FAMÍLIA |
|
BIBLIOGRAFIA |
|
| 01- A educação da nova era- pág.45 | 02 - A educação segundo o Espiritismo - pág. 58,183 |
| 03 - Após a tempestade - pág. 71 | 04 - As aves feridas na Terra voam - pág. 14 |
| 05 - Boa Nova - pág. 83 | 06 - Caminho verdade e vida - pág. 139, 265 |
| 07 - Catecismo Espírita - pág. 69 | 08 - Ceifa de luz - pág. 179 |
| 09 - Coragem - pág. 73, 107 | 10 - Curso Dinâmico de Espiritismo - pág. 39 |
| 11 - Encontro marcado - pág. 37, 109, 112 | 12 - Estude e viva - pág. 66, 92 ,216 |
| 13 - Estudos Espíritas - pág. 175 | 14 - Há dois mil anos- pág. 32 |
| 15 - Lampadário Espírita - pág. 77 | 16 - Lázaro redivivo- pág. 257 |
| 17 - Na era do Espírito - pág. 22 a 25 | 18 - O Consolador - pág. 107, 224 |
| 19 - O Espírito da Verdade - pág. 113 | 20 -O Evangelho Seg. o Espiritismo - cap. 4, ítem 18 |
| 21 - O Homem novo- pág. 17 | 22 - O Livro dos Espíritos - q59, 205, 215,.. |
| 23 - Obreiros de vida eterna - pág. 137 | 24 - Pão Nosso - pág. 63 |
| 25 - Rumo Certo - pág. 77 | 26 - Vida e Sexo - pág. 13, 21, 145 |
| 27 - Viver em plenitude - pág. 19 | 28 - Voltei - pág. 100 |
LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.
FAMÍLIA – COMPILAÇÃO
05 - BOA NOVA - HUMBERTO DE CAMPOS - PÁG. 83
(..)
Muito tempo ainda não decorrera sobre essa conversação,
quando o Mestre, em seus ensinos, deixou perceber que todos os homens, que não
estivessem decididos a colocar o Reino de Deus acima de pais, mães e
irmãos terrestres, não podiam ser seus discípulos. No dia
desses novos ensinamentos, terminados os labores evangélicos, o mesmo
apóstolo interpelou o Senhor, na penumbra de suas expressões indecisas:—
Mestre, como conciliar estas palavras tão duras com as vossas anteriores
observações, relativamente aos laços sagrados entre os
que se estimam?! Sem deixar transparecer nenhuma surpresa, Jesus esclareceu:
— Simão, a minha palavra não determina que o homem quebre
os elos santos de sua vida; antes exalta os que tiverem a verdadeira fé
para colocar o poder de Deus acima de todas as coisas e de todos os seres da
criação infinita. Não constitui o amor dos pais uma lembrança
da bondade permanente de Deus? Não representa o afeto dos filhos um suave
perfume do coração?! Tenho dado aos meus discípulos o título
de amigos, por ser o maior de todos. O Evangelho — continuou o Mestre,
estando o apóstolo a ouvi-lo atentamente — não pode condenar
os laços de família, mas coloca acima deles o laço indestrutível
da paternidade de Deus. O Reino do Céu no coração deve
ser o tema central de nossa vida. Tudo mais é acessório. A família,
no mundo, está igualmente subordinada aos imperativos dessa edificação.
Já pensaste, Pedro, no supremo sacrifício de renunciar? Todos
os homens sabem conservar, são raros os que sabem privar-se. Na construção
do Reino de Deus, chega um instante de separação, que é
necessário se saiba suportar com sincero desprendimento.
E essa separação não é apenas a que se verifica pela morte do corpo, muitas vezes proveitosa e providencial, mas também a das posições estimáveis no mundo, a da família terrestre, a do viver nas paisagens queridas, ou, então, a de uma alma bem-amada que preferiu ficar, a distância, entre as flores venenosas de um dia!...Ah! Simão, quão poucos sabem partir, por algum tempo, do lar tranquilo, ou dos braços adorados de uma afeição, por amor ao reino que é o tabernáculo da vida eterna! Quão poucos saberão suportar a calúnia, o apodo, a indiferença, por desejarem permanecer dentro de suas criações individuais, cerrando ouvidos à advertência do céu para que se afastem tranquilamente!... Como são raros os que sabem ceder e partir em silêncio, por amor ao reino, esperando o instante em que Deus se pronuncia! Entretanto, Pedro, ninguém se edificará, sem conhecer essa virtude de saber renunciar com alegria, em obediência à vontade de Deus, no momento oportuno, compreendendo a sublimidade de seus desígnios.
Por essa razão, os discípulos necessitam aprender a partir e a esperar onde as determinações de Deus os conduzam, porque a edificação do Reino do Céu no coração dos homens deve constituir a preocupação primeira, a aspiração mais nobre da alma, as esperanças centrais do espírito!...Ainda não havia anoitecido. Jesus, porém, deu por concluídas as suas explicações, enquanto as mãos calosas do apóstolo passavam, de leve, sobre os olhos úmidos. Dando o testemunho real de seus ensinamentos, o Cristo soube ser, em todas as circunstâncias, o amigo fiel e dedicado. Nas elucidações de João, vemo-lo a exclamar:— "Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; tenho-vos chamado amigos, porque vos revelei tudo quanto ouvi de meu Pai!" E, na narrativa de Lucas, ouvimo-lo dizer, antes da hora extrema:
— "Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa,
antes da minha paixão."Ninguém no mundo já conseguiu
elevar, à altura em que o Senhor as colocou, a beleza e a amplitude dos
elos afetivos, mesmo porque a sua obra inteira é a de reunir, pelo amor,
todas as nações e todos os homens, no círculo divino da
família universal. Mas, também, por
demonstrar que o reino de Deus deve constituir a preocupação primeira
das almas, ninguém como ele soube retirar-se das posições,
no instante oportuno, em obediência aos desígnios divinos. Depois
da magnífica vitória da entrada em Jerusalém, é
traído por um dos discípulos amados; negam-no os seus seguidores
e companheiros; suas idéias são tidas como perversoras e revolucionárias;
é acusado como bandido e feiticeiro; sua morte passa por ser a de um
ladrão.
Jesus, entretanto, ensina às criaturas, nessa hora suprema, a excelsa
virtude de retirar-se com a solidão dos homens, mas com a proteção
de Deus. Ele, que transformara toda a Galiléia numa fonte divina; que
se levantara com desassombro contra as hipocrisias do farisaísmo do tempo;
que desapontara os cambistas, no próprio templo de Jerusalém,
como advogado enérgico e superior de todas as grandes causas da verdade
e do bem, passa, no dia do Calvário, em espetáculo para o povo,
com a alma num maravilhoso e profundo silêncio. Sem proferir a mais leve
acusação, caminha humilde, coroado de espinhos, sustendo nas mãos
uma cana imunda à guisa de cetro, vestindo a túnica da ironia,
sob as cusparadas dos populares exaltados, de faces sangrentas e passos vacilantes,
sob o peso da cruz, vilipendiado, submisso. No momento do Calvário, Jesus
atravessa as ruas de Jerusalém, como se estivesse diante da humanidade
inteira, sem queixar-se, ensinando a virtude da renúncia por amor do
Reino de Deus, revelando por essa a sua derradeira lição.
09 - CORAGEM - ESPIRITOS DIVERSOS - PÁG. 73
ÍTEM
22 - QUANTO PUDERES - PÁG. 73 - EMMANUEL
Quanto puderes, não te afastes do lar, ainda mesmo quando o lar te pareça
inquietante fornalha de fogo e aflição. Quanto te seja possível,
suporta a esposa incompreensiva e exigente, ainda mesmo quando surja aos teus
olhos por empecilho à felicidade.
Quanto estiver ao teu alcance, tolera o companheiro áspero ou indiferente,
ainda mesmo quando compareça ao teu lado, por adversário de tuas
melhores esperanças. Quanto puderes, não abandones o filho impermeável
aos teus bons exemplos e aos teus sa-dios conselhos, ainda mesmo quando se te
afigure acabado modelo de ingratidão. Quanto te seja possível,
suporta o irmão que se fez cego e surdo aos teus mais elevados testemunhos
no bem, ainda mesmo quando se destaque por inexcedível representante
do egoísmo e da vaidade, menos simpático, ainda mesmo quando escarneçam
de tuas melhores aspirações.
Apaga a fogueira da impulsividade que nos impele aos atos impensados ou à
queixa descabida e avancemos para diante arrimados à tolerância
porque se hoje não conseguimos realizar a tarefa que o Senhor nos confiou,
a ela tornaremos amanhã com maiores dificuldades para a necessária
recapitulação. Não vale a fuga que complica os problemas,
ao invés de simplificá-los. Aceitemos o combate em nós
mesmos, reconhecendo que a disciplina antecede a espontaneidade. Não
há purificação sem burilamento, como não há
metal acrisolado sem cadinho esfogueante. A educação é
obra de sacrifício no espaço e no tempo, e atendendo à
Divina Sabedoria, — que jamais nos situa uns à frente dos outros
sem finalidade de serviço e reajustamento para a vitória do amor
—, amemos nossas cruzes por mais pesadas e espinhosas que sejam, nelas
recebendo as nossas mais altas e mais belas lições.
10 - CURSO DINÂMICO DE ESPIRITISMO - JOSÉ HERCULANO PIRES - PÁG. 30, 39
ÍTEM
V — AMOR E FAMÍLIA EM NOVOS TEMPOS:
Ninguém colocou melhor o problema da família do que Allan Kardec,
pois não se apoiou apenas na pesquisa das aparências formais, mas
penetrou na substância da questão, no plano das causas determinantes.
Por isso nos oferece um esquema tríplice das formações
familiais do nosso tempo, a saber:
a) a família carnal, formada a partir dos clãs primitivos, evoluindo
nas miscigenações raciais, através de inumeráveis
conflitos ao longo das civilizações progressivas, na fermentação
dialética do amor e do ódio. Os grupos assim formados subdividem-se,
nas reencarnações progressivas, em inumeráveis subgrupos,
que também crescerão e se subdividirão na temporalidade,
ou seja, na imensa esteira do tempo, que, segundo Heedegger, acolhe o espírito.
São essas as famílias consanguíneas, que se desfazem com
a morte.
b) a família mista, carnal e espiritual, em que os conflitos do amor
e do ódio entram em processo de solução, nos reajustamentos
das lutas e experiências comuns, definindo-se e ampliando-se as afinidades
espirituais entre diversos grupos, absorvendo elementos de outras famílias,
nas coordenadas da evolução coletiva. O condicionamento familial,
nas relações endógenas e necessárias da vivência
em comum, quebra a pouco e pouco as arestas do ódio e das antipatias,
restabelecendo na medida do possível as relações simpáticas
que se ampliarão no futuro. A desagregação provocada pela
morte permitirá reajustes mais eficazes nas sucessivas reencarnações
grupais.
c) a família espiritual, resultante de todos esses processos reencarnatórios,
que aglutinará os espíritos afins no plano espiritual, nas comunidades
dos espíritos superiores que se dedicam ao trabalho de assistência
e orientação aos dois tipos familiais anteriores, mesclando-as
de elementos que nelas se reencarnam para modificá-las com seu exemplo
de amor e dedicação ao próximo. Essa família não
perece, não se desfaz com a morte, crescendo constantemente para a formação
de Humanidades Superiores. É fácil, usando-se as medidas da Escala
Espírita em O Livro dos Espíritos, identificar-se nas famílias
terrenas a presença de vários tipos descritos na referida escala,
percebendo-se claramente as funções que exercem no processo evolutivo
familial.
A concepção espírita da família, como se vê,
é muito mais complexa e de importância muito maior que a das religiões
cristãs, que conferem eternidade e inviolabilidade ao sacramento do matrimônio,
mas não podem impedir que, na morte, o marido vá parar nas garras
do Diabo, a esposa estagiar no Purgatório e os filhos inocentes curtir
a sua orfandade nos jardins do céu. A concepção jurídica
e terrena da família não vai além dos interesses materiais
de uma existência. O mesmo se dá com a concepção
sociológica, que faz da família a base da sociedade, ambas perecíveis
e transitórias. As pessoas que acusam o Espiritismo de aniquilar a família
através da reencarnação revelam a mais completa ignorância
da Doutrina ou o fazem por má-fé, na defesa de interesses religiosos
— sectários.
A família nasce do amor e dele se alimenta. Não é apenas
a base da sociedade, mas de toda a Humanidade. É na família que
as gerações se encontram, transmitindo suas experiências
de uma para outra. Combater a instituição familial, negar a sua
necessidade e a sua eficácia no desenvolvimento dos povos e dos mundos
é revelar miopia ou cegueira espiritual, em cultura ou desequilíbrio
mental e psíquico, falta de ajustamento à realidade, esquizofrenia
não raro catatônica. Isso é evidente no estado de alienação
em que essa atitude se manifesta, em pessoas amargas, ressentidas ou extremamente
pretensiosas, que desejam mostrar-se originais. Em geral, são criaturas
carentes de afetividade. Quando se desligam da família natural ligam-se
a grupos de criaturas afins, engajam-se em outras famílias ou tornam-se
misantropas destinadas à neurastenia ou à loucura. O instinto
gregário da espécie é uma exigência da evolução
humana, a que ninguém pode furtar-se sem pagar pelo seu egoísmo.
Os ideólogos da solidão individual esquecem-se de que todas as
tentativas nesse sentido fracassaram ao longo da História. Esparta morreu
de inanição por falta de relações familiais, enquanto
Atenas cresceu e projetou-se num futuro glorioso, pela solidez de seu sistema
familial. Roma caiu nas mãos dos bárbaros quando suas famílias
se entregaram à degeneração. Os próprios nômades
jamais dispensaram o seu sistema de famílias ambulantes. Anarquistas
e socialistas delirantes, que sonhavam com sociedades anti-sociais, formadas
de indivíduos avulsos e dotadas de grandes depósitos de crianças
avulsas — os filhos do Estado — morreram protegidos pelo caminho
dos familiares. Robinson Crusoé é a imagem do homem arrebatado
ao seu meio, sem perspectivas. Sartre, que rompeu com a tradição
familial e demonstrou os inconvenientes da convivência, fazendo uma
tentativa de misantropia estóica, nunca dispensou a companhia de
Simone de Beauvoir e o cosmopolitismo parisiense, formulou o célebre
veredito: Os outros são o inferno, mas jamais os dispensou. Escrevia
no Café de Fiori e quando visitou a URSS exigiu a inclusão no
programa oficial de horas de solidão absoluta, mas nessas horas se ralava
inquieto, segundo o testemunho de Simone. O homem é relação
e a família é o meio de relação em que ele absorve
a seiva humana que o faz homem.
Uma paisagem solitária é um motivo edênico de contemplação,
e quando alguém aparece, como Sartre observou, imediatamente nos tira
a liberdade e nos transforma em objeto. Mas o próprio ato de objetivar-nos
permite-nos recuperar a nossa subjetividade dispersada na paisagem. Essa dinâmica
de projeção e retroação revela ao mesmo tempo a
natureza dialética do ser, estável no soma e instável na
psique. Dessa dialética resulta a síntese total da consciência
estética, em que o real objetivo e o irreal subjetivo se fundem na percepção
estética do amor. Por isso, no Espiritismo o amor não é
instinto (necessidade orgânica) nem desejo ou simples fazer sexual (sensoríalidade)
mas a aspiração suprema de beleza e espiritualidade nas perspectivas
da transcendência. A superação de objetivo e subjetivo se
resolve na globalidade do Amor. Por isso o Apóstolo João, no seu
Evangelho, define o Ser Supremo na conhecida frase: Deus
é Amor. As definições da Filosofia como Amor da
Sabedoria (Pitágoras) e Sabedoria do Amor (Platão) revelam a intuição,
já na Antiguidade, dessa total globalidade do Amor que o Espiritismo
viria explicar mais tarde. O desenvolvimento dessa globalidade se processa na
família, em que a afetividade desabrocha para a posterior floração
do Amor no processo existencial. As famílias "a" e "b"
da teoria kardeciana, que explicitamos em nosso esquema, preparam o ser, projetado
na existência, para a odisséia das almas viajoras de Plotino, que
vão subir e descer pela escada de Jacó nas reencarnações
sucessivas, em busca do arquétipo da família "c", em
que as famílias desse padrão superior se integrarão progressivamente
no plano divino das humanidades espirituais que constituirão no Infinito
a Humanidade Cósmica. Essa a razão por que René Hubert,
filósofo e pedagogo francês contemporâneo, sustenta que os
fins da Educação consistem no estabelecimento, na Terra, da República
dos Espíritos, através da Solidariedade de consciências.
A Educação Familial é o germe afetivo e puro de que decorre
todo o processo educacional do homem. Com o amparo da família, na solidariedade
doméstica do lar, por mais obscuro e humilde, é que se realiza
a fotossíntese inicial da atmosfera de solidariedade e amor das gerações
que modelam o futuro. Cabe aos espíritas implantar na Terra uma nova
Educação, com base nos dados da pesquisa espírita e segundo
o esquema da Pedagogia Espírita. Essa Pedagogia, iniciada por Hubert
(que não é espírita) fundamenta-se nos princípios
doutrinários do Espiritismo e destina-se a preparar as novas gerações
para a Era Cósmica que se aproxima. Os professores espíritas de
todos os graus do ensino têm um dever supremo a cumprir, nesta fase de
transição do nosso planeta: procurar compreender os princípios
educacionais do Espiritismo e trabalhar pelo desenvolvimento da Educação
Espírita. Estamos entrando na Era Cósmica, numa sequência
natural do desenvolvimento da Era Tecnológica. Tudo se encadeia no Universo,
como assinala O Livro dos Espíritos. Com o avanço científico
e técnico dos últimos séculos, e particularmente do nosso,
a Terra amadureceu para a conquista do espaço sideral. O impacto de nossos
primeiros contatos com outros mundos já produziu profundas modificações,
de que ainda não demos conta, em mundividência. As pesquisas espaciais
continuam, ampliando a nossa visão da realidade cósmica. Uma nova
civilização está surgindo aos nossos olhos, sob os nossos
pés e sobre as nossas cabeças. Mas para que isso aconteça,
sem perdermos de todo o equilíbrio cultural, já bastante abalado,
temos de cuidar seriamente da renovação de nossos instrumentos
culturais básicos, a saber:
a) a Economia, que deve tornar-se universal, rompendo
os diques e as barreiras de um mundo pulverizado, para lhe dar a unidade necessária
e a flexibilidade possível para o atendimento dos povos e de suas camadas
diversificadas, afastando do planeta os privilégios e os desperdícios,
a penúria e a fome. A civilização humana e perfeita, ensina
o Livro dos Espíritos, é aquela em que ninguém morre de
fome. A duras penas, a nova mentalidade econômica já está
se definindo em todas as nações civilizadas, mas o egoísmo
das camadas privilegiadas ainda impede a compreensão das exigências
de fraternidade e humanismo dos novos tempos.
b) a Moral, que tem de romper os seus padrões
envelhecidos de egoísmo e sociocentrismo, moldados em preconceitos de
vaidade, ambição e prepotência, para elevar-se a novos padrões
de humanismo, respeito por todos os direitos humanos, até hoje sempre
espezinhados na Terra dos Homens, essa expressão de Saint-Exupéry
que é um novo chamado à nossa consciência em termos evangélicos.
Altruísmo — interesse pelos outros — humildade, fraternidade,
tolerância e compreensão, amor, são essas as novas palavras
de uma moral realmente cristã. A violência terá de ser expulsa
da Terra dos Homens, com seu cortejo de brutalidades. É necessário
que o conceito da não-violência se transforme na marca do homem,
no signo que o distingue do bruto, do primata inconsciente. A honra e a dignidade
humanas são incompetíveis com a estupidez dos broncos, inamissíveis
num sistema de civilização. Como adverte Fredric Wertham, a violência
é um câncer social, que corrói e destrói toda a estrutura
de uma civilização. O homem verdadeiramente homem deve ter vergonha
e horror da violência. Ser violento é ser amoral, pois quem não
respeita os outros não respeita a si mesmo.
c) a Educação — que tem de
renovar os seus conceitos básicos sobre o seu objeto, o educando. Em
primeiro lugar a educação familial, que deve basear-se na afetividade,
nas relações de amor e compreensão entre pais e filhos.
Educação com violência é domesticação.
O mundo da criança não é o mesmo do adulto e este tem de
descer a esse mundo, voltar à sua própria infância para
não esmagar a infância dos filhos. As pesquisas entre os povos
selvagens mostraram que a essência da educação é
o amor. Sem amor não se educa, deforma-se. Nos povos selvagens a educação
não foi deformada pela idéia do pecado, pelo mito da queda do
homem, que envolvera o mundo de violências redentoras capazes de aterrorizar
um brutamontes, quanto mais uma criança. Kardec ensina que a criança,
embora tenha o seu passado em geral lamentável, nasce vestida com a roupagem
da inocência para tocar o coração dos pais e despertar-lhes
o amor e a ternura, de que ela necessita para o desenvolvimento das suas potencialidades
humanas. Se fazemos o contrário, despertamos na criança o seu
passado de erros e depois a condenamos por seus instintos. Essa tese kardeciana
é hoje dominante nos meios pedagógicos. Como dizia Gandhi, não
se pode levar uma criatura ao bem pelos caminhos do mal. Os povos selvagens
são mais civilizados que os povos civilizados, no tocante a esse problema,
pois intuem com pureza e ingenuidade o verdadeiro sentido da educação.
Educar é um ato de amor, diz Kerchensteiner
em nossos dias, endossando o pensamento de todos os grandes pedagogos e educadores
da Grécia antiga e do mundo moderno, a partir de Rousseau.
Mas a Educação Espírita tem ainda uma função
essencial a desenvolver: o desenvolvimento das faculdades paranormais do educando,
preparando-o para as atividades cósmicas da nova era. O Espiritismo foi
o revelador dessas faculdades humanas que o passado confundiu com manifestações
doentias ou sobrenaturais. O Espiritismo foi a primeira Ciência a mostrar
experimentalmente esse engano fatal, de que resultou para a Humanidade terríveis
tragédias. Cento e trinta anos antes das descobertas parapsicológicas
nesse sentido, a Ciência Espírita demonstrou que as funções
anímicas e psico-anímicas da criatura humana eram normais, pertenciam
à própria natureza do homem. As pesquisas atuais no Cosmos revelaram
que o desenvolvimento das faculdades psi é indispensável ao bom
êxito das incursões no espaço sideral. A Educação
Espírita é a única que pode enfrentar essas exigências
dos novos tempos, cuidando do desenvolvimento dessas faculdades de maneira
racional, sem os prejuízos dos falsos conceitos e dos temores infundados
das formas de educação religiosas e leigas do nosso tempo. Cabe
assim ao Espiritismo renovar totalmente a cultura atual, reestruturar a Civilização
Tecnológica nos rumos da Civilização do Espírito.
Esse o fardo leve do Cristo que pesa sobre a consciência de todos os espíritas
verdadeiros, nesta hora do mundo, e particularmente sobre a consciência
dos educadores espíritas. Nessa civilização o amor não
será fonte de decepções, desajustes e tragédias.
A Família não se estruturará em preconceitos provindos
dos tempos de barbárie, mas na moral evangélica pura, feita de
amor e respeito pelas exigências da vida. O amor
verdadeiro e espontâneo, puro como água da fonte, livre de interesses
secundários, fará da família a fonte de amor que elevará
a Terra na Escala dos Mundos. Isto não é sonho nem profecia, é
o programa espírita para o Mundo de Amanhã, e que cabe aos espíritas
realizar a partir de hoje, sem perda de tempo.
ÍTEM
VI — RELAÇÕES FAMILIAIS NO ESPIRITISMO
As relações familiais dos povos primitivos começavam com
ampla liberalidade, como já vimos, nas fases infantis. O instinto de
imitação das crianças respondia pelo aprendizado espontâneo
do comportamento dos adultos. A criança era encarada como um estrangeiro
amigo e tratada com respeito e observação. Só na puberdade
iria integrar-se no sistema tribal e começar a enfronhar-se dos ritos
e tradições tribais. Daí por diante sua liberdade estava
condicionada pela cultura da nação, por suas tradições,
sua moral e suas crenças. As pesquisas antropológicas revelaram
assim que:
a) os filhos não eram considerados como produzidos pelos pais e herdeiros
consanguíneos naturais da raça, mas como criaturas adventícias
ou familiares que nela se encarnavam, portanto preexistentes ao nascimento.
Essa intuição da preexistência do ser e da reencarnação
era inata e generalizada nos povos primitivos, com algumas variantes em sua
manifestação nos diferentes povos. Isso comprova a afirmação
de Kardec de que as marcas do Espiritismo são encontradas em todas as
fases da evolução humana. As manifestações de espíritos
de mortos, as práticas mágicas e as evocações completam
esse quadro.
b) a prátifca da cuvade (do francês: couvadé) que consiste
na dieta do pai e não da mãe após o parto revela a origem
natural da autoridade do pai na estrutura da família; mostra que a supremacia
do pai não provém apenas de sua maior potencialidade física,
mas também e principalmente do fato de ser ele o fecundador e portanto
o criador;
c) a mãe não precisa de dieta, não fecunda, é fecundada,
sua relação com o filho é a de serva, incumbida de recebê-lo
à porta da vida, criá-lo, zelar por ele, de maneira que o mito
da Terra-Mãe, sob o poder fecundante do Sol-Pai, completa nela a sua
função protetora.
É desse mito remoto que, nascido do chão, da carne e do sangue,
no relacionamento inconsciente da Natureza com o Homem, que vem a estrutura
dinâmica da Família, ao mesmo tempo coercitiva e protetora. As
leis da tribo ou da horda se centralizam nela e se ajustam como a casca ao tronco
da árvore. Mais tarde essa imagem se define culturalmente na figura da
árvore genealógica. Na cuvade o pai faz a dieta porque, como criador,
o filho está ligado a ele organicamente, de maneira tão íntima,
que os seus movimentos no andar, no correr, no saltar, em todas as atividades
físicas, estraçalhará o recém-nascido. A superstição
ingênua, que muitos atribuíram à preguiça do índio,
tem motivos profundos na alma primitiva, em que as ligações da
magia simpática representam a estrutura mágica do Universo. É
o princípio espírita da unidade do Universo, onde as coisas e
os seres procedem uns dos outros, numa continuidade absoluta. A prática
da cuvade precedeu de muitos milênios, na mentalidade do homem primitivo,
à estruturação matemática do Universo por Pitágoras
e à concepção unitária e panteísta de Espinosa.
Das percepções instintivas dos primatas às intuições
supersticiosas dos povos selvagens passamos às elaborações
mentais das civilizações agrárias e pastoris e destas às
formulações de normas, leis e códigos das civilizações
teocráticas. Na Idade Média as linhagens de tipo davídico
formam os conjuntos de famílias rigidamente estruturadas, que no Renascimento
e no Mundo Moderno se prolongam e dispersam em ramificações sofisticadas.
O padrão familial se consolida, mas a evolução cultural
e o desenvolvimento industrial, juntamente com o aumento populacional, ameaçam
esse mosaico de leis divinas e humanas que não pode resistir às
violentas modificações das estruturas sociais. A integridade da
família se afrouxa, a sua rigidez de princípios amolece ante as
novas exigências do mundo novo. Preconceitos milenares são esfarelados
e teorias revolucionárias provocam terremotos demolidores. Na Era Tecnológica
em que nos encontramos a subversão das estruturas antigas chega ao extremo.
Profetas alucinados pregam a destruição pura e simples da família
e a volta do homem a uma liberdade primitiva que nunca existiu. Os freios de
aço da moral burguesa não podem mais conter o ímpeto da
carne, dessa frágil carne humana mais forte que a pedra e o aço.
Rompem-se os tabus sexuais e a liberdade, essa deusa de barrete frígio
dos ideólogos franceses, reverte-se em libertinagem. Não há
mais freios, nem divinos nem humanos, que possam conter a fúria dos impulsos
desencadeados. Os faunos recalcados do puritanismo vitoriano esfregam as mãos
e arregalam os olhos concupiscentes ante o alvorecer da irresponsabilidade.
É nesse momento que o conceito espírita de família se impõe
como única solução para os problemas atuais. As três
formas familiais que estudamos no capítulo anterior mostram a insanidade
de encarar-se a família como simples organização material
destinada a acomodar os homens nas estruturas sociais passageiras. Há
na família, como no homem, uma finalidade superior a atingir. O elemento
que determina a organização familial não é o simples
interesse material. A linhagem não é determinada pela tradição
ou pêlos títulos nobiliárquicos, mas pelo desenvolvimento
moral e espiritual das linhas sucessórias.
O sangue, por si só, não cria distinções na espécie
humana. O único valor verdadeiro do homem, e por isso imperecível,
pertence à sua natureza intrínseca, à sua subjetividade
existencial. A força aglutinadora, que mantém a estabilidade da
família e a projeta no futuro, é a afetividade, o que vale dizer:
o Amor. A tónica emocional e magnética que atrai para a família
criaturas desviadas ou afastadas é a afinidade de grau evolutivo, de
posição conceptual, de aprimoramento ético e estético.
Nada disso é objetivo ou material. A família se apresenta, portanto,
na concepção espírita, como um centro dinâmico de
forças espirituais produzido pela evolução terrena e destinado
a formar, nas conjugações familiais, a nova Humanidade Terrena.
O problema das relações familiais, na concepção
espírita, escapa ao rígido esquema autoritário elaborado
nas civilizações agrárias e pastoris, com base nos mitos
telúricos. Essa rigidez foi quebrada no mundo moderno, mas ainda subsiste
em vastas camadas e em populações inteiras. A estúpida
e ridícula tragédia burguesa do marido traído que mata
a esposa infiel ou o amante para defender a sua honra pessoal, tornando-se um
honrado e truculento assassino, vigora ainda com força quase total nas
nações civilizadas. Isso porque o homem, o criador — segundo
a concepção da cuvade, tem direitos absolutos sobre a mulher que
fecundou; matá-la, como faziam os romanos com os instrumentos vocais,
ou seja, os escravos humanos. A mentalidade prepotente dos escravocratas domina
até agora a maioria dos homens, que se julgam viris por assassinarem
mulheres indefesas e mais fracas que eles, substituindo os chifres simbólicos
pela prova concreta e real de sua covardia. A diferença injusta e criminosa
dos direitos entre homem e mulher, que levou Jesus a livrar a mulher adúltera
da lapidação brutal em praça pública, responde por
esses costumes bárbaros através dos milênios. No Espiritismo
a atitude de Jesus é referendada pelo princípio que estabelece
a igualdade de direitos entre o homem e a mulher, com diversificação
de funções. Porque a diversificação corresponde
às exigências de complementação recíproca
das atividades masculinas e femininas na família e na sociedade. Não
há razão para que a mulher sofra perda de direitos humanos na
posição de companheira do homem, da qual é mãe,
esposa e filha.
Em face desse princípio a liberdade humana é a mesma para o homem
e a mulher no processo existencial, no qual existem como metades biológicas,
necessária e reciprocamente complementares, tanto no plano vital e psíquico,
quanto em todas as atividades. Reconhecida a igualdade de direitos, não
apenas no plano legal, mas principalmente no plano conceptual, a sanção
da consciência afasta da família o autoritarismo gerador de conflitos
e estabelece o clima de respeito e amor que gera o entendimento. Jesus não
vacilou em reconhecer de público os direitos romanos, determinados pela
aliança dos grandes de Israel com os conquistadores. Não lhe interessava
a política mundana, mas quando os donos da casa abrem as portas ao inimigo
e banqueteiam-se com ele, há direitos de lado a lado. Para Jesus os direitos
não eram uma questão de poder, mas de justiça. No caso
familial cada membro tem o seu direito e este deve ser reconhecido pelos demais.
Por isso aprovou o divórcio de Moisés nos casos de traições
conjugais, mas advertiu que isso acontecia pela dureza dos corações.
E lembrou que no princípio não era assim, porque então
prevalecia o amor. A família não se constitui ao acaso. Toda reunião
de criaturas numa instituição social decorre de compromissos de
reajuste e reequilíbrio de situações anteriores. Por isso,
as chamadas famílias consanguíneas se desfazem facilmente com
a morte, mas para renascerem mais tarde em novas situações reparadoras.
Na proporção em que o homem toma consciência desse aspecto
do problema, as dificuldades familiais se tornam mais suportáveis. No
seu crisol as almas se depuram e se preparam para reencontros mais felizes no
futuro. Mas erram os que pretendem manter à força a unidade familial,
sob a pressão de ameaças divinas ou leis humanas iníquas.
Os reajustes só se efetivam em condições propícias
e por livre decisão dos implicados. Sem o respeito pela liberdade de
opção os sacrifícios forçados geram novos desequilíbrios.
O segredo do êxito no desenvolvimento familial depende da capacidade de
amar e compreender dos seus membros. Cada membro da família tem de compreender
as condições temperamentais dos outros e sentir que pode amá-los
apesar de seus erros e imperfeições. Nesse caso a família
perdura e atinge os seus objetivos. Os problemas sexuais geram situações
aparentemente insolúveis no quadro familial. Mas se colocarmos o amor
ao próximo acima das condenações impiedosas, compreendendo
que cada qual sente as exigências do sexo de acordo com a sua condição
própria, passando pelas provas de que necessita, poderemos transformar
situações desastrosas em oportunidades de orientação.
O Espiritismo nos oferece um conceito do bem e do mal que, apesar de muito simples
e claro, ainda não foi bem compreendido até agora pela maioria
dos espíritas. Deus é o Bem e está
presente em tudo. O Mal é tudo o que se
opõe a Deus. Dessa maneira, a dialética do Bem e do Mal
se define como Evolução. Toda a realidade que conhecemos e podemos
conhecer nos revela a incessante passagem das coisas e dos seres de uma condição
caótica, imprecisa, confusa, estática, morta, para condições
de ordem, organização, definição, dinamismo e vida.
A morte e a destruição, como a dor, o desespero, a loucura, nada
mais são do que fases de transição de um estágio
para outro. São os túneis da evolução. A morte enquanto
morte é mal, mas quando se reacende em vida na ressurreição
é Bem, e sempre um bem maior do que o anterior. Nada morre, nada se destrói,
tudo evolui. Sem o erro não há acerto. Sem a derrota não
há vitória, que nos devolve alegremente à rota. Progredimos
no Mal em direção ao Bem. Erros, quedas, crimes, sofrimentos
são passos no caminho do Bem que nos levam a Deus. Nada e ninguém
pode permanecer no Mal, porque os males do Mal impulsionam tudo e todos na direção
do Bem. O não-Ser é o projeto do Ser, como a flor é o projeto
do fruto. Se compreendermos bem esse princípio avançaremos mais
depressa, estimulados pela fé em Deus, que é a certeza do Bem
que nos espera, que é a herança de todos, na qual todos se encontrarão.
Essa não é uma visão mística ou otimista de uma
realidade trágica, mas a visão realista do real que todos podem
comprovar na simples observação de si mesmos e do mundo exterior.
As Ciências, na sua objetividade neutra, comprovam cada vez mais essa
realidade. O teólogo Kierkegaard chegou a conclusão de que o pecado
é o caminho da redenção, fundando sem querer a Filosofia
Existencial, no mesmo tempo em que Kardec fundava sem o desejar a Ciência
do Espírito. A compreensão profunda deste problema nos leva a
amar com mais razão os familiares transviados, procurando auxiliá-los
na dura caminhada dos seus males ao invés de condená-los e expulsá-los
como perdidos.
Mas nem por isso devemos aprovar o Mal, caindo no extremo contrário dos
que o condenaram com violência e aterrorizaram as almas frágeis
com ameaças desesperantes. Certos adeptos de mente estreita chegaram
a negar a existência do Mal — neste mundo de provas e expiações
em que ele ainda predomina — oferecendo óculos angélicos
a criaturas ingênuas. Negar o Mal num plano inferior é convencer
os maus de que eles são bons e entregar-lhes nas garras os bons desprevenidos.
Todos somos bons em potencial, trazemos em nós
a potencialidade do Bem, mas enquanto não transformarmos a nossa bondade
em ato continuamos a ser maus. Disfarçar essa realidade inegável
e patente é estimular os maus a continuarem no Mal e colherem mais facilmente
os ingênuos (nem bons nem maus) nas malhas de sua hipocrisia. O realismo
espírita exige dos adeptos a vigilância crítica que Jesus
recomendou aos discípulos, quando os enviou aos lobos, e à oração
que os resguardaria das ciladas dos sofistas. Jesus rompeu a tradição
profética de Israel, delirante e apocalíptica, instalando em seu
lugar a didática racional e realista que Kardec desenvolveria de maneira
intensiva no Século XIX, combatendo por sua vez os delírios paranóicos
de uma teologia Cristã decalcada no Fabulário mitológico
e nos resíduos da metafísica rabínica. O Espiritismo é
realista, apoia-se no real comprovado por experiências científicas,
Jesus e Kardec provaram o que ensinaram. Expressões e frases evangélicas
que destoam dessa orientação metódica foram atribuídas
a Jesus pelos redatores dos textos, homens impregnados pela cultura judaica
e mitológica em que foram criados e formados. Kardec realizou a depuração
desses textos, sob orientação constantes dos Espíritos
superiores, que demonstraram essa superioridade através da coerência
de suas manifestações rigorosamente racionais e comprovadas experimentalmente.
Por isso Richet afirmou — ele que temia, como cientista eminente, os enganos
da mística, que Kardec jamais expusera um princípio sem o haver
comprovado. As partes mitológicas dos Evangelhos, hoje bem identificadas
pelos pesquisadores universitários, comprovando a depuração
kardeciana, e todo o Apocalipse, atribuído a João — livro
judaico, pertencente a conhecida fase apocalíptica da Israel antiga e
não a era apostólica — provam de maneira irrefutável
as influências místicas e mitológicas na redação
dos textos evangélicos. O Apóstolo Paulo foi o primeiro a perceber
e declarar que a Bíblia Judaica estava perempta e substituída
pelo Evangelho. Claro que o valor histórico da Bíblia e o valor
literário de seus livros poéticos e proféticos perduram
no plano cultural, mas o Velho Testamento é uma obra do passado longínquo
e só o Novo Testamento contém a orientação moral
e espiritual que os espíritas devem seguir. As relações
familiais no Espiritismo só podem seguir a orientação evangélica,
pois só ela atende às exigências racionais do presente e
do futuro da Humanidade atual, na preparação dos novos tempos.
As famílias espíritas assim estruturadas não se abalam
com as mudanças naturalmente ocorridas em nossa civilização
nesta fase de transição.
12 - ESTUDE E VIVA - EMMANUEL E ANDRÉ LUIZ -
ANTE A FAMÍLIA MAIOR - PÁG. 66 - Se podes transportar as dificuldades que te afligem num corpo robusto e razoavelmente nutrido, reflete naqueles nossos irmãos da família maior que a penúria vergasta. Diante deles, não permitas que considerações de natureza inferior te cerrem as portas do sentimento. Se algo possuis para dar, não atrases a obra do bem e nem te baseies nas aparências para sonegar-lhes cooperação. Aceitemo-los como sendo tutores paternais ou filhos inesquecíveis largados no mar alto da experiência terrestre e que a maré da provação nos devolve, qual se fossemos para eles o cais da esperança. Muitos chegam agressivos; entretanto, não julgues sejam eles especuladores da violência. Impacientaram-se na expectativa de um socorro que se lhes afigurava impossível e deixaram que a desesperação os enceguecesse.
Outros se apresentam marcados por hábitos lastimáveis; todavia,
não admitas estejam na posição de escravos irresgatáveis
do vício. Atravessaram longas trilhas de sombra, e, desenganados quanto
à chegada de alguém que lhes fizesse luz no caminho, tombaram
desprevenidos nos precipícios da margem. Surpreendemos os que aparecem
exteriormente bem-postos e aqueles que dão a idéia de criaturas
destituídas de qualquer noção de higiene, mas não
creias, por isso, vivam acomodados à impostura e ao relaxamento. Um a
um, carregam desdita e enfermidade, tristeza e desilusão. Não
duvidamos de que existam, em alguns raros deles, orgulho e sovinice; no entanto,
isso nunca sucede no tamanho e na extensão da avareza e da vaidade que
se ocultam em nós, os companheiros indicados a estender-lhes as mãos.
Se rogam auxílio, não poderiam ostentar maior credencial de necessidade
que a dor de pedir. Sobretudo, convém acrescentar que nenhum deles espera
possamos resolver-lhes todos os problemas cruciais do destino. Solicitam somente
essa ou aquela migalha de amor, à feição do peregrino sedento
que suplica um copo dágua para ganhar energia e seguir adiante. Esse
pede uma frase de bênção, aquele um sorriso de apoio, outro
mendiga um gesto de brandura ou um pedaço de pão. Abençoa-os
e faze, em favor deles, quanto possas, sem te esqueceres de que o Eterno Amigo
nos segue os passos, em divino silêncio, após haver dito a cada
um de nós, na acústica dos séculos:— "Em verdade,
tudo aquilo que fizerdes ao menor dos pequeninos é a mim que o fizestes".
Na seara doméstica - pág. 92 - Todos
somos irmãos, constituindo uma família só, perante o Senhor;
mas, até alcançarmos a fraternidade suprema, estagiaremos, através
de grupos diversos, de aprendizado em aprendizado, de reencarnação
a reencarnação. Temos, assim, no cotidiano, a companhia daquelas
criaturas que mais entranhadamente se nos associam ao trabalho, chamem-se esposo
ou esposa, pais ou filhos, parentes ou companheiros. E, por muito se nos impessoalizem
os sentimentos, somos defrontados em família pelas ocasiões de
prova ou de crises, em que nos inquietamos, gastando tempo e energia para vê-los
na trilha que consideramos como sendo a mais certa. Se já conquistamos,
porém, mais amplas experiências, é forçoso, a fim
de ajudá-los, cultivar a bondade e a paciência com que, noutro
tempo, fomos auxiliados por outros. Suportamos dificuldades e desacertos para
atingir determinados conhecimentos, atravessamos tentações aflitivas
e, em alguns casos, sofremos queda imprevista, da qual nos levantamos somente
à custa do amparo daqueles que fizeram da virtude não uma alavanca
de fogo, mas sim um braço amigo, capaz de compreender e de sustentar.
Lembremo-nos, sobretudo, de que os nossos entes amados são consciências
livres, quais nós mesmos. Se errados, não será lançando
condenação que poderemos reajustá-los; se fracos, não
é aguardando deles espetáculos de força que lhes conferiremos
valor; se ignorantes, não é lícito pedir-lhes entendimento,
sem administrar-lhes educação; e, se doentes, não é
justo esperar testemunhem comportamento igual ao da criatura sadia, sem, antes,
suprimir-lhes a enfermidade. Em qualquer circunstância, é necessário
observar e observar sempre que fomos transitoriamente colocados em regime de
intimidade, a fim de aprendermos uns com os outros e amparar-nos reciprocamente.
À vista disso, quando o mal se nos intrometa na seara doméstica,
evitemos desespero, irritação, desânimo e ressentimento,
que não oferecem proveito algum, e sim recorramos à prece, rogando
à Providência Divina nos conduza e inspire por seus emissários;
isso para que venhamos a agir, não conforme os nossos caprichos, e sim
de conformidade com o amor que a vida nos preceitua, a fim de fazermos o bem
que nos compete fazer.
O Espiritismo e os cônjuges: Sem entendimento
e respeito, conciliação e afinidade espiritual, torna-se difícil
o êxito no casamento . Todos os pretendentes à união conjugal
carecem de estudar as circunstâncias do ajuste esponsalício antes
do consórcio, para isso existindo o período natural do noivado.
Aspecto deveras importante para ser analisado será sempre o da crença
religiosa. Efetivamente, se a religião idêntica no casal contribui
bastante para a estabilidade do matrimônio, a diversidade dos pontos de
vista não é um fator proibitivo da paz em família. Mas
se aparecem rixas no lar, oriundas do choque de opiniões religiosas diferentes,
a responsabilidade é claramente debitada aos esposos que se escolheram
um ao outro.
A tendência comum de um cônjuge é a de levar o outro a pensar
e a agir como ele próprio, o que nem sempre é viável e
nem pode ocorrer. Eis por que não lhes cabe violentar situações
e sentimentos, manejando imposições recíprocas, mormente
no sentido de se arrastarem a determinada crença religiosa. Deve partir
do cônjuge de fé sincera a iniciativa de patentear a qualidade
das suas convicções, em casa, pelo convite silencioso a elas,
através do exemplo. Não será por meio de discussões,
censuras ou pilhérias em torno de assuntos religiosos que se evidenciará
algum dia a excelência de uma doutrina. Ao invés de murmurações
estéreis, urge dar provas de espiritualidade superior, repetidas no dia-a-dia.
Em lugar de conceitos extremados nas prédicas fatigantes, vale mais a
exposição da crença pela melhoria da conduta, positivando-se
quão pior seria qualquer criatura sem o apoio da religião.
Para os espíritas jamais será construtivo constranger alguém
a ler certas obras, frequentar determinadas reuniões ou aceitar critérios
especiais em matéria doutrinária. Quem deseje modificar a crença
do companheiro ou da companheira, comece a modificar a si mesmo, na vivência
da abnegação pura, do serviço, da compreensão, do
bom-senso prático, salientando aos olhos do outro ou da outra a capacidade
de renovação dos princípios que abraça. O cônjuge
é a pessoa mais indicada para revelar as virtudes de uma crença
ao outro cônjuge. Um simples ato de bondade, no recinto do lar, tem mais
força persuasiva que uma dezena de pregações num templo
onde a criatura comparece contrariada. Uma única prova de sacrifício
entre duas pessoas que se defrontam, no convívio diário, surge
mais eficaz como agente de ensino que uma vintena de livros impostos para leituras
forçadas. Em resumo, depende do cônjuge fazer a sua religião
atrativa e estimulante para o outro, ao contrário de mostrá-la
fastidiosa ou incômoda. Nos testemunhos de cada instante, no culto vivo
do Evangelho em casa e na lealdade à própria fé, persista
cada qual nas boas obras, porque, ante demonstrações vivas de
amor, cessam qualque azedumes da discórdia e todas as resistências
da incompreensão.
13
- ESTUDOS ESPÍRITAS - JOANNA DE ÂNGELIS - ÍTEM 24 - PÁG.
175
Conceito
— Grupamento de raça, de caracteres e gêneros semelhantes,
resultado de agregações afins, a família, genericamente,
representa o clã social ou de sintonia por identidade que reúne
espécimes dentro da mesma classificação. Juridicamente,
porém, a família se deriva da união de dois seres que se
elegem para uma vida em comum, através de um contrato, dando origem à
genitura da mesma espécie. Pequena república fundamental para
o equilíbrio da grande república humana representada pela nação.
A família tem suas próprias leis, que consubstanciam as regras
de bom comportamento dentro do impositivo do respeito ético, recíproco
entre os seus membros, favorável à perfeita harmonia que deve
vigir sob o mesmo teto em que se agasalham os que se consorciam. Animal social,
naturalmente monogâmico, o homem, na sua generalidade, somente se realiza
quando comparte necessidades e aspirações na conjuntura elevada
do lar.
O lar, no entanto, não pode ser configurado como a edificação
material, capaz de oferecer segurança e paz aos que aí se resguardam.
A casa são a argamassa, os tijolos, a cobertura, os alicerces e os móveis,
enquanto o lar são a renúncia e a dedicação, o silêncio
e o zelo que se permitem àqueles que se vinculam pela eleição
afetiva ou através do impositivo consanguíneo, decorrente da união.
A família, em razão disso, é o grupo de espíritos
normalmente necessitados, desajustados, em compromisso inadiável para
a reparação, graças à contingência reencarnatória.
Assim, famílias espirituais frequentemente se reúnem na Terra
em domicílios físicos diferentes, para as realizações
nobilitantes com que sempre se viram a braços os construtores do Mundo.
Retornam no mesmo grupo consanguíneo os espíritos afins, a cuja
oportunidade às vezes preferem renunciar, de modo a concederem aos desafetos
e rebeldes do passado o ensejo da necessária evolução,
da qual fruirão após as renúncias às demoradas uniões
no Mundo Espiritual... Modernamente, ante a precipitação dos conceitos
que generalizam na vulgaridade os valores éticos, tem-se a impressão
de que paira rude ameaça sobre a estabilidade da família. Mais
do que nunca, porém, o conjunto doméstico se deve impor para a
sobrevivência a benefício da soberania da própria Humanidade.
A família é mais do que o resultante genético... São
os ideais, os sonhos, os anelos, as lutas e árduas tarefas, os sofrimentos
e as aspirações, as tradições morais elevadas que
se cimentam nos liames da concessão divina, no mesmo grupo doméstico
onde medram as nobres expressões da elevação espiritual
na Terra. Quando a família periclita, por esta ou aquela razão,
sem dúvida a sociedade está a um passo do malogro... Histórico
— Graças ao instinto gregário, o homem, por exigência
da preservação da vida, viu-se conduzido à necessidade
da cooperação recíproca, a fim de sobreviver em face das
ásperas circunstâncias nos lugares onde foi colocado para evoluir.
A união nas necessidades inspirou as soluções para os múltiplos
problemas decorrentes do aparente desaparelhamento que o fazia sofrer ao lutar
contra os múltiplos fatores negativos que havia por bem superar. Formando
os primitivos agrupamentos em semibarbárie, nasceram os pródromos
das eleições afetivas, da defesa dos dependentes e submissos,
surgindo os lampejos da aglutinação familial.
Dos tempos primitivos aos da Civilização da Antiguidade Oriental,
os valores culturais impuseram lentamente as regras de comportamento em relação
aos pais — representativos dos legisladores, personificados nos Anciãos;
destes para os filhos — pela fragilidade e dependência que sempre
inspiram; entre irmãos — pela convivência pacífica
indispensável à fortaleza da espécie; ou reciprocamente
entre os mais próximos, embora não subalternos ao mesmo teto,
num desdobramento do próprio clã, ensaiando os passos na direção
da família dilatada... A Grécia, aturdida pela hegemonia militar
espartana, não considerou devidamente a união familial, o que
motivou a sua destruição, ressalvada Atenas, que, não obstante
amando a arte e a beleza, reservava ao Estado os deveres pertencentes à
família, facultando-a sobreviver por tempo maior, mas não lobrigando
atingir o programa estético e superior a que se propuseram os seus excelentes
filósofos.
A Roma coube essa indeclinável tarefa, a princípio reservada ao
patriciado, e depois, através de leis coordenadas pelo Senado, que alcançaram
as classes agrícolas, militares, artísticas e a plebe, facultando
direitos e deveres que, embora as hediondas e infelizes guerras, se foram fixando
no substrato social e estabelecendo os convênios que o amor sancionou
e fixou como técnica segura de dignificação do próprio
homem, no conjunto da família. A Idade Média, caracterizada pela
supremacia da ignorância, desfigurou a família com o impositivo
de serem doados os filhos à Igreja e ao suserano dominador, entibiando
por séculos a marcha do espírito humano. Aos enciclopedistas foi
reservada a grandiosa missão de, em estabelecendo os códigos dos
direitos humanos, reestruturarem a família em bases de respeito para
a felicidade das criaturas. Todavia, a dialética materialista e os modernos
conceitos sensualistas, proscrevendo o matrimônio e prescrevendo o amor
livre, voltam a investir contra a organização familial por meio
de métodos aberrantes, transitórios, é certo, mas que não
conseguirão, em absoluto, qualquer triunfo significativo.
São da natureza humana a fidelidade, a cooperação e a fraternidade
como pálidas manifestações do amor em desdobramento eficaz.
Tais valores se agasalham, sem dúvida, no lar, no seio da família,
onde se arregimentam forças morais e se caldeiam sentimentos na forja
da convivência doméstica. Apesar de a poliandria haver gerado o
matriarcado e a promiscuidade sexual feminina, a poligamia, elegendo o patriarcado,
não foi de menos infelizes consequências. Segundo o eminente jurista
suíço Bachofen, que procedeu a pesquisas históricas inigualáveis
sobre o problema da poliandria, a mulher sentiu-se repugnada e vencida pela
vulgaridade e abuso sexual, de cuja atitude surgiria o regime monogâmico,
que ora é aceito por quase todos os povos da Terra.
Conclusão — A família, todavia,
para lograr a finalidade a que se destina, deve começar desde os primeiros
arroubos da busca afetiva, em que as realizações morais devem
sublevar às sensações sexuais de breve durabilidade. Quando
os jovens se resolvem consorciar, impelidos pelas imposições carnais,
a futura família já padece ameaça grave, porquanto, em
nenhuma estrutura se fundamenta para resistir aos naturais embates que a união
a dois acarreta, no plano do ajustamento emocional e social, complicando-se,
naturalmente, quando do surgimento da prole.
Fala-se sobre a necessidade dos exames pré-nupciais, sem dúvida
necessários, mas com lamentável descaso pela preparação
psicológica dos futuros nubentes em relação aos encargos
e às responsabilidades esponsalícias e familiares. A Doutrina
Espírita, atualizando a lição evangélica, descortina
na família esclarecida espiritualmente a Humanidade ditosa do futuro
promissor. Sustentá-la nos ensinamentos do Cristo e nas lições
da reta conduta, apesar da loucura generalizada que irrompe em toda parte, é
o mínimo dever de que ninguém se pode eximir.
ESTUDO E MEDITAÇÃO: "Será
contrário à lei da Natureza o casamento, isto é, a união
permanente de dois seres?" -"É um progresso na marcha da Humanidade."
(O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, questão 695.) "(...)
Não são os da consanguinidade os verdadeiros laços de família
e sim os da simpatia e da comunhão de idéias, os quais prendem
os Espíritos antes, durante e depois de suas encarnações.
Segue-se que dois seres nascidos de pais diferentes podem ser mais irmãos
pelo Espírito, do que se o fossem pelo sangue (...) O Evangelho Segundo
o Espiritismo, cap. 14, ítem 8).