JUDAS |
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BIBLIOGRAFIA |
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| 01- A reencarnação na Bíblia - pág. 87 | 02 - Ave luz - pág. 82 |
| 03 - Boa nova - pág. 38, 42, 159 | 04 - Caminho, verdade e vida - pág. 195, 197 |
| 05 - De Francisco para você - pág. 111 | 06 - De Jesus para as crianças - pág. 56 |
| 07 - De Mário a Tiradentes - pág. 316 | 08 - Do país da luz - vol. ii pág. 125 |
| 09 - Florações Evangélicas - pág. 174 | 10 - Jesus no Lar - pág. 63 |
| 11 - Lázaro Redivivo - pág. 249 | 12 - Luz acima - pág. 187 |
| 13 - O Consolador - pág. 183 | 14 - O Redentor - pág. 143 |
| 15 - O solar de Apolo - pág. 206 | 16 - Oferenda - pág. 96 |
| 17 - Os milagres de Jesus - XV | 18 - Palavras de vida eterna - pág. 37; 62 |
| 19 - Parnaso de além túmulo - pág. 398 | 20 - Pérolas do além - pág. 130 |
| 21 - Pontos e Contos - pág. 183 | 22 - Religião dos Espíritos - pág. 35, 48 |
| 23 - Renúncia - pág. 316 | 24 - Saúde e Espiritismo - pág. 186 |
| 25 - Síntese de o Novo Testamento - pág. 180, 192, 195 | 26 - Vida de Jesus - pág. 100,121 |
| 27 - Vida e atos dos apóstolos - pág. 244, 259 | 28 - Vozes do grande além - pág. 174 |
LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.
JUDAS – COMPILAÇÃO
01- A reencarnação na Bíblia - Hermínio C. Miranda - pág. 87
DE
VOLTA AO APOCALIPSE
Continuemos, porém, já de volta ao Apocalipse, capítulo
19. João anuncia o retorno do Cristo, nestes termos:— Ei-lo que
vem sobre as nuvens; todo o olho o verá, até aqueles que o traspassaram,
e todas as nações da terra se lamentarão por ele. Como
poderão estar presentes para vê-lo com seus olhos, entre todos
os demais, aqueles mesmos seres que ajudaram a sacrificá-lo na cruz ?
No rosário de existências vividas desde que Jesus esteve entre
nós, é certo que alguns dos que contribuíram, de uma forma
ou outra, para a sua condenação e execução, aproveitaram
bem as oportunidades concedidas e poderão estar redimidos de seus erros
e pacificados quanto aos seus remorsos quando Ele retornar.
Em comunicação mediúnica de fontes insuspeitas —
Irmão X a Chico Xavier —, Judas Iscariotes alude a uma série
de existências vividas no sofrimento e na angústia, até
concluir o resgate de seu espírito numa fogueira ateada pela intolerância
religiosa no século 15. Esse é um dos que poderão contemplar
em paz a figura majestosa de Jesus, no seu anunciado retorno à terra.
Outros, porém, e talvez sejam maioria, estão ainda envolvidos
nos conflitos, nos ódios e nas incompreensões que os levaram a
traspassar o coração daquele excelso Espírito, cuja grandeza
não conseguiram nem mesmo vislumbrar. Também a estes foram concedidas
repetidas oportunidades de reajuste, mas persistiram no erro, reincidiram na
prática de desatinos, continuaram a culpar Jesus por suas desarmonias,
esquecidos de que não foi Jesus o responsável pelos seus crimes,
pelas suas incompreensões e rebeldias.
Para muitos desses, a doutrina do amor tornou-se, de fato, o pomo de discórdia,
não pela doutrina em si e nem pelo amor, mas precisamente pela ausência
de amor e de paz em seus rudes corações. Esses olhos são
tantos que, a quase dois mil anos de distância, João pode vê-los
a chorar por toda a terra, lamentando-se, por certo, por não terem sabido
aceitar, no tempo devido, o Cristo e a sua doutrina da fraternidade universal.
E, por isso, "todo o olho o verá; até os que o traspassaram",
redimidos ou não. Nenhum daqueles seres que lá estavam na Palestina
ou em Roma desapareceu ou deixou de existir. Estão por aí mesmo,
reencarnados ou no mundo dos Espíritos, pacificados ou ainda afligidos
por remorsos e revoltas. Nesse ínterim, viveram outras vidas, tiveram
novas oportunidades, exercitaram seu livre arbítrio e livraram-se de
suas dores ou as agravaram, tudo estritamente segundo o procedimento que resolveram
adotar.
Não
ficou dito que a cada um será dado segundo suas obras? Não ficou
dito que cada um responde pelos seus próprios erros, não os outros?
E que ninguém se livra das agonias enquanto não resgatar o último
dos seus crimes ? E que não insistíssemos no pecado porque senão
nos aconteceriam coisas ainda piores ? E que aquele que fere com ferro com o
mesmo ferro será ferido? E que nos reconciliássemos com os nossos
adversários enquanto estivéssemos a caminho com ele? E que nos
amássemos uns aos outros tal como Ele nos amou ?
Não faltaram, portanto, advertências, ensinamentos, exemplos e
apoio para a prática dos bons propósitos. Multidões inteiras,
porém, continuaram a seguir pelas trilhas do desvairamento, rejeitando
todas as oportunidades de aprendizado e de reajuste, mergulhando cada vez mais
fundo no erro, em vez de emergirem para a luz.
Não se admira, pois, que naquele dia da grande separação,
muitos sejam os olhos que estarão a chorar, pois muitos foram os que
olharam e não viram e os que não sentiram uma só lágrima
deslizar ante o sofrimento alheio que eles próprios causaram. Nessa hora
inexorável, todo olho O verá . . .
Não há como fugir agora, nem do resgate, nem de si mesmo e muito
menos de Deus.
03 - Boa nova - Humberto de Campos - pág. 38, 42, 159
5.
OS DISCÍPULOS
Frequentemente, era nas proximidades de Cafarnaum que o Mestre reunia a grande
comunidade dos seus seguidores. Numerosas pessoas o aguardavam ao longo do caminho,
ansiosas por lhe ouvirem a palavra instrutiva. Não tardou, porém,
que ele compusesse o seu reduzido colégio de discípulos. Depois
de uma das suas pregações do novo reino, chamou os doze companheiros
que, desde então, seriam os intérpretes de suas ações
e de seus ensinos. Eram eles os homens mais humildes e simples do lago de Genesaré.
Pedro, André e Filipe eram filhos de Betsaida, de onde vinham igualmente
Tiago e João, descendentes de Zebedeu. Levi, Tadeu e Tiago, filhos de
Alfeu e sua esposa Cleofas, parenta de Maria, eram nazarenos e amavam a Jesus
desde a infância, sendo muitas vezes chamados "os irmãos do
Senhor", à vista de suas profundas afinidades afetivas. Tomé
descendia de um antigo pescador de Dalmanuta e Bartolomeu nascera de uma família
laboriosa de Caná da Galiléia. Simão, mais tarde denominado
"o Zelote", deixara a sua terra de Canaã para dedicar-se à
pescaria, e somente um deles, Judas, destoava um pouco desse concerto, pois
nascera em Iscariotes e se consagrara ao pequeno comércio em Cafarnaum,
onde vendia peixes e quinquilharias.
O reduzido grupo de companheiros do Messias experimentou a princípio
certas dificuldades para harmonizar-se. Pequeninas contendas geravam a separatividade
entre eles. De vez em quando, o Mestre os surpreendia em discussões inúteis
sobre qual deles seria o maior no reino de Deus; de outras vezes, desejavam
saber qual, dentre todos, revelava sabedoria maior, no campo do Evangelho.
Levi continuava nos seus trabalhos da coletoria local, enquanto Judas prosseguia
nos seus pequenos negócios, embora se reunissem diariamente aos demais
companheiros. Os dez outros viviam quase que constantemente com Jesus, junto
às águas transparentes do Tiberíades, como se participassem
de uma festa incessante de luz. Iniciando-se, entretanto, o período de
trabalhos ativos pela difusão da nova doutrina, o Mestre reuniu os doze
em casa de Simão Pedro e lhes ministrou as primeiras instruções
referentes ao grande apostolado.
De conformidade com a narrativa de Mateus, as recomendações iniciais
do Messias aclaravam as normas de ação que os discípulos
deviam seguir para as realizações que lhes competiam concretizar.—
Amados — entrou Jesus a dizer-lhes, com mansidão extrema —,
não tomareis o caminho largo por onde anda toda gente, levada pelos interesses
fáceis e inferiores; buscareis a estrada escabrosa e estreita dos sacrifícios
pelo bem de todos. Também não penetrareis nos centros de discussões
estéreis, à moda dos samaritanos, nos das contendas que nada aproveitam
às edificações do verdadeiro reino nos corações
com sincero esforço.
Ide antes em busca das ovelhas perdidas da casa de nosso Pai que se encontram
em aflição e voluntariamente desterradas de seu divino amor. Reuni
convosco todos os que se encontram de coração angustiado e dizei-lhes,
de minha parte, que é chegado o reino de Deus. Trabalhai em curar os
enfermos, limpar os leprosos, ressuscitar os que estão mortos nas sombras
do crime ou das desilusões ingratas do mundo, esclarecei todos os espíritos
que se encontram em trevas, dando de graça o que de graça vos
é concedido.
Não exibais ouro ou prata em vossas vestimentas, porque o reino do céu
reserva os mais belos tesouros para os simples. Não ajunteis o supérfluo
em alforjes, túnicas ou alpercatas para o caminho, porque digno é
o operário do seu sustento. Em qualquer cidade ou aldeia onde entrardes,
buscai saber quem deseje aí os bens do céu, com sinceridade e
devotamento a Deus, e reparti as bênçãos do Evangelho com
os que sejam dignos, até que vos retireis. Quando penetrardes nalguma
casa, saudai-a com amor.
Se essa casa merecer as bênçãos de vossa dedicação,
desça sobre ela a vossa paz; se, porém, não for digna,
torne essa mesma paz aos vossos corações. Se ninguém vos
receber, nem desejar ouvir as vossas instruções, retirai-vos sacudindo
o pó de vossos pés, isto é, sem conservardes nenhum rancor
e sem vos contaminardes da alheia iniquidade. Em verdade vos digo que dia virá
em que menos rigor haverá para os grandes pecadores, do que para quantos
procuram a Deus com os lábios da falsa crença, sem a sinceridade
do coração.
É por essa razão que vos envio como ovelhas ao antro dos lobos,
recomendando-vos a simplicidade das pombas e a prudência das serpentes.
Acautelai-vos, pois, dos homens, nossos irmãos, porque sereis entregues
aos seus tribunais e sereis açoitados nos seus templos suntuosos, de
onde está exilada a idéia de Deus. Sereis conduzidos, como réus,
à presença de governadores e reis, de tiranos e descrentes, a
fim de testemunhardes a minha causa.
Mas, nos dias dolorosos da humilhação, não vos dê
cuidado como haveis de falar, porque minha palavra estará convosco e
sereis inspirados, quanto ao que houverdes de dizer. Porque não somos
nós que falamos; o espírito amoroso de Nosso Pai é que
fala em todos nós. Nesses dias de sombra, em que se lutará no
mundo por meu nome, o irmão entregará à morte o próprio
irmão, o pai os filhos, espalhando-se nos caminhos o rastro sinistro
dos lobos da iniquidade.
Os que me seguirem serão desprezados e odiados por minha causa, mas aquele
que perseverar, até o fim, será salvo. Quando, pois, fordes perseguidos
numa cidade, transportai-vos para outra, porque em verdade vos afirmo que jamais
estareis nos caminhos humanos sem que vos acompanhe o meu pensamento. Se tendes
de sofrer, considerai que também eu vim à Terra para dar o testemunho
e não é o discípulo mais do que o mestre, nem o servo mais
que o seu senhor.
Se o adversário da luz vai reunir contra mim as tentações
e as zombarias, o ridículo e a crueldade, que não fará
aos meus discípulos?
Todavia, sabeis que acima de tudo está o Nosso Pai e que, portanto, é
preciso não temer, pois um dia toda a verdade será revelada e
todo o bem triunfará. O que vos ensino em particular, difundi-o publicamente;
porque o que agora escutais aos ouvidos será o objeto de vossas pregações
de cima dos telhados.
Trabalhai pelo reino de Deus e não temais os que matam o corpo, mas não
podem aniquilar a alma; temei antes os sentimentos malignos que mergulham o
corpo e a alma no inferno da consciência. Não se vendem dois passarinhos
por um ceitil? Entretanto, nenhum deles cai dos seus ninhos sem a vontade do
nosso Pai. Até mesmo os cabelos de nossas cabeças estão
contados. Não temais, pois, porque um homem vale mais que muitos passarinhos.
Empregai-vos no amor do Evangelho e qualquer de vós que me confessar,
diante dos homens, eu o confessarei igualmente diante de meu Pai que está
nos céus. As recomendações de Jesus foram ouvidas ainda
por algum tempo e, terminada a sua alocução, no semblante de todos
perpassava a nota íntima da alegria e da esperança. Os apóstolos
criam contemplar o glorioso porvir do Evangelho do Reino e estremeciam do júbilo
de seus corações.
Foi quando Judas Iscariotes, como que despertando, antes de todos os companheiros,
daquelas profundas emoções de encantamento, se adiantou para o
Messias, declarando em termos respeitosos e resolutos:— Senhor, os vossos
planos são justos e preciosos; entretanto, é razoável considerarmos
que nada poderemos edificar sem a contribuição de algum dinheiro.
Jesus contemplou-o serenamente e redarguiu: — Será que Deus precisou
das riquezas precárias para construir as belezas do mundo? Em mãos
que saibam dominá-lo, o dinheiro é um instrumento útil,
mas nunca será tudo, porque, acima dos tesouros perecíveis, está
o amor com os seus infinitos recursos. Em meio da surpresa geral, Jesus, depois
de uma pausa, continuou:
— No entanto, Judas, embora eu não tenha qualquer moeda do mundo,
não posso desprezar o primeiro alvitre dos que contribuirão comigo
para a edificação do reino de meu Pai no espírito das criaturas.
Põe em prática a tua lembrança, mas tem cuidado com a tentação
das posses materiais. Organiza a tua bolsa de cooperação e guarda-a
contigo; nunca, porém, procures o que ultrapasse o necessário.
Ali mesmo, pretextando a necessidade de incentivar os movimentos iniciais da
grande causa, o filho de Iscariotes fez a primeira coleta entre os discípulos.
Todas as possibilidades eram mínimas, mas alguns pobres denários
foram recolhidos com interesse. O Mestre observava a execução
daquela primeira providência, com um sorriso cheio de apreensões,
enquanto Judas guardava cuidadosamente o fruto modesto de sua lembrança
material. Em seguida, apresentando a Jesus a bolsa minúscula, que se
perdia nas dobras de sua túnica, exclamou, satisfeito:
— Senhor, a bolsa é pequenina, mas constitui o primeiro passo para
que se possa realizar alguma coisa... Jesus fitou-o serenamente e retrucou em
tom profético: — Sim, Judas, a bolsa é pequenina; contudo,
permita Deus que nunca sucumbas ao seu peso!
24
- A ILUSÃO DO DISCÍPULO
Jesus havia chegado a Jerusalém sob uma chuva de flores. De tarde, após
a consagração popular, caminhavam Tiago e Judas, lado a lado,
por uma estrada antiga, marginada de oliveiras, que conduzia às casinhas
alegres de Betânia. Judas Iscariotes deixava transparecer no semblante
íntima inquietação, enquanto no olhar sereno do filho de
Zebedeu fulgurava a luz suave e branda que consola o coração das
almas crentes.
— Tiago — exclamou Judas, entre ansioso e atormentado —, não
achas que o Mestre é demasiado simples e bom para quebrar o jugo tirânico
que pesa sobre Israel, abolindo a escravidão que oprime o povo eleito
de Deus?— Mas — replicou o interpelado — poderias admitir
no Mestre as disposições destruidoras de um guerreiro do mundo?
— Não tanto assim. Contudo, tenho a impressão de que o Messias
não considera as oportunidades. Ainda hoje, tive a atenção
reclamada por doutores da lei que me fizeram sentir a inutilidade das pregações
evangélicas, sempre levadas a efeito entre as pessoas mais ignorantes
e desclassificadas. Ora, as reivindicações do nosso povo exigem
um condutor enérgico e altivo.
— Israel — retrucou o filho de Zebedeu, de olhar sereno —
sempre teve orientadores revolucionários; o Messias, porém, vem
efetuar a verdadeira revolução, edificando o seu reino sobre os
corações e nas almas!...Judas sorriu, algo irônico, e acrescentou:—
Mas, poderemos esperar renovações, sem conseguirmos o interesse
e a atenção dos homens poderosos?— E quem haverá
mais poderoso do que Deus, de quem o Mestre é o Enviado divino?
Em face dessa invocação, Judas mordeu os lábios, mas prosseguiu:—
Não concordo com os princípios de inação e creio
que o Evangelho somente poderá vencer com o amparo dos prepostos de César
ou das autoridades administrativas de Jerusalém que nos governam o destino.
Acompanhando o Mestre nas suas pregações em Cesaréia, em
Sebaste, em Corazim e Betsaida, quando das suas ausências de Cafarnaum,
jamais o vi interessado em conquistar a atenção dos homens mais
altamente colocados na vida.
É certo que de seus lábios divinos sempre brotaram a verdade e o amor, por toda parte; mas só observei leprosos e cegos, pobres e ignorantes, abeirando-se de nossa fonte.— Jesus, porém, já nos esclareceu — obtemperou Tiago com brandura — que o seu reino não é deste mundo. Imprimindo aos olhos inquietos um fulgor estranho, o discípulo impaciente revidou com energia: — Vimos hoje o povo de Jerusalém atapetar o caminho do Senhor com as palmas da sua admiração e do seu carinho; precisamos, todavia, impor a figura do Messias às autoridades da Corte Provincial e do Templo, de modo a aproveitarmos esse surto de simpatia.
Notei
que Jesus recebia as homenagens populares sem partilhar do entusiasmo febril
de quantos o cercavam, razão por que necessitamos multiplicar esforços,
em lugar dele, a fim de que a nossa posição de superioridade seja
reconhecida em tempo oportuno.
— Recordo-me, entretanto, de que o Mestre nos asseverou, certa vez, que
o maior na comunidade será sempre aquele que se fizer o menor de todos.—
Não podemos levar em conta esses excessos de teoria.
Interpelado que vou ser hoje por amigos influentes na política de Jerusalém, farei o possível por estabelecer acordos com os altos funcionários e homens de importância, para imprimirmos novo movimento às idéias do Messias.— Judas! Judas!... — observou-lhe o irmão de apostolado, com doce veemência — vê lá o que fazes! Socorreres-te dos poderes transitórios do mundo, sem um motivo que justifique esse recurso, não será desrespeito à autoridade de Jesus?
Não
terá o Mestre visão bastante para sondar e reconhecer os corações?
O hábito dos sacerdotes e a toga dos dignitários romanos são
roupagens para a Terra... As idéias do Mestre são do Céu
e seria sacrilégio misturarmos a sua pureza com as organizações
viciadas do mundo!... Além de tudo, não podemos ser mais sábios,
nem mais amorosos do que Jesus e ele sabe o melhor caminho e a melhor oportunidade
para a conversão dos homens!... As conquistas do mundo são cheias
de ciladas para o espírito e, entre elas, é possível que
nos transformemos em órgão de escândalo para a verdade que
o Mestre representa. Judas silenciou, aflito.
No firmamento, os derradeiros raios de Sol batiam nas nuvens distantes, enquanto
os dois discípulos tomavam rumos diferentes. Sem embargo das carinhosas
exortações de Tiago, Judas Iscariotes passou a noite tomado de
angustiosas inquietações. Não seria melhor apressar o triunfo
mundano do Cristianismo? Israel não esperava um Messias que enfeixasse
nas mãos todos os poderes? Valendo-se da doutrina do Mestre, poderia
tomar para si as rédeas do movimento renovador, enquanto Jesus, na sua
bondade e simpleza, ficaria entre todos, como um símbolo vivo da idéia
nova.
Recordando suas primeiras conversações com as autoridades do Sinédrio,
meditava na execução de seus sombrios desígnios. A madrugada
o encontrou decidido, na embriaguez de seus sonhos ilusórios. Entregaria
o Mestre aos homens do poder, em troca de sua nomeação oficial
para dirigir a atividade dos companheiros. Teria autoridade e privilégios
políticos. Satisfaria às suas ambições, aparentemente
justas, com o fim de organizar a vitória cristã no seio de seu
povo. Depois de atingir o alto cargo com que contava, libertaria Jesus e lhe
dirigiria os dons espirituais, de modo a utilizá-los para a conversão
de seus amigos e protetores prestigiosos.
O Mestre, a seu ver, era demasiadamente humilde e generoso para vencer sozinho,
por entre a maldade e a violência. Ao desabrochar a alvorada, o discípulo
imprevidente demandou o centro da cidade e, após horas, era recebido
pelo Sinédrio, onde lhe foram hipotecadas as mais relevantes promessas.
Apesar de satisfeito com a sua mesquinha gratificação e desvairado
no seu espírito ambicioso, Judas amava o Messias e esperava ansiosamente
o instante do triunfo para lhe dar a alegria da vitória cristã,
através das manobras políticas do mundo.
O prêmio da vaidade, porém, esperava a sua desmedida ambição.
Humilhado e escarnecido, seu Mestre bem-amado foi conduzido à cruz da
ignomínia, sob vilipêndios e flagelações. Daqueles
lábios, que haviam ensinado a verdade e o bem, a simplicidade e o amor,
não chegou a escapar-se uma queixa. Martirizado na sua estrada de angústias,
o Messias só teve o máximo de perdão para seus algozes.
Observando os acontecimentos, que lhe contrariavam as mais íntimas suposições,
Judas Iscariotes se dirigiu a Caifás, reclamando o cumprimento de suas
promessas. Os sacerdotes, porém, ouvindo-lhe as palavras tardias, sorriram
com sarcasmo. Debalde recorreu às suas prestigiosas relações
de amizade: teve de reconhecer a falibilidade das promessas humanas. Atormentado
e aflito, buscou os companheiros de fé. Encontrou-os vencidos e humilhados;
pareceu-lhe, porém, descobrir em cada olhar a mesma ex-probração
silenciosa e dolorida.
Já se havia escoado a hora sexta, em que o Mestre expirara na cruz, implorando
perdão para seus verdugos. De longe, Judas contemplou todas as cenas
angustiosas e humilhantes do Calvário. Atroz remorso lhe pungia a consciência
dilacerada. Lágrimas ardentes lhe rolavam dos olhos tristes e amortecidos.
Malgrado à vaidade que o perdera, ele amava intensamente o Messias.
Em breves instantes, o céu da cidade impiedosa se cobriu de nuvens escuras
e borrascosas. O mau discípulo, com um oceano de dor na consciência,
peregrinou em derredor do casario maldito, acalentando o propósito de
desertar do mundo, numa suprema traição aos compromissos mais
sagrados de sua vida.
Antes, porém, de executar seus planos tenebrosos, junto à figueira
sinistra, ouvia a voz amargurada do seu tremendo remorso. Relâmpagos terríveis
rasgavam o firmamento; trovões violentos pareciam lançar sobre
a terra criminosa a maldição do céu vilipendiado e esquecido.
Mas, sobre todas as vozes confusas da Natureza, o discípulo infeliz escutava
a voz do Mestre, consoladora e inesquecível, penetrando-lhe os refolhos
mais íntimos da alma: - "Eu sou o Carminho, a Verdade e a Vida.
Ninguém pode ir ao pai, senão por mim!..."
04 - Caminho, verdade e vida - Emmanuel - pág. 195, 197
90
- ENSEJO AO BEM
"Jesus, porém, lhe disse: Amigo, a que vieste?
— Então, aproximando-se, lançaram mão de Jesus e
o prenderam." — (MATEUS, 26:50.)
É significativo observar o otimismo do Mestre, prodigalizando oportunidades
ao bem, até ao fim de sua gloriosa missão de verdade e amor, junto
dos homens.
Cientificara-se o Cristo, com respeito ao desvio de Judas, comentara amorosamente
o assunto, na derradeira reunião mais íntima com os discípulos,
não guardava qualquer dúvida relativamente aos suplícios
que o esperavam; no entanto, em se aproximando, o cooperador transviado beija-o
na face, Identificando-o perante os verdugos, e o Mestre, com sublime serenidade,
recebe-lhe a saudação carinhosamente e indaga: Amigo, a que vieste?
Seu coração misericordioso proporcionava ao discípulo inquieto
o ensejo ao bem, até ao derradeiro instante. Embora notasse Judas em
companhia dos guardas que lhe efetuariam a prisão, dá-lhe o título
de amigo. Não lhe retira a confiança do minuto primeiro, não
o maldiz, não se entrega a queixas inúteis, não o recomenda
à posteridade com acusações ou conceitos menos dignos.
Nesse gesto de inolvidável beleza espiritual, ensinou-nos Jesus que é
preciso oferecer portas ao bem, até à última hora das experiências
terrestres, ainda que, ao término da derradeira oportunidade, nada mais
reste além do caminho para o martírio ou para a cruz dos supremos
testemunhos.
91
- CAMPO DE SANGUE ;
"Por isso foi chamado aquele campo, até ao
dia de hoje, Campo de Sangue." — (MATEUS, 27:8.)
Desorientado, em vista das terríveis consequências de sua irreflexão,
Judas procurou os sacerdotes e restituiu-lhes as trinta moedas, atirando-as,
a esmo, no recinto do Templo.
Os mentores do Judaísmo concluíram, então, que o dinheiro
constituía preço de sangue e, buscando desfazer-se rapidamente
de sua posse, adquiriram um campo destinado ao sepulcro dos estrangeiros, denominado,
desde então, Campo de Sangue.
Profunda a expressão simbólica dessa recordação
e, com a sua luz, cabe-nos reconhecer que a maioria dos homens continua a irrefletida
ação de Judas, permutando o Mestre, inconscientemente, por esperanças
injustas, por vantagens materiais, por privilégios passageiros.
Quando
podem examinar a extensão dos enganos a que se acolheram, procuram, desesperados,
os comparsas de suas ilusões, tentando devolver-lhes quanto lhes coube
nos criminosos movimentos em que se comprometeram na luta humana; todavia, com
esses frutos amargos apenas conseguem adquirir o campo de sangue das expiações
dolorosas e ásperas, para sepulcro dos cadáveres de seus pesadelos
delituosos, estranhos ao ideal divino da perfeição em Jesus-Cristo.
Irmão em humanidade, que ainda não pudeste sair do campo milenário
das reencarnações, em luta por enterrar os pretéritos crimes
que não se coadunam com a Lei Eterna, não troques o Cristo Imperecível
por um punhado de cinzas misérrimas, porque, do contrário, continuarás
circunscrito à região escura da carne sangrenta.
10 - Jesus no Lar - Néio Lúcio - pág. 63
13
- O revolucionário sincero
No curso das elucidações domésticas, Judas conversava,
entusiástico, sobre as anomalias na governança do povo, e, exaltado,
dizia das probabilidades de revolução em Jerusalém, quando
o Senhor comentou, muito calmo:— Um rei antigo era considerado cruel pelo
povo de sua pátria, a tal ponto que o principal dos profetas do reino
foi convidado a chefiar uma rebelião de grande alcance, que o arrancasse
do Trono.
O profeta não acreditou, de início, nas denúncias populares,
mas a multidão insistia. «O rei era duro de coração,
era mau senhor, perseguia, usurpava e flagelava os vassalos em todas as direções»
— clamava-se desabridamente. Foi assim que o condutor de boa-fé
se inflamou, igualmente, e aceitou a idéia de uma revolução
por único remédio natural e, por isso, articulou-a em silêncio,
com algumas centenas de companheiros decididos e corajosos.
Na
véspera do cometimento, contudo, como possuía segura confiança
em Deus, subiu ao topo dum monte e rogou a assistência divina com tamanho
fervor que um Anjo das Alturas lhe foi enviado para confabulação
de espírito a espírito. A frente do emissário sublime,
o profeta acusou o soberano, asseverando quanto sabia de oitiva e suplicando
aprovação celeste ao plano de revolta renovadora.
O mensageiro anotou-lhe a sinceridade, escutou-o com paciência e esclareceu:
— «Em nome do Supremo Senhor, o projeto ficará aprovado,
com uma condição. Conviverás com o rei, durante cem dias
consecutivos, em seu próprio palácio, na posição
de servo humilde e fiel, e, findo esse tempo, se a tua consciência perseverar
no mesmo propósito, então lhe destruirás o trono, com o
nosso apoio». O chefe honesto aceitou a proposta e cumpriu a determinação.
Simples e sincero, dirigiu-se à casa real, onde sempre havia acesso aos
trabalhos de limpeza e situou-se na função de apagado servidor;
no entanto, tão logo se colocou a serviço do monarca, reparou
que ele nunca dispunha de tempo para as menores obrigações alusivas
ao gosto de viver. Levantava-se rodeado de conselheiros e ministros impertinentes,
era atormentado por centenas de reclamações de hora em hora.
Na
qualidade de pai, era privado da ternura dos filhos; na condição
de esposo, vivia distante da companheira. Além disso, era obrigado, frequentemente,
a perder o equilíbrio da saúde física, em vista de banquetes
e cerimônias, excessivamente repetidos, nos quais era compelido a ouvir
toda a sorte de mentiras da boca de súditos bajuladores e ingratos. Nunca
dormia, nem se alimentava em horas certas e, onde estivesse, era constrangido
a vigiar as próprias palavras, sendo vedada ao seu espírito qualquer
expressão mais demorada de vida que não fosse o artifício
a sufocar-lhe o coração.
O orientador da massa popular reconheceu que o imperante mais se assemelhava
a um escravo, duramente condenado a servir sem repouso, em plena solidão
espiritual, porquanto o rei não gozava nem mesmo a facilidade de cultivar
a comunhão com Deus, por intermédio da prece comum.
Findo o prazo estabelecido, o profeta, radicalmente transformado, regressou
ao monte para atender ao compromisso assumido, e, notando que o Anjo lhe aparecia,
no curso das orações, implorou-lhe misericórdia para o
rei, de quem ele agora se compadecia sinceramente.
Em
seguida, congregou o povo e notificou a todos os companheiros de ideal que o
soberano era, talvez, o homem mais torturado em todo o reino e que, ao invés
da suspirada insubmissão, competia-Ihes, a cada um, maior entendimento
e mais trabalho construtivo, no lugar que lhes era próprio dentro do
país, a fim de que o monarca, de si mesmo tão escravizado e tão
desditoso, pudesse cumprir sem desastres a elevada missão de que fora
investido.
E, assim, a rebeldia foi convertida em compreensão e serviço.
Judas, desapontado, parecia ensaiar alguma ponderação irreverente,
mas o Mestre Divino antecipou-se a ele, falando, incisivo:
— A revolução é sempre o engano trágico daqueles
que desejam arrebatar a outrem o cetro do governo. Quando cada servidor entende
o dever que lhe cabe no plano da vida, não há disposição
para a indisciplina, nem tempo para a insubmissão.
13 - O Consolador - Emmanuel - pág. 183
Perg.
319 - Quem terá recebido maior soma de misericórdia na justiça
divina: -Judas, o discípulo infiel, mas iludido e arrependido, ou o sacerdote
maldoso e indiferente, que o induziu à defecção?
- Quem há recebido mais misericórdia, por mais necessitado e indigente,
é o mau sacerdote de todos os tempos, que, longe de confundir a lição
do Cristo uma só vez, vem praticando a defecção espiritual
para com o Divino Mestre, desde muitos séculos.
18 - Palavras de vida eterna - Emmanuel - pág. 37; 62
12.
PERANTE JESUS
"Porventura sou eu, Senhor?" - (MATEUS, 26:22.)
Diante da palavra do Mestre, reportando-se ao espírito de leviandade
e defecção que o cercava, os discípulos perguntaram afoitos:
— "Porventura sou eu, Senhor?" E quase todos nós, analisando
o gesto de Judas, incriminamo-lo em pensamento. Por que teria tido a coragem
de vender o Divino Amigo por trinta moedas?
Entretanto, bastará um exame mais profundo em nós mesmos, a fim
de que vejamos nossa própria negação à frente do
Cristo. Judas teria cedido à paixão política dominante,
enganado pelas insinuações de grupos famintos de libertação
do jugo romano... Teria imaginado que Jesus, no Sinédrio, avocaria a
posição de emancipador da sua terra e da sua gente, exibindo incontestável
triunfo humano...
E, apenas depois da desilusão dolorosa e terrível, teria assimilado
toda a verdade!... Mas nós? Em quantas existências e situações
tê-lo-emos vendido no altar do próprio coração, ao
preço mesquinho de nosso desvairamento individual?
Nos prélios da vaidade e do orgulho...
Nas exigências do prazer egoísta...
Na tirania da opinião...
Na crueldade confessa...
Na caça da fortuna material...
Na rebeldia destruidora...
No olvido de nossos deveres...
No aviltamento de nosso próprio trabalho...Na edificação
íntima do Reino de Deus, meditemos nossos erros conscientes ou não,
definindo nossas responsabilidades e débitos para com a vida, para com
a Natureza e para com os semelhantes e, em todos os assuntos que se refiram
à deserção perante o Cristo, teremos bastante força
para desculpar as faltas do próximo, perguntando, com sinceridade, no
âmago do coração:
— "Porventura existirá alguém mais ingrato para contigo
do que eu, Senhor?"
24. LIBERDADE EM CRISTO
"Estais pois firmes na liberdade com que o Cristo
nos libertou e não vos submetais de novo ao Jugo da escravidão."
— Paulo.
(GALATAS, 5:1.)
Meditemos na liberdade com que o Cristo nos libertou das algemas da ignorância
e da crueldade. Não lhe enxergamos qualquer traço de rebeldia
em momento algum. Através de todas as circunstâncias, sem perder
o dinamismo da própria fé, submete-se, valoroso, ao arbítrio
de nosso Pai.
Começa a Missão Divina, descendo da Glória Celestial para
o estreito recinto da manjedoura desconhecida. Não exibe uma infância
destacada no burgo em que se acolhe a sua equipe familiar; respira o ambiente
da vida simples, não obstante a Luz Sublime com que supera o nível
intelectual dos doutores de sua época.
Inicia o apostolado da Boa Nova, sem constranger as grandes inteligências
a lhe aceitarem a doutrina santificante, contentando-se com a adesão
dos pescadores de existência singela. Fascinando as multidões com
a sua lógica irresistível, não lhes açula qualquer
impulso de reivindicação social, ensinando-as a despertar no próprio
coração os valores do espírito.
Impondo-se pela grandeza única que lhe assinala a presença, acenam-lhe
com uma coroa de rei, que Ele não aceita. Observando o povo jugulado
por dominadores estrangeiros, não lhe aconselha qualquer indisciplina,
recomendando-lhe, ao invés disso, "dar a César o que é
de César e a Deus o que é de Deus".
Sabe que Judas, o companheiro desditoso, surge repentinamente possuído
por desvairada ambição política, firmando conchavos com
perseguidores da sua Causa Sublime, contudo, não lhe promove a expulsão
do círculo mais íntimo. Não ignora que Simão Pedro
traz no âmago da alma a fraqueza com que o negará diante do mundo,
mas, não se exaspera, por isso, e ajuda-o cada vez mais.
Ele, que limpara leprosos e sarara loucos, que restituíra a visão
aos cegos e o movimento aos paralíticos, não se exime à
prisão e ao escárnio público, à flagelação
e à cruz da morte.
Refutamos, pois, que a liberdade, segundo o Cristo, não é o abuso
da faculdade de raciocinar, empreender e fazer, mas sim a felicidade de obedecer
a Deus, construindo o bem de todos, ainda mesmo sobre o nosso próprio
sacrifício, porque somente nessa base estamos enfim livres para atender
aos disígnios do Eterno Pai, sem necessidade de sofrer o escuro domínio
das arrasadoras paixões que nos encadeiam o espírito por tempo
indeterminado às trevas expiatórias.
22 - Religião dos Espíritos - Emmanuel -
pág. 35, 48
Pureza
- Reunião pública de 16-2-59 Questão n° 632
«Bem-aventurados os puros, porque verão a
Deus.»
Estudando a palavra do Mestre Divino, recordemos que no mundo, até hoje,
não existiu ninguém quanto Ele, com tanta pureza na própria
alma. Cabe-nos, pois, lembrar como Jesus via no caminho da vida, para reconhecermos
com segurança que, embora na Terra, sabia encontrar a Presença
Divina em todas as situações e em todas as criaturas.
Para muita gente, a manjedoura era lugar desprezível; entretanto, Ele
via Deus na humildade com que a Natureza lhe oferecia materno colo e transformou
a estrebaria num poema de excelsa beleza. Para muita gente, Maria de Magdala
era mulher sem qualquer valor, pela condição de obsidiada em que
se mostrava na vida pública; no entanto, Ele via Deus naquele coração
feminino ralado de sofrimento e converteu-a em mensageira da celeste ressurreição.
Para muita gente, Simão Pedro era homem rude e inconstante, indigno de
maior consideração; contudo, Ele via Deus no espírito atribulado
do pescador semi-analfabeto que o povo menosprezava e transmutou-o em paradigma
da fé cristã, para todos os séculos.
Para muita gente, Judas era negociante de expressão suspeita, capaz de
astuciosos ardis em louvor de si mesmo; no entanto, Ele via Deus na alma inquieta
do companheiro que os outros menoscabavam e estendeu-Ihe braços amigos
até ao fim da penosa deserção a que o discípulo
distraído se entregou, invigilante.
Para muita gente, Saulo de Tarso era guardião intransigente da Lei Antiga,
vaidoso e perverso, na defesa dos próprios caprichos; contudo, Ele via
Deus naquele espírito atormentado, e procurou-o pessoalmente, para confiar-lhe
embaixada importante.
Se purificares, assim, o coração, identificarás a presença
de Deus em toda parte, compreendendo que a esperança do Criador não
esmorece em criatura alguma, e perceberás que a maldade e o crime são
apenas espinheiro e lama que envolvem o campo da alma — o brilhante divino
que virá fatalmente à luz...
E aprendendo e servindo, ajudando e amando passarás, na Terra, por mensagem
incessante de amor, ensinando os homens que te rodeiam a converter o charco
em berço de pão e a entender que, mesmo nas profundezas do pântano,
podem surgir lírios perfumados e puros para exaltar a glória de
Deus.
Jesus e humildade - Reunião pública de 9-3-59
Questão n° 937
Estudando a humildade, vejamos como se comportava Jesus no exercício
da sublime virtude. Decerto, no tempo em que ao mundo deveria surgir a mensagem
da Boa-Nova, poderia permanecer na glória celeste e fazer-se representar
entre os homem pela pessoa de mensageiros angélicos, mas proferiu descer,
ele mesmo, ao chão da Terra, e experimentar-lhe as vicissitudes.
Indubitavelmente, contava com poder bastante para anular a sentença de
Heródes que mandava decepar a cabeça dos recém-natos de
sua condição, com o fim de impedir-lhe a presença; entretanto,
afastou-se prudentemente para longínquo rincão, até que
a descabida exigência fosse necessariamente proscrita.
Dispunha de vastos recursos para se impor em Jerusalém, ao pé
dos doutores que lhe negavam autoridade no ensino das novas revelações;
contudo, retirou-se sem mágoa em demanda de remota província,
a valer-se dos homens rudes que lhe acolhiam a palavra consoladora.
Possuía suficiente virtude para humilhar a filha de Magdala, dominada
pela força das sombras; no entanto, silenciou a própria grandeza
moral para chamá-la docemente ao reajuste da vida. Atento à própria
dignidade, era justo mandasse os discípulos ao encontro dos sofredores
para consolá-los na angústia e sarar-lhes a ulceração;
todavia, não renunciou ao privilégio de seguir, Ele mesmo, em
cada canto de estrada, a fim de ofertar-lhes alívio e esperança,
fortaleza e renovação.
Certo, detinha elementos para desfazer-se de Judas, o aprendiz insensato; porém,
apesar de tudo, conservou-o até o último dia da luta, entre aqueles
que mais amava. Com uma simples palavra, poderia confundir os juizes que o rebaixavam
perante Barrabás, autor de crimes confessos; contudo, abraçou
a cruz da morte, rogando perdão para os próprios carrascos.
Por fim, poderia condenar Saulo de Tarso, o implacável perseguidor, a
penas soezes, pela intransigência perversa com que aniquilava a plantação
do Evangelho nascente; mas buscou-o, em pessoa, às portas de Damasco,
visitando-lhe o coração, por sabê-lo enganado na direção
em que se movia.
Com Jesus, percebemos que a humildade nem sempre surge da pobreza ou da enfermidade
que tanta vez somente significam lições regeneradoras, e sim que
o talento celeste é atitude da alma que olvida a própria luz para
levantar os que se arrastam nas trevas e que procura sacrificar a si própria,
nos carreiros empedrados do Mundo, para que os outros aprendam, sem constrangimento
ou barulho, a encontrar o caminho para as bênçãos do Céu.
25 - Síntese de o Novo Testamento - Mínimus
- pág. 180, 192, 195
JESUS É UNGIDO EM BETÂNIA - (Mat. 26:1; Mar, 14:1 a 9; Luc, 22:1 e 2; Jo, 12:1 a 8)
Seis
dias antes da Páscoa foi Jesus a Betânia. Ofereceram-lhe, ali,
na casa de Simão, o leproso, uma ceia, na qual servia Marta e onde Lázaro
fazia parte dos convivas. Então Maria, trazendo um vaso de alabastro
com precioso perfume, aproximou-se de Jesus, ungiu-lhe os pés e lho derramou
sobre a cabeça, quando ele estava à mesa.
Judas Iscariotes, um de seus discípulos, aquele que o havia de trair,
perguntou: — Porque não se vendeu este perfume por trezentos denários
e não se deu aos pobres? — Isto disse ele, não porque se
preocupasse com os pobres, mas porque era ladrão e, sendo o portador
da bolsa, subtraía o que nela se deitava.
Respondeu Jesus: — "Porque molestais esta mulher? ela me fez uma
boa obra. Pois os pobres sempre os tendes convosco e, quando quiserdes, podeis
fazer-lhes bem; mas, a mim, nem sempre me tendes; derramando ela este perfume
sobre meu corpo, fê-lo para a minha sepultura. Em verdade vos digo que
onde quer que, no mundo inteiro, for pregado este Evangelho, narrado também
será, em sua memória, o que ela fez".
Tendo acabado de proferir todo este discurso, disse Jesus a seus discípulos:
— "Sabeis que de hoje a dois dias se celebrará a Páscoa,
a festa dos pães ázimos, e o Filho do homem será entregue
para ser crucificado".
A esse tempo reuniram-se os principais sacerdotes, os escribas e os anciãos
do povo no pátio da casa do sumo sacerdote, chamado Caifás; e
deliberaram prender Jesus à traição e tirar-lhe a vida.
Mas diziam: — Durante a festa, não; para que não haja motim
entre o povo.
Os sacerdotes se utilizam de Judas. (Mat., 26:14 a 19; Marc., 14:10 a 16; Luc.,
22:3 a 13)
Ora, Satanás entrou em Judas Iscariotes, que era , um dos doze; e Judas
foi e se entendeu com os principais sacerdotes e os oficiais do templo sobre
o modo de lho entregar. Alegraram-se todos e ajustaram em dar-lhe trinta moedas
de prata. Ele concordou e procurava ocasião de entregá-lo, sem
que a multidão o soubesse.
Chegou o dia dos pães ázimos, em que se devia imolar a Páscoa,
e Jesus enviou a Pedro e João, dizendo--Ihes: — "Ide preparar-nos
a Páscoa, para que a comamos". Eles lhe perguntaram: — Onde
queres que a preparemos? Respondeu-lhes: — "Ao entrardes na cidade,
encontrareis um homem carregando um cântaro de água; acompanhai-o
até à casa em que ele entrar, e dizei ao dono dela:
O
Mestre manda perguntar-te: Onde é o compartimento em que hei de comer
a páscoa com meus discípulos? — Ele vos mostrará
um amplo cenáculo mobilado; ali fazei os preparativos". —
Eles foram e acharam como ele lhes dissera, e prepararam a Páscoa.
A última ceia. Predição da traição. Mat.,
26:20 a 30; Mar., 14:17 a 26; Luc., 22:14 a 23; Jo., 13:18 a 32)
À tarde foi Jesus com os doze e, chegada a hora, pôs-se ele à
mesa juntamente com os apóstolos e disse: — "Tenho desejado
ansiosamente comer convosco esta Páscoa, antes que eu padeça,
pois vos declaro que nunca mais hei-de comê-la, até que ela se
cumpra no reino de Deus." — Depois de receber o cálice, dando
graças, disse:
— "Tomai-o e distribuí-o entre vós; pois vos digo que
não tornarei a beber do fruto da videira, até que venha o reino
de Deus". Enquanto comiam, declarou Jesus: — "Em verdade vos
digo que um de vós me trairá". Eles, profundamente contristados,
começaram um a um a perguntar-lhe: — Porventura sou eu, Senhor?
— Respondeu ele:
—
"A mão daquele que me trai está comigo à mesa. Não
falo de todos vós, conheço aqueles que escolhi; mas para que se
cumpra a Escritura: Aquele que come o meu pão, levantou contra mim o
seu calcanhar".
Estando todos a comer, Jesus pegou do pão e, tendo dado graças,
partiu-o e deu aos seus discípulos, dizendo: — "Tomai e comei;
isto é o meu corpo que é dado por vós; fazei isto em minha
memória".
Terminada a ceia, Jesus, tomando o cálice, rendeu graças, e deu
aos discípulos, dizendo: — "Bebei todos; porque isto é
o meu sangue da nova aliança, que é derramado por muitos para
remissão dos pecados. Mas digo-vos que de agora em diante não
mais beberei deste fruto da videira, até ao dia em que o hei-de beber,
novo, convosco no reino de meu Pai.
O Filho do homem vai, conforme está escrito a seu respeito, mas ai daquele por quem o Filho do homem é traído! melhor fora para esse homem se não houvesse nascido". — Os discípulos olhavam uns para os outros, sem saber a quem ele se referia. Ora, estava reclinado no seio de Jesus um de seus discípulos, a quem ele amava. A esse fez Simão Pedro um sinal e pediu-lhe perguntasse de quem ele falava. Aquele discípulo, assim reclinado, encostou-se ao peito de Jesus e inquiriu:
— Quem é, Senhor? — Respondeu Jesus: — "E aquele a quem eu der o bocado molhado". — E tendo molhado o pedaço de pão, deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. Este perguntou: — Porventura sou eu, Mestre? — "Tu o disseste" — replicou Jesus. Após o bocado, entrou nele Satanás. Tornou-lhe Jesus: — "O que fazes, faze-o depressa".
Entretanto, nenhum dos que estavam à mesa percebeu a que propósito lhe dissera isto; pois como Judas guardava a bolsa, alguns pensavam que Jesus lhe dissera: — Compra o que nos é necessário para a festa; ou que desse alguma coisa aos pobres. Logo que Judas tomou o bocado, saiu. Era noite. Depois da saída dele, disse Jesus:
—
"Agora é glorificado o Filho do homem e Deus é glorificado
nele; se Deus é glorificado nele, também Deus o glorificará
em si mesmo, e glorificá-lo-á imediatamente".
A prisão de Jesus. Fuga dos discípulos.
(Mat., 26:47 a 56; Mar., 14:43 a 52; Luc., 22:47 a 53; Jo., 18:2 a 12)
Judas, que o traía, também conhecia aquele lugar, porque Jesus
ali estivera muitas vezes com seus discípulos; assim, Judas, um dos doze,
tendo recebido a coorte e alguns oficiais de justiça dos principais sacerdotes
e dos fariseus, chegou a esse lugar com lanternas, archotes e armas. O traidor
havia combinado com eles este sinal:
— Aquele a quem eu beijar, esse é que é; prendei-o e levai-o com segurança. Logo que chegou, aproximou-se de Jesus e disse: — Salve, Mestre! — e o beijou. Perguntou-lhe Jesus: — "Amigo, a que vieste? Com um beijo entregas o Filho do homem ?" Adiantou-se Jesus e interrogou-os: — "A quem buscais?" — Responderam eles: A Jesus Nazareno.
Disse-lhes Jesus: — "Sou eu". Logo que lhes disse: Sou eu, recuaram e caíram por terra. Tornou-lhes, pois, a perguntar: — "A quem buscais?" A Jesus Nazareno — repetiram eles. Replicou Jesus: — "Já vos disse que sou eu; se é a mim, pois, que buscais, deixai ir estes." Para se cumprir a palavra que proferira:
Não perdi nenhum dos que me deste. Logo se aproximou a escolta e, pondo as mãos em Jesus, prendeu-o. — Então, Simão Pedro, que tinha espada, desembainhou-a e golpeou a Malco, servo do sumo sacerdote, cortando-Ihe a orelha direita. Jesus, porém, tocando a orelha do servo e curando-o, disse a Pedro:
— "Embainha a tua espada; pois todos os que tomarem a espada, morrerão à espada. Não hei-de beber o cálice que o Pai me deu? Acaso pensas que não posso invocar a meu Pai, e que ele não me dará, neste momento, mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras que declaram que assim deve acontecer?"
—
Disse Jesus à multidão: — "Saístes com espadas
e varapaus como contra um salteador? Todos os dias, estando eu convosco no templo,
a ensinar, não me prendestes; porém esta é a vossa hora
e o poder das trevas". — Então, os discípulos o deixaram
e fugiram. — Seguia-o um moço, coberto com uma roupa branca sobre
o corpo nu; seguraram-no, mas ele, largando a roupa, fugiu nu.
Arrependimento
e suicídio de Judas. (Mat., 27:1 a 10; Mar., 15:1 e Luc., 23:1)
Pela manhã, todos os principais sacerdotes, os anciãos e os escribas
se reuniram em conselho contra Jesus, para o entregarem à morte. Depois
de o maniatarem, levaram-no e o entregaram ao governador Pilatos.
Então, Judas, que o traíra, vendo que Jesus fora condenado, tocado
de remorso, tornou a levar as trinta moedas de prata aos principais sacerdotes
e aos anciãos, e disse: — Pequei, traindo sangue inocente. Eles,
porém, responderam: — Que nos importa? isso é lá
contigo. Judas, após arremessar as moedas de prata no santuário,
retirou-se e, indo, enforcou-se. (Enforcando-se, Judas demonstrou o seu arrependimento;
todavia, cometeu o crime do suicídio, severamente punido pelas leis divinas).
Os principais sacerdotes, apanhando as moedas, disseram: — Não
é lícito deitá-las no tesouro sagrado, porque é
preço de sangue. Depois de deliberarem em conselho, compraram com elas
o Campo do Oleiro, a fim de servir de cemitério para os forasteiros.
(Atos 1:18 narra o fato de forma diferente).
Por isso aquele campo tem sido chamado, até ao dia de hoje — Hacéldama, isto é, Campo de Sangue. Cumpriram-se assim as palavras proferidas pelo profeta Jeremias: — E tomaram as trinta moedas de prata, preço daquele que foi avaliado, a quem alguns dos filhos de Israel apreçaram; e deram-nas pelo Campo do Oleiro, como me ordenou o Senhor.