IDENTIDADE |
|
BIBLIOGRAFIA |
|
| 01- A alma é imortal - pág. 265, 279 | 02 - A evolução anímica - pág. 47 |
| 03 - Allan Kardec - vol. 3 - pág. 324 | 04 - Animismo e Espiritismo - vol. 2 - pág. 299 |
| 05 - Cristianismo e Espiritismo - pág. 301 | 06 - Do país da luz - vol. 4- pág. 50 |
| 07 - Lázaro redivivo - pág. 156 | 08 - No invisível - pág. 314 |
| 09 - O consolador - pág. 211 | 10 - O fenômeno Espírita - pág. 205 |
| 11 - O Livro dos Espíritos - q 284, 366 | 12 - O Livro dos Médiuns - cap. XXIV |
| 13 - O que é Espiritismo - pág. 181, 183 | 14 - Quando os fantasmas se divertem - pág. 158 |
| 15 - Região em litígio - pág. 335 | 16 - Vozes do grande além - pág. 192 |
| 17 - Temas da vida e da morte - pág. 147 | |
LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.
IDENTIDADE – COMPILAÇÃO
01 - A ALMA É IMORTAL - GABRIEL DELANNE - PÁG. 265
Estudo
sobre a identidade dos Espíritos:
Na sábia e conscienciosa obra que o Sr. Aksakof consagrou à refutação
das teorias do filósofo Hartmann, depara-se-nos a conclusão seguinte:"Tendo
adquirido por laboriosa senda a convicção de que o princípio
individual sobrevive à dissolução do corpo e pode, sob
certas condições, manifestar-se de novo por intermédio
de um corpo humano, acessível a influências desse gênero,
a prova absoluta da identidade do indivíduo resulta impossível."
Votamos sincera admiração e profundo respeito ao sábio
russo que revelou, na sua obra, espírito tão sagaz, quanto penetrante.
Seu livro é uma das mais preciosas coletâneas de fenômenos
bem estudados, onde os espíritas encontram armas decisivas para sustentar
luta contra seus adversários. Mas, não podemos adotar todas as
suas idéias, por se nos afigurar que o seu propósito, de manter-se
estritamente nos limites que lhe impunha a sua discussão com Hartmann,
o fez restringir demasiadamente o caráter de certeza que ressalta das
experiências espíritas. Não haverá contradição
entre a primeira e a segunda parte da citação acima? Como se há
de adquirir "a convicção de que o principio individual sobrevive",
se não se pode estabelecer a Identidade dos seres que se manifestam?
Porque, desde que, coletivamente, todos os humanos sobrevivem, impossível
será ter-se particular certeza, com relação a um deles?
Examinemos os argumentos em que se baseou o Sr. Aksakoí para chegar àquela
desoladora conclusão.
Segundo o autor, a presença de uma forma materializada, comprovada pela
fotografia, ou nas sessões de materialização, não
bastaria para lhe atestar a identidade, como, aliás, também não
bastaria o conteúdo intelectual das comunicações. Eis porquê:
"Não me resta mais do que formular o último desideratum,
relativamente à prova de identidade fornecida pela materialização,
e é que essa prova — do mesmo modo que o exigimos no tocante às
comunicações intelectuais e à fotografia transcendental
— seja dada na ausência de qualquer pessoa que possa reconhecer
a figura materializada. Creio que se poderiam encontrar muitos exemplos desse
gênero nos anais das materializações. Mas, a questão
é esta: dado o fato, poderia ele servir de prova absoluta? Evidentemente,
não, porque, admitido que um Espírito se pode manifestar dessa
maneira, possível lhe é, e o ipso, prevalecer-se dos atributos
de personalidade doutro Espírito e personificá-lo na ausência
de quem quer que seja capaz de reconhecê-lo. Tal mascarada seria completamente
insípida, visto que absolutamente nenhuma razão de ser teria.
Do ponto de vista, porém, da crítica, não poderia ser ilógica
a sua possibilidade."
Parece que o Sr. Aksakof admite como demonstrado que um Espírito pode
mostrar-se sob qualquer forma, sob a que lhe apraza tomar, a fim de representar
uma personagem que é ele. Ora, isso justamente é que seria necessário
firmar, por meio de fatos numerosos e precisos. Se consultarmos os milhões
de casos em que o Espírito de um vivo se faz visível, verificaremos
que o duplo é sempre a reprodução rigorosamente fiel do
corpo, atingindo essa identidade todas as partes do organismo, como o prova
irrefutavelmente a modelagem do pé fluídico de Eglinton, do qual
falamos às págs. 144/5 (cap. I, Segunda Parte). Quando o duplo
inteiro de Eglinton se materializa, assemelha-se a tal ponto ao seu corpo físico,
que há mister se veja o médium adormecido na sua cadeira, para
se ficar persuadido de que ele não está no lugar onde se encontra
a aparição. Quando a Sr.a Fay se mostra entre as duas metades
da cortina, com suas vestes e o seu rosto, perfeitamente semelhante ao seu corpo
físico, com os mesmos traços fisionômicos, cor dos olhos,
do cabelo, da pele, faz-se preciso que a corrente elétrica lhe atravesse
o organismo carnal, para se ter a certeza de não ser este o que se está
vendo.
"Vi, diz o Sr. Brackett — experimentador muito céptico e muito
prudente —, centenas de formas materializadas e, em muitos casos, o duplo
fluídico do médium assemelhando-se-lhe tanto, que eu teria jurado
ser o próprio médium, se não visse o mesmo duplo desmaterializar-se
diante de mim e não houvesse, logo após, comprovado que o médium
se conservava adormecido." Não acreditamos possa alguém citar
um único exemplo de haver um duplo de vivo mudado o seu tipo, exclusivamente
por vontade própria. Ao contrário, da observação
das aparições espontâneas, tanto quanto das obtidas pela
experiência, resulta que, se nenhuma influência exterior for exercida,
o Espírito se mostra sempre sob a forma corpórea que lhe caracteriza
a personalidade. Dar-se-á tenha ele, depois da morte, um poder que lhe
faltava em vida? Poderia o Espírito dar ao seu corpo espiritual forma
idêntica à de outro Espírito, de maneira a ser o sósia
deste? É o que vamos examinar.
À primeira vista, parece que o fenômeno da transfiguração
confirma a opinião de que o Espírito pode mudar de forma. Mas,
será mesmo assim? Em realidade, o paciente é inteiramente passivo.
Não é, pois, consciente ou voluntariamente que modifica o seu
próprio aspecto. Ele sofre uma influência estranha, que substitui
pela sua aparência a do médium, pois que, geralmente, este não
conhece o Espírito que sobre ele atua. Não se pode, portanto,
pretender que o Espírito de um médium seja capaz — eo ipso
— de se transformar. Em nenhum caso foi isso ainda demonstrado e a substituição
de forma bem se pode atribuir a outro Espírito, visto que, quando o desdobramento
se produz de modo espontâneo, a forma do espírito é sempre
a do corpo. Estudemos agora os casos em que a aparição é
manifestamente diferente do médium e do seu duplo. Porventura já
se comprovou que um Espírito, tendo-se mostrado sob uma forma bem definida,
haja mudado de aspecto diante dos espectadores, assumindo outra inteiramente
diversa da primeira? Jamais semelhante fenômeno se produziu. A única
observação, do nosso conhecimento, que tem alguma relação
com esse assunto, é a que relata o Sr. Donald Mac Nab, que conseguiu
fotografar e tocar, com seis amigos seus, a materialização de
uma moça que reproduziu absolutamente um velho desenho datando de vários
séculos, desenho que muito impressionara o médium.
Nada, porém, prova, nesse exemplo, que essa aparição não
seja a da moça representada no desenho, tendo bastado perfeitamente,
para atraí-la, o pensamento simpático do médium. Não
está, pois, de modo algum estabelecido que seja essa uma transformação
do duplo do médium, nem tampouco uma criação fluídica
objetivada pelo seu cérebro. O que algumas vezes se há verificado
são modificações no talhe, na coloração do
semblante, na expressão da fisionomia da aparição. Pode
variar muito o grau da sua materialidade e, sendo esta fraca, não acentuar
bastante os detalhes da semelhança; mas, o tipo geral não muda.
As modificações são as de um mesmo modelo e não
chegam para representar outro ser. Tomemos o exemplo de Katie King. Indubitavelmente,
ela não era um desdobramento de Florence Cook, porquanto esta, vígil,
conversa durante alguns minutos com Katie e o Sr. Crookes, que as vê a
ambas. A independência intelectual do Espírito materializado se
revela aí com toda a clareza, nada tendo de duvidoso com relação
ao corpo físico, visto que o Sr. Crookes assinalou as diferenças
de talhe, de tez, de cabeleira e, o que é mais importante, dos caracteres
fisiológicos entre as duas.
"Uma noite, contei as pulsações de Katie. Seu pulso batia
regularmente 75, ao passo que o da Srta. Cook, poucos instantes depois, chegava
a 90, algarismo habitual. Colando o ouvido ao peito de Katie, ouvi-lhe o coração
a bater dentro e os seus batimentos ainda mais regulares eram do que os do coração
da Srta. Cook, quando, após a sessão, ela me permitiu a mesma
experiência. Auscultados, os pulmões de Katie se revelaram mais
sãos do que os do seu médium que, na ocasião em que fiz
a minha experiência, estava em tratamento médico para um forte
resfriado." Evidentemente, segundo o que se acaba de ler, Katie não
era a figura nem do corpo, nem do duplo do médium. Tinha uma individualidade
distinta, se bem nem sempre aparecesse por inteiro. Numa sessão com Varley,
engenheiro-chefe das linhas telegráficas da Inglaterra, estando a médium
fiscalizada eletricamente, Katie só se mostrou materializada a meio,
até à cintura apenas, faltando ou conservando-se invisível
o resto do corpo. "Apertei a mão àquele ser estranho, diz
o célebre engenheiro, e, ao terminar a sessão, mandou Katie que
eu fosse despertar a médium. Achei a Srta. Cook em transe, isto é,
adormecida, como eu a deixara, e intactos todos os fios de platina. Despertei-a."
Segundo Epes Sargent, nos primeiros tempos, apenas se via o rosto; não
havia cabelos, nem coisa alguma acima da fronte. Parecia uma máscara
animada. Após cinco ou seis meses de sessões, apareceu a forma
completa. Esses seres então se condensam mais facilmente e mudam de cabelos,
de vestuário, de cor da tez, à vontade. Mas, note-se bem que é
sempre o mesmo tipo, nunca uma outra forma. Neste ponto, faz-se necessário
precisemos bastante o que entendemos pelo termo tipo. Quando se comparam fotografias
de um indivíduo, tiradas em diversas épocas de sua vida, reconhecem-se
grandes diferenças entre as que ele tirou na idade de 15 anos e as que
o representam aos 30 anos. Tudo se modificou profundamente. Os cabelos embranqueceram
ou rarearam, os traços se acentuaram ou ampliaram; notam-se rugas onde
antes só se via plena juvenilidade. Entretanto, com um pouco de atenção,
chega-se a perceber que essas divergências não são fundamentais,
que se encerram dentro de limites definidos, dentro do que constitui, durante
a vida toda, a característica da individualidade: o tipo. Podemos perfeitamente
conceber que o perispírito seja capaz de reproduzir uma dessas formas,
pois que evolveu através delas neste mundo. Essa faculdade de fazer uma
imagem reviva de si mesma assemelha-se a um avivamento de lembranças,
o qual evoca uma época passada e a torna presente para a memória.
Desde que nada se perde no envoltório fluídico, as formas do ser
se fixam nele e podem reaparecer sob o infuso da vontade. (...)
05 - CRISTIANISMO E ESPIRITISMO - LÉON DENIS - ÍTEM 12 - PÁG. 286
ÍTEM.
12 - Os fenômenos espíritas contemporâneos; provas da identidade
dos Espíritos: Graças
ao espiritualismo experimental, o problema da sobrevivência, cujas consequências
morais e filosóficas são incalculáveis, recebeu uma solução
definitiva. A alma se tornou objetiva, por vezes tangível; a sua existência
se revelou, depois da morte como durante a vida, mediante manifestações
de toda ordem. Ao começo não ofereciam os fenômenos físicos
mais que uma insuficiente base de argumentação; mas depois os
fatos revestiram um caráter inteligente e se acentuaram ao ponto de tornar-se
impossível qualquer contestação. Foi mediante provas positivas
que a questão da existência da alma e sua imortalidade ficou resolvida,
Fotografaram-se as radiações do pensamento; o Espírito,
revestido de seu corpo fluídico, do seu invólucro imperecível,
aparece na placa sensível. A sua existência se tornou tão
evidente como a do corpo físico. A identidade dos Espíritos acha-se
estabelecida por inúmeros fatos. Acreditamos dever mencionar alguns deles:
O Sr. Oxon (aliás Stainton Moses), professor da Universidade de Oxford,
em seu livro Spirit Identity, refere o caso em que a mesa faz uma longa e circunstanciada
narrativa da morte, com a menção da idade, até ao número
de meses, e os nomes familiares (quatro quanto a um deles e três quanto
a outro), de três criancinhas, filhas de um mesmo pai, que haviam sido
subitamente arrebatadas pela morte. "Nenhum de nós tinha conhecimento
desses nomes pouco comuns. Elas tinham morrido na Índia, e quando nos
foi ditada a comunicação, não dispúnhamos de meio
algum aparente de verificação." Essa revelação
foi, todavia, verificada e, mais tarde, reconhecida exata pelo testemunho da
mãe dessas crianças, que o Sr. Oxon veio a conhecer ulteriormente.
O mesmo autor cita o caso de um certo Abraão Florentino, falecido nos
Estados Unidos, inteiramente desconhecido dos experimentadores e cuja identidade
foi rigorosamente comprovada. A história de Siegwart Lekebusch, jovem
alfaiate que morreu esmagado por um trem de ferro, prova ainda que é
contrário à verdade afirmar que as personalidades que se manifestam
pela mesa são sempre conhecidas dos assistentes. De acordo com Animismo
e Espiritismo, de Aksakof, a identidade póstuma dos Espíritos
se prova:
1°. Por comunicações da personalidade na língua vernácula,
desconhecida do médium (ver, página 538, o caso de Miss Edmonds,
do Sr. Turner, de Miss Scongall e da senhora Corvin, que conversa com um assistente
por meio de gestos conforme ao alfabeto dos surdos-mudos que no estado de vigília
lhe era desconhecido).
2°. Por meio de comunicações dadas no estilo característico
do defunto, ou com expressões que lhe eram familiares, recebidas na ausência
de pessoas que o tivessem conhecido: - terminação de um romance
de Dickens, Edwin Drood, por um jovem operário iletrado, sem que seja
possível reconhecer onde termina o manuscrito original e onde começa
a comunicação mediúnica. Ver também a história
de Luiz XI, escrita pela senhorita Hermance Dufaux, aos catorze anos de idade
(Revue Spirite, 1858). Essa história, muito documentada, contém
ensinos até então inéditos.
3°. Por fenômenos de escrita em que se reconhece a do defunto: - carta
da Sra. Livermore, por ela mesma escrita depois de sua morte. Esse Espírito
estabeleceu a sua identidade, mostrando-se, escrevendo e conversando como quando
na Terra. Fato notável: o Espírito escreveu mesmo em francês,
língua ignorada da médium, Kate Fox; - o caso em que o Sr. Owen
obtém uma assinatura de Espírito que foi reconhecida idêntica
por um banqueiro (ver Guldenstubbe, A Realidade dos Espíritos); - escrita
direta de uma parenta do autor, reconhecida idêntica à sua ortografia
durante a vida. (Esses fatos foram muitas vezes obtidos em nosso próprio
círculo de experiências.)
4°. Por comunicações que encerram um conjunto de particularidades
relativas à vida do defunto e recebidas na ausência de qualquer
pessoa que a tivesse conhecido. Com o concurso mediúnico da Sra. Conant,
muitos Espíritos desconhecidos do médium foram identificados com
pessoas que tinham vivido em diferentes países: o caso do velho Chamberlain,
o de Violette, o de Robert Dale Owen, etc.
5°. Pela comunicação de fatos conhecidos unicamente pelo desencarnado
e que só ele possa comunicar: o caso do filho do Dr. Davey, envenenado
e roubado em pleno mar, fato em seguida reconhecido exato; - descoberta do testemunho
do barão Korff; o Espírito Jack, que indica o que deve e o que
lhe é devido, etc.
6°. Por comunicações que não são espontâneas,
como as que precedem, mas provocadas por chamados diretos ao falecido e recebidas
na ausência de pessoas que o tenham conhecido: resposta, por Espíritos,
a cartas fechadas (médium Mansfield); - escrita direta dando resposta
a uma pergunta ignorada pelo médium, Sr. Watkins.
7°. Por comunicações recebidas na ausência de qualquer
pessoa que houvesse conhecido o desencarnado, revelando certos estados psíquicos,
ou provocando sensações físicas que lhe eram peculiares
; - o Espírito de uma louca ainda perturbado, no espaço; o caso
do Sr. Elias Pond, de Woonsoket, etc. (Esses fenômenos se produziram em
número considerável de vezes nas sessões por nós
mesmo dirigidas.)
8°.- Pela aparição da forma terrestre do desencarnado. Os
Espíritos se têm, às vezes, servido dos defeitos naturais
de seu organismo material para fazerem-se reconhecer depois da desencarnação,
reproduzindo, por meio de materialização, esses acidentes. Ora
é a mão com dois dedos recurvados para a palma, em consequência
de uma queimadura, ora o indicador dobrado na segunda falange, etc.
Poderíamos alongar indefinidamente esta lista de identidade de Espíritos,
de que um certo número de casos figura também em nosso livro No
Invisível, capítulo XXI.
Julgamos dever acrescentar os três seguintes, que nos parecem característicos
e são firmados em testemunhos importantes. O primeiro, relatado por Myers
em sua obra sobre a Consciência Subliminal, é concernente a uma
pessoa muito conhecida do autor, o Sr. Brown, cuja perfeita sinceridade ele
garante. Um dia esse senhor encontra um negro em quem reconhece um cafre; fala-lhe
na língua do seu país e o convida a visitá-lo. Na ocasião
em que esse preto africano se apresenta em sua casa, a família do Sr.
Brown fazia experiências espíritas. Introduzido o visitante, indagam
se haveria amigos seus presentes à sessão. Imediatamente a filha
da família, que de cafre não conhecia nem uma palavra, escreve
diversos nomes nessa língua. Lidos ao preto, provocam neste um vivo espanto.
Vem depois uma mensagem escrita em língua cafre, cuja leitura ele compreende
perfeitamente, com exceção de uma palavra desconhecida para o
Sr. Brown. Em vão a pronuncia este de vários modos: o visitante
não lhe percebe o sentido. De repente escreve o médium: "Dá
um estalo com a língua". Então se recorda prontamente o Sr.
Brown do estalo característico de língua que acompanha o som da
letra t no alfabeto cafre. Pronuncia desse modo e logo se faz compreender.
Ignorando os cafres a arte de escrever, o Sr. Brown se admira de receber uma
mensagem escrita. Foi-lhe respondido que essa mensagem fora ditada, a pedido
dos amigos do cafre, por um amigo dele que falava correntemente essa língua.
O negro parecia aterrado com o pensamento de que ali estivessem mortos, invisíveis.
O segundo caso é relativo à aparição de um Espírito,
chamado Nefentes, na sessão realizada em Cristiânia na casa do
professor E., servindo de médium a Sra. d'Esperance. O Espírito
deu o molde da própria mão em parafina. Levando esse modelo oco
a um profissional, para o reproduzir em relevo, causou a sua e a estupefação
dos seus operários: bem compreendiam eles que mão humana o não
pudera produzir, porque o teria quebrado ao ser retirada, e declararam que era
coisa de feitiçaria. Noutra ocasião escreveu Nefentes no canhenho
do professor E. uns caracteres gregos. Traduzidos, no dia seguinte, do grego
antigo para linguagem moderna, diziam essas palavras: "Eu sou Nefentes,
tua amiga. Quando tua alma se sentir opressa por intensa dor, invoca-me, a mim
Nefentes, e eu acudirei prontamente a aliviar-te os sofrimentos."
O terceiro caso, finalmente, é atestado como autêntico pelo Sr.
Chedo Mijatovitch, ministro plenipotenciário da Sérvia em Londres,
e de nenhum modo espírita em 1908, data de sua comunicação
ao Light. Solicitado por espíritas húngaros a entrar em relação
com um médium, a fim de resolver certa questão relativa a um antigo
soberano sérvio, morto em 1350, dirigiu-se ele à residência
do Sr. Vango, de quem muito se falava nessa época e que ele jamais vira
precedentemente. Adormecido, o médium anunciou a presença de um
moço que muito desejava fazer-se ouvir, mas cuja língua não
entendia. Acabou, todavia, reproduzindo algumas palavras, com a curiosa particularidade
de começar cada uma delas pela última sílaba, para em seguida,
a repetir na ordem requerida, voltando à primeira, assim: "lim,
molim; te, shite, pishite; liyi, taliyi Nataliyi, etc." Era sérvio,
sendo esta a tradução: "Peço-te que escrevas a minha
mãe Natália e lhe digas que suplico o seu perdão."
O Espírito era o do jovem rei Alexandre. O Sr. Chedo Mijatovitch o pôs
tanto menos em dúvida quanto não tardaram novas provas de identidade
em vir juntar-se à primeira: descrição de sua aparência,
pelo médium, e o seu pesar de não ter atendido a um conselho confidencial
que, dois anos antes de seu assassínio, lhe havia dado o diplomata consultante.
(Ver, em relação a estes três casos, os Annales dês
Sciences Psychiques, l2 e 16 janeiro 1910, pág. 7 e seguintes.)
08 - NO INVISÍVEL - LÉON DENIS - ÍTEM
XXI - IDENTIDADE DOS ESPÍRITOS - PÁG. 314
XXI
— Identidade dos Espíritos:
Acabamos de ver, pela exposição dos fatos espíritas até
agora feita, que a sobrevivência está amplamente demonstrada. Nenhuma
outra teoria, a não ser a da intervenção dos sobrevivos,
seria capaz de explicar o conjunto dos fenômenos, em suas variadas formas.
Alf. Russel Wallace o disse: "O Espiritismo está tão bem
demonstrado como a lei de gravitação." E W. Crookes repetia:
"O Espiritismo está cientificamente demonstrado." No ponto
de vista objetivo ou exterior, as provas fornecidas pelas aparições
e materializações não podem deixar dúvida alguma.
Entretanto, na ordem subjetiva, no que concerne aos outros modos de manifestações,
subsiste uma dificuldade: a de obter dos Espíritos, em número
suficiente para satisfazer aos cépticos exigentes, provas de identidade,
indicações precisas, que os assistentes não conheçam
e que sejam mais tarde verificáveis. Objeta-se muitas vezes aos espíritas
que as comunicações, em seu conjunto, apresentam um caráter
muito vago, são destituídas de indicações, revelações
e fatos bem definidos, suscetíveis de estabelecer a identidade dos manifestantes
e impor a convicção aos investigadores. Certamente, não
é possível desconhecer essas dificuldades. Elas são inerentes
à própria natureza das coisas e às diferenças de
meio. Os seres que vivem num mesmo plano, como os homens, dotados dos mesmos
sentidos, comunicam entre si por diferentes processos, que são outros
tantos elementos de certeza.
Esses diferentes modos de observação e verificação
utilizáveis no habitat humano, nós o quereríamos tornar
extensivos ao domínio do invisível, e exigimos de seus habitantes
manifestações assaz probatórias, de uma precisão
igual às que asseguram nossa convicção na ordem física.
Ora, eis aí uma coisa quase irrealizável. O habitante do plano
invisível tem que vencer muitos obstáculos para se comunicar.
Os meios de que dispõe para nos esclarecer e persuadir são restritos.
Ele não se pode manifestar sem médium, e o médium, inconscientemente,
introduz quase sempre uma parte de si mesmo, de sua mentalidade, nas manifestações.
O Espírito que quer exprimir seu pensamento, servindo-se de órgãos
estranhos, experimenta grande embaço. É semelhante a uma pessoa
que conversasse conosco numa situação muito incômoda que
a privasse do uso de suas faculdades. É preciso conduzir-se discretamente
a seu respeito, formular perguntas claras, mostrar paciência, benevolência,
a fim de obter satisfatórios resultados. "Meus caros amigos —
dizia George Pelham a Hodeson e Hart— não me considereis com ânimo
de críticos. Esforçar-nos por transmitir-vos nossos pensamentos,
mediante o organismo de qualquer médium, é como se se tentasse
subir pelo tronco de uma árvore oca." Robert Hyslop o repete a seu
filho: "Todas as coisas se me apresentam com tanta clareza, e quando venho
aqui para exprimir-las, James, não posso!"
O que diziam os Espíritos da Sra. Piper, afirmava-o o Guia do nosso grupo
nestes termos: "No Espaço, tudo é para nós amplo,
desembaraçado, fácil. Quando baixamos à Terra tudo se restringe,
se amesquinha."
Outra objeção é esta: na maior parte dos casos de identidade
assinalados, os fatos e as provas, por meio dos quais se conseguiu determinar
com certeza a personalidade dos manifestantes, são de natureza comum,
às vezes mesmo trivial. Ora, a experiência tem demonstrado que
é quase sempre impossível proceder de outro modo. As particularidades,
consideradas frívolas e vulgares, parece constituírem precisamente
os meios mais seguros para se firmar juízo acerca dos autores dos fenômenos.
Com um fim de comparação e de crítica, o professor Hyslop
fez estabelecer uma linha telegráfica entre dois dos edifícios
da Universidade de Colúmbia, distantes de 500 pés, e postou nas
extremidades dois telegrafistas profissionais, por cujo intermédio deviam
interlocutores desconhecidos comunicar entre si e estabelecer sua identidade.
Nessas condições, que se aproximam das da mediunidade —
valendo aí a distância pela diferença de plano —,
o professor pôde reconhecer quanto era difícil determinar a identificação
de modo probatório. O resultado não era alcançado na maioria
das vezes senão mediante as mais vulgares indicações e
narrativas sem importância. Os processos empregados pelos comunicantes,
constatou o professor, eram absolutamente os mesmos que os adotados pelos Espíritos
no caso da Sra. Piper. A propósito das dificuldades encontradas pelos
operadores, o Sr. Hyslop assim se exprime :
"Enquanto acompanhava essas experiências, chamou-me a atenção
este fato, que se observa igualmente quando apenas dispomos de tempo limitado
para comunicar telefonicamente: toda a atenção do comunicante
está concentrada no desejo de escolher incidentes bem característicos
para a identificação por um amigo particular. E como, para escolher,
se vê urgido pelo tempo, em seu espírito se trava um conflito interessante
e se produz uma confusão que toda gente pode por si mesma apreciar, desde
que se aplique a fazer uma escolha de incidentes com esse fim. Podemos figurar-nos
de igual modo a situação de um Espírito desencarnado que
só dispõe de alguns minutos para dar sua comunicação,
e que luta provavelmente com enormes dificuldades de que não podemos
fazer idéia." O professor Hyslop é um observador metódico
e solerte. Cumpre, entretanto, assinalar que ele só estudou até
agora um caso insulado — o da Sra. Piper. Uma experimentação
de trinta anos tem demonstrado que, apesar das dificuldades inerentes a todo
gênero de comunicação espírita, as provas de identidade
são muito mais abundantes do que geralmente se acredita. Em certas reuniões
privadas, são diariamente fornecidas provas da sobrevivência dos
que nos foram caros; essas provas, porém, são quase sempre guardadas
cuidadosamente, porque se referem à vida íntima dos experimentadores.
Entre estes muitos receiam as críticas mordazes e não querem expor
às vistas de indiferentes, de cépticos motejadores, os mais sagrados
sentimentos, os segredos mais íntimos de seu coração.
Muitas vezes Espíritos desconhecidos dos assistentes vêm dar comunicações
dirigidas a seus parentes ainda vivos, comunicações que contêm,
não raro, característicos originais, provas irrefutáveis.
Essas manifestações, todavia, permanecem ignoradas em sua maior
parte. Receiam-se os sarcasmos de sábios superficiais e as prevenções
do vulgo, sempre pronto a rejeitar fatos que ultrapassam a órbita dos
conhecimentos usuais. Daí resulta que as mais peremptórias manifestações
raramente chegam ao conhecimento do público.
No mesmo sentido se nota extrema circunspeção e grande reserva
da parte dos Espíritos nas reuniões franqueadas a todos. É
principalmente na intimidade da família e de alguns amigos que se reúnem
os melhores elementos para obter boas provas. Facilitada pela afeição
e harmonia dos pensamentos, a confiança recíproca se estabelece,
e com ela a sinceridade e a sem-cerimônia. O Espírito encontra
um conjunto de condições fluídicas que asseguram à
transmissão de seu pensamento toda a clareza e precisão necessárias
para levar a convicção ao ânimo dos assistentes.
Os Espíritos adiantados não se prestam de bom grado às
nossas exigências. Suas comunicações têm sempre um
caráter moral e impessoal; seu pensamento paira demasiado alto, acima
das esferas da individualidade, para que lhes não seja penoso aí
baixar. Em sua maioria, tiveram eles na Terra existências de sacrifícios,
suportaram vidas dolorosas — condições de sua própria
elevação; — não gostam, quando a si mesmo aludem,
de ornar-se com seus títulos de merecimento. Para convencer os cépticos,
lançam mão de outros recursos; preferem introduzir em nossas sessões
Espíritos mais atrasados, individualidades que na Terra conhecemos e
que, por sua originalidade, seu modo de falar, de gesticular, de pensar, nos
fornecerão provas satisfatórias. Assim procediam os Guias do nosso
grupo. Sob sua direção, Espíritos assaz vulgares, mas animados
de boas intenções — uma vendedora de legumes, um ferreiro
de aldeia, uma velhota tagarela — e outros ainda, falecidos parentes de
membros do grupo, se manifestavam, no transe, por sinais característicos
e inimitáveis. Sua identidade se estabelecia por considerável
variedade de pormenores, de incidentes domésticos; mas, se eram de indubitável
interesse para os que os haviam conhecido, seriam considerados fastidiosos por
outros e assim não conviria serem trazidos a público. A multiplicidade
e repetição cotidiana dos pequeninos fatos de que se compõe
uma existência, ainda que impossíveis de reproduzir e analisar,
terminam por impressionar os mais refratários e triunfar das mais tenazes
dúvidas.
Todos os dias, em muitos grupos se obtêm a revelação de
nomes, datas, fatos desconhecidos e mais tarde comprovados; mas não podem
ser divulgados, porque interessam pessoas ainda vivas, que não autorizam
a sua publicação. Ou são ainda revelações
científicas que se obtêm, como as que relata Aksakof, no caso do
Sr. Barkas, de Newcastle, revelações muito acima da capacidade
do sensitivo. Outras vezes são fenômenos de escrita, como os que
assinalou o mesmo autor, e assinaturas autênticas de personalidades que
o médium jamais vira, como, por exemplo, as do cura Burnier e do síndico
Chaumontet, falecidos havia meio século, obtidas por Helena Smith, de
Genebra. O professor Flournoy as atribui a um despertar da subconsciência
do sensitivo; é essa, como vimos, uma teoria "ad hoc", muito
cômoda para explicar o que se não compreende, ou não se
quer compreender. Em "Spirit Identity", Stainton Moses relata notáveis
fatos de identidade, obtidos pela mediunidade escrevente e baseados em testemunhos
oficiais. Declara ele possuir uns cem casos desse gênero, e muitos experimentadores
poderiam dizer outro tanto. Entre esses numerosos fenômenos, pode-se recordar
o caso citado pelo "Light", de 27 de maio de 1899, e devido à
mediunidade de Mrs. Bessie Russell-Davies, de Londres:
"Um pedido de prova de identidade, formulado por pessoas ligadas à
Corte de Viena, havia sido endereçado à aludida senhora. As perguntas
estavam encerradas num invólucro lacrado, que se conservou intacto. Depois
de alguns dias de investigações, o Guia do médium voltou
com cinco Espíritos estranhos, que ditaram uma resposta em idioma desconhecido.
Feito o exame, reconheceram os interlocutores que essa língua era o antigo
madgiar, idioma unicamente conhecido de alguns eruditos. A resposta estava assinada
por cinco personagens que tinham vivido dois séculos antes e eram membros
falecidos da família húngara que solicitara esse testemunho."
Aqui está outra prova, mais concludente em sua simplicidade que estrepitosas
manifestações. É extraída da obra de Watson, publicista
americano, "Spiritualism, its phenomenes", Nova Iorque, 1880: "Watson
tinha recebido uma comunicação assinada por seu amigo o General
Th. Rivers. Segundo o costume inglês, o general apusera as iniciais de
seus nomes próprios, entre as quais figurava um W. Ora, nenhum de seus
nomes próprios admitia essa inicial. Por escrúpulo e respeito
à verdade, Watson havia publicado essa assinatura sem modificação
mas a contragosto e não sem alguma desconfiança, que certos pormenores
da missiva parecia deverem dissipar. Os contraditores da imprensa não
perderam, a ocasião denunciar o erro, metendo a ridículo esse
Espírito que não sabia o próprio nome. (...)
11- O LIVRO DOS ESPÍRITOS - ALLAN KARDEC - QUESTÕES:
284, 366
Perg.
284. Como podem os Espíritos, que não têm mais corpo, constatar
a própria individualidade e distinguir-se dos outros que os rodeiam?
- Constatam a sua individualidade pelo perispírito, que os torna seres
distintos uns para os outros,
como os corpos entre os homens.
Perg. 366. Que pensar da opinião segundo a qual as diferentes faculdades
intelectuais e morais do homem seriam o produto de outros tantos Espíritos
diversos, nele encarnados, tendo cada qual uma aptidão especial? —
Refletindo-se a respeito, reconhece-se que é absurda. O Espírito
deve ter todas as aptidões. Para poder progredir, necessita de uma vontade
única. Se o homem fosse um amálgama de Espíritos, essa
vontade não existiria e ele não teria individualidade, pois na
sua morte todos esses Espíritos seriam como um bando de pássaros
escapos da gaiola. O homem se queixa muitas vezes de não compreender
algumas coisas, mas é curioso ver-se como ele multiplica as dificuldades,
quando tem em mãos uma explicação muito simples e natural.
Isso é ainda tomar o efeito pela causa: fazer com o homem o que os pagãos
faziam com Deus. Eles criam em tantos deuses quantos os fenômenos do Universo.
Mas, mesmo entre eles, as pessoas sensatas não viam nesses fenômeno
mais do que efeitos, tendo por causa um Deus único.
O mundo físico e o mundo moral nos oferecem, a respeito, numerosos pontos
de comparação. Acreditou-se na multiplicidade da matéria,
enquanto o exame se detinha na aparência dos fenômenos; hoje, compreende-se
que esses fenômenos tão variados podem não ser mais do que
modificações de uma matéria elementar única. As
diversas faculdades são manifestações de uma mesma causa
que é a alma, ou Espírito encarnado, e não de muitas almas,
como os diferentes sons do órgão são produtos de uma mesma
espécie de ar, e não de tantas espécies de ar quantos forem
os sons. Desse sistema resultaria que, quando um homem perdesse ou adquirisse
certas aptidões, certa tendências, isso significaria que outros
tantos Espíritos o teriam possuído ou deixado, o que o tornaria
um ser múltiplo, sem individualidade e, conseqüentemente, sem responsabilidade.
Isto, além do mais, é contraditado pelos tão numerosos
exemplos de manifestações em que os Espíritos provam sua
personalidade e sua identidade.
INTRODUÇÃO - XII—DA IDENTIFICAÇÃO
DOS ESPÍRITOS
Um fato demonstrado pela observação e confirmado pelos próprios
Espíritos é que os Espíritos inferiores apresentam-se muitas
vezes com nomes conhecidos e respeitados. Quem pode, portanto, assegurar que
aqueles que dizem ter sido Sócrates, Júlio César, Carlos
Magno, Fénelon, Napoleão, Washington etc. tenham realmente animado
esses personagens? Essa dúvida existe entre alguns adeptos bastante fervorosos
da Doutrina Espírita.
Admitem
a intervenção; e a manifestação dos Espíritos,
mas perguntam que controle podemos ter da sua identidade. Esse controle é
de fato bastante difícil de realizar, mas se não pode ser feito
de maneira tão autêntica como por uma certidão de registro
civil, pode sê-lo por presunção, por meio de certos indícios.
Quando se manifesta o Espírito de alguém que pessoalmente conhecemos,
de um parente ou de um amigo, sobretudo se morreu há pouco tempo, acontece
geralmente que sua linguagem corresponde com perfeição às
características que conhecíamos. Isto já e um indício
de identidade. Mas a dúvida já não será certamente
possível quando esse Espírito fala de coisas particulares, lembra
casos familiares que somente o interlocutor conhece. Um filho não se
enganará, por certo, com a linguagem de seu pai e de sua mãe,
nem os pais com a linguagem do filho. Passam-se algumas vezes, nessas evocações
íntimas, coisas impressionantes, capazes de convencer o mais incrédulo.
O cético mais endurecido é muitas vezes aterrado com as revelações
inesperadas que lhe são feitas.
Outra circunstância bastante característica favorece a identidade.
Dissemos que a caligrafia do médium muda geralmente com o Espírito
evocado, reproduzindo-se exatamente a mesma, de cada vez que o mesmo Espírito
se manifesta. Constatou-se inúmeras vezes que, para pessoas mortas recentemente,
a escrita revela semelhança flagrante com a que rinha em vida: têm-se
visto assinaturas perfeitamente idênticas. Estamos longe, entretanto,
de citar esse fato como uma regra, sobretudo como constante; mencionamo-lo como
coisa digna de registro.
Os Espíritos que atingiram certo grau de depuração são
os únicos libertos de toda influência corporal; mas quando não
estão completa-mente desmaterializados (esta é a expressão
de que se servem) conservam a maior parte das idéias, dos pendores e,
até mesmo das manias que tinham na Terra, e este é ainda um meio
pelo qual podemos reconhecê-los. Mas chegamos ao reconhecimento, sobretudo,
por meio de uma multidão de detalhes que somente uma observação
atenta e contínua pode revelar. Vêem-se escritores discutirem suas
próprias obras ou suas doutrinas, aprovando-as ou condenando certas partes;
outros Espíritos lembrarem circunstâncias ignoradas ou pouco conhecidas
de suas vidas ou suas mortes; todas as coisas, enfim, que são pelo menos
provas morais de identidade, as únicas que se podem invocar tratando-se
de coisas abstratas.
Se, pois, a identidade do Espírito evocado pode ser, até certo
ponto, estabelecida em alguns casos, não há razão para
que ela não o possa ser em outros. E se, para as pessoas de morte mais
remota, não temos os mesmos meios de controle, dispomos sempre daqueles
que se referem à linguagem e ao caráter. Porque, seguramente,
o Espírito de um homem de bem nunca falará como o de um perverso
ou imoral. Quanto aos Espíritos que se servem de nomes respeitáveis,
logo se traem por sua linguagem e suas máximas. Aquele que se dissesse
Fénelon, por exemplo, e ainda que acidentalmente ferisse o bom senso
e a moral, mostraria nisso mesmo o seu embuste. Se, ao contrário, os
pensamentos que exprime são sempre puros, sem contradições,
constantemente à altura do caráter de Fénelon, não
haverá motivos para duvidar-se de sua identidade.
Do contrário, teríamos de supor que um Espírito que só prega o bem pode conscientemente empregar a mentira, sem nenhuma utilidade. A experiência nos ensina que os Espíritos do mesmo grau, do mesmo caráter e animados dos mesmos sentimentos, reúnem-se em grupos e em famílias. Ora, o número dos Espíritos é incalculável e estamos longe de conhecê-los a todos; a maioria deles não tem nomes para nós. Um Espírito da categoria de Fénelon pode, portanto, vir em seu lugar, às vezes mesmo com o seu nome, porque é idêntico a ele e pode substituí-lo e porque necessitamos de um nome para fixar as nossas idéias.
Mas
que importa, na verdade, que um Espírito seja realmente o de Fénelon?
Desde que só diga boas coisas e não fale senão como o faria
o próprio Fénelon, é um bom Espírito; o nome sob
o qual se apresenta é indiferente e nada mais é, frequentemente,
do que um meio para a fixação de nossas idéias. Não
se verifica o mesmo nas evocações íntimas, pois nestas,
como já dissemos, a identidade pode ser estabelecida por meio de provas
que são, de alguma forma, evidentes.
Por fim, é certo que a substituição dos Espíritos
pode ocasionar uma porção de enganos, resultar em erros e muitas
vezes em mistificações. Esta é uma das dificuldades do
Espiritismo prático. Mas jamais dissemos que esta Ciência seja
fácil nem que se possa aprendê-la brincando, como também
não se dá com qualquer outra Ciência. Nunca será
demais repetir que ela exige estudo constante e quase sempre bastante prolongado.
Não se podendo provocar os fatos, é necessário esperar
que eles se apresentem por si mesmos, e frequentemente eles nos são trazidos
pela circunstâncias em que menos pensávamos. Para o observador
atento e paciente os fatos se tornam abundantes, porque ele descobre milhares
de nuanças características que lhe parecem como raio de luz. O
mesmo se dá com referência às ciências comuns; enquanto
o homem superficial só vê numa flor a sua forma elegante, o sábio
descobre verdadeiras maravilhas para o seu pensamento.
12 - O LIVRO DOS MÉDIUNS - ALLAN KARDEC - CAP. XXIV - IDENTIDADE DOS ESPÍRITOS - PÁG. 293
As
provas possíveis de identidade:
ÍTEM 255. A questão da identidade dos Espíritos é
uma das mais controvertidas, mesmo entre os adeptos do Espiritismo. Porque os
Espíritos, de fato, não trazem nenhum documento de identificação
e sabe-se com que facilidade alguns deles usam nomes emprestados. Esta é,
portanto, depois da obsessão, uma das maiores dificuldades da prática
espírita. Mas, em muitos casos, a questão da identidade absoluta
é secundária e desprovida de importância real. A mais difícil
de se constatar é a identidade de personagens antigas que, muitas vezes,
se torna mesmo impossível, reduzindo-se a uma possibilidade de apreciação
puramente intelectual. Julgamos os Espíritos, como os homens, pela linguagem.
Se um Espírito se apresenta, por exemplo, com o nome de Fénelon,
dizendo trivialidades e puerilidades, é evidente que não pode
ser ele. Mas, se as coisas que diz são dignas do caráter de Pénelon
e não o contradizem, temos uma prova, senão material, pelo menos
de grande possibilidade moral de que seja ele. É sobretudo, nesses casos
que a identidade real se torna uma questão secundária: desde que
o Espírito só diz boas coisas, pouco importa o nome que esteja
usando. Há, sem dúvida, a objeção de que um Espírito
que tomasse nome suposto, mesmo que só para o bem, não deixaria
de cometer uma fraude e por isso não poderia ser bom. É neste
ponto que surgem questões delicadas, difíceis de se compreender
e que vamos tentar desenvolver.
256. À medida que os Espíritos se purificam e se elevam na hierarquia,
as características distintivas de sua personalidade desaparecem, de certa
maneira, na uniformidade da perfeição, mas nem por isso deixam
eles de conservar a sua individualidade. É o que se verifica com os Espíritos
superiores e os Espíritos puros. Nessa posição, o nome
que tiveram na Terra, numa das mil existências corporais efêmeras
por que passaram, nada mais significa. Notemos, ainda, que os Espíritos
se atraem mutuamente pela semelhança de suas qualidades, constituindo
grupos ou famílias simpáticas. Se considerarmos, por outro lado,
o número imenso de Espíritos que, desde a origem dos tempos, devem
haver atingido os planos mais elevados, e se o compararmos ao número
tão restrito de homens que deixaram na Terra um grande nome, compreenderemos
que, entre os Espíritos superiores que podem comunicar-se, a maioria
não deve ter nomes para nós. Mas, como precisamos de nomes para
fixar as nossas idéias, eles podem tomar o de um personagem conhecido,
cuja natureza mais se identifique com a deles. É assim que os nossos
anjos guardiães se fazem conhecer, na maioria das vezes, pelo nome de
um santo que veneramos, escolhendo geralmente o do santo de nossa preferência.
Dessa maneira, se o anjo guardião de uma pessoa dá o nome de São
Pedro, por exemplo, não há nenhuma prova material de tratar-se
do apóstolo. Tanto pode ser ele como um Espírito inteiramente
desconhecido, pertencente à família de Espíritos a que
São Pedro pertence. Acontece ainda que, seja qual for o nome pelo qual
se invoque o anjo guardião, ele atenderá ao chamado porque é
atraído pelo pensamento e o nome lhe é indiferente.
O mesmo se verifica todas as vezes que um Espírito superior se comunica,
usando o nome de um personagem conhecido. Nada prova que seja precisamente o
Espírito desse personagem. Mas se ele nada diz, no seu ditado espontâneo,
que desminta a elevação espiritual do nome citado, existe a presunção
de que seja ele. E em todos esses casos se pode dizer que, se não é
ele, deve ser um Espírito do mesmo grau ou talvez mesmo um seu enviado.
Em resumo: a questão do nome é secundária, podendo-se considerar
o nome como simples indício do lugar que o Espírito ocupa na Escala
Espírita. A situação é outra, quando um Espírito
de ordem inferior se enfeita com um nome respeitável para se fazer acreditar.
E esse caso é tão comum, que não seria demais manter-se
em guarda contra esses embustes. Porque é graças a nomes emprestados
e, sobretudo, com a ajuda da fascinação, que certos Espíritos
sistemáticos, mais orgulhosos do que sábios, procuram impingir
as idéias mais ridículas.
Assim, a questão da identidade, como dissemos, é mais ou menos
indiferente quando se trata de instruções gerais, desde que os
Espíritos mais elevados podem substituir-se mutuamente, sem que isso
acarrete consequências. Os Espíritos superiores constituem, por
assim dizer, unia coletividade, cujas individualidades nos são, com poucas
excessões, completamente desconhecidas. O que nos interessa não
são as pessoas, mas o ensino. Ora, se o ensino é bom, pouco importa
que venha de Pedro ou de Paulo. Devemos julgá-lo pela qualidade e não
pelo nome. Se um vinho é mau, não é a etiqueta que o faz
melhor. Mas já é diferente nas comunicações íntimas,
porque então é o indivíduo, a sua pessoa que nos interessa.
É pois com razão que, nessa circunstância, se procure assegurar
de que o Espírito manifestante é realmente o que se deseja.
257. A identidade é muito mais fácil de constatar quando se trata
de Espíritos contemporâneos, cujos hábitos e caráter
são conhecidos. Porque são precisamente esses hábitos,
de que ainda não tiveram tempo de se livrar, que nos permitem reconhecê-los.
E digamos logo que são eles um dos sinais mais certos de identidade.
O Espírito pode, sem dúvida, dar suas provas através das
perguntas que lhe fazem, mas isso quando lhe convém. Em geral o pedido
nesse sentido o magoa, pelo que devemos evitar fazê-lo. Deixando o corpo,
o Espírito não se despoja da sua susceptibilidade. Toda pergunta
para pô-lo à prova o aborrece. Há perguntas que ninguém
lhe faria em vida, com medo de faltar às conveniências. Por que
tratá-lo com menos consideração após a morte?
Se um homem se apresenta num salão declinando o seu nome, irá
alguém lhe pedir documentos à queima-roupa, sob o pretexto de
que há impostores? Esse homem teria o direito de lembrar ao interrogante
as regras de civilidade. É o que fazem os Espíritos que não
respondem ou que se retiram.
Tomemos um exemplo, para comparação. Suponhamos que o astrónomo
Arago, quando vivo, se apresentasse numa casa em que não o conheciam
e fosse recebido assim: "— Dizeis que sois Arago, mas como não
vos conhecemos, desejamos que o proveis respondendo às nossas perguntas:
resolvei este problema de astronomia; dai-nos o vosso nome, prenome e os de
vossos filhos; dizei o que fizestes em tal dia, a tal hora, etc." O que
ele responderia? Pois bem, como Espírito fará o que faria quando
vivo, e os outros Espíritos farão o mesmo.
258. Recusando-se a responder perguntas pueris e absurdas que não lhes
fariam quando vivos, os Espíritos, entretanto, frequentemente dão
provas espontâneas e irrecusáveis da sua identidade. Isso pela
revelação do próprio caráter através da linguagem,
pelo emprego de expressões que lhes seriam familiares, pela referência
a alguns fatos significativos de particularidades de sua vida, às vezes
desconhecidas dos assistentes, cuja veracidade se pode verificar. As provas
de identidade ressaltam ainda de muitas circunstâncias imprevistas, que
nem sempre surgem no primeiro momento, mas na sequência das manifestações.
É conveniente, pois, esperá-las ao invés de as provocar,
observando-se cuidadosamente todas as que possam provir da natureza das comunicações.
259. Um meio, às vezes usado com sucesso para assegurar a identidade,
quando o Espírito se torna suspeito, é o de fazê-lo afirmar
em nome de Deus todo poderoso que é ele mesmo. Acontece muitas vezes
que o usurpador recua diante do sacrilégio. Depois de haver começado
a escrever: Afirmo em nome de.. . para e risca, encolerizado, traços
sem significação ou quebra o lápis. Sendo mais hipócrita,
contorna o problema através de uma omissão, escrevendo, por exemplo:
Eu vos certifico que digo a verdade; ou ainda: Atesto, em nome de Deus, que
sou eu mesmo quem vos falo, etc..Mas, há os que não são
assim escrupulosos e juram por tudo o que se quiser. Um deles se comunicava
com um médium dizendo-se o próprio Deus e o médium, muito
honrado com tão elevada graça, não hesitou em acreditar.
Evocado por nós, não ousou sustentar a impostura e disse: —
Eu não sou Deus, mas sou seu filho. — Então sois Jesus?
Isso não é provável, porque Jesus está muito elevado
para empregar subterfúgios. Ousais afirmar, em nome de Deus, que és
o Cristo? — Eu não disse que sou Jesus, disse que sou filho de
Deus porque sou uma das suas criaturas. Deve-se concluir disso que a recusa
de um Espírito em afirmar a sua identidade em nome de Deus, é
sempre uma prova de que usa de impostura, mas que a afirmação
nos dá apenas uma presunção e não uma prova da identidade.
260. Pode-se também colocar entre as provas de identidade a semelhança
de caligrafia e de assinatura. Mas, além de não ser dado a todos
os médiuns obter esse resultado, ele nem sempre representa uma garantia
suficiente. Há falsarios no mundo dos Espíritos, como no nosso.
Essa semelhança não representa mais do que uma presunção
de identidade, que só adquire valor dentro das circunstâncias em
que se produziu. O mesmo se dá com todos os sinais materiais que alguns
dão, como talismãs inimitáveis pelos Espíritos mentirosos.
Para aqueles que ousam perjurar em nome de Deus ou imitar uma assinatura, nenhum
signo material pode representar obstáculo maior. A melhor de todas as
provas de identidade está na linguagem e nas circunstâncias imprevistas.
261. Certamente se dirá que, se um Espírito pode imitar uma assinatura,
pode também imitar a linguagem. É verdade. Temos visto os que
tomam afrontosamente o nome do Cristo e, para melhor enganar, imitam o estilo
evangélico, excedendo-se nas expressões mais conhecidas: Em verdade,
em verdade vos digo. Mas quando se estuda o texto sem se deixar influenciar,
vendo-se ao lado das belas máximas de caridade como recomendações
pueris e ridículas, seria preciso que se estivesse fascinado para se
enganar. Sim, certos aspectos formais da linguagem podem ser imitados, mas não
o pensamento. A ignorância jamais imitará o verdadeiro saber como
jamais o vício imitará a verdadeira virtude. Sempre aparecerá
de algum lado a ponta da orelha. É, então, que o médium
e o evocador devem usar de toda a sua perspicácia e raciocínio
para separar a verdade da mentira. Devem persuadir-se de que os Espíritos
perversos são capazes de todas as trapaças e de que, quanto mais
elevado for o nome usado, mais desconfiança deve provocar. Quantos médiuns
têm recebido comunicações apócrifas assinadas por
Jesus, Maria ou algum santo venerado!
13 - O QUE É O ESPIRITISMO - ALLAN KARDEC - ÍTEM 87 - PÁG. 181
87. Enquanto o médium imperfeito se orgulha pelos nomes ilustres, frequentemente
apócrifos, que assinam as comunicações por ele recebidas
e se considera intérprete privilegiado das potências celestes,
o bom médium nunca se crê assaz digno de tal favor; ele tem sempre
uma salutar desconfiança do merecimento do que recebe e não se
fia no seu próprio juízo; não sendo senão instrumento
passivo, compreende que o bom resultado não lhe confere mérito
pessoal, como nenhuma responsabilidade lhe cabe pelo mau; e que seria ridículo
crer na identidade absoluta dos Espíritos que se lhe manifestam. Deixa
que terceiros, desinteressados, julguem do seu trabalho, sem que o seu amor-próprio
se ofenda por qualquer decisão contrária, do mesmo modo que um
ator não se pode dar por ofendido com as censuras feitas à peça
de que é intérprete.. O seu caráter distintivo é
a simplicidade e a modéstia; julga-se feliz com a faculdade que possui,
não por vanglória, mas por lhe ser um meio de tornar-se útil,
o que faz de boamente quando se lhe oferece ocasião, sem jamais incomodar-se
por não o preferirem aos outros. Os médiuns são os intermediários,
os intérpretes dos Espíritos; ao evocador e, mesmo, ao simples
observador, cabe apreciar o mérito do instrumento.
88. Como todas as outras faculdades, a mediunidade é um dom de Deus,
que se pode empregar tanto para o bem quanto para o mal, e da qual se pode abusar.
Seu fim é pôr-nos em relação direta com as almas
daqueles que viveram, a fim de recebermos ensinamentos e iniciações
da vida futura. Assim como a vista nos põe em relação com
o mundo visível, a mediunidade nos liga ao invisível. Aquele que
dela se utiliza para o seu adiantamento e o de seus irmãos, desempenha
uma verdadeira missão e será recompensado. O que abusa e a emprega
em coisas fúteis ou para satisfazer interesses materiais, desvia-a do
seu fim providencial, e, tarde ou cedo, será punido, como todo homem
que faça mau uso de uma faculdade qualquer.
CHARLATANISMO: 89. Certas manifestações
espíritas facilmente se prestam à imitação; porém,
apesar de as terem explorado os prestidigitadores e charlatães, do mesmo
modo que o fazem com tantos outros fenômenos, é absurdo crer-se
que elas não existam e sejam sempre produto do charlatanismo. Quem estudou
e conhece as condições normais em que elas se dão, distingue
facilmente a imitação da realidade; além disso, aquela
nunca pode ser completa e só ilude o ignorante, incapaz de distinguir
as diferenciações características do fenômeno verdadeiro.
90. As manifestações que se imitam, com mais facilidade, são
as de efeitos físicos e as de efeitos inteligentes vulgares, como movimentos,
pancadas, transportes, escrita direta, respostas banais, etc.; não se
dá o mesmo, porém, com as comunicações inteligentes
de subido alcance; para imitar aquelas, bastam destreza e habilidade; ao passo
que, para simular as últimas, se torna necessária, quase sempre,
uma instrução pouco comum, uma superioridade intelectiva excepcional,
uma faculdade de improvisação universal, se assim nos permitem
classificá-la.
91. Os que não conhecem o Espiritismo, são geralmente induzidos
a suspeitar da boa-fé dos médiuns; só o estudo e a experiência
lhes poderão fornecer os meios de se certificarem da realidade dos fatos;
fora disso, a melhor garantia que podem ter está no desinteresse absoluto
e na probidade do médium; há pessoas que, por sua posição
e caráter, estão acima de qualquer suspeita. Se a tentação
do lucro pode excitar à fraude, o bom-senso diz que o charlatanismo não
se mostra onde nada tem a ganhar.
92. Entre os adeptos do Espiritismo, encontram-se entusiastas e exaltados, como
em todas as coisas; são, em geral, os piores propagadores, porque a facilidade
com que, sem exame, aceitam tudo, desperta desconfiança. O espírita
esclarecido repele esse entusiasmo cego, observa com frieza e calma, e, assim,
evita ser vítima de ilusões e mistificações. Â
parte toda a questão de boa-fé, o observador novato deve, antes
de tudo, atender à gravidade do caráter daqueles a quem se dirige.
IDENTIDADE DOS ESPÍRITOS: 93. Uma vez que
no meio dos Espíritos se encontram todos os caprichos da humanidade,
não podem deixar de existir entre eles os ardilosos e os mentirosos;
alguns não têm o menor escrúpulo de se apresentar sob os
mais respeitáveis nomes, com o fim de inspirarem mais confiança.
Devemos, pois, abster-nos de crer de um modo absoluto na autenticidade de todas
as assinaturas de Espíritos.
94. A identidade é uma das grandes dificuldades do Espiritismo prático,
sendo muitas vezes impossível verificá-la, sobretudo quando se
trata de Espíritos superiores, Entre os que se manifestam, muitos não
têm nomes para nós; mas, então, para fixar as nossas idéias,
eles podem tomar o de um Espírito conhecido, da mesma categoria da sua;
de modo que, se um Espírito se comunicar com o nome de S. Pedro, por
exemplo, nada nos prova que seja precisamente o apóstolo desse nome;
tanto pode ser ele como outro da mesma ordem, como ainda um enviado seu. A questão
da identidade é, neste caso, inteiramente secundária e seria pueril
atribuir-lhe importância; o que importa é a natureza do ensino,
se é bom ou mau, digno ou indigno da personagem que o assina; se esta
o subscreveria ou repeliria: eis a questão.
95. A identidade é de mais fácil verificação quando
se trata de Espíritos contemporâneos, cujo caráter e hábitos
sejam conhecidos, porque é por esses mesmos hábitos e particularidades
da vida privada que a identidade se revela mais seguramente e, muitas vezes,
de modo incontestável. Quando se evoca, um parente ou um amigo, é
a personalidade que interessa, e então é muito natural buscar-se
reconhecer a identidade; os meios, porém, que geralmente emprega para
isso quem não conhece o Espiritismo, senão imperfeitamente, são
insuficientes e podem induzir a erro.
96. O Espírito revela sua identidade por grande número de circunstâncias,
patenteadas nas comunicações, nas quais se refletem seus hábitos,
caráter, linguagem e até locuções familiares. Ela
se revela ainda nos detalhes íntimos em que entra espontaneamente, com
as pessoas a quem ama: são as melhores provas; é muito raro, porém,
que ele satisfaça às perguntas diretas que lhe são feitas
a esse respeito, sobretudo se elas partirem de pessoas que lhe são indiferentes,
com intuito de curiosidade ou de prova. O Espírito demonstra a sua identidade
como quer e pode, segundo o gênero de faculdade do seu intérprete
e, às vezes, essas provas são superabundantes; o erro está
em querer que ele as dê, como deseja o evocador; é então
que ele recusa sujeitar-se às exigências.
CONTRADIÇÕES: 97. As contradições
que frequentemente se notam, na linguagem dos Espíritos, não podem
causar admiração senão àqueles que só possuem
da ciência espírita um conhecimento incompleto, pois são
a consequência da natureza mesma dos Espíritos, que, como já
dissemos, não sabem as coisas senão na razão do seu adiantamento,
sendo que muitos podem saber menos que certos homens. Sobre grande número
de pontos, eles não emitem mais que a sua opinião pessoal, que
pode ser mais ou menos acertada, e conservar ainda um reflexo dos prejuízos
terrestres de que se não despojaram; outros forjam sistemas seus, sobre
aquilo que ainda não conhecem, particularmente no que diz respeito a
questões científicas e à origem das coisas. Nada, pois,
há de surpreendente, em que nem sempre estejam de acordo.
98. Espantam-se de encontrarem comunicações contraditórias
assinadas por um mesmo nome. Somente os Espíritos inferiores mudam de
linguagem com as circunstâncias, mas os Espíritos superiores nunca
se contradizem. Por pouco que se esteja iniciado nos mistérios do mundo
espiritual, sabe-se com que facilidade certos Espíritos adotam nomes
diferentes, para dar mais peso às suas palavras; disso com segurança
se pode inferir que se duas comunicações, radicalmente contraditórias
no fundo, trazem o mesmo nome respeitável, uma delas é necessariamente
apócrifa.
17 - TEMAS DA VIDA E DA MORTE - MANOEL P. DE MIRANDA - PÁG. 147
IDENTIFICAÇÃO
DOS ESPÍRITOS
Questão grave, a da identificação
dos Espíritos, nos fenômenos mediúnicos. Utilizando-se de
um equipamento muito complicado, nem todos os comunicantes sabem manipulá-lo
como seria de desejar. Além disso, as próprias complexidades e
circunstâncias em que ocorre o fenômeno geram desafios aos mais
experientes desencarnados, que se vêem a braços com a vontade e
o caráter do médium, no momento das comunicações.
Outrossim, deve-se ter em mente que a morte biológica não é
igual para todos, sendo o despertar na ultratumba conforme o comportamento vivenciado
durante toda a existência corporal. Tomando consciência da realidade
na qual ora se encontram, os Espíritos lúcidos passam a experimentar
verdadeira revolução conceptual, obrigando-se a reconsiderar opiniões
e objetivos aos quais se aferravam antes da libertação.
A surpresa que lhes assinala a consciência ante outros valores, alguns
dos quais lhes eram desconhecidos ou não considerados, fá-los
reavaliar o comportamento cultural e emocional, direcionando-os a novas ações,
algumas bem diversas daquelas a que se habituaram no corpo somático.
Ampliam-se-lhes
os horizontes da compreensão humana, e a visão, a respeito do
destino, passa a experimentar uma correção de ângulo, que
exige acuradas reflexões e largo esforço reeducativo. Embora não
se modifiquem as áreas afetivas, as dos interesses antes tão significativos
sofrem alterações de magnitude. Os literatos e poetas, romancistas
e pertencentes à faina periodística, vêem alterados os fins
que antes perseguiam, e as temáticas que lhes eram familiares, carregadas
de emoção e paixões específicas, cedem lugar a objetivos
bem diversos daqueles que os impeliam às competições, às
lutas nas quais disputavam projeção e relevo.
Deixam de lado então, porque sem significado, as láureas e honras
humanas, as glórias e homenagens, que os agradavam antes, e vestem o
burel da humildade e reformulam opiniões, agora com idealismo diferente.
É certo que lhes não esmaece o vigor nem o entusiasmo pela ação
promotora do progresso, o desejo sincero de oferecer cultura e beleza.
No entanto, a forma de fazê-lo altera-se, e os modismos envaidecedores,
que os caracterizavam, perdem a empatia anterior, o interesse central. Mantêm
o estilo, pois que cada ser possui características próprias, tipificadoras,
como resultado da soma das suas experiências e conquistas, valores esses
que lhes exornam a individualidade eterna.
Desinteressam-se, no entanto, pela grafia e até pela gramática,
quando escrevem do Além, embora os mais habilitados no intercâmbio
busquem conciliar tais recursos, unindo, ao conteúdo superior de que
tratam, a forma elegante e escorreita. Estranham, porém, os críticos
do fenômeno mais exigentes, que não encontram, nos seus autores
preferidos, quando em mensagens mediúnicas, aquele gênio e aquela
grandeza que se acostumaram a admirar. Afirmam até que são menos
fecundos e originais, no além-túmulo, do que o foram quando nas
lides do proscênio humano.
É destituída de fundamento tal crítica, posto que a diferença
dos temas enfocados, dirigidos agora para outro sentido ético e cultural,
faz que percam as cores carregadas que antes se encontravam nos escritos fortes
e apaixonados, açulando sensações e lutas encarniçadas
com direcionamento para o orgulho pessoal, o egocentrismo, os partidos e as
facções a que pertenciam e buscavam promover. A morte é
a desveladora da vida.
O fenômeno mediúnico é sutil e exige acurada percepção
para uma análise adequada, sem as precipitações dos que
opinam sem o conhecer, nem as versões dos que se crêem autoridades,
e, no entanto, não possuem o necessário senso de análise
para correta avaliação do mesmo. A faculdade mediúnica
varia de indivíduo para indivíduo, conforme a aptidão pessoal
de cada um, apresentando características especiais que lhe facultam melhor
percepção para um outro tipo de comunicação, sendo
sempre, ele próprio, em Espirito, o intérprete eficiente ou não
da mensagem.
O médium, na condição de instrumento, é um condutor,
com todas as virtudes e defeitos de qualquer mensageiro. Tome-se como experiência
o envio de simples recado a um destinatário exigente: Chamados vários
indivíduos, de diferente formação cultural, moral e educativa,
participe-se a eles a informacão, pedindo que cada um, a seu turno, transmita
a mensagem que ora se lhes entrega. Sem dúvida, cada um dará conta
da incumbência, não conforme aconteceu, mas consoante sua capacidade
retentiva, sua emoção e lucidez, com variantes tais que produzirão
confusão naquele a quem foi endereçada. Temos aí pálida
idéia do que ocorre no intercâmbio mediúnico.
O médium côa o pensamento do Espírito e veste-o com os seus
recursos, num automatismo que o exercício lhe faculta, decorrente do
conhecimento da sua função, da disciplina mental, enfim, de diversos
requisitos indispensáveis a um bom desempenho da tarefa. Mesmo nos fenômenos
de ectoplasmia, quando ocorrem as materializações, os elementos
retirados do médium não ficam em absoluta neutralidade.
O som que se exterioriza de qualquer instrumento, por mais que variem aqueles
que o acionam, não excede à sua própria constituição.
A diferença do artista se observará no virtuosismo, no afínamento
melódico, na harmonia das notas, sem que seja eliminado, porém,
o recurso do aparelho gerador.
Ocorrem, muitas vezes, excelentes ditados mediúnicos, belos quanto corretos,
na forma e no fundo, através de pessoas incultas, parecendo invalidar
o que afirmamos. Mesmo aí, a transmissão, Espírito a Espírito,
é feita psiquicamente, e as conquistas de outras reencarnações,
latentes no perispírito do instrumento, se encarregam da exteriorização
correta pelo mesmo automatismo já referido.
Da mesma forma, quando se trata de comunicações que procedem de
Espíritos que se utilizavam de outros idiomas, esses Espíritos
podem expressar-se tanto na língua-mãe, qual ocorre na xenoglossia,
quanto no idioma do médium, sendo mais fácil esta última
opção, em se considerando que a linguagem dos desencarnados é
a do pensamento, que o médium capta e a que dá forma, no inconsciente,
através das expressões nacionais, de acordo com a linguagem que
lhe é comum...
Não obstante, nas ocorrências da xenoglossia, as comunicações
somente se dão exatas quando há matrizes no inconsciente profundo
do médium, que terá vivido naquelas regiões onde se falavam
aqueles idiomas, em existências pregressas. Não há milagre
nas leis que regem a vida, igualmente não o poderia ocorrer nos fenômenos
da mediunidade, dilacerando o equilíbrio da ordem geral, assim invalidando
os processos naturais, embora paranormais, que lhes permitem a ocorrência.
A princípio, a fim de chamar a atenção dos homens para
a imortalidade da alma, materializaram-se os Espíritos, objetivando elevá-los.
Agora é o momento de superar os condicionamentos da matéria, espiritualizando-se
cada vez mais as criaturas. Ocorrem comunicações nas quais a soma
expressiva de fatores probantes, de quem as subscreve, demonstra-Ihes a autenticidade.
Não se deseje, porém, reencontrar aqueles que desencarnaram, aferrados,
no escrever ou no falar, aos mesmos modismos e interesses antes cultivados,
pois que significaria retê-los em indefinido atraso, tenteando com os
limites que os aprisionavam ao corpo em deplorável situação
"post mortem".
O problema, portanto, da identificação dos Espíritos, é
mais de aparência do que de realidade, desde que, qualquer pessoa que
ama, não terá dificuldade em descobrir o seu afeto de retorno
em mil pequenos ou grandes informes que os tipificam, sem a necessidade mórbida
de exigir-lhes minudências e sinais de que eles mesmos se desejam libertar,
a fim de avançarem no rumo de outros valores, ricos de paz e alento,
que lhes acenam felicidade e união, quando aqueles da retaguarda física,
também amados, romperem as algemas da retentivae seguirem ao seu encontro,
num mundo que já preparam, para que lhes seja melhor do que este de provas
e expiações de onde procedemos.