carrega o coração
ensopado de lágrimas.
Surpreendeste amigos de olhos calmos e frases doces, dando-te a impressão
de controle perfeito, que soubeste, mais tarde, estarem caminhando na direção
da loucura.
Enxergaste outros, promovendo festas e estadeando poder, a escorregarem, logo
após, no engodo da delinquência.
Ë que as enfermidades do espírito atormentam as forças da
criatura, em processos de corrosão inacessíveis à diagnose
terrestre.
Aqui, o egoísmo sombreia a visão; ali, o ódio empeçonha
o cérebro; acolá, o desespero mentaliza fantasmas; adiante, o
ciúme converte a palavra em látego de morte...
Não
observes os semelhantes pelo caleidoscópio das aparências.
É necessário reconhecer que todos nós, espíritos
encarnados e desencarnados em serviço na Terra, ante o volume dos débitos
que contraímos nas existências passadas, somos doentes em laboriosa
restauração.
O mundo não é apenas a escola, mas também o hospital em
que sanamos desequilíbrios recidivantes, nas reencarnações
regenerativas, através do sofrimento e do suor, a funcionarem por medicação
compulsória.
Deixa, assim, que a compaixão retifique em ti próprio os velhos
males que toleras nos outros.
Se alguém te fere ou desgosta, debita-lhe o gesto menos feliz à
conta da moléstia obscura de que ainda se faz portador.
Se cada pessoa ofendida pudesse ouvir a voz inarticulada do Céu, no instante
em que se vê golpeada, escutaria, de pronto, o apelo da Misericórdia
Divina: «Compadece-te!»
Todos somos enfermos pedindo alta.
Compadeçamo-nos uns dos outros, a fim de que saibamos auxiliar.
E mesmo que te vejas na obrigação de corrigir alguém —
pelas reações dolorosas das doenças da alma que ainda trazemos
—, compadece-te mil vezes antes de examinar uma só.
12 - NA ERA DO ESPÍRITO - ESPÍRITOS DIVERSO - PÁG. 103
ÍTEM
17 - Irmão Saulo - Respeito Pelos Outros
Todos somos naturalmente egocêntricos, pois o egocentrismo é a
base da individualidade e conseqüentemente da personalidade. A pessoa humana
é um ego conscientemente definido. E é necessário que seja
assim, pois do contrário não seríamos um ser, uma consciência
estruturada e capaz de agir. Mas o egoísmo é uma deformação
do egocentrismo, uma doença do ego. Essa doença se manifesta por
vários sintomas bem conhecidos: a arrogância, a avareza, o comodismo,
a ganância e sobretudo a falta de respeito pelos outros. A facilidade
com que interferimos na vida alheia, com que xingamos, insultamos, caluniamos,
julgamos os outros — é o maior flagelo que assola o mundo. Essa
falta de respeito pelos outros é o fruto espinhento do egoísmo
que gera os conflitos no lar, na sociedade, nas nações e na vida
internacional. Os espíritas, incumbidos da missão de restabelecer
o Cristianismo na Terra, são os que mais necessitam de compreender esse
problema. O primeiro dever dos espíritas, no tocante ao respeito pelo
próximo, refere-se à própria doutrina que nos foi dada
pelos Espíritos Superiores através do trabalho missionário
de Allan Kardec.
No entanto, a todo momento vemos espíritas que pretendem, sem o mínimo de conhecimento doutrinário exigível, reformar a doutrina e superar Kardec. No item 4 do capítulo XX de O Evangelho Segundo o Espiritismo temos a bela mensagem de Erasto, discípulo do apóstolo Paulo, intitulada "Missão dos Espíritas" que devia ser lida e comentada constantemente nas reuniões doutrinárias. Erasto nos adverte: "Cuidado, que entre os chamados para o Espiritismo muitos se desviaram da senda! Atentai, pois, no vosso caminho — e buscai a verdade!" Emmanuel, em sua mensagem, nos conclama ao amor e ao respeito mútuos, segundo "as leis do bem que Jesus nos legou". Amor a respeito não querem dizer anulação do discernimento e da personalidade, querem dizer compreensão. Precisamos amar, compreender e respeitar os outros, mas sempre nos lembrando do respeito que devemos ao Espírito da Verdade e à doutrina que ele nos legou. O primeiro sinal de obsessão num espírita, num adepto da doutrina, é a sua leviandade na aceitação das fábulas que desfiguram o ensino dos Espíritos do Senhor, a falta de respeito para com o Espírito da Verdade.
14 - O ESPÍRITO DA VERDADE - ESPÍRITOS DIVERSOS - PÁG. 38, 206
EM
PLENA ERA NOVA: Cap. XVIII — Item 9
Há criaturas que deixaram, na Terra, como único rastro da vida
robusta que usufruíram na carne, o mausoléu esquecido num canto
ermo de cemitério.
Nenhuma lembrança útil.
Nenhuma reminiscência em bases de fraternidade.
Nenhum ato que lhes recorde atitudes como padrões de fé.
Nenhum exemplo edificante nos currículos da existência.
Nenhuma idéia que vencesse a barreira da mediocridade.
Nenhum gesto de amor que lhes granjeasse sobre o nome o orvalho da gratidão.
A terra conservou-lhes, à força, apenas o cadáver —
retalho de matéria gasta que lhes vestira o espírito e que passa
a ajudar, sem querer, no adubo às ervas bravas.
Usaram os empréstimos do Pai Magnânimo exclusivamente para si mesmos,
olvidando estendê-los aos companheiros de evolução e ignorando
que a verdadeira alegria não vive isolada numa só alma, pois que
somente viceja com reciprocidade de vibrações entre vários
grupos de seres amigos.
Espíritas, muitos de nós já vivemos assim!
Entretanto, agora, os tempos são outros e as responsabilidades surgem
maiores.
O Espiritismo, a rasgar-nos nas mentes acanhadas e entorpecidas largos horizontes
de ideal superior, nos impele para a frente, rumo aos Cimos da Perfectibilidade.
A Humanidade ativa e necessitada, a construir seu porvir de triunfos, nos conclama
ao trabalho.
O espírito é um monumento vivo de Deus — o Criador Amorável.
Honremos a nossa origem divina, criando o bem como chuva de bênçãos
ao longo de nossas próprias pegadas.
Irmãos, sede os vencedores da rotina escravizante.
Em cada dia renasce a luz de uma nova vida e com a morte somente morrem as ilusões.
O espírito deve ser conhecido por suas obras.
É necessário viver e servir.
É necessário viver, meus irmãos, e ser mais do que pó!
Eurípedes Barsanulfo
OLVIDE
E RECORDE: Cap. XV — Item 3
Olvide o pó e o vento.
Recorde que a luz do Sol e a pureza da água são gratuitos.
Olvide o pessimismo e o mau agouro.
Recorde que a marcha do progresso é inexorável.
Olvide a palavra infeliz.
Recorde que você está sendo ouvido e observado.
Olvide a malquerença.
Recorde que o imperativo da fraternidade atinge a todos.
Olvide a indisposição.
Recorde que a disciplina mental é o primeiro remédio.
Olvide o próprio direito.
Recorde que o dever pessoal é intransferível.
Olvide a censura.
Recorde que o respeito ao semelhante é o alicerce da paz.
Olvide a vaidade intelectual.
Recorde o valor do procedimento correto em todas as circunstâncias.
Olvide as vozes destrutivas.
Recorde que a extensão da seara do bem espera por nós.
Olvide a convenção nociva.
Recorde que a naturalidade suscita sempre a simpatia maior.
Olvide a lamentação.
Recorde que o minuto passa sem esperar por ninguém.
Triunfar é esquecer o lado menos bom da vida, lembrando o cumprimento
das próprias obrigações que, em verdade, sustentam a nossa
alegria incessante. André Luiz
15 - O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO - ALLAN KARDEC - CAP. XI, 11
O
EGOÍSMO: EMMANUEL, PARIS, 1861:
O egoísmo, esta chaga da humanidade, deve desaparecer da Terra, porque
impede o seu progresso moral. É ao Espiritismo que cabe a tarefa de fazê-la
elevar-se na hierarquia dos mundos. O egoísmo é, portanto, o alvo
para o qual todos os verdadeiros crentes devem dirigir suas armas, suas forças
e sua coragem. Digo coragem, porque esta é a qualidade mais necessária
para cada um vencer-se a si mesmo do que para vencer os outros. Que cada qual,
portanto, dedique toda a sua atenção em si próprio, pois
esse monstro devorador de todas as inteligências, esse filho do orgulho,
é a fonte de todas as misérias terrenas. Ele é a negação
da caridade, e por isso mesmo, o maior obstáculo à felicidade
dos homens. Jesus vos deu o exemplo da caridade, e Pôncio Pilatos o do
egoísmo. Porque, enquanto o Justo vai percorrer as santas estações
do seu martírio, Pilatos lava as mãos, dizendo: Que me importa!
Disse mesmo aos judeus: Esse homem é justo, por que quereis crucificá-lo?
E, no entanto, deixa que o levem ao suplício.
É
a esse antagonismo da caridade e do egoísmo, à invasão
dessa lepra do coração humano, que o Cristianismo deve não
ter ainda, cumprido toda a sua missão. E é a vós, novos
apóstolos da fé, que os Espíritos superiores esclarecem,
que cabem a tarefa e o dever de extirpar esse mal, para dar ao Cristianismo
toda a sua força e limpar o caminho dos obstáculos que lhe entravam
a marcha. Expulsai o egoísmo da Terra, para que ela possa elevar-se na
escala dos mundos, pois já é tempo de a Humanidade vestir a sua
toga viril, e para isso é necessário primeiro expulsá-lo
de vosso coração. PASCAL Sens, 1862
Se os homens se amassem reciprocamente, a caridade seria mais bem praticada.
Mas, para isso, seria necessário que vos esforçasseis no sentido
de livrar o vosso coração dessa couraça que o envolve,
a fim de torná-lo mais sensível ao sofrimento do próximo.
O Cristo nunca se esquivava: aqueles que O procuravam, fossem quem fossem não
eram repelidos. A mulher adúltera, o criminoso, eram socorridos por Ele,
que jamais temeu prejudicar a sua própria reputação. Quando,
pois, o tomareis por modelo de todas as vossas ações? Se a caridade
reinasse na Terra, o mal não dominaria, mas se apagaria enverganhado;
ele se esconderia, porque em toda a parte se sentiria deslocado. Seria então
que o mal desapareceria; compenetrai-vos bem disso. Começai por dar o
exemplo vós mesmos. Sede caridoso para com todos, indistintamente. Esforçai-vos
para não atentar nos que vos olham com desdém. Deixai a Deus cuidar
de toda a justiça, pos cada dia, no seu Reino, Ele separa o joio do trigo.
O egoísmo é a negação da caridade. Ora, sem a caridade,
não há tranquilidade na vida social, e digo mais, não há
segurança. Com o egoísmo e o orgulho, que andam de mãos
dadas, essa vida será sempre uma corrida favorável ao mais esperto,
uma luta de interesses, em que as mais santas afeições são
calcadas aos pés, em, que nem mesmo os sagrados laços de família
são respeitados.
17 - O LIVRO DOS ESPÍRITOS - ALLAN KARDEC - QUESTÕES:
101, 698, 721, 726, 788, 883, 913, 937, 980:
101.
ORDEM DOS ESPÍRITOS IMPERFEITOS: CARACTERES GERAIS: Predominância
da matéria sobre o Espírito. Propensão ao mal, ignorância,
orgulho, egoísmo e todas as más paixões consequentes. Têm
a intuição de Deus, mas não o compreendem. Nem todos são
essencialmente maus; em alguns, há mais leviandade. Uns não fazem
o bem nem o mal; mas, pelo simples fato de não fazerem
o bem, revelam a sua inferioridade. Outros, pelo contrário, se comprazem
no mal e ficam satisfeitos quando encontram ocasião de praticá-lo.
Podem aliar a inteligência à maldade ou à malícia;
mas, qualquer que seja o seu desenvolvimento intelectual, suas idéias
são pouco elevadas e os seus sentimentos mais ou menos abjetos. Os seus
conhecimentos sobre as coisas do mundo espírita são limitados,
e o pouco que sabem a respeito se confunde com as idéias e os preconceitos
da vida corpórea. Não podem dar-nos mais do que noções
falsas e incompletas daquele mundo; mas o observador atento encontra, frequentemente,
nas suas comunicações, mesmo imperfeitas, a confirmação
das grandes verdades ensinadas pelos Espíritos superiores.
O caráter desses Espíritos se revela na sua linguagem. Todo Espírito
que, nas suas comunicações, traz um pensamento mau, pode ser colocado
na terceira ordem; por conseguinte, todo mau pensamento que nos for sugerido
provém de um Espírito dessa ordem. Vêem a felicidade dos
bons, e essa visão é para eles um tormento incessante, porque
lhes faz provar as angústias da inveja e do ciúme. Conservam a
lembrança e a percepção dos sofrimentos da vida corpórea,
e essa impressão é frequentemente mais penosa que a realidade.
Sofrem, portanto, verdadeiramente, pelos males que suportaram e pelos que acarretaram
aos outros; e como sofrem por muito tempo, julgam sofrer para sempre. Deus,
para os punir, quer que eles assim pensem. Podemos dividi-los em cinco classes
principais:
102. DÉCIMA CLASSE: ESPÍRITOS IMPUROS — São inclinados
ao mal e o fazem objeto de suas preocupações. Como Espíritos,
dão conselhos pérfidos, insuflam a discórdia e a desconfiança
e usam todos os disfarces para melhor enganar. Apegam-se às pessoas de
caráter bastante fraco para cederem às suas sugestões,
a fim de as levar à perda, satisfeitos de poderem retardar o seu adiantamento,
ao fazê-las sucumbir ante as provas que sofrem. Nas manifestações,
reconhecem-se esses Espíritos pela linguagem: a trivialidade e a grosseria
das expressões, entre os Espíritos como entre os homens, são
sempre um índice de inferioridade moral, se não mesmo intelectual.
Suas comunicações revelam a baixeza de suas inclinações,
e se eles tentam enganar, falando de maneira sensata, não podem sustentar
o papel por muito tempo e acabam sempre por trair a sua origem.
Alguns povos os transformaram em divindades malfazejas, outros os designam como
demônios, gênios maus, Espíritos do mal. Quando encarnados,
inclinam-se a todos os vícios que as paixões vis e degradantes
engendram: a sensualidade, a crueldade, a felonia, a hipocrisia, a cupidez e
a avareza sórdida. Fazem o mal pelo prazer de fazê-lo, no mais
das vezes sem motivo, e, por aversão ao bem, quase sempre escolhem suas
vítimas entre as pessoas honestas. Constituem verdadeiros flagelos para
a Humanidade, seja qual for a posição social que ocupem, e o verniz
da civilização não os livra do opróbrio e da ignomínia.
103. NONA CLASSE: ESPÍRITOS LEVIANOS — São ignorantes, malignos,
inconsequentes e zombeteiros. Metem-se em tudo e a tudo respondem sem se importarem
com a verdade. Gostam de causar pequenas contrariedades e pequenas alegrias,
de fazer intrigas, de induzir maliciosamente ao erro, por meio de mistificações
e de espertezas. A esta classe pertencem os Espíritos vulgarmente designados
pelos nomes de duendes, diabretes, gnomos, trasgos. Estão sob a dependência
de Espíritos superiores, que deles muitas vezes se servem como fazemos
com os criados. Nas suas comunicações com os homens, a sua linguagem
é muitas vezes espirituosa e alegre, mas quase sempre sem profundidade;
apanham as esquisitices e os defeitos humanos, que interpretam de maneira mordaz
e satírica. Se tomam nomes supostos, é mais por malícia
do que por maldade. (...)
Perg. 698 - O celibato voluntário é um estado de perfeição,
meritório aos olhos de Deus? - Não, e os que vivem assim, por
egoísmo, desagradam a Deus e enganam a todos.
Perg. 721 - A vida de mortificações do ascetismo tem sido praticado
desde toda a Antiguidade e nos diferentes povos; é ela meritória
sob algum ponto de vista? - Perguntai a quem ela aproveita e tereis a resposta.
Se não serve senão ao que pratica e o impede de fazer o bem, é
egoísta, qualquer que seja o pretexto sob o qual se disfarce. Submeter-se
a privações no trabalho pelos outros é a verdadeira mortificação,
de acordo com a caridade cristã.
Perg. 722 - A abstenção de certos alimentos, prescrita entre diversos
povos, funda-se na razão? - Tudo aquilo de que o homem se possa alimentar,
sem prejuízo para a saúde, é permitido. Mas os legisladores
puderam interditar alguns alimentos com uma finalidade útil. E para dar
maior crédito às suas leis, apresentaram-nas como provindas de
Deus.
Perg. 788 - Os povos são individualidade coletivas que passam pela infância,
a idade madura e a decrepitude, como os indivíduos. Essa verdade constatada
pela História não nos permite supor que os povos mais adiantados
deste século terão o seu declínio e o seu fim, como os
da Antiguidade? - Os povos que só vivem materialmente, cuja grandeza
se funda na força e na extensão territorial, crescem e morrem,
porque a força de um povo se esgota como a de um homem; aqueles cujas
leis egoístas atentam contra o progresso das luzes e da caridade, morrem,
porque a luz aniquila as trevas e a caridade mata o egoísmo. Mas há
para os povos, como para os indivíduos, a vida da alma, e aqueles, cujas
leis se harmonizam com as leis eternas do Criador, viverão e serão
o farol dos outros povos.
Perg. 883 - O desejo de possuir é natural? - Sim, mas quando o homem
só deseja para si e para sua satisfação pessoal é
egoísmo.
Perg. 913 - Entre os vícios, qual o que podemos considerar radical? -
Já o dissemos muitas vezes: o egoísmo. Dele deriva todo o mal.
Estudai todos os vícios e vereis que no fundo de todos existe o egoísmo.
Por mais que luteis contra eles não chegareis a extirpá-los enquanto
não os atacardes pela raiz, enquanto não lhes houverdes destruído
a causa. Que todos os vossos esforços tendam para esse fim, porque nele
se encontra a verdadeira chaga da sociedade. Quem nesta vida quiser se aproximar
da perfeição moral deve extirpar do seu coração
todo sentimento de egoísmo, porque é incompatível com a
justiça, o amor e a caridade: ele neutraliza todas as outras qualidades.
Perg. 914- Estando o egoísmo fundado no interesse pessoal, parece difícil
extirpá-lo inteiramente do coração do homem. Chegaremos
a isso?— À medida que os homens se esclarecem sobre as coisas espirituais,
dão menos valor às materiais; em seguida, é necessário
reformar as instituições humanas, que o entretém e excitam.
Isso depende da educação.
Perg. 915. Sendo o egoísmo inerente à espécie humana, não
será um obstáculo permanente ao reino do bem absoluto sobre a
Terra? — É certo que o egoísmo é o vosso mal maior,
mas ele se liga à inferioridade dos Espíritos encarnados na Terra
e não à Humanidade em si mesma. Ora, os Espíritos se purificam
nas encarnações sucessivas, perdendo o egoísmo assim como
perdem as outras impurezas. Não tendes na Terra algum homem destituído
de egoísmo e praticante da caridade. Existem em maior número do
que julgais, mas conheceis poucos porque a virtude não se procura fazer
notar. E se há um, por que não haverá dez? Se há
dez, por que não haverá mil, e assim por diante?
Perg. 916. O egoísmo, longe de diminuir, cresce com a civilização,
que parece excitá-lo e entretê-lo. Como poderá a causa destruir
o efeito?— Quanto maior é o mal, mais horrível se torna.
Era necessário que o egoísmo produzisse muito mal para fazer compreender
a necessidade de sua extirpação. Quando os homens se tiverem despido
do egoísmo que os domina, viverão como irmãos, não
se fazendo o mal, e se ajudarão reciprocamente pelo sentimento fraterno
de solidariedade. Então o forte será o apoio e não o opressor
do fraco e não mais se verão homens desprovidos do necessário,
porque todos praticarão a lei da justiça. Esse é o reino
do bem que os Espíritos estão encarregados de preparar.
Perg. 917. Qual é o meio de se destruir o egoísmo?— De todas
as imperfeições humanas, a mais difícil de desenraizar
é o egoísmo, porque se liga à influência da matéria,
da qual o homem, ainda muito próximo da sua origem, não pode libertar-se.
Tudo concorre influência; suas leis, sua organização social,
sua educação. O egoísmo se enfraquecerá com a predominância
da vida moral sobre a vida material, e sobretudo com a compreensão que
o Espiritismo vosso estado futuro real e não desfigurado pelas ficções
alegóricas. O Espiritismo bem compreendido, quando estiver identificando
com os costumes e as crenças, transformará os hábitos,
as usanças e as relações sociais. O egoísmo se funda
na importância da personalidade; bem compreendido, repito-o, faz ver as
coisas de tão alto que o sentimento da personalidade desaparece de alguma
forma perante a imensidade. Ao destruir essa importância, ou pelo menos
ao fazer ver a personalidade naquilo que de fato ela é, ele combate necessariameno
egoísmo.
É o contato que o homem experimenta do egoísmo dos outros que
o torna geramente egoísta, porque sente a necessidade de se pôr
na defensiva. Vendo que os outros pensam em si mesmos e não nele, é
levado lesmo mais que dos outros. Que o princípio da caridade seja a
base das instituições sociais, das relações legais
e de homem para homem, e este pensará menos em si quando vir que os outros
o fazem; sofrerá, assim, a influência moralizadora do exemplo e
do contato. Em face do atual desdobramento do egoísmo é necessária
uma verdadeira virtude para abdicar da própria proveito dos outros, que
em geral não o reconhecem. É a esses sobretudo, que possuem essa
virtude, que está aberto o reino dos céus; a eles sobretudo está
reservada a felicidade dos eleitos, pois em verdade vos digo que no dia do juízo
quem quer que não tenha pensado será posto de lado e sofrerá
no abandono. Fénelon
Perg. 937 - As decepções provocadas pela ingratidão e pela
fragilidade dos laços de amizade não são, também,
para o homem de coração, uma fonte de amarguras? - Sim, mas já
vos ensinamos a lastimar os ingratos e os amigos infiéis, que serão
mais infelizes do que vós. A ingratidão é filha do egoísmo
e o egoísta encontrará mais tarde corações insensíveis
como ele próprio o foi. Pensai em todos os que fizeram maior bem do que
vós, que valima mais do que vós e, no entanto, foram pagos com
a ingratidão. Pensai que o próprio Jesus, quando na Terra, foi
injuriado e desprezado, tratado de patife e impostor, e não vos admireis
de que o mesmo vos aconteça. Que o bem que fizestes seja a vossa recompensa
neste mundo e não vos importeis com o que dizem os beneficiados. A ingratidão
é uma prova para a vossa persistência em fazer o bem. Isso vos
será levado em conta, e os que não vos foram reconhecidos serão
punidos tanto mais quanto maior houver sido a sua ingratidão.
Perg. 980 - O laço de simpatia que une os Espíritos da mesma ordem
é para eles um motivo de felicidade? - A união dos Espíritos
que se simpatizam pelo bem é para eles um dos maiores gozos, porque não
temem ver essa união perturbada pelo egoísmo. Eles formam, no
mundo inteiramente espiritual, as famílias do mesmo sentimento. É
nisso que consiste a felicidade espiritual, como em teu mundo os homens se agrupam
em categorias e gozam de um certo prazer quando se reúnem. A afeição
pura e sincera que provam e de que são objeto é um motivo de felicidade,
pois lá não há falsos amigos nem hipócritas.
O homem goza as primícias dessa felicidade, sobre a Terra, quando encontra
almas com as quais pode confundir-se numa união pura e santa. Numa vida
mais depurada esse prazer será inefável e sem limites, porque
ele só encontrará almas simpáticas, que o egoísmo
não tornou indiferentes. Pois tudo é amor na Natureza; o egoísmo
é que o aniquila.
18 - OBRAS PÓSTUMAS - ALLAN KARDEC - PÁG. 225
O EGOÍSMO E O ORGULHO: Suas causas, seus efeitos e os meios de destruí-los: É bem sabido que a maior parte das misérias da vida tem origem no egoísmo dos homens. Desde que cada um pensa em si antes de pensar nos outros e cogita antes de tudo de satisfazer aos seus desejos, cada um naturalmente cuida de proporcionar a si mesmo essa satisfação, a todo custo, e sacrifica sem escrúpulo os interesses alheios, assim nas mais insignificantes coisas, como nas maiores, tanto de ordem moral, quanto de ordem material. Daí todos os antagonismos sociais, todas as lutas, todos os conflitos e todas as misérias, visto que cada um só trata de despojar o seu próximo. O egoísmo, por sua vez, se origina do orgulho. A exaltação da personalidade leva o homem a considerar-se acima dos outros. Julgando-se com direitos superiores, melindra-se com o que quer que, a seu ver, constitua ofensa a seus direitos. A importância que, por orgulho, atribui à sua pessoa, naturalmente o torna egoísta. O egoísmo e o orgulho nascem de um sentimento natural: o instinto de conservação. Todos os instintos têm sua razão de ser e sua utilidade, porquanto Deus nada pode ter feito inútil. Ele não criou o mal; o homem é quem o produz, abusando dos dons de Deus, em virtude do seu livre-arbítrio.
Contido em justos limites, aquele sentimento é bom em si mesmo. A exageração é o que o torna mau e pernicioso. O mesmo acontece com todas as paixões que o homem frequentemente desvia do seu objetivo providencial. Ele não foi criado egoísta, nem orgulhoso por Deus, que o criou simples e ignorante; o homem é que se fez egoísta e orgulhoso, exagerando o instinto que Deus lhe outorgou para sua conservação. Não podem os homens ser felizes, se não viverem em paz, isto é, se não os animar um sentimento de benevolência, de indulgência e de condescendência recíprocas; numa palavra: enquanto procurarem esmagar-se uns aos outros. A caridade e a fraternidade resumem todas as condições e todos os deveres sociais; uma e outra, porém, pressupõem a abnegação. Ora, a abnegação é incompatível com o egoísmo e o orgulho; logo, com esses vícios, não é possível a verdadeira fraternidade, nem, por conseguinte, igualdade, nem liberdade, dado que o egoísta e o orgulhoso querem tudo para si. Eles serão sempre os vermes roedores de todas as instituições progressistas; enquanto dominarem, ruirão aos seus golpes os mais generosos sistemas sociais, os mais sabiamente combinados. É belo, sem dúvida, proclamar-se o reinado da fraternidade, mas, para que fazê-lo, se uma causa destrutiva existe? É edificar em terreno movediço; o mesmo fora decretar a saúde numa região malsã. Em tal região, para que os homens passem bem, não bastará se mandem médicos, pois que estes morrerão como os outros; insta destruir as causas da insalubridade. Para que os homens vivam na Terra como irmãos, não basta se lhes dêem lições de moral; importa destruir as causas de antagonismo, atacar a raiz do mal: o orgulho e o egoísmo.
Essa a chaga sobre a qual deve concentrar-se toda a atenção dos
que desejem seriamente o bem da Humanidade. Enquanto subsistir semelhante obstáculo,
eles verão paralisados todos os seus esforços, não só
por uma resistência de inércia, como também por uma força
ativa que trabalhará incessantemente no sentido de destruir a obra que
empreendam, por isso que toda idéia grande, generosa e emancipadora arruina
as pretensões pessoais. Impossível, dir-se-á, destruir
o orgulho e o egoísmo, porque são vícios inerentes à
espécie humana. Se fosse assim, houvéramos de desesperar de todo
progresso moral; entretanto, desde que se considere o homem nas diferentes épocas
transcorridas, não há negar que evidente progresso se efetuou.
Ora, se ele progrediu, ainda naturalmente progredirá. Por outro lado,
não se encontrará homem nenhum sem orgulho, nem egoísmo?
Não se vêem, ao contrário, criaturas de índole generosa,
em quem parecem inatos os sentimentos do amor ao próximo, da humildade,
do devotamento e da abnegação? O número delas, positivamente,
é menor do que o dos egoístas; se assim não fosse, não
seriam estes últimos os fautores da lei. Há muito mais criaturas
dessas do que se pensa e, se parecem tão pouco numerosas, é porque
o orgulho se põe em evidência, ao passo que a virtude modesta se
conserva na obscuridade.
Se, portanto, o orgulho e o egoísmo se contassem entre as condições
necessárias da Humanidade, como a da alimentação para sustento
da vida, não haveria exceções. O ponto essencial, pois,
é conseguir que a exceção passe a constituir regra; para
isso, trata-se, antes de tudo, de destruir as causas que produzem e entretém
o mal. Dessas causas, a principal reside evidentemente na idéia falsa
que o homem faz da sua natureza, do seu passado e do seu futuro. Por não
saber donde vem, ele se crê mais do que é; e não sabendo
para onde vai, concentra na vida terrena todo o seu pensar; acha-a tão
agradável, quanto possível; anseia por todas as satisfações,
por todos os gozos; essa a razão por que atropela sem escrúpulo
o seu semelhante, se este lhe opõe alguma dificuldade. Mas, para isso,
é preciso que ele predomine; a igualdade daria, a outros, direitos que
ele só quer para si; a fraternidade lhe imporia sacrifícios em
detrimento do seu bem-estar; a liberdade também ele só a quer
para si e somente a concede aos outros quando não lhe fira de modo algum
as prerrogativas. Alimentando todos as mesmas pretensões, têm resultado
os perpétuos conflitos que os levam a pagar bem caro os raros gozos que
logram obter.
Identifique-se o homem com a vida futura e completamente mudará a sua
maneira de ver, como a do indivíduo que apenas por poucas horas haja
de permanecer numa habitação má e que sabe que, ao sair,
terá outra, magnífica, para o resto de seus dias. A importância
da vida presente, tão triste, tão curta, tão efêmera,
se apaga, para ele, ante o esplendor do futuro infinito que se lhe desdobra
às vistas. A consequência natural e lógica dessa certeza
é sacrificar o homem um presente fugidio a um porvir duradouro, ao passo
que antes ele tudo sacrificava ao presente. Tomando por objetivo a vida futura,
pouco lhe importa estar um pouco mais ou um pouco menos nesta outra; os interesses
mundanos passam a ser o acessório, em vez de ser o principal; ele trabalha
no presente com o fito de assegurar a sua posição no futuro, tanto
mais quando sabe em que condições poderá ser feliz. Pelo
que toca aos interesses terrenos, podem os humanos criar-lhe obstáculos:
ele tem que os afastar e se torna egoísta pela força mesma das
coisas. Se lançar os olhos para o alto, para uma felicidade a que ninguém
pode obstar, interesse nenhum se lhe deparará em oprimir a quem quer
que seja e o egoísmo se lhe torna carente de objeto.
Todavia, restará o estimulante do orgulho. A causa do orgulho está na crença, em que o homem se firma, da sua superioridade individual. Ainda aí se faz sentir a influência da concentração dos pensamentos sobre a vida corpórea. Naquele que nada vê adiante de si, atrás de si, nem acima de si, o sentimento da personalidade sobrepuja e o orgulho fica sem contrapeso. A incredulidade não só carece de meios para combater o orgulho, como o estimula e lhe dá razão, negando a existência de um poder superior à Humanidade. O incrédulo apenas crê em si mesmo; é, pois, natural que tenha orgulho. Enquanto que, nos golpes que o atingem, unicamente vê uma obra do acaso e se ergue para combatê-la, aquele que tem fé percebe a mão de Deus e se submete. Crer em Deus e na vida futura é, conseguintemente, a primeira condição para moderar o orgulho; porém, não basta. Juntamente com o futuro, ê necessário ver o passado, para fazer idéia exata do presente. Para que o orgulhoso deixe de crer na sua superioridade, cumpre se lhe prove que ele não é mais do que os outros e que estes são tanto quanto ele; que a igualdade é um fato e não apenas uma bela teoria filosófica; que estas verdades ressaltam da preexistência da alma e da reencarnação. Sem a preexistência da alma, o homem é induzido a acreditar que Deus, dado creia em Deus, lhe conferiu vantagens excepcionais; quando não crê em Deus, rende graças ao acaso e ao seu próprio mérito.
Iniciando-o na vida anterior da alma, a preexistência lhe ensina a distinguir, da vida corporal, transitória, a vida espiritual, infinita; ele fica sabendo que as almas saem todas iguais das mãos do Criador; que todas têm o mesmo ponto de partida e a mesma finalidade, que todas hão de alcançar, em mais ou menos tempo, conforme os esforços que empreguem; que ele próprio não chegou a ser o que é, senão depois de haver, por longo tempo e penosamente, vegetado, como os outros, nos degraus inferiores da evolução; que, entre os mais atrasados e os mais adiantados, não há senão uma questão de tempo; que as vantagens do nascimento são puramente corpóreas e independem do Espírito; que o simples proletário pode, noutra existência, nascer num trono e o maior potentado renascer proletário. Se levar em conta unicamente a vida planetária, ele vê apenas as desigualdades sociais do momento, que são as que o impressionam; se, porém, deitar os olhos sobre o conjunto da vida do Espírito, sobre o passado e o futuro, desde o ponto de partida até o de chegada, aquelas desigualdades se somem e ele reconhece que Deus nenhuma vantagem concedeu a qualquer de seus filhos em prejuízo dos outros; que deu parte igual a todos e não achanou o caminho mais para uns do que para outros; que o que se apresenta menos adiantado do que ele na Terra pode tomar-lhe a dianteira, se trabalhar mais do que ele por aperfeiçoar-se; reconhecerá, finalmente, que, nenhum chegando ao termo senão por seus esforços, o princípio da igualdade é um princípio de justiça e uma lei da Natureza, perante a qual cai o orgulho do privilégio.
Provando que os Espíritos podem renascer em diferentes condições
sociais, quer por expiação, quer por provação, a
reencarnação ensina que, naquele a quem tratamos com desdém,
pode estar um que foi nosso superior ou nosso igual noutra existência,
um amigo ou um parente. Se o soubesse, o que com ele se defronta o trataria
com atenções, mas, nesse caso, nenhum mérito teria; por
outro lado, se soubesse que o seu amigo atual foi seu inimigo, seu servo ou
seu escravo, sem dúvida o repeliria. Ora, não quis Deus que fosse
assim, pelo que lançou um véu sobre o passado. Deste modo, o homem
é levado a ver, em todos, irmãos seus e seus iguais, donde uma
base natural para a fraternidade; sabendo que pode ser tratado como haja tratado
os outros, a caridade se lhe torna um dever e uma necessidade fundados na própria
Natureza. Jesus assentou o princípio da caridade, da igualdade e da fraternidade,
fazendo dele uma condição expressa para a salvação;
mas, estava reservado à terceira manifestação da vontade
de Deus, ao Espiritismo, pelo conhecimento que faculta da vida espiritual, pelos
novos horizontes que desvenda e pelas leis que revela, sancionar esse princípio,
provando que ele não encerra uma simples doutrina moral, mas uma lei
da Natureza que o homem tem o máximo interesse em praticar. Ora, ele
a praticará desde que, deixando de encarar o presente como o começo
e o fim, compreenda a solidariedade que existe entre o presente, o passado e
o futuro.
No campo imenso do infinito, que o Espiritismo lhe faz entrever, anula-se a sua importância capital e ele percebe que, por si só, nada vale e nada é; que todos têm necessidade uns dos outros e que uns não são mais do que os outros: duplo golpe, no seu egoísmo e no seu orgulho. Mas, para isso, é-lhe necessária a fé, sem a qual permanecerá na rotina do presente, não a fé cega, que foge à luz, restringe as idéias e, em consequência, alimenta o egoísmo. É-lhe necessária a fé inteligente, racional, que procura a claridade e não as trevas, que ousadamente rasga o véu dos mistérios e alarga o horizonte. Essa fé, elemento básico de todo progresso, é que o Espiritismo lhe proporciona, fé robusta, porque assente na experiência e nos fatos, porque lhe fornece provas palpáveis da imortalidade da sua alma, lhe mostra donde ele vem, para onde vai e por que está na Terra e, finalmente, lhe firma as idéias, ainda incertas, sobre o seu passado e sobre o seu futuro. Uma vez que haja entrado decisivamente por esse caminho, já não tendo o que os incite, o egoísmo e o orgulho se extinguirão pouco a pouco, por falta de objetivo e de alimento, e todas as relações sociais se modificarão sob o influxo da caridade e da fraternidade bem compreendidas. Poderá isso dar-se por efeito de brusca mudança? Não, fora impossível: nada se opera bruscamente em a Natureza; jamais a saúde volta de súbito a um efermo; entre a enfermidade e a saúde, há sempre a convalescença. Não pode o homem mudar instantaneamente o seu ponto de vista e volver da Terra para o céu o olhar; o infinito o confunde e deslumbra; ele precisa de tempo para assimilar as novas idéias.
O Espiritismo é, sem contradita, o mais poderoso elemento de moralização,
porque mina pela base o egoísmo e o orgulho, facultando um ponto de apoio
à moral. Há feito milagres de conversão; é certo
que ainda são apenas curas individuais e não raro parciais. O
que, porém, ele há produzido com relação a indivíduos
constitui penhor do que produzirá um dia sobre as massas. Não
lhe é possível arrancar de um só golpe as ervas daninhas.
Ele dá a fé e a fé é a boa semente, mas mister se
faz que ela tenha tempo de germinar e de frutificar, razão por que nem
todos os espíritas já são perfeitos. Ele tomou o homem
em meio da vida, no fogo das paixões, em plena força dos preconceitos
e se, em tais circunstâncias, operou prodígios, que não
será quando o tomar ao nascer, ainda virgem de todas as impressões
malsãs; quando a criatura sugar com o leite a caridade e tiver a fraternidade
a embalá-lo; quando, enfim, toda uma geração for educada
e alimentada com idéias que a razão, desenvolvendo-se, fortalecerá,
em vez de falsear? Sob o domínio destas idéias, a cimentarem a
fé comum a todos, não mais esbarrando o progresso no egoísmo
e no orgulho, as instituições se reformarão por si mesmas
e a Humanidade avançará rapidamente para os destinos que lhe estão
prometidos na Terra, aguardando os do céu.
19 - OFERENDA - JOANNA DE ÂNGELIS- PÁG. 113, 156
ADVERSÁRIO CRUEL
Escamoteia as intenções, sem modificar, realmente, os objetivos que tem em pauta. Disfarça-se de mil formas, desaparecendo para ressurgir em outra apresentação, mantendo os firmes propósitos que o caracterizam. Dominador, não se submete, por traduzir a força indômita do instinto, em detrimento do valor da razão. Arbitrário, crê-se depositário de méritos que, em verdade, não possui.
Escravocrata, esmaga quem lhe padece a injunção, estiolando a esperança, por infeliz exteriorização, em quantos não se submetem ao seu comando e dele tentam apartar-se. Morbo mefítico expande-se a qualquer estímulo inferior e faz-se notado, no seu detestável disfarce. É o egoísmo, esse adversário cruel do Espírito que aspira às estrelas, no processo iluminativo da sua ascensão libertadora.
Não lhe dês trégua. Não o agasalhes. Não lhe permitas fixação nos refolhos da alma. Não o estimules sob qualquer pretexto, sempre injustificável. O egoísmo é parasita destruidor.
Observa o ciúme, e verás o egoísmo contrariado, explodindo. Detém-te na calúnia, e sentirás o egoísmo em regozijo. Acompanha a maledicência, e tropeçarás no egoísmo em jornada de insensatez. Contempla a vingança, e a terapia que tenhas será para o egoísmo que enlouqueceu.
Confere o furto, e o egoísmo justificará a posse indébita. Em qualquer crime contra o indivíduo, a propriedade, o povo, as Nações, eis o egoísmo, campeão da desdita segurando as rédeas de comando arbitrário. Judas trai o Amigo, sob a ação nefasta de egoísmo incontrolável.
Pedro nega Jesus, acoimado pelo egoísmo temeroso. Pilatos lava as mãos, dominado pelo egoísmo utilitarista. Tomé duvida, sob a farsa do egoísmo suspeitoso.
No entanto, o Excelente Benfeitor, vivendo a Mensagem duradoura da felicidade total, propôs o amor como o antídoto único, eficiente e capaz de vencer o egoísmo, para salvar o homem, auxiliando-o na convivência com o seu irmão, ao mesmo tempo em que viva o amor a Deus em toda sua plenitude.
SEM RETENÇÃO EGOÍSTICA
Proscreve da lavoura dos teus sentimentos o egoísmo ignóbil, a fim de poupar-te aflições que podes dispensar. Mascarando-se, multiface, ele surge e ressurge na gleba das tuas aspirações, dominando as tuas paisagens íntimas, produzindo mal-estar e incessante inquietação.
Ama, mas não retenhas, a quem te afeiçoas, nas tenazes fortes dos teus caprichos. Ninguém pertence a ninguém. Objetos, valores e posses transitam pelo mundo sob mordomias passageiras, mudando de mãos sob o implacável suceder dos minutos no relógio do tempo. O egoísmo urdirá manobras hábeis aferrando-te à ganância e à subtração dominadora das coisas, deixando-te iludir na presunção de que és detentor.
Nada obstante, a incoercível lei da evolução impõe câmbios e transformações a que ninguém se pode furtar no estreito e breve caminho a percorrer, do berço ao túmulo. Exercita, desse modo, o desprendimento para que não padeças difíceis injunções de desespero, quando passem pelas tuas mãos os tesouros que seguem adiante...
Dá início a uma disciplina mental em torno do uso sem o tormento da propriedade, assim familiarizando-te com os impositivos da própria vida física, ilusória e sem qualquer garantia. Não te enganes no egoísmo da posse, mesmo que ele se te insinui pernicioso na casa mental.
Se amas, não constranjas o ser amado a amar-te sob imposições que o infelicitarão, por fim em ti mesmo gerando frustração e dor. Por mais te doa hoje a conjuntura de vê-lo seguir adiante, evita pensar que tal não sucederá. Antes, cria condições de adaptação mental, para quando se te suceder a ocorrência não se te despedacem o coração e os sentimentos elevados, arrojando-te nos precipícios da insensatez e da loucura.
Ama sem posse, por mais te pareça improvável lográ-lo. Se és amado, não condiciones a doação do teu afeto. Reparte bondade, quando não te seja possível atender às solicitações que se te fazem endereçadas. A bondade, sem vínculo de profundidade afetiva, comprometedora, pode ser alimento abençoado para a fome de quem te bate à porta das responsabilidades maiores da vida.
Se a tua solidão recebe o apoio da amizade, não te concedas transformar a água pura, que te pode dessedentar, em rio de desejos em que te afogues sem necessidade... Não vale a posse de um momento o largo tempo da amargura e da decepção. Cada dia é bênção de Nosso Pai, trazendo surpresa e provas conforme as necessidades de todos nós.
Prescreve-te paciência e confiança nas providências divinas e não te alucines, retendo quem e o que deve seguir além, no curso natural da sua própria escolha. Se são coisas, volverão, caso permaneças no teu lugar de renúncia. Se se trata corações afetuosos que não querem mais ou não desejaram ficar contigo, volverão, caso cresças para a vida e lhes projetes a luz da felicidade futuro a dentro..
Não tinha teto, nem leito, nem posse alguma - Jesus-, e era o Rei Solar ! Amou, doou-se, convidou corações - marchou, porém, a sós-, carpindo abandono supremo no mundo, em cuja trilha de doação total confeccionou a túnica nupcial para o excelso noivado com a criatura humana, que Ele prossegue aguardando, sem retenção nem posse.