INSTINTO |
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BIBLIOGRAFIA |
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| 01- A agonia das religiões - pág. 117 | 02 -A evolução anímica - pág. 116 |
| 03 - A Gênese - cap. III, 11 | 04 - Animais nossos irmãos - pág. 81 |
| 05 - Antologia do perispírito - ref. 610 | 06 - Chão de flores - pág. 51 |
| 07 - Deus na natureza - pág. 346, 353 | 08 - Do país da luz - vol. 4, pág. 79 |
| 09 - Enigmas da psicometria- pág. 31 | 10 - Gêneses da alma - pág. 37 |
| 11 - Guardiães da verdade - pág. 30 | 12 - Jesus o verbo do Pai - pág. 51 |
| 13 - Magnetismo curativo - pág. 268 | 14 - Na era do Espírito - pág. 98 |
| 15 - O Livro dos Espíritos - q 71, 590, 702, 849 | 16 - O solar de Apolo - pág. 131 |
| 17 - Psi quântico - pág. 206 | 18 - Sexo e evolução - pág. 258 |
| 19 - Universo e vida - pág. 49, 54 | 20 - Vida e Sexo - pág. 101 |
LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.
INSTINTO – COMPILAÇÃO
01 - A AGONIA DAS RELIGIÕES - J. HERCULANO PIRES - PÁG. 117
(...)
As variações da moral entre os grupos humanos e as próprias
civilizações decorrem mais da posição da consciência
dominante na sociedade do que dos fatores mesológicos e suas consequências
econômicas. No plano religioso a consciência é um fator determinante
da realidade religiosa. A consciência judaica de Saulo de Tarso fez dele
um perseguidor sanguinário dos cristãos primitivos, o lapidador
cruel de Estêvão. Mas, ao ajustar a sua consciência aos princípios
cristãos, ele se transformou no Apóstolo dos Gentios e no maior
propagador do Cristianismo. As exigências da consciência são
sempre as mesmas em todos os homens. As variações de graus e de
coerência decorrem do processo de maturação e das condições
de meio e educação. A consciência amadurece na proporção
em que as experiências vão revelando ao espírito o seu anseio
latente de transcendência. A vontade de potência,
de Nietzshe, é o primeiro impulso que leva o homem, ainda na selva, a
querer sobrepujar os outros, elevar-se acima das condições gerais
do meio. Esse impulso se prolongará no processo evolutivo.
O homem se envaidece com a sua capacidade de subjugar os outros, de mandar,
de impor medo, respeito, submissão aos demais. Sua consciência
se abre no plano individual, fechada nos limites de si mesma. É o reconhecimento
do seu poder que naturalmente o embriaga e o levará a excessos perigosos.
Mas na proporção em que os liames do clã se desenvolvem,
o parentesco, a simpatia e as afinidades se revelam, a embriaguez do poder vai
sendo atenuada, contida pela percepção dos limites inevitáveis.
Depois, o esgotamento progressivo das forças físicas e o perigo
das doenças, das competições com iguais ou mais fortes,
e por fim a certeza da morte irão abatendo a sua arrogância. Nas
reencarnações sucessivas essas experiências se renovam,
mas o impulso de transcendência se acentua, levando-o, a procurar outros
meios de superação: o poder social, a hipocrisia, a estratégia
das posses materiais e das posições de mando. Só lentamente,
ao longo do tempo, sujeito às reações que o enredam em
situações difíceis, muitas vezes torturantes, sua consciência
começa a abrir-se para o respeito aos direitos dos outros. A interação
social, na recíproca das obrigações e das necessidades,
na transformação dos instintos em
sentimentos, irá pouco a pouco despertando-o para novas dimensões
conscienciais.
A violência do homem civilizado tem as suas raízes profundas e
vigorosas na selva. O homo brutalis tem as suas
leis: subjugar, humilhar, torturar, matar. O seu valor está sempre acima
do valor dos outros. A sua crença é a única válida.
O seu modo de ver o mundo e os homens é o único certo. O seu deus
é o único verdadeiro. Só o que é bom para ele é
bom para a comunidade. Os que se opõem aos seus desígnios devem
ser eliminados pelo bem de todos. A violência é o seu método
de ação, justificado pelo seu valor pessoal, pela sua capacidade
única de julgar. Tece ele mesmo a trama de fogo do seu futuro nas encarnações
dolorosas que terá de enfrentar. As religiões da violência
fizeram de Deus uma divindade implacável e os livros básicos de
suas revelações estão cheios de homicídios e genocídios
em nome de Deus. Não obstante, misturam-se às ordenações
violentas estranhos preceitos de amor e bondade. São as lições
de consciências desenvolvidas lutando para despertar as que, endurecidas
no apego a si mesmas, asfixiam os germes do altruísmo nas garras do egoísmo.
É um espetáculo dantesco o de uma alma vigorosa dotada de intelecto
capaz de entender as suas próprias contradições, mas empenhada
em negar a sua condição humana, rebaixando-se aos brutos ao invés
de buscar a elevação moral a que se destina. (...)
02 - A EVOLUÇÃO ANÍMICA - GABRIEL DELANNE - PÁG. 116
O
instinto:
O instinto é a mais baixa forma, mediante a qual manifesta-se a alma.
Já vimos que o animal tem uma tendência para reagir contra o meio
exterior, e que a sensação lhe determina emoções
de prazer ou de dor. Procurando umas e fugindo doutras, ele realiza atos instintivos,
que se traduzem por ações reflexas de que pode ter consciência
sem poder, muitas vezes, impedi-las, mas que se adaptam admiravelmente à
sua existência. Assim, na lebre que dispara ao menor ruído, o movimento
de fuga é involuntário, inconsciente, em parte reflexo, em parte
instintivo, mas é, sobretudo, um movimento adaptado à vida do
animal, tendo por finalidade a sua conservação. Para ele não
há que escolher, foge fatalmente, porque os seus antepassados outro tanto
fizeram em milhões de gerações; e é só na
fuga que pode encontrar salvação. Se destarte examinássemos
todos os movimentos reflexos de conjunto, a conduta, a atitude dos animais,
neles encontraríamos sempre os dois característicos da ação
reflexa simples - a fatalidade e a finalidade.
A propósito do Instinto, consultar: Darwin — "Origine dês
Espèces", cap. VII; Romanes — "L'Êvolution mentale
chez lês animaux", e Richet — "Psychologie générale",
cap. VI.
O meio exterior em que vive cada animal excita, por sua atuação
no aparelho sensorial, uma dupla série de efeitos: em primeiro lugar,
uma sequência de ações corporais reflexas; depois, uma classe
de manifestações mentais correspondentes. Já vimos que
as ações mentais são vagas, primitivas, estreitamente limitadas
ao organismo e seu ambiente. Por outro lado, tendo cada família de animais
a sua estrutura peculiar e quase idêntica para cada indivíduo do
mesmo grupo, essa estrutura própria exige determinadas condições
de existência física, as mesmas para todos. Segue-se daí
que ações e reações são sempre as mesmas,
mais ou menos, para uma espécie e, por consequência, que provocam
as mesmas operações intelectuais obscuras. Essas operações,
incessantemente repetidas, incrustam-se de alguma sorte no perispírito,
que petrifica, por assim dizer, o aparelho cérebro-espinhal ou os gânglios
que lhe equivalem nos seres inferiores, assim chegando a fazer parte do animal.
A aptidão para manifestar exteriormente essas operações,
que se acabam tornando inconscientes, é transmitida
por hereditariedade — diz a ciência —, perispiritualmente,
dizemos nós, por isso que se trata, só, de seres modificados,
que vêm habitar novos corpos.
Tal é, ao nosso ver, a gênese dos instintos naturais primitivos.
É nessa categoria que se colocam os instintos, cujo objetivo é:
nutrição, conservação, reprodução.
Ao estado rudimentar dos instintos naturais primitivos sucede, com o tempo e
com a experiência, uma noção mais clara das relações
do organismo com o seu ambiente. A inteligência acaba adquirindo uma certa
intuição do fim que, sob o aguilhão das excitações
exteriores e interiores, o princípio espiritual colima sem cessar. A
inteligência um tanto desprendida do meio perispiritual grosseiro, intervém,
portanto, para que o Espírito alicie, em proveito dos instintos naturais,
melhor apropriação das condições ambientes.Os instintos
naturais são, portanto, mais ou menos modificados ou aperfeiçoados
pela inteligência. Se as causas que acarretaram essas modificações
são persistentes, vimos que elas se tornam inconscientes e se fixam no
invólucro fluídico. Assim, ficam sendo verdadeiramente instintivas.
"Pouco a pouco, entretanto, diz Edmond Perrier, a consciência se
amplia (segundo o grau de aperfeiçoamento cerebral), as idéias
são mais claras, mais numerosas as relações compreendidas,
a inteligência insinua-se mais nítida.
"De começo, ela se mescla em todos os graus do instinto, até
que lhe chega o momento de mascarar, mais ou menos, os instintos inatos, que
é quando o que eles têm de fixo como que parece desaparecer sob
a onda movediça das suas inovações. "O que se transmite
por hereditariedade não é mais que a aptidão para conceber,
quase inconscientemente, tal ou qual relação; é a aptidão
para procurar e descobrir novas relações, até que possa,
enfim, mostrar-se na maravilhosa florescência da razão humana."
E como se torna compreensível este progresso, patrimonial de muitos milênios,
quando admitimos a passagem da alma através da escala animal! Como clara
se torna a existência e a pertinácia dos instintos no homem! É
que, na verdade, eles constituem, de qualquer maneira, os fundamentos da vida
intelectual; são os mais prístinos e mais duradouros movimentos
perispirituais que as incontáveis encarnações fixaram,
incoercivelmente, em nosso invólucro fluídico, e, se o verdadeiro
progresso consiste no domínio desses instintos brutais, infere-se que
a luta seja longa, quão terrível, antes de conquistar esse poderio.
Era indispensável passasse o princípio espiritual por essas tramas
sucessivas, a fim de fixar no invólucro as leis que inconscientemente
regem a vida, e entregar-se, depois, aos trabalhos de aperfeiçoamento
intelectual e moral, que o devem elevar à condição superior.
A luta pela vida, por mais impiedosa nos pareça, é o meio único,
natural e lógico para obrigar a alma infantil a manifestar as suas faculdades
latentes, assim como o sofrimento é indispensável ao progresso
espiritual.
E, a menos que vejamos na alma o efeito de um milagre, criação
sobrenatural, é força reconhecer o magnífico encadeamento
das leis que regem a evolução dos seres para um destino sempre
melhor. Temos assinalado o desenvolvimento dos instintos, à medida que
o sistema nervoso se aperfeiçoa, nos invertebrados, mas essa ascensão
torna-se ainda mais notória nos vertebrados. De fato, nestes, a gradação
é simplesmente espantosa. É de Leuret o seguinte quadro do peso
médio do encéfalo em relação com o do corpo:
1.° — Nos peixes a razão é de 1 para 5.668
2.° — Nos répteis ...................1 para 1.321
3.° — Nas aves .......................1 para 212
4.° — Nos mamíferos ..............1 para 186
Verifica-se, portanto, uma progressão contínua, à medida
que ascendemos na escala; mas, tenhamos em vista a condicional de que esses
pesos abranjam cada grupo, em bloco, e não tal ou tal espécie,
examinada separativamente. Porque, se há hoje um fato bem demonstrado,
é o de o progresso animal operar-se não em linha única
e reta, mas em linhas desiguais e paralelas. Não podemos acompanhar em
todos os pormenores os fatos tão numerosos e interessantes para o leitor,
visto que alguns volumes não bastariam. Limitamo-nos, assim, a resumir,
de escantilhão, tudo que se prende à evolução animal,
assinalando a utilidade do perispírito para a compreensão dos
fenômenos.(...)
03 - A GÊNESE - ALLAN KARDEC - CAP. III - O BEM E O MAL - PÁG. 64
O
INSTINTO E A INTELIGÊNCIA:
11.- Que diferença há entre o instinto e a inteligência?
Onde termina um e onde começa a outra? O instinto é uma inteligência
rudimentar, ou é uma faculdade distinta, um atributo exclusivo da matéria?
O instinto é a força oculta que solicita os seres orgânicos
a atos espontâneos e involuntários, tendo em vista a sua conservação.
No atos instintivos, não há nem reflexão, nem combinação
e nem premeditação. E assim que a planta procura o ar, se volta
para a luz, dirige suas raízes para a água e a terra nutritiva;
que a flor se abre e se fecha, alternativamente, segundo a necessidade; que
as plantas trepadeiras se enrolam em torno do seu apoio, ou se engancham com
as suas gavinhas. É pelo instinto que os animais são advertidos
do que lhes é útil ou nocivo; que se dirigem, segundo as estações,
para os climas propícios; que constróem, sem lições
preliminares, com mais ou menos arte, segundo as espécies, camas macias
e abrigos para a sua prole, engenhos para prender, na armadilha, a presa da
qual se nutrem; que manejam, com destreza, armas ofensivas e defensivas de que
estão providos; que os sexos se aproximam; que a mãe alimenta
os seus pequenos, e que estes procuram o seio da mãe.
Entre os homens, o instinto domina exclusivamente no início da vida;
é pelo instinto que a criança faz os seus primeiros movimentos,
que agarra o seu alimento, que grita para exprimir as suas necessidades, que
imita o som da voz, que ensaia falar e andar. No próprio adulto, certos
atos são instintivos: tais são os movimentos espontâneos
para evitar um perigo, para se afastar de um risco, para manter o equilíbrio;
tais são, ainda, o pestanejo das pálpebras para atenuar o clarão
da luz, a abertura maquinal da boca para respirar, etc.
12. - A inteligência se revela por atos voluntários, refletidos,
premeditados, combinados, segundo a oportunidade das circunstâncias. Incontestavelmente,
é um atributo exclusivo da alma. Todo ato maquinal é instintivo;
aquele que denota a reflexão, a combinação, uma deliberação,
é inteligente; um é livre, o outro não o é. O instinto
é um guia seguro, que jamais se engana; a inteligência, só
pelo fato de ser livre, por vezes, esta sujeita a erro. Se o ato instintivo
não tem o caráter do ato inteligente, apesar disso, revela uma
causa inteligente, essencialmente previdente. Se se admite que o instinto tem
a sua fonte na matéria, é preciso admitir que a matéria
é inteligente, seguramente, mesmo mais inteligente e previdente do que
a alma, uma vez que o instinto não se engana, ao passo que a inteligência
se engana. Se se considera o instinto uma inteligência rudimentar, como
se explica que seja, em certos casos, superior à inteligência racional?
Que possa dar a possibilidade de executar coisas que esta não pode produzir?
Se é o atributo de um princípio espiritual, que vem a ser esse
princípio? Uma vez que o instinto desapareça, esse princípio
estaria aniquilado? Se os animais não estão dotados senão
do instinto, seu futuro é sem resultado; seus sofrimentos não
têm nenhuma compensação. Isso não estaria conforme
nem com a justiça e nem com a bondade de Deus.
13. - Segundo um outro sistema, o instinto e a inteligência teriam um
único e mesmo princípio; chegado a um certo grau de desenvolvimento,
que no início não teria senão as qualidades do instinto,
sofreria uma transformação que lhe daria as da inteligência
livre. Se fora assim, no homem inteligente que perde a razão, e não
é mais guiado senão pelo instinto, a inteligência retornaria
ao seu estado primitivo; e, quando recobrasse a razão, o instinto tornar-se-ia
inteligente, e assim alternativamente, a cada acesso, o que não é
admissível. Aliás, a inteligência e o instinto, com frequência,
se mostram simultaneamente no mesmo ato. No andar, por exemplo, o movimento
das pernas é instintivo; o homem coloca um pé diante do outro,
maquinalmente, sem nisso pensar; mas, quando quer acelerar, ou moderar a sua
marcha, levantar o pé ou desviar para evitar um obstáculo, há
cálculo, combinação; ele age de propósito deliberado.
O impulso involuntário do movimento é ato instintivo; a direçâo
calculada do movimento é ato inteligente. O animal carnívoro é
levado, pelo instinto, a se alimentar de carne; mas as precauções
que toma, e varia segundo as circunstâncias, para apanhar a sua presa
e a sua previdência das eventualidades, são atos da inteligência.
14. - Uma outra hipótese que, de resto, se alia perfeitamente à
idéia da unidade de princípio, resulta do caráter essencialmente
previdente do instinto, e concorda com o que o Espiritismo nos ensina, quanto
às relações do mundo espiritual e do mundo corpóreo.
Sabe-se, agora, que os Espíritos desencarnados têm por missão
velar sobre os encarnados, dos quais são os protetores e os guias; que
os envolvem com seus eflúvios fluídicos; que o homem, frequentemente,
age de modo inconsciente sob a ação desses eflúvios. De
outra parte, sabe-se que o instinto, que produz atos inconscientes, predomina
nas crianças, e, em geral, nos seres cuja razão é fraca.
Ora, segundo essa hipótese, o instinto não seria um atributo nem
da alma, nem da matéria; não pertenceria ao próprio ser
vivo, mas seria um efeito da ação direta dos protetores invisíveis,
que supririam a imperfeição da inteligência, provocando,
eles mesmos, os atos inconscientes necessários à conservação
do ser. Seria como a andadeira com a ajuda da qual se sustém a criança
que ainda não sabe andar. Mas, do mesmo modo que se suprime, gradualmente,
o uso de andadeira, à medida que a criança se sustém sozinha,
os Espíritos protetores deixam entregues a si mesmos os seus protegidos,
a medida que estes podem se guiar por sua própria inteligência.
Assim, o instinto, longe de ser o produto de uma inteligência rudimentar
e incompleta, seria o resultado de uma inteligência estranha na plenitude
da sua força; inteligência protetora, suprindo a insuficiência,
seja de uma inteligência mais jovem, que levaria afazer, inconscientemente,
para o seu bem, o que esta fosse incapaz de fazer por si mesma, seja de uma
inteligência madura, mas, momentaneamente, entravada no uso das suas faculdades,
assim como ocorre no homem, na infância, e nos casos de idiotia e de afecções
mentais. Diz-se, proverbialmente, que há um deus para as crianças,
os loucos e os alcoólatras; esse ditado é mais verdadeiro do que
se crê; esse deus não é outro que o Espírito protetor,
que vela sobre o ser incapaz de se proteger por sua própria razão.
15. - Nesta ordem de idéias, pode-se ir mais longe. Essa teoria, por
racional que seja, não resolve todas as dificuldades da questão.
Se são observados os efeitos do instinto, nota-se, antes de tudo, uma
unidade de vista e de conjunto, uma garantia de resultado, que não existem
mais desde que o instinto é substituído pela inteligência
livre; além do mais, na apropriação, tão perfeita
e tão constante, de faculdade instintivas, às necessidades de
cada espécie, reconhece-se uma profunda sabedoria. Essa unidade de vistas
não poderia existir sem a unidade de pensamentos, e a unidade de pensamentos
é incompatível com a diversidade das aptidões individuais;
só ela poderia produzir esse conjunto tão perfeitamente harmonioso,
que prossegue, desde a origem dos tempos e em todos os climas, com uma regularidade
e uma precisão matemáticas, sem jamais falhar. A uniformidade
no resultado das faculdades instintivas é um fato característico
que implica, forçosamente, na unidade da causa; se essa causa fosse inerente
a cada individualidade, haveria tantas variedades de instintos quantas há
de indivíduos, desde a planta até o homem. Um efeito geral, uniforme
e constante, deve ter uma causa geral, uniforme e constante; um efeito, que
acusa sabedoria e previdência, deve ter uma causa sábia e previdente.
Ora, uma causa sábia e previdente, sendo necessariamente inteligente,
não poderia ser exclusivamente material.
Não se encontrando nas criaturas, encarnadas e desencarnadas, as qualidades
necessárias para produzir um tal resultado, será preciso remontar
mais alto, quer dizer, ao próprio Criador. Se se reporta à explicação,
que foi dada, sobre a maneira pela qual se pode conceber a ação
providencial; se se imaginar todos os seres penetrados de um fluido divino,
soberanamente inteligente, compreender-se-á a sabedoria previdente, e
a unidade de vistas que presidem a todos os movimentos instintivos, para o bem
de cada indivíduo. Essa solicitude é tanto mais ativa quanto o
indivíduo tenha menos recursos, em si mesmo e na própria inteligência;
por isso, ela se mostra maior e mais absoluta nos animais e nos seres inferiores
do que no homem. Segundo essa teoria, compreende-se que o instinto seja um guia
seguro. O instinto maternal, o mais nobre de todos, que o Materialismo rebaixa
ao nível das forças atrativas da matéria, acha-se realçado
e enobrecido. Em razão das suas consequências, não seria
preciso entregá-lo às eventualidades caprichosas da inteligência
e do livre arbítrio. Pelo órgão da mãe, Deus vela,
ele mesmo, sobre as suas criaturas nascentes.
16. - Esta teoria, não destrói, em nada, o papel dos Espíritos
protetores, cujo concurso é um fato adquirido e provado pela experiência;
mas deve-se notar que a ação destes é essencialmente individual;
que ela se modifica segundo as qualidades próprias do protetor e do protegido,
e que, em nenhuma parte, tem a uniformidade e a generalidade do instinto. Deus,
em sua sabedoria, conduz, ele mesmo, os cegos, mas, confia às inteligências
livres o cuidado de conduzirem os clarividentes, para deixar, a cada um, a responsabilidade
dos seus atos. A missão dos Espíritos protetores é um dever
que aceitam, voluntariamente, e que é, para eles, um meio de adiantamento,
segundo a maneira pela qual o cumprem.
17. - Todas essas maneiras de encarar o instinto são necessariamente
hipotéticas, e nenhuma tem um caráter suficiente de autenticidade
para ser dada como solução definitiva. A questão, um dia,
será certamente resolvida, quando se tiver reunido os elementos de observação
que faltam agora; até lá, é preciso limitar-se a submeter
as diversas opiniões ao cadinho da razão e da lógica, e
esperar que a luz se faça; a solução que mais se aproximará
da verdade será, necessariamente, aquela que melhor corresponda aos atributos
de Deus, quer dizer, à soberana bondade e à soberana justiça.
18. -Sendo o instinto o guia, é as paixões os impulsos das almas,
no primeiro período do seu desenvolvimento, se confundem em seus efeitos.
Há, entretanto, entre esses dois princípios, diferenças
que é essencial considerar. O instinto é um guia seguro, sempre
bom; em um tempo dado, pode se tornar inútil, porém, jamais nocivo;
enfraquece-se pela predominância da inteligência. As paixões,
nas primeiras idades da alma, têm, de comum com o instinto, o fato de
que os seres delas são solicitados por uma força igualmente inconsciente.
Elas nascem, mais particularmente, das necessidades do corpo, e se prendem,
mais do que o instinto, ao organismo. O que as distingue, sobretudo, do instinto,
é que são individuais e não produzem, como este último,
efeitos gerais e uniformes; vê-se, ao contrário, que variam de
intensidade e de natureza, segundo os indivíduos. Elas são úteis,
como estimulantes, até a eclosão do senso moral que, de um ser
passivo, faz um ser racional; nesse momento, elas não só se tornam
inúteis mas nocivas ao adiantamento do Espírito, no qual retardam
a desmaterialização; enfraquecem-se com o desenvolvimento da razão.
19. -O homem que não agisse, constantemente, senão pelo instinto,
poderia ser muito bom, mas deixaria dormir a sua inteligência; seria igual
à criança que não deixasse as andadeiras e não soubesse
se servir dos seus membros. Aqueles que não domina as suas paixões
pode ser muito inteligente, mas, ao mesmo tempo, muito mau. O instinto se aniquila
por si mesmo; as paixões não se domam senão pelos esforço
da vontade.
07 - DEUS NA NATUREZA - CAMILLE FLAMMARION - ÍTEM 11 - PÁG. 346
PLANO
DA NATUREZA — INSTINTO E INTELIGÊNCIA:
SUMÁRIO — Leis que presidem à conservação
das espécies. — Faculdades instintivas especiais. — Não
se explica o instinto pela suposição de hábitos hereditários.
— Distinção fundamental entre os fatos instintivos e racionais.
— Desígnio nas obras da Natureza. — Ordem geral e harmonias
universais. — Qual a distinção geral do mundo? — Magnitude
do problema. — Insuficiência da razão humana. A construção
lenta e progressiva dos seres e a formação das espécies
duradouras estabelecem a presença permanente da causa criadora e proclamam,
eloquentemente, a sua sabedoria e inteligência. Se deixarmos agora de
parta a organização do indivíduo para estudarmos a da família,
penetraremos nos mistérios do instinto e, ainda aí, encontraremos
o plano do Criador brilhantemente caracterizado. Muito se há discutido
sobre a alma animal, depois que Descartes, Leibnitz e a seguir Reamur, se deram
ao trabalho de observar in natura, diretamente, a vida e costumes dos animais.
E', sobretudo, pela observação direta que nos podemos instruir
acerca da preciosa faculdade das espécies vivas, que lhes assegura a
conservação, e basta constatar os sinais evidentes dessa lei universal,
para lhe aferir o valor, sob o ponto de vista dos desígnios da Criação.
Antes de tudo, convém distinguir inteligência e instinto. Os animais
possuem uma e outro como faculdades bem distintas. Com a primeira pensam, refletem,
compreendem, decidem, recordam, adquirem experiência, amam, odeiam, julgam,
por processos análogos aos da inteligência humana; com a segunda,
operam obedecendo a uma impulsão íntima, sem apreensão,
sem conhecimento, inconscientes do motivo e do resultado de seus atos. Fixemos
alguns exemplos, para melhor definir esses caracteres. Eis com nos fala Buffon
de um orangotango ainda novo, por ele observado: — "Vi-o apresentar
a mão para conduzir as pessoas que o visitavam e passear com elas como
se estivesse convencido do seu papel; vi-o sentar-se à mesa, tomar o
guardanapo, limpar os lábios, utilizar-se da colher e do garfo, encher
o copo e tocá-lo noutro, quando a isso convidado; vi-o buscar uma chávena,
deitar-Ihe o açúcar e o chá, aguardando que este esfriasse
para então bebê-lo. Tudo isso, sem outra instigação
que a palavra e a mímica do seu dono, e, algumas vezes, por si mesmo.
Não molestava a quem quer que fosse; mostrava-se mesmo circunspecto e
na atitude de quem pedisse carinho, etc." O Sr. Flourens diz que havia
no Jardim Zoológico um orango notável pela inteligência:
meigo, amante de carícias, principalmente das crianças, com elas
brincava procurando imitar quanto via, etc.
Assim é que sabia manejar a chave do seu compartimento, enfiando-a na
fechadura e abrindo a porta. Se acontecia pendurarem a chave na chaminé,
lá trepava por meio de uma corda presa ao teto, e que lhe servia comumente
de balanço. Certa feita, deram na corda um nó, para fazê-lo
mais curta, e ele o desatou imediatamente. Tal como o de Buffon, não
revelava a impaciência e petulância próprias da espécie,
antes tinha um ar tristonho, passos lentos e gestos comedidos. O professor foi
visitá-lo um dia, acompanhado por um ilustre ancião, que era também
um observador sagaz e profundo. Um trajo algo esquisito, os passos lentos e
vacilantes, o busto arqueado do visitante, logo despertaram a atenção
do símio. Prestou-se ele, complacente, a tudo o que se lhe exigiu, mas,
de olho sempre atento no objeto de sua curiosidade. Quando nos íamos
retirar e ele mais se aproximou do novo visitante, tomou-lhe delicada e maliciosamente
a bengala e, fingindo apoiar-se nela, curvado e vagaroso, deu uma volta ao compartimento,
como procurando imitar o meu velho amigo. Depois, de si mesmo restituiu-lhe
a bengala. Evidente que ele também sabia observar...Cuvier, por sua vez,
observou fatos não menos curiosos. Seu orangotango se divertia trepando
nas árvores e nelas permanecendo encarapitado. Um dia, fizeram menção
de lá o buscarem e ele logo se pôs a sacudir a árvore, assim
procedendo sempre que tentavam apanhá-lo. "De qualquer modo —
diz Cuvier — que consideremos esse ato, não será possível
negá-lo como resultante de uma combinação de idéias,
para reconhecer que o animal possui a faculdade de generalizar."
De fato, o orango, aqui, concluía de si para outrem: mais de uma feita,
o abalo violento dos corpos, em que se houvera apoiado, tê-lo-ia espavorido,
levando-o a concluir que esse mesmo temor atingiria a outrem, ou — por
melhor dizer com Cuvier — "de uma cricunstância particular
ele fazia uma regra geral". Flourens cita o exemplo de um curioso indício
de inteligência, observado no Jardim Zoológico. Julgado excessivo
o número de ursos lá existentes, ficou resolvida a eliminação
de dois exemplares. O veneno seria o ácido prússico, ministrado
em pequenos bolos. À vista dos bolos, os animais logo se ergueram nas
patas traseiras, abrindo a boca, na qual conseguiram atirar alguns bolos. Entretanto,
logo rejeitaram o manjar e puseram-se em fuga. Dir-se-ia que não seriam
mais tentados a tocar na iguaria, e, contudo, ei-los a empurrar com as patas
os bolos para dentro do tanque, e, depois de muito revolverem a água,
iam comendo os bolos, à medida que o veneno se evaporava. Em o fazerem
assim, impunemente, demonstraram uma sagacidade que lhes granjeou a revogação
da sentença. Plutarco afirma ter visto um cão lançar pedrinhas
dentro de uma talha, não completamente cheia de óleo, admirando-se
de como o cão pudesse induzir que o peso das pedras haveria de fazer
subir e transbordar o conteúdo.
Buffon escreveu belas páginas sobre a inteligência do cão,
mas não lhe interpretou o alto valor. Há, nos fastos da espécie
canina, exemplos de inteligência, habilidade, raciocínio, julgamento,
e também de afeição, devotamento, bondade e reconhecimento,
dignos de serem apontados como modelo a uma grande parte do gênero humano.
Poder-se-ia escrever uma série de volumes e nem assim se esgotaria o
acervo de fatos comprobatórios da inteligência animal, notadamente
do cão. De resto, os adversários estão conosco em admitir
esses fatos. Citemos aqui o exemplo interessante de uma deliberação
de andorinha, contado pelo autor de Força e Matéria. "Um
casal de andorinhas tinha começado a construir o ninho na cumieira da
casa. Um dia, entra por lá um bando de companheiras e travam longa discussão
com as posseiras do ninho. Reunidas no forro da casa e não longe do ninho
disputado, fizeram uma algazarra infernal. Depois de algum tempo, enquanto algumas
andorinhas se destacavam para inspecionar o ninho, dissolveu-se a assembléia
e o resultado foi o casal abandonar o ninho começado, entrando logo a
construir outro em lugar quiçá mais adequado." Um fato ainda
mais notável veio à baila recentemente. Nos arredores de uma granja
de Weddendorg, perto de Magdebourg, as cegonhas, após sério debate,
julgaram uma companheira adúltera. Mataram-na a bicadas e lançaram-na
fora do ninho.
Agassiz, mais que ninguém, exalta as faculdades intelectuais dos animais.
Depois de mostrar as dificuldades que ainda não permitem estabelecer
uma comparação científica entre instintos e faculdades
humanas e animais, emite ele as seguintes idéias: — "O desenvolvimento
das paixões é tão extenso no animal, quanto no homem, e
eu me encontraria seriamente embaraçado para lhes apreender diferenças
específicas, naturais, ainda que as haja, e grandes, no graduamento das
manifestações e na forma de expressão. Ao demais, a gradação
das faculdades morais entre os animais e o homem é tão imperceptível,
que, recusar aos primeiros um certo sentimento de responsabilidade e consciência,
fora, certo, exagerar a diferença. Além disso, há neles
limitadas às suas respectivas capacidades, individualidades tão
definidas como no homem. Os criadores de cavalos, os guardadores de animais,
pastores, etc., aí estão para confirmá-lo. E aí
temos argumento dos mais fortes a favor da existência de um princípio
imaterial em todos os animais, análogo ao que, por excelência e
faculdades superiores, coloca o homem em plano eminente. A maior parte dos argumentos
filosóficos em prol da imortalidade do homem, aplicam-se, igualmente,
à indestrutibilidade desse principio nos outros seres vivos.
Quem se atreveria hoje a pôr em dúvida a inteligência animal?
Só um tímido espírito de sistema, temeroso das consequências
dessa verdade, em relação a umas tantas crenças, pode fechar
os olhos à evidência. A nós, cumpria-nos constatar antes
de tudo essa verdade, a fim de mais livremente podermos falar do instinto e
derrocar a argumentação dos que presumem que o instinto não
existe. Há, certamente, uma grande diferença entre atos instintivos
e atos racionais. Não que esses dois caracteres da força viva
se encontrem isolados (nada o está na Natureza), mas por não se
encontrarem na mesma graduação e não se poderem confundir.
Não devemos insistir, maiormente aqui, a respeito dos fatos de ordem
intelectual. Vamos, porém, compará-los aos fatos inerentes ao
domínio do instinto, e que revelam existir uma providência universal,
presidindo à vida em geral e que não explicam de modo algum, pela
instrução, o raciocínio ou o julgamento, nos animais em
que se deparam. Chama-se instinto ao conjunto das diretivas que impelem o animal,
obedecendo a uma necessidade constante. O instinto é inato, atua à
revelia da instrução, inexperiente e invariavelmente, e não
realiza progresso algum. E' em tudo a antítese da palavra instinto, assim
como um véu lançado ao objeto que se quer examinar; mas, à
parte este processo ilusório, restam fatos que não são
certamente resultado de reflexão, nem de julgamento. Em vão o
Sr. Darwin, e com ele Lamarck, afirmam que o instinto é um hábito
hereditário. Essa explicação não transfere o instinto
aos domínios da Inteligência, e, ainda menos, aos domínios
do materialismo puro. Tão-pouco está demonstrado seja o instinto
um hábito hereditário. Consideremos essas borboletas que vivem
no ar, e que, chegando à terceira fase da sua maravilhosa existência,
entreabrem-se aos beijos da luz e aos eflúvios do amor.
Presto, depositarão em círculos concêntricos minúsculos
ovos brancos, sobre talos ou folhas. Esses ovos não vingarão antes
da próxima estação, quando surgem as pequenas lagartas,
e isso depois de transcorridos muitos dias, quando as borboletas já dormem
na poeira o sono da morte. Que voz teria ensinado a estas novas borboletas que
as futuras lagartas, ao desovarem, hão-de encontrar tal ou tal alimentação?
Quem lhes aponta os talos e folhas em que hajam de depositar seus ovos? Os pais?
Mas, se os não conhecem? Será, então, das folhas e talos
que lhes advém a memória? Que memória, porém, se
elas viveram três existências após essa época longínqua,
e substituíram os alimentos inferiores pelo manjar delicado das corolas
olentes? Eis aqui, porém, espécies outras que protestam, ainda
mais vivamente, contra as explicações humanas. Os necróforos
(nome lúgubre), morrem imediatamente após a postura e as gerações
jamais se conhecem. Nenhum ser desta espécie viu mãe nem verá
filhos, e, contudo, as mães têm grande cuidado em dispor cadáveres
ao lado dos ovos, para que aos filhos não falte alimento logo ao nascer.
Em que livro aprenderam esses necróforos que os seus ovos contêm
germe de insetos que em tudo se lhes semelham? Há outras espécies,
nas quais o regímen alimentar é inteiramente oposto, para a larva
e para o inseto. Nos pompilídeos as mães são herbívoras
e os filhos carnívoros. Em fazerem a postura sobre cadáveres,
contrariam os próprios hábitos. E aqui não colhe admitir
o acaso, nem hábito lentamente adquirido. Qualquer espécie que
aberrasse desta lei não poderia subsistir, visto que os rebentos morreriam
de fome logo após o nascimento. A estes insetos, podemos juntar os odíneros
e os sphex.
As larvas destes últimos são carnívoras e o ninho precisa
ser provido de carne fresca. Para preencher essa condição, a fêmea
que vai desovar busca uma presa convinhável, tendo o cuidado de não
a matar, limitando-se a feri-la de paralisia irremediável. Coloca, depois,
sobre cada ovo um certo número desses enfermos incapazes de se defenderem
da larva que os há-de devorar, mas, com vida bastante para que o corpo
não se corrompa. Em algumas famílias acresce o cuidado pela alimentação
da presa, até à eclosão da larva. Nossos elementos de argumentação,
neste particular, são tão numerosos que impossível seria
reuni-los todos. Limitamo-nos, assim, a citar alguns exemplos, convidando o
leitor a tirar da letra o espírito. Entre estes exemplos, incluamos o
da abelha xilófaga, com a qual o Sr. Milne Edwards entreteve recentemente,
na Sorbone, a curiosidade dos seus ouvintes. Essa abelha que vemos adejar na
Primavera, que vive solitária e pouco sobrevive à postura, não
viu jamais os genitores e não viverá o tempo suficiente para assistir
ao nascimento das pequeninas larvas vermiformes, desprovidas de patas e incapazes,
não só de se protegerem, como de angariar alimento. E contudo,
elas precisam permanecer em repouso cerca de um ano, numa habitação
bem fechada, sob pena de extinguir-se a espécie. (...)
10 - GÊNESIS DA ALMA - CAIRBAR SCHUTEL - ÍTEM
EXEMPLO DA INTELIGÊNCIA DOS ANIMAIS - PÁG. 38
A
INTELIGÊNCIA E O INSTINTO — O RACIOCÍNIO E A MEMÓRIA:
Evolução do espírito:
Que é a inteligência? Que é o instinto? Que é o raciocínio?
Que é a memória? Inteligência é a faculdade de entender,
de compreender, de conhecer. Instinto é o impulso ou estímulo
interior e involuntário, que leva os homens e os animais a executarem
atos inconscientes. Raciocínio é a operação pela
qual chegamos a uma conclusão ajuizada. Memória é a faculdade
de conservar a lembrança do passado ou de alguma coisa ausente. Estas
definições querem dizer que a inteligência, o instinto,
o raciocínio e a memória não são palavras vãs,
mas têm uma significação, designam alguma coisa, e essa
alguma coisa que cada uma delas exprime, é que deve despertar a nossa
mente, quando pronunciamos qualquer dessas palavras. Por exemplo: quando dizemos
que tal ou qual animal tem inteligência, afirmamos que ele entende, compreende,
conhece, pois verificamos-lhe a faculdade inteligente em ação.
Ao surpreendermos no mesmo animal uma conclusão ajuizada, uma ação
que resultou de uma operação por ele desenvolvida, dizemos que
o animal tem raciocínio, porque pensou para executar aquele movimento.
A inteligência, ou por outra, os atos inteligentes, requerem meditação,
raciocínio. O mesmo não se dá com as ações
instintivas, que são impulsivas, involuntárias, inconscientes.
Outro fenômeno interessante é a memória, cuja faculdade
é também peculiar aos animais, como verificaremos no decurso de
nossos estudos. Todos esses atributos do Espírito humano, encontramo-los
também nos animais, embora menos desenvolvidos, o que vem confirmar nossa
tese, segundo a qual o animal tem uma alma imortal, perfectível, e, não
havendo solução de continuidade entre o reino animal e o reino
hominal, claro está que a alma aperfeiçoada do animal, depois
de passar o ponto de junção que une os dois reinos, começa
novo tirocínio na Humanidade. Donde ainda se conclui que o homem também
atravessou a escala zoológica para chegar a ser homem. Assim fica explicada,
a contento, a diversidade de raças, de intelectualidade; o homem fica
conhecendo o seu passado, vê a estrada que percorreu; admira o berço
em que nasceu, compreende que os dotes que possui foram conquistados pelo trabalho,
pelo sofrimento que conduz ao estudo, que abre a inteligência, exalta
o raciocínio, para bem constituir a nossa individualidade e guiá-la
para horizontes mais dilatados. Como se vê, esta doutrina proclama a Justiça
Divina, ao passo que a doutrina do pecado original deprime os atributos divinos.
14 - NA ERA DO ESPÍRITO - ESPÍRITOS DIVERSOS
- PÁG. 98
ÍTEM
16 - Irmão Saulo - Instinto e Virtude:
Seria o amor materno uma virtude ou apenas um instinto que tanto se manifesta
na Humanidade quanto nos animais? Kardec propôs essa questão aos
Espíritos Superiores e podemos encontrá-la, com a resposta dada,
na pergunta 890 de O Livro dos Espíritos. Na reunião a que se
refere Chico Xavier, aberto o livro ao acaso, foi essa a questão que
caiu para os estudos. Os Espíritos respondem que o amor materno é
instinto nos animais e também na criatura humana, mas nos animais é
limitado às necessidades de conservação e desenvolvimento
da prole, desaparecendo em seguida. E acrescentam: "Na criatura humana
persiste por toda a vida e comporta um devotamento e uma abnegação
que constituem virtudes, pois sobrevivem à própria morte, acompanhando
o filho além da tumba. Vede que há nele alguma coisa mais do que
no animal". Nas sessões mediúnicas, quando nos defrontamos
com espíritos endurecidos, vemos quase sempre que eles são socorridos
pelas mães que se desvelam no mundo espiritual a ampará-los e
desviá-los do erro. É o amor materno acompanhando-os além
da tumba. São fatos assim que nos dão a segurança da verdade
espírita, pois de Kardec até hoje os princípios doutrinários
são confirmados em todas as experiências sérias e bem dirigidas.
Na mensagem de Emmanuel temos também o problema do amor fraterno, que
é essencial para a evolução humana. Esse amor, que abrange
a todas as criaturas, depende da nossa capacidade de superação
do egoísmo, de nos elevarmos acima de nós mesmos para podermos
perdoar e aceitar os outros. É o caso da esposa abandonada pelo marido
que a deixa em dificuldades para criar e educar os filhos. Emmanuel lembra a
carga de forças negativas procedentes de existências anteriores
e a fragilidade da criatura humana para vencê-las em certas circunstâncias.
Daí aconselhar à mulher que não condene o trânsfuga,
para não aumentar essa carga, auxiliando-o a vencê-la com os seus
bons pensamentos e sentimentos de amor. A mãe está biológica
e espiritualmente mais ligada aos filhos do que o pai. Nela, portanto, o instinto
natural e a virtude moral se conjugam de maneira mais profunda. Grande é
a responsabilidade paterna pelos filhos, mas a responsabilidade materna é
ainda maior.
15
- O LIVRO DOS ESPÍRITOS - ALLAN KARDEC - QUESTÕES: 71, 590, 702,
849
ÍTEM III —INTELIGÊNCIA
E INSTINTO
Perg. 71
• A inteligência é um atributo do princípio vital?—
Não; pois as plantas vivem e não pensam, não tendo mais
do que vida orgânica. A inteligência e a matéria são
independentes, pois um corpo pode viver sem inteligência, mas a inteligência
só pode manifestar-se por meio dos órgãos materiais: somente
a união com o espírito dá inteligência à matéria
animalizada.
A inteligência é uma faculdade especial, própria de certas
classes de seres orgânicos, aos quais dá, com o pensamento, a vontade
de agir, a consciência de sua existência e de sua individualidade,
assim como os meios de estabelecer relações com o mundo exterior
e de prover as suas necessidades. Podemos fazer a seguinte distinção:
1.°) os seres inanimados, formados somente de matéria, sem vitalidade
nem inteligência: são os corpos brutos; 2.°) os seres animados
não-pensantes, formados de matéria e dotados de vitalidade, mas
desprovidos de inteligência; 3.°) os seres animados pensantes, formados
de matéria, dotados de vitalidade, e tendo ainda um princípio
inteligente que lhes dá a faculdade de pensar.
Perg. 72. - Qual é a fonte da inteligência?—Já o dissemos:
a inteligência universal.
Perg. 590 - Não há nas plantas, como nos animais, um instinto
de conservação que as leva a procurar aquilo que lhes pode ser
útil e a fugir do que lhes pode prejudicar? - Há, se o quiserdes,
uma espécie de instinto: isso depende da extensão que se atribua
a essa palavra; mas é puramente mecânico. Quando, nas reações
químicas, vede dois corpos se unirem, é que eles se afinam, quer
dizer que há afinidade entre eles; mas não chamais a isso de instinto.
Perg. 702 - O instinto de conservação é uma Lei da Natureza?
- Sem dúvida. Todos os seres o possuem, qualquer que seja o seu grau
de inteligência; em uns é puramente mecânico e em outros
é racional.
Perg. 703 - Com que fim Deus concedeu a todos os seres vivos o instinto de conservação?
- Porque todos devem colaborar nos designios da Providência. Foi por isso
que Deus lhes deu a necessidade de viver. Depois, a vida é necessária
ao aperfeiçoamento dos seres; eles o sentem instintivamente, sem disso
se aperceberem.
Perg. 849 - Qual é, no homem em estado selvagem, a faculdade dominante
o instinto ou o livre-arbítrio? - O instinto, o que não o impede
de agir com inteira liberdade em certas coisas. Mas, como criança, ele
aplica essa liberdade às suas necessidades e ela se desenvolve com a
inteligência. Por conseguinte, tu, que és mais esclarecido que
um selvagem, és também mais responsável que ele pelo que
fazes.
20 - VIDA E SEXO - EMMANUEL - PÁG. 101
ÍTEM
24 - Carga erótica: «Dois
sistemas se defrontam: o dos ascetas, que tem por base o aniquilamento do corpo,
e o dos materialistas, que se baseia no rebaixamento da alma. Duas violências
quase tão insensatas uma quanto a outra. Ao lado desses dois grandes
partidos, formiga a numerosa tribo dos indiferentes que, sem convicção
e sem paixão, são mornos no amar e econômicos no gozar.
Onde, então, a sabedoria? Onde, então, a ciência de viver?
Em parte alguma; e o grande problema ficaria sem solução, se o
Espiritismo não viesse em auxílio dos pesquisadores, demonstrando-lhes
as relações que existem entre o corpo e a alma e dizendo-lhes
que, por serem necessários uma ao outro, importa cuidar de ambos. Amai,
pois, a vossa alma, porém, cuidai igualmente do vosso corpo, instrumento
daquela. Desatender às necessidades que a própria Natureza indica,
é desatender a lei de Deus. Não castigueis o corpo pelas faltas
que o vosso livre arbítrio o induziu a cometer e pelas quais é
ele tão responsável quanto o cavalo, mal dirigido, pelos acidentes
que causa. Sereis, porventura, mais perfeitos se, martirizando o corpo, não
vos tornardes menos egoístas, nem menos orgulhosos e mais caritativos
para com o vosso próximo? Não, a perfeição não
está nisso, está toda nas reformas por que fizerdes passar o vosso
Espírito. Dobrai-o, submetei-o, humilhai-o, mortificai-o: esse o meio
de o tornardes dócil à vontade de Deus e o único de alcançardes
a perfeição.» Do item 11, do Cap. XVII, de «O evangelho
segundo o espiritismo».
O instinto sexual, exprimindo amor em expansão incessante, nasce nas
profundezas da vida, orientando os processos da evolução. Toda
criatura consciente traz consigo, devidamente estratificada, a herança
incomensurável das experiências sexuais, vividas nos reinos inferiores
da Natureza. De existência a existência, de lição
em lição e de passo em passo, por séculos de séculos,
na esfera animal, a individualidade, erguida à razão, surpreende
em si mesma todo um mundo de impulsos genésicos por educar e ajustar
às leis superiores que governam a vida. A princípio, exposto aos
lances adversos das aventuras poligâmicas, o homem avança, de ensinamento
a ensinamento, para a sua própria instalação na monogamia,
reconhecendo a necessidade de segurança e equilíbrio, em matéria
de amor; no entanto, ainda aí, é impelido naturalmente a carregar
o fardo dos estímulos sexuais, muita vez destrambelhados, que lhe enxameiam
no sentimento, reclamando educação e sublimação.
Depreende-se disso que toda criatura na Terra transporta em si mesma determinada
taxa de carga erótica, de que, em verdade, não se libertará
unicamente ao preço de palavras e votos brilhantes, mas à custa
de experiência e trabalho, de vez que instintos e paixões são
energias e estados inerentes à alma de cada um, que as leis da Criação
não destroem e sim auxiliam cada pessoa a transformar e elevar, no rumo
da perfeição.
Fácil entender, portanto, que do erotismo, como fator de magnetismo sexual
humano, na romagem terrestre, seja em se tratando de Espíritos encarnados
ou desencarnados na Comunidade Planetária, não partilham tão-sòmente
as inteligências que já se angelizaram, em minoria absoluta no
Plano Físico, e aqueles irmãos da Humanidade provisoriamente internados
nas celas da idiotia, por força de lides expiatórias abraçadas
ou requisitadas por eles próprios, antes do berço terreno. Os
Espíritos sublimados se atraem uns aos outros por laços de amor
considerado divino, por enquanto inabordáveis a nós outros, seres
em laboriosa escalada evolutiva e que compartilhamos das tendências e
aspirações, dificuldades e provas do gênero humano. E os
companheiros temporariamente bloqueados por cérebros deficientes e obtusos
atravessam períodos mais ou menos longos de silêncio emocional,
destinados a reparações e reajustes, quase sempre solicitados
por eles mesmos — repetimos —, já que se sentenciam a entraves
e inibições, no campo de exteriorização da mente,
através dos quais refazem atitudes e recondicionam impulsos afetivos
em preciosas tomadas e retomadas de consciência.
À vista do exposto, é fácil reconhecer
que toda criatura humana, sempre nascida ou renascida sob o patrocínio
do sexo, carreia consigo determinada carga de impulsos eróticos, que
a própria criatura aprende, gradativamente, a orientar para o bem e a
valorizar para a vida. Diante do sexo, não nos achamos, de nenhum
modo, à frente de um despenhadeiro para as trevas, mas perante a fonte
viva das energias em que a Sabedoria do Universo situou o laboratório
das formas físicas e a usina dos estímulos espirituais mais intensos
para a execução das tarefas que esposamos, em regime de colaboração
mútua, visando ao rendimento do progresso e do aperfeiçoamento
entre os homens. Cada homem e cada mulher que ainda não se angelizou
ou que não se encontre em processo de bloqueio das possibilidades criativas,
no corpo ou na alma, traz, evidentemente, maior ou menor percentagem de anseios
sexuais, a se expressarem por sede de apoio afetivo, e é claramente,
nas lavras da experiência, errando e acertando e tornando a errar para
acertar com mais segurança, que cada um de nós — os filhos
de Deus em evolução na Terra — conseguirá sublimar
os sentimentos que nos são próprios, de modo a erguer-nos em definitivo
para a conquista da felicidade celeste e do Amor Universal.