GERAÇÃO
ESPONTÂNEA |
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BIBLIOGRAFIA |
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| 01- A evolução do Princípio Inteligente - pág. 44 | 02 - A Gênese - cap. X,20 |
| 03 - A plural.dos mundos habitados - pág. 137 | 04 - Morte, renascimento, evolução - pág. 4 |
| 05 - Psi quântico- pág. 162 | 06 - Psiquiatria em face da reencarnação - pág. 24 |
| 07 - Revista Espírita 1868 - pág. 201 | 08 - Perispírito e Corpo mental - pág. 67 |
LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.
GERAÇÃO ESPONTÂNEA – COMPILAÇÃO
01- A evolução do Princípio Inteligente - Durval Ciamponi - pág. 44
A
Geração Espontânea e a Ciência
No capítulo l de "Gênese e Evolução Inicial
da Vida na Terra", Oparim traz uma breve história das tentativas
para resolver o problema da origem da vida. Fala da China, onde se acreditava
na geração espontânea das borboletas e outros insetos por
influência do calor e do estrume; fala do Egito antigo, onde se admitia
que o húmus, quando aquecido pelo sol, podia dar origem a criaturas vivas:
rãs, cobras e ratos.
Relata
que Epicuro pensava que os vermes e outros numerosos animais eram gerados da
terra ou do esterco pela ação da umidade quente do sol e da chuva.
Passa por Platão (427 - 347 a.C.), Aristóteles (384 - 322 a.C.)
e Tomás de Aquino (1225 -1274), na Idade Média, até chegar
a Harvey (1578-1657) e a Francis Bacon (1561 - 1626), para dizer que exprimiam
suas opiniões em seus escritos de que diferentes plantas e animais, como
moscas, formigas e rãs, por exemplo, podiam nascer espontaneamente durante
o apodrecimento de vários materiais.
Em 1858 Henri Pouchet, diretor do Museu de História Natural de Ruão,
enviou à Academia de Ciências de Paris uma nota em que afirmava
a verdade da geração espontânea, declarando-se pronto a
demonstrá-la experimentalmente. Louis Pasteur (1822 -1895), em 1862,
replicando, em trabalho elaborado para a Academia, provou que a geração
espontânea não era possível.
Se a geração espontânea não existia, como surgiram
os seres vivos na face da Terra? Os cientistas, não aceitando a tese
do criacionismo, continuaram suas pesquisas. Surge então a hipótese
da panspermia, em suas duas versões. Na primeira, os seres vivos teriam
sido trazidos à Terra por intermédio dos meteoritos; na segunda,
os esporos da vida, juntamente com partículas de poeira cósmica,
poderiam ser transportados de um corpo celeste para outro pela pressão
da radiação estelar.
A panspermia é pois um sistema admitido por aqueles que afirmam que os
germes dos seres orgânicos se acham espalhados por toda parte, esperando
apenas que se lhes promovam o desenvolvimento das circunstâncias favoráveis.
Foram as teses dos Cosmozóis, de W. Prever, em 1880; do Pansperma, de
Svante Arrhenius, em 1908, ou dos Biogenes, de J. Schultz, em 1929.
Em seus trabalhos, Lamarck, a partir de 1820, considerava a gênese da
vida a partir o não-vivo como um processo de desenvolvimento gradual
da matéria, propondo a idéia da evolução das espécies
como um fato universal.
Charles Darwin (1809-1882) diz no cap. XI de sua obra, "A Origem das Espécies
por Meio da Seleção Natural", que "a teoria da seleção
natural baseia-se na opinião de que cada variedade nova, e, em última
análise, cada espécie nova se forma e se mantêm por meio
de algumas vantagens adquiridas sobre as que entram em concorrência e,
finalmente, sobre a extinção das formas menos favorecidas, que
é consequência inevitável".
Mais recentemente se tem no campo científico os estudos da engenharia
genética, a teoria sintética da evolução, os trabalhos
de pesquisa para se obter a matéria viva a partir da não-viva,
após a tese de Oparim, não restando dúvidas, entre os cientistas,
de que a evolução é universalmente aceita como um fato,
e, conseqüentemente a geração espontânea, sem a necessidade
de um ser criador espiritual ou do impulso vitalista para dar vida à
vida.
A Geração Espontânea e a Igreja
No Cristianismo primitivo os teólogos da Igreja Romana, associando os
ensinamentos da Bíblia com o pensamento grego, principalmente partir
dos neoplatônicos, desenvolveram a base do seu conceito místico
da origem da vida.
Na Igreja Cristã do Oriente, Basílio, o Grande, em meados do século
IV, em seu livro "Hexaemeron" escreveu: "A par dos seres que
são produzidos pela sucessão de outros seres anteriores, outros
podem ser hoje criados vivos a partir da própria terra, porque não
só ela produz gafanhotos em tempo chuvoso e mil outras espécies
de aves do ar, muitas das quais, em virtude da sua extrema pequenez, não
têm nome, mas também dá origem a ratos e sapos.
Em
volta de Tebas, no Egito, quando chove durante o calor forte, toda a região
se enche de ratos do campo. Sabemos que as enguias se formam apenas do lodo.
Não se multiplicam por ovos e nem por outros meios, mas tiram a sua origem
da terra" (apud, Oparim, 1).
Na Igreja do Ocidente, Santo Agostinho foi a grande autoridade. Ele aceitou
a geração espontânea de coisas vivas como um fato inegável
e nas suas lições procurou associá-la aos fundamentos cristãos.
Escreveu, em relação às coisas vivas, que Deus pode criá-las
a partir de sementes ou a partir de matéria não-viva, na qual
estão alojada a semente espiritual invisível (occulta semina).
Conclui que o ensinamento da geração espontânea estava completamente
de acordo com o dogma da Igreja Cristã.
Tomás de Aquino em sua "Summa Theologica" admite o pensamento
de Aristóteles sobre a geração espontânea (Há
uma escada natural ligando a matéria inanimada à matéria
viva, passando pêlos seres vivos inferiores, pelos vegetais e animais
superiores e chegando, finalmente, ao homem) —, associando-a ao ensinamento
de Santo Agostinho (força animadora de Deus), de modo que animais, como
vermes, rãs, serpentes, surgiam espontaneamente a partir da putrefação
e da ação do calor do sol.
Conseqüentemente a Igreja aceitou, através dos séculos, o
princípio de que as coisas vivas provêm da matéria não-viva,
animada, entretanto, pela fonte espiritual.
A Geração Espontânea na Codificação
Foi no calor do debate entre Pouchet e Pasteur que a Codificação
Espírita se formava. Qual era a posição de Kardec, como
cientista, a respeito da geração espontânea? Até
que ponto sua opinião pessoal participou da elaboração
de "O Livro dos Espíritos"?
Diz Kardec "Em nossa obra, 'A Gênese', desenvolvemos a teoria da
geração espontânea como uma hipótese provável.
Alguns partidários absolutos dessa teoria admiraram-se que não
a tenhamos afirmado como princípio. A isso respondemos que se a questão
está resolvida para uns, não o está para todos, e a prova
é que, a respeito, a ciência ainda está dividida".
Diz,
ainda, o Codificador, que a questão da geração espontânea
"pessoalmente é para nós uma convicção e se
a tivéssemos tratado numa obra comum, tê-la-íamos resolvido
pela afirmativa; mas numa obra constitutiva da doutrina espírita, as
opiniões individuais não podem fazer lei".
Esta posição de Kardec o leva a dizer em "A Gênese",
cap. X, item 21, que "o princípio da geração espontânea
não se pode aplicar evidentemente senão aos seres das ordens mais
inferiores do reino vegetal e do reino animal, aqueles nos quais começa
a surgir a vida, e cujo organismo, extremamente simples, é de alguma
forma rudimentar".
Deste embate entre o pensamento religioso da criação dos seres
vivos a partir de matéria não-viva animada por Deus e o surgimento
espontâneo da vida na Terra, defendido pelos cientistas, liberto dos preconceitos
do passado, decorrente da ignorância dos homens, e associado aos novos
ensinamentos dos Espíritos, podemos dizer que uma nova se abriu para
um entendimento mais amplo, tendo em vista o conceito de vida e de formação
dos primeiros seres vivos na face da Terra.
02 - A Gênese - Allan Kardec - cap. X,20
GERAÇÃO ESPONTÂNEA
20. Pergunta-se naturalmente por que não se formam mais seres vivos nas mesmas condições que os primeiros que apareceram sobre a Terra. A questão da geração espontânea, que hoje preocupa a ciência, se bem que ainda diversamente resolvida, não pode deixar de lançar à luz sobre esse assunto.
O problema proposto é este: Formam-se espontaneamente, em nossos dias, seres orgânicos unicamente pela união dos elementos constitutivos, sem germes preliminares, produtos da geração comum, de outro modo dito, sem pais nem mães? Os partidários da geração espontânea respondem afirmativamente e se apoiam sobre observações diretas que parecem conclusivas.
Outros
pensam que os seres vivos se reproduzem uns pelos outros, e se apoiam sobre
este fato, constatado pela experiência, que os germes de certas espécies
vegetais e animais, estando dispersos, podem conservar uma vitalidade latente
durante um tempo considerável, até que as circunstâncias
sejam favoráveis à sua eclosão. Essa opinião deixa
sempre subsitir a questão da formação dos primeiros tipos
de cada espécie.
21. - Sem dicutir os dois sistemas, convém notar que o princípio
da geração espontânea não pode evidentemente se aplicar
senão aos seres de ordens mais inferiores, do reino vegetal e do reino
animal, àqueles onde começa a manifestação da vida,
e cujo organismo, extremamente simples, de alguma sorte, é rudimentar.
Efetivamente, foram os primeiros que apareceram sobre a Terra, e cuja geração
deve ter sido espontânea. Assistiríamos, assim, a uma criação
permanente, análoga à que ocorreu nas primeiras idades do mundo.
22. - Mas, então, por que não se vêem mais formarem, do
mesmo modo, os seres de uma organização complexa? Esses seres
não existiram sempre, e um fato positivo, portanto, começaram.
Se o musgo, o líquen, o zoófito, o infusório, os vermes
intestinais e outros podem se produzir espontaneamente, por que não ocorreria
o mesmo com árvores, peixes, cães, cavalos?
Aqui se detêm, no momento, as investigações; o fio condutor
se perde, e, até que seja encontrado, o campo está aberto às
hipóteses; seria, pois, imprudente e prematuro dar sistemas por verdades
absolutas.
23. - Se o fato da geração espontânea está demonstrado,
por limitado que seja, não deixa de ser um fato capital, um marco posto,
que pode colocar sobre o caminho de novas observações. Se os seres
orgânicos complexos não se produzem dessa maneira, quem sabe como
começaram?
Quem conhece o segredo de todas as transformações? Quando se vê
o carvalho sair da bolota, quem pode dizer se um laço misterioso não
existe do pólipo ao elefante? No estado atual dos nossos conhecimentos,
não podemos colocar a teoria da geração espontânea
permanente senão como uma hipótese, mas como uma hipótese
provável, e que, talvez, um dia tome lugar entre as verdades científicas
reconhecidas
ESCALA DOS SERES ORGÂNICOS
24. - Entre o reino vegetal e o reino animal, não há delimitação
nitidamente traçada. Sobre os confins dos dois reinos estão os
zoófitos ou animais-plantas, cujo nome indica que se ligam a um e ao
outro: são o traço de união. Como os animais, as plantas
nascem, vivem, crescem, nutrem-se, respiram, se reproduzem e morrem. Como eles,
para viverem, elas têm necessidade de luz, de calor, de água; se
disso estão privadas, definham e morrem; a absorção de
um ar viciado e de substâncias deletérias, envenena-as. Seu caráter
distintivo e mais marcante é estarem ligadas ao solo e dele tirarem o
seu alimento sem deslocamento.
O zoófito tem a aparência exterior da planta; como planta, prende-se
ao solo; como animal, a vida nele é mais acentuada; haure o seu alimento
no meio ambiente. Um degrau acima, o animal está livre para ir procurar
o seu alimento: são, de início, as inumeráveis variedades
de pólipos com corpos gelatinosos, sem órgãos bem distintos,
e que não diferem das plantas senão pela locomoção;
depois vêm, na ordem do desenvolvimento dos órgãos, da atividade
vital e do instinto: os helmintos ou vermes intestinais; os moluscos, animais
carnudos sem ossos, dos quais uns são nus, como as lesmas, os polvos.
Os outros são providos de conchas como os caracóis, as ostras; os crustáceos cuja pele é resvestida de uma crosta dura, como os caranguejos, as lagostas; os insetos, nos quais a vida toma uma atividades prodigiosa e se manifesta o instinto laborioso, como a formiga, a abelha, a aranha. Alguns sofrem uma metamorfose, como a lagarta que se transforma em elegante borboleta. Vem em seguida a ordem dos vertebrados, animais com esqueleto ósseo, que compreende os peixes, os répteis, os pássaros, e enfim os mamíferos, cuja organização é a mais completa.
25. - Se não se considera senão os dois pontos extremos da corrente, sem dúvida, não há nenhuma analogia aparente; mas, passando-se de um anel ao outro sem solução de continuidade, chega-se, sem transição brusca, da planta ao animal vertebrado. Compreende-se, então, que os animais de organização complexa possam não ser senão uma transformação, ou, querendo-se, um desenvolvimento gradual, de início insensível, da espécie imediatamente inferior e, assim, pouco a pouco, até o ser primitivo elementar.
Entre
a bolota e o carvalho a diferença é grande, e, todavia, seguindo-se
passo a passo o desenvolvimento da bolota, chega-se ao carvalho, e não
se espanta mais que ele proceda de uma tão pequena semente. Se, pois,
a bolota encerra os elementos latentes próprios à formação
de uma árvore, por que não seria o mesmo do ácaro ao elefante?
Segundo isso, compreende-se que não haja geração espontânea
senão para os seres orgânicos elementares; as espécies superiores
seriam o produto das transformações sucessivas desses mesmos seres,
à medida que as condições climáticas lhes foram
propícias. Adquirindo cada espécie a faculdade de se reproduzir,
os cruzamentos levaram a inumeráveis variedades; e depois, uma vez a
espécie instalada, nas condições de vitalidade durável,
quem diz que os germes primitivos, de onde elas saíram, não desapareceram
como inúteis para o futuro?
Quem
diz que o nosso ácaro atual seja o mesmo que, de transformação
em transformação, produziu o elefante? Assim se explicaria por
que não há geração espontânea entre os animais
de organização complexa. Essa teoria, sem ser admitida de modo
definitivo, é a que tende, evidentemente, a predominar hoje na ciência;
é aceita, pelos observadores sérios, como a mais racional.
26. - Do ponto de vista corporal, e puramente anatômico, o homem pertence
à classe dos mamíferos, dos quais não difere senão
por nuanças na forma exterior; de resto, a mesma composição
química que todos os animais, os mesmos órgãos, as mesmas
funções e os mesmos modos de nutrição, de respiração,
de secreção, de reprodução; ele nasce, vive e morre
nas mesmas condições, e, em sua morte, seu corpo se decompõe
como o de tudo o que vive.
Não
há em seu sangue, em sua carne, em seus ossos, um átomo diferente
daqueles que se encontram no corpo dos animais; como estes, em morrendo, retorna
à terra o oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono que
estavam combinados para formá-lo, e vão, por novas combinações,
formar novos corpos minerais, vegetais e animais. A analogia é tão
grande que se estudam as suas funções orgânicas sobre certos
animais, quando as experiências não podem ser feitas nele mesmo.
27. - Na classe dos mamíferos, o homem pertence à ordem dos bímanos.
Imediatamente abaixo dele vêm os quadrúmanos (animais de quatro
mãos) ou macaco, dos quais uns, como o orangotango, o chimpanzé,
o mono, tem certos comportamentos do homem, a tal ponto que, há muito
tempo, são designados sob o nome de homens da floresta; como ele, caminham
eretos, servem-se de bastões, constróem suas cabanas, e levam
os alimentos à boca com a mão, sinais característicos.
28. -Por pouco que se observe a escala dos seres vivos do ponto de vista do
organismo, reconhece-se que, desde o líquen até a árvore,
e depois do zoófito até o homem, há uma corrente se elevando
gradualmente sem solução de continuidade, e da qual todos os anéis
têm um ponto de contato com o anel precedente; seguindo-se passo a passo
a série dos seres, dir-se-ia que cada espécie é um aperfeiçoamento,
uma transformação da espécie imediatamente inferior. Uma
vez que o corpo do homem está em condições idênticas
aos outros corpos, química e constitucionalmente, que ele nasce, vive
e morre do mesmo modo, deve ter sido formado nas mesmas condições.
(..)
03 - A pluralidade dos mundos habitados - Camille Flammarion - pág. 137
(...) Nem a diversidade dos climas, nem a extensão das distâncias, nem a altura, nem a profundidade, puseram obstáculo à difusão dos seres vivos; eles invadiram as regiões mais ocultas, no alto, embaixo, por toda parte; cobriram a Terra com uma rede de existências. A economia do globo está disposta para isso. As plantas confiam aos ventos seus leves grãos e vão renascer a distância imensas; os animais emigram em tropas ou penetram individualmente regiões que parecem impenetráveis.
Já observamos, os lagos substerrâneos aos quais as águas de chuva parecem ser as únicas capazes de descer, alimentando não somente os infusórios e os animálculos que nascem por todo canto, mas ainda grandes espécies de peixes e aves aquáticas, como o testemunham os palmípedes da Carniole. As cavernas naturais, na aparência completamente fechadas, dão acesso às espécies vivas, as quais se multiplicam lá e propagam uma vida subterrânea especial. As geleiras dos Alpes alimentam poduromorfos.
As neves polares recebem chionoea araneóides. A 4.600 metros acima do nível do mar, os Andes tropicais estão enriquecidos com belos fanerógamos. Ávida é variável ao infinito e se manifesta por todos os lugares onde estão reunidas as condições de sua existência. Nossas classificações artificiais não bastam para compreender a extensão das espécies vivas. A vida brinca com a substância e a forma, e parece desafiar todas as impossibilidades.
A luz, o calor, a eletricidade, criam-lhe mil mundos, abrem mil caminhos para sua extensão. A água fervente e o gelo não são um obstáculo insuperável. Vibriões secos sobre os tetos, expostos ao sol forte do verão e cobertos de gelo no inverno, renascem após anos de morte aparente, se as condições de sua existência se encontram momentaneamente realizadas num ponto imperceptível onde jaziam. O átomo de poeira que se equilibra num raio de sol, e que um turbilhão arrebata pelos ares, é todo um pequeno mundo povoado por uma multidão de seres agentes.
A vida está por todos os lugares, encontra se do equador aos pólos, diversa, transformada, etapa por etapa. Não há provavelmente um só lugar do globo onde ela não tenha penetrado algum dia, e detendo-nos mesmo no espetáculo atual da Terra, considerando apenas a época determinada na qual observamos, época que só representa um segundo insensível na insondável duração das eras geológicas, vemos essa maravilhosa força de vida por todos os lugares em atividade, por todos os lugares em movimento, por todos os lugares em vias de criação.
Malgrado as sábias e perseverantes pesquisas dos fisiólogos de hoje em dia, o antigo problema da geração espontânea não foi ainda resolvido. Mas se a heterogeneidade ainda está no berço, os trabalhos que a fizeram nascer e as discussões que ela encetou não aumentaram especialmente o campo de nossos conceitos sobre a essência e a propagação da vida. Sabemos agora o quanto é fecundo o seio dessa bela Natureza, sempre na seiva de sua virilidade sem idade, Sempre no esplendor de sua força e de sua juventude.
Os
mistérios íntimos da geração se desvelam, e nosso
século analisa os recursos ocultos da vida embriogênica e seu funcionamento,
segundo os indivíduos, segundo os sexos, segundo as famílias e
segundo as espécies, e se ainda não conhecemos, Começamos
a conhecer, e compreendemos que há no embrião do animal microscópico
um infinito de vida, força inicial que nasce segundo o concurso de alguns
elementos, e que se desenvolve segundo o impulso de sua própria essência,
secundada pelas influências saídas do mundo exterior.
A força da vida é uma propriedade inelutável que pertence
à matéria organizada; ora, os elementos simples da matéria,
ou as mônadas, passam do mundo inorgânico ao mundo orgânico,
de modo que toda matéria é suscetível de ser organizada,
e serve, com efeito, sucessivamente à composição dos diversos
organismos, e que a força de vida é inerente à própria
substância do mundo. Segundo a idéia de Leibniz, as coisas são
ordenadas de tal maneira que a maior soma de vida é sempre completa,
e a qualquer instante dado o máximo das existências individuais
é realizado.
Darwin estabeleceu, pela demonstração da lei de Malthus tomada na sua expressão mais simples, que, desde os tempos mais recuados de nossas longínquas origens, as espécies vivas se sucederam por direito de conquista, combatendo na imensa batalha da vida, segundo a soma de sua força vital recíproca, triunfando das espécies empobrecidas e mais fracas, e estabelecendo sobre a Terra uma dominação que fosse sempre a mais completa possível.
Para guardar o seu lugar sob o sol e para prolongar sua vida específica, os seres estabeleceram entre si — continuam — uma concorrência, uma luta universal, de onde resulta a eleição natural das raças e dos indivíduos melhor adaptados às circunstâncias de tempo e lugar; o campo semeado pela natureza está, por isso, sempre rico com suas mais belas produções; a taça da vida sempre está cheia, ou melhor dizendo, ela sempre transborda, pois os seres mais perfeitos continuamente sobrepujam os seres menos perfeitos.
Todavia,
estes não desaparecem até que sejam impiedosamente suplantados,
que as condições mutáveis do globo se oponham à
sua sobrevivência, e que eles não possam encontrar um último
refúgio numa emigração para longe de seus vencedores; neste
último caso, aumentam ainda a som da vida, onde esta puder ser aumentada.
Tal é o espetáculo oferecido por nosso mundo ha milhões
de anos, desde séculos de séculos em que as espécies vivas
se sucedem numa majestosa lentidão; tal é o espetáculo
que nos oferece ainda hoje esse mundo cuja fertilidade e abundância são
o eterno patrimônio. Outrora, nossos pais tomavam o oução
como modelo do infinitamente pequeno e como limite inferior da vida animal:
o oução, esse ácaro do tamanho de um grão de areia,
e que se alimenta de substância corrompidas.
Mas
depois, o microscópio veio abrir-nos as portas da vida oculta; entramos,
e agora fazemos longas e interessantes viagens em países de um milímetro
quadrado Leuwenhoeck demonstrou que bilhões de infusórios descobertos
na água comum pela visão microscópica formam ilhas inteiras
do grande oceano; desses bilhões de animais e vegetais microscópico
que, sozinhos, construíram montanhas, e que exerceram uma ação
mais eficaz sobre a estrutura da Terra que essas massas monstruosas de baleias
e elefantes, que esses enormes troncos de figueiras e baobás? (...)
04 - Morte,
renascimento, evolução - Hernani Guimarães Andrade- pág.
4
A
GERAÇÃO ESPONTÂNEA
Como surgiu, na Terra, o primeiro ser vivo? Esta pergunta parece haver sido
enunciada inúmeras vezes, desde a mais distante antiguidade. As tradições
religiosas, em sua maioria, transferem a solução natural do problema
para um ato criador de uma ou várias divindades. O Código do Manu
— um dos mais antigos códigos que se conhecem — usando uma
linguagem simbólica, coloca no início da criação
"Aquele que é, esta causa imortal que existe para a razão
e não para os sentidos". Na Teologia hindu, o mesmo princípio
criador recebeu o nome de Swayambhouva, "Aquele que existe por si mesmo".
Deste
princípio "nasceu Purucha, filho divino de Brahma". Depois
de ter estado no ovo-de-ouro pelo espaço de um ano divino e, por um único
esforço de seu pensamento, haver criado o mundo, Purucha criou a vida
organizada e todos os seres vivos. (Jacolliot, L. - Manou-Moïse-Mahomet,
Paris: C. Marpon et E. Flammarion).
De acordo com o Gênesis mosaico, Deus, após ordenar que as águas
que se achavam debaixo do céu se juntassem em um só lugar, aparecendo
assim o elemento seco, deu-lhes o nome respectivamente de Mares e Terra. Após
este preparo, mandou Ele que a terra produzisse relva, ervas que dessem semente
e árvores frutíferas.
Isto
ocorreu no terceiro dia da criação. Somente no quinto dia, Deus
cuidou de ordenar que as águas produzissem seres viventes e que surgissem
as aves destinadas a voar acima da terra no firmamento do céu. Finalmente,
no sexto dia, foram criados os seres viventes terrestres. Surgiram já
prontos, segundo suas espécies, animais domésticos, répteis
e animais selvagens. Para coroar a obra criacionista biológica foi então
feito o homem à imagem e semelhança do Criador.
Nem todos os homens se conformaram com as explicações religiosas,
e passaram, por isso, a cogitar a respeito da origem da vida; de como teria
sido o primeiro ser dotado de vida e qual o seu processo gerador. Inicialmente,
as hipóteses acerca da origem dos seres vivos foram simplistas e baseadas
em observações imperfeitas, seguidas de conclusões ingênuas
e apressadas. Acreditava-se que, da própria terra ou dos detritos e podridões,
podiam surgir seres vivos. Assim, também, era crença generalizada
que a umidade putrefata seria capaz de gerar seres viventes.
Ambroise Pare (1517 - 1590), tendo mandado quebrar grandes pedras em sua propriedade,
foi informado pelo seu empregado de que havia sido encontrado um enorme sapo
vivo, no interior de uma das pedras! Embora fosse um famoso cirurgião
naquela época, Pare não pôs em dúvida a informação
do seu criado, ficou apenas ingenuamente admirado e sem imaginar como o animal
poderia ter nascido, crescido e vivido ali dentro da pedra.
O
trabalhador asseverou ao seu patrão não ser esta a primeira vez
que ele encontrava aquele e outros animais dentro de pedras sem aparência
de nenhuma abertura. Então Ambroise Pare procurou dar uma explicação
para os fatos: os animais em questão eram engendrados de alguma substância
úmida, putrefata, das próprias pedras!
À medida que os processos e os meios de observação foram
se tornando mais rigorosos, as fronteiras da crença na "geração
espontânea" também começaram a ser afastadas. O microscópio,
no fim do século XVII, revelou a impressionante complexidade orgânica
dos mínimos seres vivos, mesmo dos microorganismos cujo porte é
notoriamente insignificante. Devido a isto, a crença na possibilidade
de surgirem seres vivos, espontaneamente, da podridão, da terra úmida
e da carne em decomposição, tornou-se cada vez menos aceita.
Foi Pasteur quem assestou o derradeiro golpe na doutrina da geração espontânea. Após uma árdua contenda, em que enfrentou inúmeros adversários do mais alto nível intelectual, tais como Pouchet, Bastian e Claude Bernard, Pasteur pôde enfim demonstrar, através de suas memoráveis experiências, a impossibilidade da geração espontânea, nas atuais condições naturais do nosso planeta. Por outras palavras, até a presente data não se conhece nenhuma condição especial que possa propiciar o surgimento espontâneo de seres vivos organizados.
"Todo ser vivo procede de outro ser vivo"— "Omne vivum
e vivo" — já ensinava Vallisnieri, no Século XVII,
e Pasteur assim colocou esta questão em sua real posição:
— "A geração espontânea dos seres microscópicos
é uma quimera. Não, não existe qualquer circunstância,
hoje, conhecida, na qual se possa afirmar que os seres vêm ao mundo sem
germes, sem pais semelhantes a eles.
Aqueles que acreditam nisto têm sido joguetes da ilusão, de experiências
malfeitas, cheias de erros que eles não souberam perceber ou que não
souberam evitar. " (Caries, J. — As Origens da Vida, São Paulo:
Difusão Europeia do Livro, 1956, pp. 23-24).
Mas, voltando aos primórdios deste nosso planeta, o problema da origem
da vida continua. Está claro que Pasteur demonstrou, experimentalmente,
a impossibilidade da geração espontânea. Entretanto, parece
indiscutível que a Terra, há mais de 3,5 bilhões de anos
atrás, não possuía seres vivos em sua superfície.
Aqui já não é mais possível aplicar a asserção
de Vallisnieri: "Omne vivum e vivo". Como, então, surgiram
os primeiros seres viventes?
BIOGÊNESE
Inicialmente, devemos fazer distinção entre a doutrina da geração
espontânea e a investigação acerca da origem da vida. A
primeira admite, ingenuamente, a possibilidade do surgimento espontâneo
de seres vivos já organizados. A segunda aceita a tese de que a vida
apareceu sobre a Terra, em certa ocasião e em condições
especiais. Houve uma época em que o nosso planeta era absolutamente estéril
e não abrigava nenhum ser dotado de vida. Algum fato especial propiciou
a biogênese, isto é, o salto dialético que permitiu à
matéria inanimada dar o primeiro passo em direção à
meta biológica. Este é o objeto dessa fascinante pesquisa.
Uma primeira conclusão foi obtida por Vernadsky e outros diante da dificuldade
inicial de explicar-se a biogênese: encontram-se nos organismos vivos
os elementos comuns a todo o Universo. O próprio Pasteur, impressionado
com a improbabilidade experimental de encontrar quaisquer condições
atuais que propiciassem o surgimento de seres vivos, por mais simples que eles
fossem, chegou a inclinar-se para uma espécie de hilozoísmo: talvez
pudesse inverter-se o problema, buscando a origem da matéria na própria
essência da vida, como postulava Preyer, nos fins do Século XIX.
Embora nem sempre especificamente com relação ao particular problema
da biogênese, têm surgido atualmente reflexões hilozoístas
com respeito à vida em si mesma. E, por incrível que pareça,
tais idéias estão surgindo mais recentemente em algumas áreas
de especulação da Física: — "Há vida
em todas as coisas, mas com variados graus de consciência", —
postula Bob Toben, em um curioso livro escrito em parceria com os físicos
Jack Sarfatti, Ph. D., e Fred Wolf, Ph. D. (Toben, B. — Space-Time and
Beyond, New York: Dutton, 1975, p. 40).
Se correlacionarmos a vida com a presença de uma psique ou espírito
participando da essência de determinado objeto, teremos mais um exemplo
da colocação da vida na própria matéria, na obra
do físico francês Jean E. Charon: O Espírito, Este Desconhecido.
(LEsprit Cet Inconnu, Paris: Albin Michel, 1977. (...)
08 - Perispírito e Corpo mental - Durval Ciamponi - pág. 67
5.-
A GERAÇÃO ESPONTÂNEA
Em que momento a alma se une ao corpo? O momento em que a alma se liga ao corpo
foi o segundo grande problema doutrinário de Kardec. Sua análise
está associada ao problema da geração espontânea
dos seres vivos mais ínfimos da Natureza, aceita por Kardec, como ele
mesmo declarara na Revista Espírita de junho de 1866, respondendo a uma
pergunta do porque não a defendera na Codificação. Disse
ele: pessoalmente é para nós uma convicção e se
a tivéssemos tratado numa obra comum, tê-la-íamos resolvido
pela afirmativa.
Na 1a. edição, como se viu parcialmente no capítulo anterior,
está escrito (ver fac-simile, página 66): Pergunta 29 - A inteligência
é um atributo do Princípio Vital " Resposta - Não,
pois as plantas também vivem e não pensam; não têm
senão vida orgânica. A resposta mostra que também estes
Espíritos admitiam, como Kardec, a geração espontânea,
justificando, ainda, em parte, a tese esposada de que o homem sempre pertenceu
ao gênero homo, sem jamais ter estagiado nos reinos inferiores.
Esta
pergunta e resposta, repetimos, mantiveram-se na 2a. edição, sob
número 71, onde se confirma que as plantas não têm mais
do que vida orgânica. Igualmente, em 1868, Kardec ao escrever em A Gênese,
capítulo X, itens 20 e 21, referindo-se à geração
espontânea, propõe o seguinte problema: Em nossos dias formam-se
espontaneamente seres orgânicos, unicamente pela união dos elementos
constitutivos, sem o concurso de gérmens preliminares que fossem produtos
da geração normal? Em outras palavras, sem pai nem mãe?
Ele mesmo esclarece: Os partidários da geração espontânea
respondem afirmativamente, e se apoiam sobre observações diretas,
as quais parecem ser conclusivas. Outros pensam que todos os seres vivos se
reproduzem um dos outros, e se apoiam sobre este fato, constatado pela experiência,
de que os gérmens de certas espécies vegetais e animais, estando
dispersos, podem conservar uma vitalidade latente durante um tempo considerável,
até que as circunstâncias sejam favoráveis à sua
eclosão. Esta opinião deixa sempre de pé a pergunta relativa
à formação dos primeiros tipos de cada espécie.
A análise do texto nos leva a dizer que Kardec conhecia os resultados
das experiências de Louis Pasteur, realizadas em 1862, pelas quais ele
chegou à conclusão que a geração espontânea
não tinha significado. Kardec continuou escrevendo: Sem discutir os dois
sistemas, convém notar que o princípio da geração
espontânea não pode aplicar-se evidentemente senão aos seres
das ordens mais inferiores do reino vegetal e do reino animal, àqueles
nos quais começa a surgir a vida, ...como os primeiros que apareceram
sobre a Terra, e cuja geração provavelmente foi espontânea.
Este conceito nos leva a dizer que, segundo Kardec, os seres vivos mais ínfimos
da Natureza não participariam, como princípios inteligentes, da
Criação Divina, dado que seriam apenas matéria com vitalidade,
porque não teriam mais que vida orgânica. Esta dedução
não decorre tão somente das questões 71, 586 do LÊ,
mas também do seu pensamento, em A Gênese capítulo XI, item
5, onde ele diz: partindo da observação dos fatos, diremos que,
se o princípio vital fosse inseparável do princípio inteligente,
haveria alguma razão em confundi-los; porém, desde que se vêem
seres que vivem e não pensam, como as plantas... há lugar para
se admitir que a vida orgânica reside num princípio inerente à
matéria, independente da vida espiritual que é inerente ao Espírito.
Ora,
desde que a matéria tem uma vitalidade independente do espírito,
torna-se evidente que esta dupla vitalidade repousa sobre dois princípios
diferentes. Como se observa, Kardec ao examinar a distinção entre
o princípio espiritual e o princípio vital, ao mesmo tempo, confirma,
pode-se dizer, a teoria da geração espontânea, segundo a
qual estes seres vivos mais ínfimos só têm vida orgânica,
neles não havendo um princípio espiritual.
Há de se notar sutis diferenças nesta análise, pois não
se pode dizer que matéria viva, orgânica, seja um ser vivo. A matéria
viva, sob determinadas condições, pode surgir espontaneamente
a partir da inorgânica, mas o ser vivo não. Todo ser é um
princípio inteligente criado por Deus e não foi, doutrinariamente,
fruto de geração espontânea. A idéia de geração
espontânea liga-se ao princípio vital, mas não ao princípio
inteligente. Por isto, todo embrião humano, como ser vivo, tem uma vida
instintiva, decorrente do princípio espiritual que é, além
da vida orgânica, decorrente do princípio vital.
Esta
exegese vale para todos os seres vivos, desde os mais ínfimos da Criação.
Como se observa, os Espíritos trabalham com dois conceitos de vida. O
de vida orgânica (LÊ, 63) que surge espontaneamente, tendo início
e fim; e o de vida espiritual do princípio inteligente (LÊ, 83),
que tem início, mas não tem fim.
Depois de todos os livros de Gabriel Delanne, Léon Denis, André
Luiz, Emmanuel, e das publicações dos novos livros de Biologia,
Antropologia, Botânica etc., face à tecnologia e o desenvolvimento
da genética, explicar como é a origem e a vida do princípio
inteligente, nos seres vivos mais ínfimos da Natureza, é tão
difícil, entre os espíritas, quão difícil foi para
Moisés, na Bíblia, falar do surgimento do primeiro homem, se antes
de sua espécie não havia um casal que possibilitasse a reprodução.